Claraboia
3 Capítulo 2 - Problemas
Notas iniciais
Capítulo 2:
Problemas
Viu Gerard pela primeira vez no 1º ano na High School.
Gerard, em todos os lugares que ia, tinha amigos o suficiente para fazerem uma roda de conversa em volta dele. Sua simples simpatia conquistava grande parte das pessoas. Já Ray preferia ficar na dele, ouvindo música e jogando sudoku. Não tinham quase nada em comum. Apenas o fato de se sentarem atrás na sala.
Ele se sentava ao lado de Gerard. “Os dois gordos” era como o professor de álgebra os chamava. Não parecia gostar muito dos dois. Contudo, além de quebra-cabeças, Ray gostava de matemática. O professor percebeu e o presenteou com um cubo mágico.
Levava o cubo às aulas todos os dias, tentando montá-lo. Sempre que Gerard via seu esforço e todas as cores espalhadas, perguntava o porquê daquilo.
“Porque gosto”, era o que respondia.
Uma semana depois, Gerard disse que ele era um maluco e que montar aquilo era impossível.
Terminou o cubo no outro dia.
Gerard tomou-o de sua mão e o analisou meticulosamente. Sorrindo, devolveu o cubo à Ray e saiu sem nem uma palavra.
À tarde, Ray comprou o cubo 4x4¹ e começou a montá-lo na escola. Quando Gerard viu, disse outra vez que era impossível.
Na outra semana, Ray terminou o cubo durante a aula de história e mostrou orgulhoso à Gerard. Esse sorriu e balançou a cabeça. Então, Ray tirou seu mais novo cubo 6x6 da mochila.
Gerard olhou com a boca aberta o tamanho do cubo em sua mão. Orgulhosamente, começou a misturá-lo. Depois, Gerard começou a gargalhar.
Na detenção que ganharam nesse episódio, se tornaram amigos. A diversão para eles em sala de aula era atormentar uns aos outros. Como o círculo de amizade de Gerard não era nem um pouco pequeno, a turma inteira se juntava numa guerra de bolinhas de papel quando o professor dava as costas.
Mas então acabou quando, no início do terceiro ano, Gerard perdeu seu sorriso.
Para Ray era nostálgico pegar um copo de Lagoa Azul e brindar com um Gerard sorridente.
-Ao reencontro. – Gerard disse, erguendo o copo.
-Ao reencontro. – respondeu, batendo o próprio copo no de Gerard.
Bebericou a sua bebida. Gerard ignorou o canudo e virou a dele, soltando um suspiro satisfeito ao terminar.
-Esse, meu amigo, é o melhor 'Lagoa Azul' de Nova York. – disse, balançando o copo vazio. – Mas, fala aí: e as garotas da faculdade?
-Larguei a faculdade. – respondeu, abanando as mãos. – Não é o que eu quero. E estudar tão a fundo sobre guitarra estava começando a me fazer odiá-la.
-E o que tá fazendo agora?
-Fazendo uns bicos e tentando achar uma banda descente. Ultimamente esse povo nem sabe o que foi Ramones. – Tomou outro gole. – Tá um saco procurar.
-Deixe-me adivinhar: – Gerard ergueu o dedo e revirou os olhos fingindo pensar. – Você veio para Nova York procurar músicos excelentes?
-Basicamente. – riu.
Gerard pediu mais uma bebida.
-No tempo que fiquei aqui, posso te falar que vai encontrar gente boa, – voltou a falar. – mas não o que você espera. Deixou a faculdade por culpa de uma mulher e agora vai ter que rebolar para encontrar bons parceiros.
-Não foi por causa de mulher nenhuma. Foi a guitarra.
-Você toca um homem?! Tá, tudo bem. Eu continuo sendo seu amigo. Só não sai falando isso para todo mundo não, tá? – Ray socou seu braço. – Ai... Hahaha!
Balançou a cabeça e tomou mais um gole.
-Voltando aos assuntos sérios. – Ray tornou a falar. Seriedade não era o que estava estampado no rosto muito pálido e magro de Gerard. Não parecia lá muito saudável. Ele virou mais um copo de Lagoa Azul como se fosse água. – Lá em Nova Jersey encontrei um baterista. Dos bons. Não tinha banda e nem queria uma. – Ficou de olho em qualquer reação do Way. – Ele gostou do meu som, e eu disse que você era um bom cantor. Daí eu falei que, se você aceitasse, era só procurar um baixista. Passei na casa de seus pais te procurando e Mikey me disse para vir para cá porque você estava na casa de sua avó. Eu ia deixar para te visitar amanhã e só beber um pouco hoje. Mas aí eu chego aqui e encontro você cantando!
Uma sombra pousou no rosto de Gerard. Ray sentiu o maxilar travar e não conseguiu pronunciar nada nos seguintes segundos de silêncio.
Por fim, Gerard mostrou um sorriso amarelo.
-Vai com calma. – Ele chamou o barman e pediu whisky. Esperou até que o copo estivesse cheio para voltar a falar. – Ray... as coisas mudaram.
-Mudaram como? – Ajeitou-se na cadeira para ficar de frente para Gerard. – Você não disse que desenhar e cantar eram... – Gerard o interrompeu rispidamente.
-Eu sei o que eu disse. – Ele fechou as mãos em punho e baixou o rosto para o copo intocado. Respirou fundo e voltou a falar mais calmo. – Eu agora tenho outros objetivos.
Ray olhou em volta, para aquela imundice e baderna, e quase riu.
-Aqui? Um objetivo vindo daqui? Qual? Pegar herpes? Aids?
-É complicado. – Ele rodou o copo sobre o tablado do balcão. Ele escolheu as palavras com cuidado. – Olha, aqui no bar temos... acordos... e eu não posso só... sair.
-Tranquilo. Eu espero você resolver o que precisa. Posso até ajudar. Se quiser.
-Ray, eu não quero ajuda.
Foi a mesma sensação de um soco na cara.
Era uma frase que não ouvia com frequência. Mas já havia ouvido. Nunca lhe fora dita, mas conhecia o modelo da fonte. E jamais se imaginou numa situação daquelas, com um antigo amigo nesse... buraco.
De repente, sua cabeça estava pesada. E nem era porque o cara que estava cantando era um desafinado.
-Eu não acredito. – murmurou. Coçou a cabeça e se recusou a olhar para Gerard. Mas não conseguiu. Teve que encarar os olhos injetados de vermelho. Parecia ser um simples sintoma de insônia. Agora, fazia todo o sentido, somado às demais características tão mudadas. Tão magro, tão avoado. – Você se rendeu.
Gerard evitou seu olhar com ardor, virando o copo de uma vez boca e deixando a cabeça baixa com a franja na frente. Ray viu todo o seu maxilar se apertar num misto de raiva e desconcerto. Mas esperou. Esperou uma negação para aliviar toda a angústia que ameaçava devorá-lo por dentro. Da raiva que já estava inflando. Claro que ela não veio.
Memórias iam e viam, e uma névoa embaçou seus pensamentos, nublando ideias e certezas que antes pensava serem proposições.
Como queria socar alguém.
Respirou fundo.
-Pode me arranjar uma caneta? – perguntou ao barman. Ele assentiu e tirou uma do bolso. Ray pegou um guardanapo e começou a escrever. – Eu não tô com cabeça para discutir com você agora. Mas, caso mude de ideia... – Empurrou o guardanapo até o copo de Gerard. – O nome dele é Robert Bryan. Mais conhecido como Bob. Tem boas ideias e é um cara legal. Vai te ouvir a qualquer hora.
Gerard não se mexeu e Ray não esperou que o fizesse. Nem sabia o que faria caso Gerard dissesse qualquer coisa. Devolveu a caneta, agradeceu e se levantou. Não queria saber se Gerard estava com vergonha, medo ou o que fosse. Mais um minuto ao lado dele e acabariam trocando socos.
Então lembrou-se de Mikey. O menino magricela que pareceu hesitante ao lhe contar onde o irmão estava. O desgraçado sabia e não havia lhe avisado.
-Mikey me pediu para te entregar isso. – Procurou no bolso os dois convites e os colocou junto do guardanapo. – Ao contrário de você, ele preza a saúde.
E lhe deu as costas. Não ouviu nenhum chamado de Gerard, nem de sua consciência, que parecia tão chocada quanto ele. Bateu em alguns ombros, recebeu alguns xingamentos, mas não se virou e saiu para a noite. Preferia não pensar.
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