Clãs Sombrios: o Despertar de Piedoso
4 Lua Cheia
Não sei quanto tempo fiquei desacordado, mas meu corpo inteiro doía. Abri meus olhos, vi pequenos feixes de luz me cegando e tocando minha pele. Fiquei aterrorizado, pois deveria estar queimando, mas não sentia nenhuma queimadura. Levantei-me e vasculhei meu corpo. A luz solar me tocava, entretanto eu não queimava. Sabia que deveria estar morrendo à aquela altura, já havia visto outros vampiros morrerem assim. Bem, algumas vezes por minha culpa, mas esses são outras histórias.
Tentei andar até o acampamento, mas era muito difícil, meu corpo doía muito. Talvez fosse o Sol, talvez fosse a falta de sangue também, pois sentia-me muito fraco. Melhor falando, com certeza, era falta de sangue.
Cheguei perto do acampamento quando repentinamente Guto apareceu na minha frente. Tentei pensar em alguma desculpa, porém ele não perguntou nada. Simplesmente sorriu e apontou para uma cabana com chaminé, por onde saía uma fumaça escura. Ele se dirigiu até lá eu o segui. Não tinha forças para contradizê-lo.
Ao entrar na cabana, percebi que lá era um depósito escuro. Não entrava nenhum raio solar. Automaticamente senti-me muito melhor. Segui-o até um canto, onde havia um homem negro e alto desmaiado.
- Não faça cerimônia, sanguessuga. É apenas um faxineiro.
- Como tu... – ele apenas virou-se e me deixou lá sozinho.
Aproximei-me do corpo, usei o que me restava de poder para analisá-lo e ver se não estava envenenado. Como o corpo não apresentava nenhum sinal de perigo, mordi-o e suguei todo o seu sangue. Estava faminto naquela hora. Quando terminei não sobrava nenhuma gota de sangue no corpo do homem. Guto apareceu novamente, levantou o corpo e o levou até uma sala atrás de uma porta negra, escondida no fim da cabana. Segui-o até lá e cheguei a tempo de vê-lo jogando o corpo em uma fornalha. Aquela sala era a do incinerador. Era de lá que saía a fumaça escura e deviam usá-lo para queimar o lixo.
- Está satisfeito? – perguntou normalmente.
- Sim, mas por que tu estás me ajudando?
- Bem, foi como ontem à noite. Algo muito forte na minha cabeça me forçou a isso.
- Espera! Eras tu ontem à noite?
- Sim – disse sorridente.
- Então és um lobisomem – fiquei em posição de defesa, mas ele não reagira.
- Acha mesmo que se eu quisesse te matar, teria ajudado a se recuperar? Se o quisesse, já o teria feito! Salvei sua vida. Não sei o motivo, mas o fiz. Sinta-se agradecido por isso! As atividades no acampamento já ao começar. Sugiro que vá logo.
O que ele disse fazia sentido. Saí de lá, indo em direção às barracas. Não havia mais Sol. Estava completamente nublado.
Ao chegar às barracas, Sedutora veio correndo falar comigo e disse para segui-la. Levou-me até o outro lado da cachoeira , onde estava vazio.
- Tem algum poder místico aqui. Consegue senti-lo?
Concentrei-me ao máximo, mas não percebi nada de diferente. Não tinha aptidão para magia como ela.
- Droga! Se não sentes nada, será inútil! – disse furiosa.
Não sei o motivo, mas peguei-a em meus braços, calei sua boca com a minha e passei minha mão por todo o seu corpo. Ela era perfeita, não conseguia mais me controlar. Ela apenas deu um leve sorriso de satisfação, como se esperasse por aquilo há tempos. Passei minha mão sobre os ombros, tirando o pequeno vestido branco que usava e que lá se sustentava.
Ela estava completamente nua na minha frente, porém eu quem parecia estar sendo usado. Ela mordeu meu pescoço e sugou um pouco do meu sangue.
- Fresquinho – disse ela brincando.
Um vampiro sugando o sangue de outro vampiro é tão íntimo como sexo para os humanos.. Despiu-se e pulou em cima de mim. Ela era selvagem e estava sedenta.
* * * * *
Eu deitara meu corpo cansado sobre ela. Havíamos passado o dia inteiro ali. Seu cordão de prata ficava perfeitamente entre seus seios. Os últimos raios do Sol bateram em nós como se tivessem passado pelas nuvens exclusivamente para aquele momento. Seus olhos mudaram para um olhar de puro terror, me empurrou e choquei-me contra uma rocha, despedaçando-a. Tentei levantar e explicar a ela, mas ela levantou a mão e chamas pularam em minha direção. Estava queimando e acabei caindo dentro da cachoeira. Infelizmente era fogo mágico e água normal não iria apaziguá-lo. Rapidamente, tudo ficou escuro para mim e fiquei inconsciente.
Recuperei a consciência quando meu corpo estava parado, muito fraco, mas, de algum modo, vivo. A correnteza deve ter me levado para longe de Sedutora e, assim, quebrado o feitiço de suas chamas. Tentei abrir meus olhos, porém apenas consegui o direito e, mesmo ele, foi muito difícil. Estava embaixo d’água. Sorte que vampiros não precisam respirar. Olhando para o céu, vi a Lua, era noite de Lua Cheia. Usei todas as minhas forças para sair de lá. Era um lago alimentado por um dos afluentes do rio que vinha da cachoeira. Já do lado de fora, olhei para meu reflexo na água, era uma visão horrenda. Estava carbonizado, com o olho esquerdo pendurado fora do meu rosto, sustentado por apenas algumas veias. Meu olho se desviou para o reflexo da Lua. Uma onda de choque percorreu todo o meu corpo. A cada vez que olhava a Lua, minha mente ficava mais vazia. Nas noites de Lua Cheia os vampiros são mais fracos, pois os raios solares são mais refletidos por ela. Olhei novamente para meu reflexo tentando desviar o olhar da Lua, mas ele estava muito deformado, como se eu não fosse um humanóide.
Minha mente estava, naquela hora, vagando longe. Só conseguia captar alguns fleches de imagens. Estava correndo e, agora, ao meu lado, um grande lobo negro me acompanhava, era Guto. Às vezes via outro lobo na mata, olhando-me. Um aproximou-se com um homem sendo segurado por sua boca. Parei e ele jogou o corpo na minha frente. Eu, sem pensar, o devorei, sentindo um pouco da energia voltar. Voltei a correr e, algum tempo depois, a cena se repetiu. Não sei quantas vezes isso se repetiu, mas a cada corpo de que me alimentava, ficava mais forte e estava me regenerando. Cheguei a uma clareira onde, bem no centro, havia uma pilha de cadáveres humanos frescos. Ao redor do local, vários lobos, lobisomens, observavam-me. Não me importei e devorei todos aqueles corpos.
Ao terminar, minha mente estava completamente sã. Podia ouvir cochichos no fundo da minha mente. Eram eles se comunicando. Lobisomens fazem isso, comunicam-se telepaticamente assim, conseguem manter contato mesmo a longas distâncias. Por isso é tão difícil caçá-los.
Eles se aproximaram de mim querendo saber quem eu era. Em minha cabeça, mandei eles se afastarem e todos os fizeram, ao não ser um grande lobo acinzentado que estava diante de mim.
- Parece que nos encontramos de novo, escória.
- Ah! Quito. És tu? Então, és o líder dos lobos. Que legal!
- O que és tu, vampiro e como consegue falar conosco pela mente e se transformar em lobo?
Parei para pensar e percebi: este era o meu dom! Podia virar um lobisomem, podia assumir as duas maldições. Por isso não queimei sob a luz do Sol. O dom do lobo havia me protegido e, graças a meus poderes de vampiro de dominar mentes juntamente com a conexão telepática dos lobisomens, podia dominá-los. Perfeito!
- Não se preocupem, sou irmão de vocês. Sou meio lobo e, a partir de agora, seu líder.
- NUNCA! – disse Quito raivosamente – Não permitirei isso, verme!
- Cale-se, vira-lata! Eu mando aqui agora.
Um lobo negro se aproximou, impedindo Quito de me alcançar.
- O vampiro que se transforma em lobo, nosso líder, nos guiará para a glória e nos livrará das tormentas de sermos caçados pelos vampiros.
- Guto! Não acredito que tu, o tenente, estás sendo iludido por essa coisa!
- Não vês, irmão? Ele é a nossa salvação!
Quito calou-se muito enraivecido. Meus poderes o haviam dominado por hora. Todos os lobos estavam sobre meu comando agora. Isso, sim, era um dom útil. Concentrei-me e voltei à forma humana. Estava inteiro novamente. Não só inteiro, mas estava mais forte e o dano feito por Sedutora havia sumido completamente.
- Guto, leve-me até o acampamento.
- Como desejar, mestre.
Subi em suas costas, usando-o como um cavalo. Então, começou a correr em uma grande velocidade.
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