Circo Macabro (remake)
2 Lançar de dardos
De noite, a lua minguante não era mais do que meio sorriso no céu. As estrelas salpicadas se escondiam entre nuvens passageiras, finas como névoa. Em casa, Mônica terminava de pentear os cabelos frente ao espelho da penteadeira. Seu pai, que tinha chegado há pouco e acabara de jantar, veio até o quarto dela, encostou o corpo no marco da porta e ficou observando a filha terminar de se arrumar.
– Oi, querida, senti sua falta no jantar, sua mãe disse que você ia sair...
– Oi, pai, sim, eu combinei de ir ao circo com o DC. – Mônica nem tirou os olhos do espelho, ajeitando alguns fios mais rebeldes.
– Só vocês dois? – Seu Sousa não conseguiu evitar de esbugalhar os olhos, surpreso.
– Uhum.
– Sua mãe me contou que vocês passaram a tarde juntos, vocês não se cansam, não? – o tom de galhofa tentava esconder a repreensão, mal disfarçada com o riso nervoso e o sorriso falso.
– Estudamos a tarde toda, agora vamos sair para nos divertir um pouco.
– E vão só vocês dois? – procurou conter a ojeriza – A Magali não quis ir junto não? Nem o Cascão? O Cebola? – Seu Souza segurava o sorriso para camuflar o incômodo.
– Não, estão todos ocupados hoje, pai. – transparente até demais, o rosto de Mônica entregou toda a contrariedade azeda que sentiu ao ler a resposta da amiga: “não vai dar, Mô, prometi que ia ajudar o Quim, que tal irmos amanhã?” Não tem amanhã, Magali. Mônica não aceitava aquela resposta. Por quê? Porque as coisas entre eles estavam estranhas desde que ela começou a namorar DC e seus amigos tomaram partido de Cebola, criando entre eles um cabo de guerra desnecessário e infantil.
– Mas... Circo à noite? – a pergunta do pai a tirou dos pensamentos. – Será que precisa ser tão tarde? Não tinham um horário melhor?
– Não, pai, é apresentação única. Só hoje, às 21h. Vamos mais cedo para curtir as barraquinhas que tiver, pegar um lugar legal. – Mônica revirando os olhos, com raiva por ter que repetir os mesmos argumentos para convencer Magali, sem sucesso nem paciência – Também não deve ter nada de mais, é só um circo, palhaços, acrobatas, gincanas bobas, nada de novo...
– Se não tem nada de diferente, por que não deixa para ir noutro dia? Assim tem como você ir com a turma toda... – Seu Souza sorriu diante de uma possível solução mais satisfatória para si.
– Porque eu estou pronta agora e o DC está me esperando, como combinado. – Mônica se levantou e ficou de frente para o pai agora de pé no meio do quarto dela – O senhor não confia em mim?!
– Claro que eu confio em você, querida, mas sabe como são os garotos nesta idade... E vocês dois saírem à noite para esse circo que eu nem sei onde fica...
Mônica reconheceu o ciúme nas desculpas esfarrapadas do pai, afinal essa era uma coleira com a qual estava acostumada. Bastante cansada dela, para falar a verdade.
– Fica aqui no bairro, dá para ir a pé. Não tem nada de perigoso, pai, nem é tão longe quanto o Japão ou Sococó da Ema... – falar sobre o último causou um arrepio na pele, o que a garota ignorou como sempre fazia – Não precisa se preocupar, eu sei me virar. – passou pelo pai e saiu do quarto.
Seu Sousa foi atrás dela, jogando na cara dela os últimos apertos que Mônica passou, os riscos que ela correu. Lembrou-a de que as coisas poderiam ter sido muito piores. Mônica não queria pensar nisso. Dona Luísa, que até então só escutava, aproximou-se dos dois para apaziguar os ânimos, já que conhecia o jeito explosivo da filha, a teimosia do marido. Inútil.
– Não sou uma garotinha indefesa! Eu sei me defender! – Mônica finalmente explodiu – Você fala como se eu fosse fugir com o DC pro circo! Que droga!
– Ninguém está dizendo isso, filha. – Dona Luísa contemporizou – Só queremos o seu bem...
Ao tom de voz calmo e triste da mãe, Mônica não teve como reagir com a fúria que usava para pisar no chão. Diminuiu o passo, tentando controlar a si mesma. Já tinha aberto a porta da entrada. Não queria sair brigada com eles...
– Deixa que eu levo vocês de carro, filha. – a oferta do pai não soou como uma gentileza, não mais do que domínio.
Mônica recusou com mais força do que devia, com a raiva de quem estava cansada de ser um joguete nas mãos dos outros. Virou-se brusca e seguiu o caminho até a saída. Deparou-se com DC no portão de sua casa, com um vaso da árvore-da-felicidade, uma planta que já tinha uns 80 cm. Um tique nos olhos da garota a tiraram da discussão com o pai. O rosto sorridente do rapaz entre as folhas tirou os outros três do trilho de pensamento.
– Boa noite, família Sousa, trouxe flores para a casa. – entregou o vaso para Mônica que o levou até a varanda sem o menor esforço – Afinal, é deselegante não trazer nada quando se vem visitar alguém.
– Você não quer entrar então, Maurício? – Seu Sousa tentou mais uma última vez – Tomar um cafezinho...
– Vamos indo para não ficar tarde. – Mônica cortou as gentilezas falsas do pai pegando na mão de DC com força e puxando-o.
Enquanto o rapaz despedia de todos, Seu Souza ofereceu carona para ele, ignorando completamente o que Mônica tinha dito antes. Por pouco ela não gritou a plenos pulmões. Segurou apertado a mão do namorado. DC, para evitar de ter a mão esmagada, bateu dois dedos no punho cerrado de Mônica, que afrouxou um pouco o aperto.
– Está uma noite tão bonita para ver as estrelas, Seu Souza, que é melhor a gente ir andando, não acha? Boa noite a todos! – acenou com bastante intensidade antes de acelerar o passo.
Desta vez, foi ele quem a puxou. O movimento de arranque foi o suficiente para fazê-la desapertar o punho. Quando queria, DC era mais rápido que ela, talvez por causa das pernas largas ou pelo senso de urgência que ele tinha nas veias... Na maioria dos casos, para Mônica acompanhar o passo dele tinha que ser mais ágil. Em contrapartida, ele buscava ao máximo desacelerar o ritmo quando caminhavam juntos. Alguns passos a diante, afastados da casa dela, Mônica ainda não tinha dito uma só palavra. A cara emburrada era sinal de que travava uma batalha dentro de sua cabecinha. Um péssimo sinal. Como num movimento de dança, DC deu um passo atrás de Mônica e, com as mãos ainda unida, enlaçou a namorada de modo que ela ficasse de costas para ele e o braço dele contornasse o corpo dela.
– Então, que cara é essa? – DC a obrigou parar, abraçando-a por trás e colando-a em seu corpo – Não, você vai me dizer que é a única que você tem, com razão. Deixa eu reformular. Que sentimento é esse por trás desta boca apertada e esse olhar assassino?
– Briguei com meu pai. – direta, como se isso impedisse o rapaz de render o assunto. Ela queria tanto evitar aquela conversa que, mesmo gostando do abraço, quis se desvencilhar.
– Certo, e o motivo?
– Ele não confia em mim! Me trata como uma criancinha indefesa, ele esquece que eu dou conta de lutar contra os perigos que encontramos.
– Mas ele é seu pai, é claro que ele se preocupa.
– Mas ele não precisa se preocupar. Não com esse passeio, não com você... Quer dizer, eu vou parar no fim de mundo, por causa do Cebola e aquela mentira de projeto escolar, mais um plano infalível que deu muito errado! Todo mundo morre! E a preocupação do meu pai é um cirquinho de quinta aqui no bairro mesmo?! Não faz nem sentido ele ficar cheio de preocupação, eu não dei conta de coisas piores?! Não enfrentei assombrações, robôs gigantes, o Licurgo no tribunal?! Vencemos o possível apocalipse! Sempre damos um jeito, por que ele está agora com essa conversinha fiada?! Como se eu não fosse capaz de me cuidar sozinha...
Mônica estava furiosa com o fato de o pai encrencar por causa da filha adolescente estar a sós com o namorado, como se não houvesse coisas muito piores que essa... Quis afastar os pensamentos, as revelações de Xavecão na casa de praia, as possibilidades do futuro... Havia algo de sinistro sim, muito preocupante, mas DC não era nenhum risco. Ela não podia contar tudo para o pai, porque a verdade não ia ser nada consoladora. Além do mais, foi ruim ter de enfrentar a velha Jumenta, os filhos de Umbra... Mas ela ganhou! A turma sempre vence! A garota não tem tempo para fazer uma checagem interior, porque sempre tem uma aventura igualmente perigosa para distraí-la, logo virando a esquina. A frequência disso fez com que seu corpo estivesse sempre em alerta. E o pior de tudo era ser ainda subestimada! Tratada como uma donzela que precisa ser protegida, ser poupada. Mônica sempre ganha no final, então qual é o perigo? Não tem! Negação era sua defesa, porque Mônica sempre foi uma menina do ataque. Entretanto, não era isso que preocupava o pai, o foco dele era se preocupar com um garoto que não faria nada com ela que ela não quisesse ou deixasse.
DC a abraçou mais forte, colocando o rosto contra os cabelos dela, a ponto de Mônica sentir a respiração quente dele contra si. Hesitante, temerosa. Como se DC escolhesse as palavras certas:
– Seu pai sabe que você é forte e sempre vai dar o máximo de si em qualquer luta. Ele tem medo de que o inimigo seguinte seja uma ameaça incontornável, de que o perigo seja fatal. Ele teme que você caia numa armadilha da qual não consiga sair, ou que cometa um deslize por falta de atenção, ou que não tenha resistência suficiente para suportar os golpes recebidos... Ou que você não se controle e acabe se machucando demais ao tentar salvar o mundo... Ele deve se preocupar que, quando você sair do alcance dele, seja a última vez que vocês se verão...
– Credo, DC! – incomodada com as possibilidades de derrota, Mônica fez o que sempre soube fazer: negar e brigar, usou mais força para desfazer o abraço, girando o corpo para conseguir ver o rosto dele, mas sem sair daquele aperto agradável – Você também não confia que eu posso dar conta?! Que eu não sou forte o suficiente?
Ela escutou um risinho no pé do ouvido, depois que DC encostou o queixo no ombro dela, uma reação debochada que a deixou com mais raiva.
– Aliás, a briga começou, porque meu pai estava com ciúmes de nós dois saindo juntos, sozinhos. Como se você fosse alguma ameaça, sabia?
– Ciúme então é sua herança de família... Ser grudento é um jeito de demonstrar afeto, não? Querer as pessoas muito perto. – DC apertou os braços que a envolviam pela cintura, abraçando-a o mais forte que conseguia – Normal, saudável até. Mas não a ponto de sufocar, certo? É natural para a sucuri que seu abraço quebre ossos e sufoque as vítimas...
Desvencilhando do abraço do namorado e empurrando-o para trás, Mônica ficou de frente para ele com um olhar mortal.
– Tá chamando meu pai de cobra?!
– Não, só tô dizendo que tem abraços que apertam mais que outros. – pôs as mãos nos ombros dela, diminuindo a distância que ela impôs – Por exemplo, se você não tomar cuidado com sua força, quebra minhas costelas, né? Não tem problema, eu gosto do perigo... Mas não quer dizer que você não tenha que se policiar para evitar a tragédia. Já o meu abraço é inofensivo de tão fraco, coitado... Uma decepção! – fez um binquinho infantil.
– Mas eu gosto. – Mônica o abraça – É quentinho.
Ficaram um tempinho assim, até que DC quebrou o Silêncio:
– Droga, esqueci aonde eu queria chegar com isso... – Mônica riu de leve, acostumada com o jeito do namorado – Desculpa falar mal do seu pai, amor, você estava nervosa e eu não sabia como te ajudar... Pensei que fosse divertido ir para o circo, porém não vai ter graça alguma se a sua cabeça ficar em casa, repassando a briga com ele, planejando o próximo ataque ou cogitando futuros possíveis para oportunidades perdidas... Talvez o circo só sirva como pomo de discórdia. E não, não estou falando isso porque mudei de ideia ou porque não queira passar as próximas horas com a garota mais linda do mundo. Mas vou entender se você não estiver mais a fim de ver palhaços e malabaristas...
– De que lado você está?!
– Do seu, doçura, olha eu aqui! – DC apontou para si com o dedão e abriu um sorriso com todos os dentes – Temos duas opções: você volta pra casa, faz as pazes com seu velho e a gente fica no telefone a madrugada toda, para ele reclamar da conta telefônica. Ou a gente deixa os problemas para depois, vai para circo, se diverte horrores, você esfria sua cabecinha linda, e quando voltar para casa antes das 11h seu pai vai perceber o quanto você é responsável e maravilhosa, daí ele não vai ter motivo para reclamar muito na próxima vez... E não, não vou te dizer qual dessas opções gosto mais, para não influenciar sua escolha.
– Mala. – ela sorriu de volta para ele, agora mais tranquila e aliviada.
Mônica deitou a cabeça no peito dele, sentindo-se em paz. DC encostou a cabeça na dela, feliz com aquele aconchego tão singelo e principalmente por vê-la menos estressada.
– Podemos também ficar assim para sempre, mas aí vamos perder o circo e a briga com seu pai vai ter sido em vão...
– Bobo. – Mônica sentiu o rosto ficar vermelho e o sorriso se alargar no rosto – Vamos fazer valer a pena assistindo aqueles palhaços.
Deram um selinho antes de DC puxá-la para correrem até o circo:
– Quanto mais rápido a gente chegar, mas rápido você volta para a casa.
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