Circo Macabro (remake)
3 Carnaval, a festa das carnes
Não demoraram a encontra o terreno baldio onde o circo se instalou. Mônica não se lembrava de que aquela parte do bairro tinha um terreno tão largo ou era arborizada como um bosque. Muito menos pensaria que o lugar fosse tão escuro, mal iluminado por poucos postes de luz. As últimas da casa da rua ficaram há um quarteirão; e quanto às próximas, não se podiam ver na entrada do terreno. Talvez alguns muros de cimento, construções quadradas e dificilmente habitadas... DC não a deixou reparar nisso, levando-a apressado para dentro da estrada de terra entre as árvores, o caminho improvisado até o circo. A música foi a primeira coisa a chamar a atenção. Ao se aproximarem mais, viram o topo da gigantesca tenda vermelha e branca, no pico uma bandeirinha esvoaçando naquela noite amena e sem vento.
Varais de luzinhas circulavam o lugar todo e se juntavam no ponto central, no ápice da tenda. Ao redor dela, muitas barraquinhas coloridas oferecendo jogos e comidas de todos os tipos. Muitas pessoas rondando, famílias, casais, grupos de crianças correndo. Pessoas que passavam como vultos inquietos. Risos altos e conversas borbulhantes mesclavam com a música. Logo na entrada, uma banda de ciganos num palco improvisado: três homens maltrapilhos de blusões encardidos, coletes escuros, uma faixa de tecido na cintura, calças curtas e botas de cano alto. Pareciam a típica imagem de piratas com as bandanas vermelhas. Todos usavam argolas nas orelhas caída e tinha arcadas dentárias deploráveis. O primeiro: um velho cego e quase banguela tinha um papagaio no ombro e fazia o acordeão declarar promessas de amor ao dedilhar as teclas e manusear a sanfona com destreza. O segundo homem com o tapa-olho era magricela e tinha um dente de ouro que ficava para fora, era ele quem tocava o violino a modo de fazê-lo chorar pela saudade do amor perdido. Na frente do terceiro, um homem corpulento com uma perna de pau, havia um instrumento musical de nome estranho, que só DC reconheceria, glockenspiel: um tipo de xilofone metálico em que se bate com varetas a criar um som melancólico e mágico, como sininhos de fadas. Era ele quem implorava a ajuda dos anjos em nome do amor. Na frente dos três, uma cigana a dançar descalça com o lindo corpete preto, as saias de tecido furta-cor em camada, o xale na cintura com moedas barulhentas. Era ela quem cantava alegre, apesar de não destoar da melodia triste. Era convidativa, sedutora, como se fosse o vento de novas esperanças de amor...
Enciumada, Mônica puxou DC, que olhava fixamente para o glockenspiel, fascinado com o som angelical do instrumento. O foco logo mudou assim que ele viu o brinquedo seguinte. Os olhos do rapaz brilharam. Impulsivo, foi a vez de DC correr e arrastar a namorada até o Martelo de Força. Uma menina, que não devia ter mais de 10 anos, usando um vestidinho rodado cheio de babados desafiava quem passasse perguntando se seria mais forte do que ela. Os que duvidavam da força da pequena se surpreendiam com o peso do martelo que ela manuseava como se fosse feito de vento. Depois de fracassarem e tripudiarem dela, a menina demonstrava a facilidade que tinha para bater no pino e fazer com que ele acertasse o topo.
– Vem, Mô, vou ganhar um prêmio para você! – DC disse alto com o sorriso mais largo que conhecia – Ou pelo menos tentar.
Aproximou-se educado da menina, pagou-a com a moeda de 50 centavos que ela cobrou e pegou das mãozinhas pequenas o martelo do tamanho da perna dele e pesado como uma rocha. DC teve dificuldade de levantá-lo e mais ainda de acertar o alvo. Curiosos em volta riram do fracasso. Estendendo a mão, a garota cobrou mais uma moeda pela nova tentativa antes mesmo de DC conseguir levantar o martelo novamente. Ele pagou. Sem sorte de novo. Mônica parecia incomodada com os risos dos homens ao redor. Como se eles conseguissem fazer melhor...
– Dizem que a terceira é que dá sorte, Mô. – disse confiante enquanto entregava mais uma moeda para a menina e passava o martelo para a namorada – Vai, amor, sua vez de mostrar como se faz.
Satisfeita de mostrar aos outros a força, Mônica pegou o martelo com a mesma facilidade que a menina o carregava. Levantou-o como se fosse um martele qualquer e atingiu o alvo com toda a raiva que estava segurando. Afinal, não podia ir até o grupo de otários e gritar com eles... O pino bateu no alto tocando a musiquinha e piscando todas as luzinhas. Vitória! DC aplaudiu esfuziante com o sorriso mais largo que conhecia. Quem estava em volta rindo ficou boquiaberto, mas o espanto não impediu os comentários jocosos em relação ao garoto fraco... A menina a contragosto mostrou sua coleção de bichinhos de pelúcia para Mônica, a vencedora, escolher:
– Então, qual você escolhe, DC? – sorriu forçando-se a ignorar o deboche alheio.
– Mas foi você quem ganhou seu próprio bichinho, amor.
– Deixa eu ganhar esse para você me dar e na próxima, você ganha um para eu te dar, pode ser? – sorriu vitoriosa por conseguir criar uma resolução que o Do Contra não poria defeito.
Ele concordou bastante contente. Conhecia Mônica muito bem, desde a infância. Sabia da predileção dela por coelhinhos, talvez por encontrar nos dentões deles uma espécie de representação positiva. Ou simplesmente porque Sansão foi seu primeiro brinquedo, o favorito: qualquer um que se assemelhar a ele vai evocar o afeto dela pela associação. Não tinha então outra escolha melhor do que o coelhinho laranja com uma cartolinha, uma gravatinha borboleta vermelha segurando uma margarida. Os olhos dela brilharam. DC agradeceu à menina e pegou a mão de Mônica. O diálogo dos dois e a reação da garota pareceu ser mais um motivo de graça para o grupo de marmanjos. No entanto, cientes da força de Mônica e do olhar assassino que ela lançava na direção deles, não tiveram coragem de provocá-la.
Segurando o coelhinho contra o peito com uma mão e a outra enlaçado com a de DC, Mônica pensou nas inseguranças do Cebola, naquela maldita frase que a deu insônia por muitos dias “só vamos namorar depois de eu te derrotar.” DC não pareceu se importar de perder por duas vezes antes de oferecer a ela o martelo. Nem teve vergonha diante da facilidade com a qual ela venceu de primeira. Na verdade, ficou muito feliz... Seria fachada? Ele realmente não parecia incomodado. Será que sabia disfarçar muito bem?
– Você queria ter ganhado o coelhinho para mim? – perguntou olhando para ele.
– Claro! Teria sido uma massagem e tanto para o meu ego e não teria custado quase nada. – os olhos dele brilhavam com o sorriso doce – Eu sabia que você conseguiria fácil, talvez com uma mão amarrada nas costas... Porém quis tentar a sorte... Sendo bem realista, eu não tinha chance alguma! Não com aquele martelo de chumbo. Eu fui teimoso e burro tentando uma segunda vez e paguei por isso. Ainda bem que não ficou muito caro. – riu bobo.
Do Contra ria por ter perdido o jogo, achava graça por não provar que era mais forte do que uma menininha, ou do que sua namorada... Como ele conseguia fazer isso? Anos de prática? Sendo um contrariador nato? Os olhos dela faziam as perguntas que a boca não tinha coragem de perguntar.
– É só um jogo, Mô. – DC parecia adivinhar – É para ser divertido e não precisa ser levado a sério. No mais, eu sei que você é muito mais forte do que eu, e mais do que a maioria das pessoas comuns... Do mesmo jeito que eu sei que sou mais alto que você. Constatações do óbvio. Fatos não precisam machucar ego algum, porque eles não deixam de ser verdade para fazer ninguém feliz. E se você não tivesse conseguido de primeira, eu pagava mais quantas chances você quisesse arriscar. Seu sorriso não tem preço.
O rosto dela ficou vermelhinho e não conseguiu conter o sorriso. DC ergueu a mão dela para beijar o dorso e continuaram a caminhar. Entre barraquinhas de comidas e jogos, o casalzinho encontrava pontos de distração. O cheiro de milho doce e manteiga da pipoca, mesclado ao odor de açúcar queimado com os amendoins e coquinhos em cubos sendo vendidas por alguém na fantasia de um milho gigante que passou por eles. Pararam numa barraquinha pequena e escura, que mais parecia a cozinha de uma bruxa: ervas secas penduradas, estantes repletas de quinquilharias cobrindo as três paredes do fundo, um caldeirão com um líquido viscoso e neon que soltava fumaça. Na bancada: maçãs do amor vermelhas como sangue, frascos de vidro com poções líquidas iridescentes, uma tigela com balas coloridas de todos os tipos. A velha sorriu para eles mostrando o interior da boca desdentada enquanto remexia no caldeirão.
– Aproximem, crianças, tenho maçãs tão deliciosas, estas são de matar... – gargalhou como uma gralha, rouca.
O jeito esquisitíssimo da mulher era motivo suficiente para a barraca dela estar vazia, pensou Mônica e conhecendo DC tinha certeza de que ele não desgrudaria de lá. Sentiu até orgulho do namorado por ser tão gentil com a idosa de quem todos pareciam ter medo ou repulsa. Ela largou o caldeirão, mostrou para eles os doces, colares, coisas nos frascos das prateleiras, as ervas secas, bugigangas, tinha de tudo, inclusive ingredientes que só um livro de bruxa pediria: olhos de salamandra, dentes de jacaré, língua de sapo...
– Mas não recomendo, garoto, tudo que tem língua grande não consegue mantê-la dentro da boca e acaba por falar o que não deve, né? – desviou o olhara para Mônica, acuada do lado do namorado que estava maravilhado demais com os artigos para notar. A velha sorriu para ela – Você tem o jeito tão doce, menina, tenho certeza que é bastante romântica...
– A senhora está certa, ela é mesmo um amor. – DC virou o rosto para encarar os olhos de Mônica, novamente vermelha e sem graça.
– Também vejo que o garoto é forte, não é todo dia que ganham da pequena Atalanta... – disse apontando para o coelhinho.
– Oh, não, aí que você se engana, quem tem os músculos no relacionamento aqui é ela. – pôs a mão do ombro de Mônica.
A velha arredou o corpo para ficar de frente para Mônica, queria encará-la. O rosto da idosa parecia quase que mumificado de tão velho. O olho de vidro, embaçado, era horrendo, mas a garota segurou o grito de pavor apertando os lábios. Tinha também os cabelos cinzas e desgrenhados, as mãos enrugadas e trêmulas. Algumas rugas pequenas e bem redondas no rosto e nas mãos, as únicas partes da pele que estavam expostas. Todo o resto estava encoberto por vestido preto pesado e um xale de tricô. Pegou a mão da garota pra ler a sorte, sem antes perguntar:
– Realmente é uma moça sonhadora, com um enorme coração, doce e quente... Tem calos nas mãos, suporta tanta coisa, não é mesmo, querida? Sem dúvida, é forte, determinada, mas não muito resoluta... – riu – O coração segue por caminhos tortuosos, não é? Recusa lógica, teimoso... Quer aquilo que quer... – encarou bem as linhas da mão dela, olhar fixo, depois virou o rosto brusca para olhar o rapaz ao lado. O rosto da velha foi tomado por uma expressão estranha, mescla de pavor e tristeza – Não se foge do destino, não é?
Mônica pensou na praia, na conversa com Denise...
– O destino somos nós quem fazemos.
A velha sorriu, condescendente.
– Oh, claro, criança, cada um é responsável pela vida que decide ter, mas não se foge do inevitável. Pergunte a Édipo...
Mônica afastou a mão com um arranque, perturbada com as palavras da velha. Para se distrair do desconforto, perguntou ao namorado:
– Quer que ela leia sua sorte, DC?
– Não, muito obrigado, gosto de ser pego de surpresa pela vida.
A velha sorriu triste e voltou para o caldeirão. DC pegou uma maçã do amor e perguntou o preço.
– Presente, criança, para adoçar a vida. – abaixou a cabeça se concentrando no caldeirão enquanto os dois partiam – Que preço cobrar de quem não tem nada?
A frase sussurrada tão baixo não chegou aos ouvidos de DC, ocupado demais saboreando o caramelo da maçã. Mônica até escutou, mas não entendeu direito as palavras, nem teve tempo de questionar a senhora, pois DC logo a puxou até outra barraquinha onde quis jogar. Dardos nos balões, prêmios em bala. Pescaria de maçãs para ganhar um peixinho dourado...
A lua sorria pálida, camuflada por nuvens finas. Mônica entregou a nota de dinheiro para o palhaço que segurava uma buzina, um punhado de balões e um bastão com os palitos de algodão-doce espetados. Era mudo, o preço estava escrito na placa amarrado no pescoço dele. Guardou o valor no bolsinho do blusão enorme. A maquiagem dele destacava a boca vermelha num sorriso exagerado, mas os olhos dele que se fixaram em Mônica eram tristes como se a reconhecessem e dela tivessem saudade. Deu a ela um balão junto do algodão-doce, recusou dela o dinheiro pelo presente e despediu-se com um sorriso acanhado.
Para distraí-la da carinha triste e confusa, DC fez um bigode cor-de-rosa com um punhado roubado do algodão-doce. Ela riu, mas puxou a orelha do namorado por ter pego dela uma tira tão grande. As estrelas no céu não brilhavam quanto as luzes nas lâmpadas redondas dos inúmeros varais em volta do circo. Um poste antigo enferrujado e esverdeado do tempo oferecia uma luz quente para vários siriris rondarem. Nenhum deles voavam perto das tantas lâmpadas redondas que circulavam o parque, pois elas mais pareciam glóbulos oculares. Vários olhos vigiando atentos os transeuntes desatentos, ouviram de um velho contador de histórias: um idoso alto e bastante magro como um espantalho, que vestia um terno puído, uma cartola já esgaçada e os sapatos sem brilho algum. Remendos na roupa, olhar perdido e confuso... Quem passava por ele ignorava o que dizia a figura digna de pena. Mônica e DC só passaram por ele, mas não repararam o que disse, porque Mônica ficou animada demais com uma girafa verde pendurada na barraquinha onde o desafio era derrubar a torre de garrafas.
Mônica queria muito o prêmio, tinha certeza de que DC adoraria ganhar a girafa alienígena. Não conseguia conter o ânimo. Por 5 pratas, 3 bolinhas. Meio caro. No entanto, ela sentiu que valia a pena. Tirou do bolso o dinheiro sem pestanejar. Tinha certeza que sua mira era maravilhosa, aquele prêmio estava no papo... A força com a qual jogou a bolinha fez com que todas as garrafas quebrassem. O vendedor quis expulsá-la de lá:
– Garota, você não é boa para os negócios.
Revoltada, Mônica quis derrubar a barraca, mas DC a conteve, ficando entre ela e o vendedor: um anão mal encarado com a barba por fazer, fumando um charuto fedorento, e metade do rosto tampado por uma boina de jeans surrada. O dono da barraca do lado quis se intrometer em favor do vendedor, afinal era seu gêmeo idêntico, vestindo as mesmas roupas: uma calça jeans rasgada no mesmo lugar, uma regata branca, uma botina cinza chumbo empoeirada, charuto fedorento na boca igual. A diferença é que o segundo usava um boné amarelo para trás e a barraca dele era sobre acertar argolas nas garrafas.
DC tentou apaziguar e negociar, afinal percebeu o quanto a Mônica queria o prêmio. O vendedor da boina jeans não queria fazer negócio algum com ela, nem pagando.
– Na próxima tacada, é capaz dessa troglodita quebrar minha barraca.
– Não, isso não pode. – completou o segundo – Vamos, garota, deixa para lá, é só um brinquedo.
DC reparou na expressão de frustração no rosto dela, no quanto ela apertou o coelhinho laranja contra o corpo para conter a reação desproporcional que fazia seu sangue borbulhar. Talvez estivesse prestes a preparar um golpe ou chorar... Nenhuma das possibilidades era boa.
– O senhor se importa de trocar com seu irmão algum prêmio para que a minha namorada ganhe o brinquedo que ela quer, mas jogando o seu jogo?
Nenhum dos dois quis concordar, mas a esperança estampada no rosto de Mônica, ao invés das chamas do inferno que emanavam dela, foi convencimento suficiente.
– As argolas são 3 por 5 também. E para ganhar precisa acertar as três. Pode comprar mais argolas, mas tem que ter 3 argolas nas garrafas para ganhar o prêmio.
– Que golpe. – Mônica deixou escapar.
– São negócios, garota.
– Tá explicado a falta da fila...
– Se ofender, vai ficar ainda mais caro...
DC ia tirando o dinheiro da carteira quando o homem de boné amarelo disse que ela é quem tem que pagar.
– O acordo é com a garota, rapaz, nada pessoal, entende?
– Sem-vergo... – DC fechou a boca dela.
– Então um aperto de mão para selar o compromisso. – DC forçou os dois a estenderem e a apertar as mãos – Se ela acertar as 3 argolas leva a girafa, certo?
– Sim.
Com a cara de brava, Mônica colocou a nota em cima do balcão com mais força do que precisava. Arremessou a primeira argola, mas esta voou longe.
– Nunca mais vou ver essa argolinha...
– Falei, essa menina é um perigo.
Ela tentou as outras duas com menos ímpeto, mas sem sucesso algum. Não podia desistir, tirou mais dinheiro do bolso e meteu no balcão. Talvez mais nervosa, com raiva da situação... DC segurou a mão dela.
– Não! Eu vou conseguir, DC. Você vai ver! Não confia em mim? – a voz dela mesclava a frustração raivosa e a necessidade desesperada de se provar.
– Eu acredito que você consegue, Mô, mas para isso você tem que se concentrar, certo? – ele não soltou da mão dela que segurava a argola, se ajeitou atrás dela, colando o corpo nas costas da namorada, pôs a cabeça no vão do ombro dela – O jogo das argolas não precisa de força, só do ângulo certo. – a voz dele calma, ao pé do ouvido, fez com que ela ficasse vermelha que nem um pimentão.
Ela jogou a primeira e errou. As esperanças foram para o ralo.
– Vamos, não desista.
As palavras dele a encorajaram tanto que Mônica conseguiu acertar as duas seguintes. Os dois comemoravam abraçados, porque só faltava mais uma argola e a girafinha seria dela.
– Nenhuma delas valeu, porque o garoto te ajudou.
A raiva subiu da ponta dos dedos do pé até o último fio de cabelo de Mônica. Ela queria quebrar as duas barracas, o circo inteiro, aqueles dois babacas e os charutos fedorentos deles... DC só pôs a mão no ombro dela para que ela se controlasse e assegurou que tudo ficaria bem com aquele sorriso calmo que parecia de alguém no estado do nirvana. Conteve a raiva, envergonhada do quanto perdeu o controle por algo tão bobo... Desceu o olhar, pronta para desistir...
DC então tirou do bolso o dinheiro, pagou as 5 pratas pelas 3 bolinhas e ele acertou de primeira as garrafas que o vendedor tinha acabado de colocar. Realmente, o garoto tinha a mira certeira de um atirador e a determinação de alguém que não mede esforços para ver a namorada feliz.
– Por favor, a girafa.
O primeiro vendedor quis argumentar, mas olhando fixamente para os olhos negros do rapaz, sabia que não haveria espaço para discussão. Algo neles o deixaram inquieto, talvez o fato de que DC tivesse na veia a habilidade de discutir até com as leis da física. Entregou para ele a girafa que Mônica queria tanto. Quando estavam em mãos, a primeira coisa que DC fez foi virar o corpo para Mônica e entregar o brinquedo para ela. Ela pegou a pelúcia ainda extasiada com a situação. Nem reparou quando ele enlaçou o braço no dela para continuarem a caminhada e saírem de perto dos irmãos.
– Por que você fez isso? – foi a primeira coisa que saiu da boca dela quando passou o espanto – Por que você me deixou fazer aquele escândalo?! Se era tão fácil para você, por quê?
– Ora, pensei que você quisesse vencer o jogo... – ele a encarou em silêncio por uns instantes – Depois percebi que você só queria a girafinha. Como não era sobre ganhar e sim, o prêmio, resolvi tentar. Não seria justo você voltar para casa sem sua filha. O jeito mais fácil era tentar a sorte com as garrafas.
– Sorte? – ela sorriu diante da modéstia dele – Sabe porque eu quis a girafinha? Eu queria ganhar um prêmio para você...
Percebendo que ela se referia à conversa de mais cedo, ele sem querer soltou uma gargalhada. Não faria sentido ela querer ganhar o brinquedo para ele, o certo era ele ganhar o prêmio que ela daria para ele. De um modo torto foi isso que aconteceu. Destino irônico... Para tranquilizar a namorada que reage com raiva a todo mal-entendido, porque interpreta o riso como uma ferramenta de humilhação para si, DC explicou que ria da maneira tortuosa que o destino arranjou para fazê-la cumprir o acordo que fizeram no Martelo de Força. Esperou que Mônica então estendesse a girafinha verde e entregasse para ele, mas ela hesitou. Mônica queria guardar a pelúcia, porque seria para sempre a lembrança do quanto DC negociou para que ela vencesse o prêmio que tanto queria, a aula de jogar as argolas nas garrafas, e a vitória dele com uma única tentativa... Talvez tivesse mudado de ideia, e DC entendeu o gesto:
– Tudo bem, ela combina muito mais com você: duas gracinhas. Além do mais, ganhei meu prêmio.
– Qual?
– Um beijo.
Não esperou que ela respondesse, colocou a mão no queixo dela para aproximar seus rostos. Colou os lábios gentilmente, doces por causa do açúcar nas guloseimas. Entre o casal, apenas os bichinhos de pelúcia espremidos no abraço. Saindo do transe e abrindo os olhos lentamente, a primeira coisa que DC viu foi o carrossel atrás de Mônica. Correu até lá com arrastando a namorada pelo punho.
– Carrossel!
– Não, DC! Isso é coisa de criancinha pequena. – Mônica não quis entrar na fila, nem queria deixar o namorado passar essa vergonha. Tudo tem limite! – É só para ficar girando...
– Mas aquele unicórnio, Mô...
– Não. Certeza que você não vai caber, olha seu tamanho, amor...
– Aqui temos máximo de altura... E de peso. – o atendente que cuidava da fila disse.
Mônica embruteceu a cara diante do comentário desnecessário.
– Tudo bem. – o rapaz finalmente aceitou derrotado, antes que começasse o massacre.
– Não fica tristinho, que tal um cachorro-quente? – ela ofereceu quando viu um vendedor ambulante carregando uma caixinha com embrulhos de plástico. Na mão dele viu um deles pronto: a salsicha tinha o rostinho de um cachorrinho.
– Se não latir, não quero. – DC cruzou os braços como uma criança mimada.
– Sem treta, garoto. – disse o vendedor se aproximando e colocando a mão no rosto como se fosse contar um segredo – Isso aqui nem é carne de verdade...
Língua de fora. Mônica não quis mais o cachorro-quente, mesmo que DC agora quisesse experimentar a iguaria sem carne... Se tivessem sorte, seria algo apenas vegetariano; mas no mundo dela, só podia ser carne radioativa. Mesmo que o namorado quisesse arriscar, Mônica não deixou, levando-o pela gola até longe... Quando se deparou com um arco enorme em forma de coração, um barco em formato de cisne, um lago impossível onde ela diria que só havia terra, na placa escrito “Túnel do amor”.
– Vamos? – apontou para a atração.
– Por quê? Tão clichê, amor, não tem nem graça... – o sorriso dela despencou automaticamente, o que o fez reformular todo o raciocínio e caminhar mais depressa até a placa – A não ser que eu possa remar o barco, será que eles deixam? – olhinhos brilhando junto do largo sorriso.
– Não, esses barcos não têm remo, DC... – Mônica foi arrastada pelo entusiasmo dele.
Ficaram na fila, já que o rapaz queria inspecionar as possibilidades de remar o barco. O responsável pela atração era um homem engravatado apoiado na bengala, portando um chapéu de palha estilo velejador, um terno listrado de vermelho, amarelo e branco, calça bege e um sapato marrom bem lustroso. E no rosto um sorriso tão largo que era mais assustador que feliz. Respondeu todas as perguntas de DC com uma palavra ou menos, bem direto. Impaciente, Mônica puxou o namorado assim que a fila andou: um casal apenas na frente deles já estava no barco sumindo no túnel.
Sem usar tanta força, fez o namorado sentar no barco, mesmo que ele resistisse. Jogou no colo dele os bichinhos de pelúcia para ter mais jeito de se equilibrar dentro do cisne. Mônica teve ajuda do atendente para entrar no barco delicadamente e se sentar em segurança. Abraçou DC para contê-lo e suprimir as constantes objeções que ele fazia. Estavam coladinhos. O cisne gigante foi puxado para dentro graças a um mecanismo de corda e rodinhas no fundo, ou algo semelhante, afinal ia em linha reta a um ritmo regular.
No interior do túnel era bastante escuro, simulava o breu da noite. Quando os olhos se acostumavam à escuridão, via-se nas paredes de tons azuladas os contornos de vegetação a aparentar estarem num lago real. O ambiente era preenchido pelo som da água deslocando e uma música tocada por uma caixinha de música, velha, metálica e dona de uma melancolia irreplicável. Sorrateiros, voaram na direção dos barcos vagalumes: vários minúsculos pontos de luz cobriam o caminho. O navegar lento do barco criava uma suspensão do tempo, como se tivessem a sensação de que aquilo duraria para sempre. Mônica sentiu a cabeça do namorado cair sobre a dela e o corpo inquieto dele, que antes resistia, cedeu à paz da monotonia.
– Tenho que dar o braço a torcer... Só você para me convencer de que isso é bom...
Mônica virou o corpo para DC, permitindo-se aliviar o abraço forçoso que obrigou o namorado a ficar no lugar, obediente. Aceitou dele o carinho manso dos dedos dele nos cabelos dela. A mão dela apoiada no peito dele sentia o batucar do coração... Subiu-a para o rosto do rapaz, acariciando a linha do maxilar, alisando a bochecha, até conseguir fazê-lo encontrar os rostos, os lábios. Beijos sabor de açúcar, doces por natureza. Por design, viciantes... Só perceberam o fim do passeio quando a música da caixinha fora substituída pelo burburinho do parque e a escuridão deu lugar ao brilho daquelas lanternas por todo o lugar. Os dois tinham as faces coradas e sorrisinhos bobos. Um outro homem a ajudou sair do barco, mas ela só percebeu isso porque tinha as listras do terno de cores completamente diferentes: roxo, verde, preto. DC entregou as pelúcias para Mônica antes de sair do barco sem precisar de ajuda.
Caminharam mais um pouco quando os olhos dele se fixaram na placa brilhante escrito: “casa de espelhos. Sem pensar em mais nada, correu até lá. Ao lado da porta, havia uma mulher de 40 anos sentada lendo um jornal velho e fumando um cigarro. Ela cobrou de cada um 50 centavos pela entrada no labirinto de espelhos. Deu um único aviso: para não se perder, vale todos os sentidos e todo caminho é uma linha reta que se entorta com obstáculos.
DC segurou a mão de Mônica, sentindo-a fria. Ao longo do caminho, as imagens nas paredes espelhadas não são só milhares de reflexos dos dois, mas também versões distorcidas que são replicadas ao infinito: uma Mônica com a cabeça enorme estacando os dentões ao lado de uma Mônica com as pernas tão grossas como as patas de um elefante; entre elas, uma Mônica amassada como um tamborete, outra larga que ocupa muito do espelho... Se há um labirinto ou apenas um caminho reto, jamais saberia. Os monstros na parede a atordoam demais para saber se localizar ou qual reta tomar. Os espelhos refletiam monstros, versões deformadas de si que Mônica reconhece tão bem, pois vivem em seus piores pesadelos, na frente do espelho do seu quarto, no do banheiro... Imagem disforme que vive nos seus olhos, construída e solidificada pelos traumas de infância, apelidos maldosos, infantis brincadeiras cruéis. Só DC consegue olhar para imagens espantosas de si e rir. Mônica ocupa o espelho todo, seu olhar assustado a encara de volta. Os olhos enchem de lágrimas. Ela quer sair de lá.
Inconsciente, aperta mais forte a mão de DC e abraça enforcando o coelhinho e a girafa. Busca frenética a saída daquele maldito labirinto. Atordoada, acaba batendo de frente com as paredes espelhadas. Mônica não escuta nem a voz de DC pedir calma, seu único foco é sair de lá o mais rápido possível, mesmo que tenha que quebrar todas as paredes daquele inferno pessoal. Sente a mão do namorado apertá-la e fazê-la parar, ouve a voz dele gritando:
– Ei, cuidado! Vidro corta! Até mesmo você, dona da Lua. Vem. – DC puxou para si o corpo bambo de Mônica. A namorada não resistiu, se deixou abraçar.
– Isso não tem graça, DC... – Mônica tremia nos braços dele – Essas imagens... Eu... São monstros... – os olhos encheram d’água.
– Não, Mô, são só espelhos. As imagens retorcidas por causa da curvatura deles... Esses reflexos não são monstros, nem são você, amor. Eles não mostram seu sorriso, nem sua força ou inteligência, doçura... Porque aquela imagem distorcida nunca foi você, repara bem, ela não tem seu brilho, sua voz, sua opinião... – ela escondeu a face no peito, recusando-se a olhar para o reflexo. DC segurou o rosto dela para levantá-lo – Você confia em mim? – a garota o encarou de volta, olhos ainda cheios de água. – Fecha os olhos e segura minha mão, não solta... Eu tiro a gente deste labirinto e você nem precisa olhar mais nenhum desses espelhos idiotas, ok?
– Tem certeza?
– Eu tenho, agora resta saber se você confia em mim. – sorriu assegurando a ela que tudo ficaria bem...
Mônica sorriu em resposta, fechou os olhos e deixou que DC a guiasse. Nos primeiros passos os dois vacilaram, adaptando-se a dinâmica e ao ambiente escuro do labirinto. Depois que a garota aceitou confiar, ficou mais fácil para DC levá-la. Cogitou abrir os olhos algumas vezes, porém não conseguia fazê-lo sem pensar nas criaturas monstruosas na parede. Não entendia o motivo de ter se desfeito como uma tola num labirinto daqueles, tinha vergonha. Por sorte, DC não tripudiou dela, nem minimizou seu desconforto. Foi gentil, amável e principalmente heroico... Os passos dele eram certeiros, apressados... A mão dele era quente, diferente da dela: fria e suada. Percebendo a insegurança da namorada, DC começou a cantar para distraí-la: pela estrada afora eu vou bem contente, encontrar a saída dessa sala de demente. O caminho é torto e bem incerto, mas nós dois somos mais espertos... Mônica conseguiu rir, tinha até vontade de abrir os olhos e encarar DC enquanto ele repetia os versos... Até encontrar a saída. Caminhavam incertos até que pararam. Ainda assim ela não quis abrir os olhos de imediato, não antes de perceber que o calor abafado do labirinto deu lugar a uma brisa suave no rosto. Abriu os olhos e viu o namorado sorrir orgulhoso.
– Não disse?
Mônica apenas o lançou o corpo para abraçá-lo, esquecendo dos prêmios que caíram no chão. Escondeu o rosto vergonhosamente vermelho no peito do namorado.
Alguma voz gritada por um megafone anunciou que a apresentação já ia começar.
– Vem, amor, vamos ver o extraordinário!
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