Circo Macabro (remake)

4 Finalmente o espetáculo!


Notas iniciais
Alguns capítulos são ligeiros, outros são um parto... E pelo visto, este bebê não queria nascer :P Só revisei uma vez, então perdão se alguma coisa estiver estranha... Se estiver, pode comentar, que fica bom para corrigir. No mais, espero que gostem ^^

Compraram o ingresso no cubículo ao lado da tenda. Dentro do caixote de madeira, um homem bastante apático recebia o dinheiro e entregava papeizinhos de jornal cortado. Sem sorriso ou conversa fiada. Também não pareciam em nada com os impressos que as pessoas costumam guardar de lembrança: um retalho de jornal e um número de caneta. A fila até tinha sido pequena comparada ao que Mônica jurava ter de público naquela noite, afinal o parque ainda estava cheio... Na entrada, uma mulher esguia vestida como uma bailarina, um collant e a saia de tule armada cobertos por glitter, recolhia os ingressos. O sorriso perturbadoramente fixo na face jovial e, ao mesmo tempo velha, causava má impressão: não era como se estivesse feliz, mas obrigava-se a rir da tragédia... DC não estranhou nada no circo, mas a atmosfera daquele lugar fazia Mônica arrepiar, sem conseguir explicar o porquê. Talvez ainda fosse efeito da sala de espelhos, talvez tivesse que dar razão ao pai: o evento noturno dava um ar sombrio ao espetáculo tipicamente alegre e infantil.

O lugar era mais lúgubre do que se imaginaria, apesar de não identificar o exato motivo. Nove fileiras formadas por degraus largos e altos rodavam o interior da tenda, criando um limite circular em torno do palco, como em uma arena clássica. Os degraus também serviam de assento para os visitantes e alguns pontos já estavam ocupados por uns grupos de pessoas conversando distraídas. Percebia-se a iluminação fria vinda de fitas de LED nos espelhos das escadas e a chama de algumas tochas em torno do lugar para tentar clarear a passagem, mas sem assim iluminar bem. A entrada do circo ficava no alto, já que a arena tinha sido construída na depressão do terreno, obrigando assim os visitantes descerem a rampa levemente íngreme até os largos degraus em busca de assento. DC queria ficar na primeira fileira, o mais perto possível do palco, mas Mônica preferiu ficar na segunda. Ela aprendeu com as aulas do Licurgo que é melhor manter distância da área de colisão: seja dos objetos que o professor levava para demonstração, como uma viga ou a bandeira empoeirada de um navio do século XVIII; ou seja a colisão com perdigotos, para os dias que o professor estava aminado demais para conter a saliva dentro da boca. Rindo, DC concordou, apesar de discordar que a poeira da bandeira tinha sido tão velha, no máximo era do início século XIX...

Enquanto procuravam o lugar ideal para se sentaram, sentiram a névoa fria rastejar sob os pés, constante e fina. Causava dor nos ossos, como se o toque gelado dela fosse capaz de passar todas as camadas da pele e congelar o sangue. Involuntariamente, Mônica apertou a mão de DC, que a guiava distraído.

– Não economizaram no gelo seco, né? – disse DC olhando para os pés e o chão cobertos pela neblina, animado com a constatação.

Encontraram um lugar bom para se sentar: alinhado com o palco, a alguns passos da entrada, mas ainda longe para que quem chegasse depois não tivesse que passar por eles tantas vezes. Mônica estranhou o fato de não haver uma coxia de onde o pessoal do circo viria antes da apresentação. A hipótese mais plausível de DC é que eles viriam da entrada principal, rolando pela rampa que ligava as pontas do círculo de bancos. Mônica analisava a estrutura: a tenda contava com um esqueleto metálico pra tomar a forma triangular típica. O tecido bicolor também era resistente, mas não era plástico. A opacidade e o peso das dobras indicavam fibras densas de algodão, o que proporcionaria um ambiente abafado e até morno ali dentro. No entanto, o frio rondava, mesmo sem haver vento. Ou um ar condicionado à vista.

Mônica se encolhia no abraço com as pelúcias, procurando se aquecer um pouco naquela tenda meio escura e fria. Pessoas iam devagar ocupando os lugares disponíveis, tanto físico como sonoro: o silêncio maciço que tomava cada canto da arena ia dando espaço ao burburinho humano e alegre de expectadores inquietos. O ânimo que eles traziam, apesar de caloroso, não espantava a terrível sensação gélida que Mônica sentia. Percebendo o desconforto que ela fingia não sentir, DC colocou o braço em volta da namorada. Conhecia-a o bastante para saber que ela era orgulhosa e autossuficiente demais para pedir ajuda. Mônica não tremia de frio, alguma coisa pesava seu coração... Tentava ignorar, afinal devia ser apenas um medo bobo incutido por seu pai: se ele não tivesse colocado caraminholas na cabeça dela, ela não estaria incomodada com aquele circo bobo... Abraçou DC de volta aninhando a cabeça no peito dele, também apertou contra si as duas pelúcias que tinha ganhado naquela noite.

O palco ficava no ponto mais baixo do terreno baldio, demarcado por uma parede baixa e formado por um círculo de chão batido de terra. Estava vazio. Iluminado por uma fileira de lâmpadas alinhadas com a parte inferior daquela parede de contenção. O restante da tenda contava com tochas flamejantes acesas em pontos estratégicos. Não havia perigo de incêndio, nem de queimar acidentalmente alguém. Estava fora do alcance das crianças. A estrutura de metal que armava o circo: sólida, resistente, imponente... Não tinha motivo algum para ter medo, era tudo tão seguro... Mesmo com aquela neblina insistente, que DC desconsiderava como mágica, afinal, gelo seco é um recurso até manjado demais nas produções de suspense. Mônica só não conseguia localizar onde estava o balde com o gelo, por mais que procurasse... DC sorria tão ansioso por começar o espetáculo que o entusiasmo dele contagiava Mônica. Ela também queria que começassem logo, para que terminasse logo...

As pessoas terminaram de se sentar. Famílias, casais, crianças... Ao que parecia, tinha a quantidade certa de lugar para todos os visitantes, como se houvesse tido um cálculo perfeito. Como se todos que estavam ali tivessem que estar lá... A cortina da entrada fechou brusca fazendo um barulho pesado de tecido. As tochas em chama apagaram com uma rajada de vento que veio ninguém sabe de onde. As luzes na arquibancada também cessaram, criando um breu e um nítida separação com o palco, ainda levemente iluminado. A névoa pareceu ainda mais densa concentrando-se no meio do círculo, trazendo consigo um cheiro forte de chuva e o olor amargo de grama molhada que invadiram o nariz. Um feixe de luz vindo do ápice da tenda iluminou o meio do palco, isolando um único homem entre tanta escuridão. Era um homem esguio, alto, com a cabeça baixa escondida pela aba da cartola, apoiado na bengala fina à sua frente. As ombreiras largas se destacavam no terno preto com listras cinzas. Os pés dele estavam encobertos pela rastejante névoa, que o rondava. Mônica estranhava que única coisa que podia ver era o brilho refletido dos dentes dele: a boca estava aberta em um sorriso largo e sobrenatural, mostrando os dentes grandes e amarelados. Ele levantou a cabeça, mas ainda era impossível ver os olhos, acobertados pelas sombras produzida pela aba da cartola contra o ponto de luz vindo do alto.

– Admirável público! Sejam todos bem-vindos ao espetáculo desta noite. O magnífico circo do Sr. Dante agradece a presença imprescindível de todos vocês! Que os corações de todos sejam fortes para suportar os mistérios que os aguardam, que os sonhos ganhem asas neste palco e que apreciem cada segundo da inadiável noite mais extraordinária de suas vidas. Um excelente espetáculo para todos nós. – bateu com a bengala no chão e uma fumaça que o circulava adensou em volta dele, criando um redemoinho que fez o homem desaparecer.

DC aplaudiu mais alto que qualquer um lá. Os outros pareciam assustados com a repentina aparição e mais ainda com a súbita forma de sumiço. Aplaudiram tímidos para acompanhar o entusiasmo do rapaz de pé. Mônica o puxou para se sentar de volta. Contrariador por natureza, o namorado achou genial a execução do truque do velho, porém admitiu que a técnica não devia exigir muito: o efeito impactante da cortina de fumaça disfarçaria a abertura do alçapão logo em baixo dele, claramente ativado pelo toque da bengala...

– Shiiiu, não estraga o encanto. – pediu Mônica com um dedo na frente dos lábios, apontando para as crianças mais próximas dele. DC sorriu fechando a boca.

A luz do holofote que focava no meio do palco diminuiu a intensidade. Difusa criava uma nítida separação dos espaços, ainda que não fosse capaz de mostrar com clareza o que a névoa escondia. O murmurinho curioso das arquibancadas calou-se quando um estridente sopro de flauta ecoou, alto, imponente. A neblina serpenteava rasteira e inconstante, como se dançasse ao som deprimido da flauta solitária. Sopros longos entrecortados por silêncios pesados e notas melancólicas. A fumaça foi se espalhando, descortinado um único homem no centro do palco, sentado em cima de uma rocha. O peito largo despido, cabelos negros desalinhados enfeitados por folhas e flores escondiam chifres, a pele branca como a neve adornada com mais folhagem e vinhas, e no lugar das pernas, as patas de um bode: um perfeito sátiro. Sentado distraidamente, tocava a flauta para ver a névoa dançar, como faz um encantador de serpentes. Vagarosamente, neblina se dissipava, permitindo ver a vegetação baixa, arbustos e enormes botões de flores aonde havia apenas pura terra batida.

A música do sátiro parecia querer acordar as criaturas do sono profundo. Com habilidade, manuseava a flauta, soprava os mais belos sons com os lábios em forma de beijo. Os lábios rosados eram tão delicados no rosto marcado por uma maquiagem pesada a destacar os olhos tão negros. Também era delicada a forma como ele segurava o instrumento musical: leveza peculiar para dedos tão longos e de musculatura tão forte... Magnético, conseguia atrair toda a atenção para si, a ponto de distrair os olhares das vinhas crescentes se enroscando pela estrutura metálica, cobrindo a parede, subindo pela arquibancada. De súbito, a atenção foi totalmente desviada por vultos pendulares por cima da cabeça do público.

Girando no trapézio, um grupo de acrobatas abusava da sorte lançando o corpo ao abismo, sendo amparados por uma conveniente barra que aparecia ou a mão amiga de um dos companheiros que chegava no exato momento necessário. Rodopiavam sem qualquer receio, como se não houve risco algum de queda. Também o grupo era bastante idêntico entre si, tornando impossível contar ao certo quantos eram os trapezistas e diferenciá-los. Todos eram igualmente altos e esguios, corpos andrógenos vestido por lindos collants bem ajustados nos corpos longilíneos e com saias compridas de um tecido levíssimo e translúcido que refletia tons de azul celeste, lilás e rosa-bebê, e era coberto de glitter, dando aos integrantes aparência mágica, etérea, como fadas. Com o movimento ao léu, as saias se transformavam em asas. Sob eles, o holofote lembrava o brilho pálido do luar: o círculo de luz simulava a lua cheia e cobria os personagens no palco de uma luminosidade pálida, melancólica e nostálgica.

Hipnotizado pela própria canção, o sátiro levantou-se para rondar o palco. A canção dele fazia com que a vegetação se adensasse ainda mais, enroscando mais vinhas nas trepadeiras existentes, fazendo surgir mais folhas nas galhas anteriores, criando novas plantas entre os visitantes, grama sob os pés... Desavisadamente apareceram vagalumes, pontinhos verdes-neon, a se espalhar por entre as personagens e os expectadores, compondo melhor a cena bucólica. Passeando e dançando, o sátiro convidava os brotos gigantes a desabrocharem. A partir das notas estridentes e alegres, repentinamente abriram um de cada vez soltando pólen tão brilhante como glitter e o cheiro adocicado como se fosse mel misturado a perfume. Na boca, o cheiro tinha gosto de bala.

Dentro das flores saíram crianças, vestidas com fantasias de carnaval. Uma delas, vestido de uma máscara de coelho, brincava com um ioiô chinês, saltitando alegre, enquanto fazia o brinquedo rodar conforme sua vontade. Outra com a máscara de rato fazia malabarismo com pinos. Três brincavam de arremessar bolinhas e fazer cambalhotas: um com a máscara de urso, o segundo era um esqueleto perfeito e o terceiro tinha o corpo coberto por penas e asas nos lugares dos braços. Para fazer graça, o esqueleto usava o crânio como bola e seus amigos não estranhavam... Um menino vestido de sapinho soltava bolhas de sabão de formas inusitadas: tamanho e forma de elefantes, focas, fadas, coelhos, borboletinhas, pássaros, cubos... As bolhas enchem o cenário de vida frágil que se desmancha ao toque dos espectadores. Do lado, um menino menor do que todos vestido um terninho e uma capa preta e vermelha, fazia o papel de mágico atrapalhado: tirava da cartola coelhos de pelúcia, tentava sumir como uma bolinha e ela caia de sua manga só que de outra cor... Cantavam apenas as crianças sem perder o fôlego uma cantiga infantil e risonha, mas numa língua estrangeira desconhecida.

Mais arbustos e trepadeiras em volta, o som de insetos se misturava à flauta. Mônica se sentia de pé no meio de uma floresta, debaixo de árvores altas, entre arbustos, o ar preenchido pelo cheiro de grama e chuva... Balançar de folhas junto do som de grilos e cigarras... A tenda parecia um ecossistema vivo, um terrário sobre a luz do luar... Ouvia-se apenas a flauta insistente e os passos por cima da grama... Entre vultos, Mônica sentia o fauno a rondar. A canção que ele tocava era especialmente para ela. A floresta densa girava enquanto Mônica tentava encontrar a figura nas sombras, onde só podia escutar sua própria respiração e a flauta. Percebeu-se sozinha... O fauno dançava aproximando-se e escondendo na vegetação em volta dela, sempre tocando a canção. Mônica reparou nos contornos do corpo dele, na pele tão pálida sob a luz do luar, nos lábios vermelhos mandando beijos em formas de notas musicais doces, sedutoras... Tudo parecia girar, embalado pela flauta hipnótica. A respiração dela ficou presa na garganta, o coração batia mais forte... Cada vez mais próximo, o fauno girava em volta dela, atordoante, sua canção tão divertida e entorpecente...De relances, viu os lábios dele, os dedos, o dorso decorado das folhas, a linha do maxilar, os cabelos negros bagunçados e brilhando com suor... A música cada vez mais entrando os ouvidos a reverberar nos ossos... Os rostos quase se chocaram. Mônica se concentrava ao máximo para reconhecer aquele rosto que não lhe era estranho... Os olhos negros dele encontraram os dela, fixos. Silêncio. Ele parecia tão hipnotizado quanto ela... A mão dele vacilava para subir até a face da garota, mas de repente a música voltou com o som estridente metálico. Na frente de Mônica uma das crianças vestida de bicho ria por ter batido os pratos. O fauno dançava distraído, longe... Mônica virou para DC ao seu lado, sentindo as faces coradas... Os olhos negros do rapaz se fixaram nela, os lábios rosados se alargaram em um sorriso... Por reflexo, Mônica agarrou-se mais às pelúcias, o coração aflito... Que alucinação...

O palco encheu-se de vida com as crianças fazendo brincadeiras como palhaços, surgiu uma bicicleta gigante onde se equilibravam três crianças e um forma humanoide com escamas e o rosto de um dragão. A criatura ainda se segurando de ponta a cabeça na roda colocou fogo nela. As outras crianças se equilibravam no monociclo, qnquanto o dragão brincava com a roda em chamas. Deitou no chão para rodá-la com os pés. No ar, os trapezistas-fadas atiravam-se ao léu. No chão, as crianças travessas deram-se as mãos para dançarem em roda e cantar uma linha de rima que Mônica não consegue decifrar: entre o esqueleto, o coelho, o rato e o urso, juntou-se uma garota vestida de lobo, uma criança parecia mais um lençol com pernas, ou outro garoto vestido de forma antiquada que se transformava em vampiro ao bel prazer. Era engraçado como cantavam, mas estavam sempre sorrindo... Sempre seguindo a interminável canção do fauno. Também parecia que o palco girava, fazendo os expectadores perderem a direção... Desnorteante. Muitas luzes tipo vagalumes vinham e mesclavam ao pó de glitter que se espalhava por todos os lados...

No trapézio, junto do grupo de fadas surgiu um homem mais corpulento que se transformava em gorila. Fazia piruetas ainda mais ousadas que os outros. Por ser mais brusco, não parecia voar como as fadas, estava em constante queda-livre, arriscando a vida em cada movimento. Foi ele quem puxou a corda-bamba no meio da tenda onde uma moça aterrizou com as pontas do pé, amparada por um pequeno guarda-chuva. Ela atreveu-se a caminhar na fina corda, sem titubear um instante. No meio do caminho, tirou bolinhas para fazer de malabares, mas eram mechas de seus cabelos quem equilibravam as esferas coloridas, como se fossem braços independentes.

Em baixo dela, as crianças desfizeram a roda para invadir as arquibancadas, trazendo para cada um dos espectadores um show particular. Cambalhotas por cima dos colos, plantavam bananeiras nos vãos entre as pessoas, sem nem tocar pessoa alguma, um verdadeiro testemunho de um cálculo perfeito e impossível, dada tamanha imprevisibilidade e precisão magnífica. O mágico amador foi à plateia tentar fazer algum truque, e andando por entre os visitantes, topou com Mônica. O susto inicial estampado no rosto dele a fez estranhar. Logo em seguida, ele sorriu, tirou da cartola um buquê de flores e correu para o palco. De novo o grupo se reuniu no círculo, como se quisessem dividir algum segredo. Riram e voltaram a dançar em roda...

O telefone de Mônica toca. O nome na tela: Cebola. Por quê? A pergunta escapuliu dos lábios. Mônica decidiu ignorar, não precisa dizer nada. DC do lado dela estava distraído demais para se preocupar com isso. “Você me escolheu, eu não preciso me preocupar...” Sim, ela tinha o escolhido, e agora, colocando a mão na dele e sentindo o rapaz apertá-la de volta, virar e sorrir antes de voltar a cabeça para o espetáculo, ela o escolhia de novo. Apertou os bichinhos contra o peito, sentindo o coração bater tão depressa, infantil e boba. Na frente dela, a roda de crianças gira cantando alegre...

De repente a música parou. Uma faixa longa vermelha desceu no meio do centro. Das sombras uma moça se levantou: collant e meia-calça escuros, uma máscara que a deixava com o rosto de inseto, cabelos negros curtíssimos colados na cabeça. Ela se enroscou na seda. A música retornou tímida: o violino e as teclas do glockenspiel. Parecia que o circo todo havia parado para assisti-la. Apenas no alto, os trapezistas ainda arriscam algumas manobras. A jovem ia manipulando o tecido acrobático conforme sua vontade, enroscando-se nele, soltado o corpo das amarras em queda livre... A jovem malabarista na corda bamba deixou que as bolinhas caíssem no chão somente para florescer o cenário, já que antes de tocar no chão elas dissipavam em fumaça colorida para então surgir flores no lugar. O homem-gorila levou a malabarista embora numa lançada. Os trapezistas ainda voavam em volta da faixa vermelha, onde a acrobata se contorcia em poses deslumbrantes... Tão dona de si, ia escalando o tecido, enrolando-se mais e mais. A música baixinha, o silêncio e a interrupção de todos os números. Todos estavam concentrados na moça. Tudo parou quando a jovem que rodopiava freneticamente parou, enrolada no tecido. Havia algum risco de que a faixa que ela manipulava com maestria tivesse a enforcado? Um suspiro de espanto. Todos pareciam assustados inclusive as pessoas do espetáculo. Silêncio sepulcral.

Talvez para distrair o público, as crianças se deram as mãos e puseram a rodar cantando alguma cantiga ainda de uma língua indecifrável, seguindo o som tristíssimo do violino com algumas notas metálicas do glockenspiel. Até mesmo a flauta do fauno, agora sentado no alto de uma barra, olhando para baixo com pena. Ninguém falava nada, nem os mais revoltados, nem os mais assustados. Mônica queria gritar, queria se certificar que a moça não precisava de ajuda. Ela até mesmo colocou os bichinhos no assento, mas DC segurou o braço dela. Estava certo de que isso fazia parte do espetáculo, o suspense devia anteceder todo tipo de magia, aprendeu com o irmão. A namorada não queria saber, encarava o pano retorcido, impossivelmente quieto, como se não respirasse... O corpo de Mônica até ameaçou levantar, mas algo além das mãos de DC mantiveram-na no lugar.

O casulo começou a se mexer, dando aos espectadores o alívio que imploravam por ter. Aos poucos o laço se desfazia com o mesmo giro frenético. Dentro do casulo ia surgindo uma graciosa jovem, de um rosto belíssimo e brilhante, o collant agora era prateado e coberto por paetês, a meia-calça se transformou em uma segunda pele com gotas de brilhantes. E nas costas surgiram asas esverdeadas como as mariposas da lua, os cabelos ficaram brancos. Nenhum sinal da máscara grotesca, a jovem se equilibrava nos tecidos, usando-o para alcançar voos. As crianças agora riam, mas a canção do violino nem do fauno deixavam de ser melancólicas.

Sentido uma espécie de torpor, o corpo de Mônica foi retorcendo em uma forma bizarra: os braços finos da moça ganharam músculos densos e encheram de pelo. A coluna de curvou ante o peso e a dor a fez gritar como se houvesse lava no lugar do sangue. Segurou a cabeça que ela sentia partir no meio. A roupa que ela usava rasgou... Um urro foi a única coisa capaz de fazer naquela hora de extremo sofrimento. O circo todo sentiu abalar as estruturas. Ao lado dela, DC tentava entender o que tinha acontecido, mas tudo que Mônica via era os rostos horrorizados à sua volta, percebendo também que seu corpo não era mais o seu. A sapatilha tinha estourado quando seu pé se transformou naquela pata com garras... Tudo girava e seu coração urrava mais que tudo.

DC tentou acalmá-la, mas o gorila-humano tinha sido mais ligeiro ao surrupia-la para o meio do palco. Mônica ficou horrorizada ao ver as crianças em volta se aproximando, os olhares da plateia que pareciam mais ter nojo dela do que qualquer outra coisa. DC era o único que tinha uma expressão de consternação... Ou será que ele tinha medo dela? Correndo nos palcos, acabava por bater em qualquer que a contivesse, gerando cenas risíveis: o esqueleto tentou jogar a cabeça para ela tropeçar e cair, porém a garota chutou para longe; o lençol tentou agarrá-la, mas Mônica despiu-o, mostrando que realmente só haviam pernas de pau; as flores inutilmente tentaram abraçá-la, mas não tinha força alguma; os pinos do malabarista se transformaram em armas que batiam na cabeça dela sem ter efeito algum além de confundi-la; o morcego voava na cabeça dela recebeu um golpe bem dado com um dos fêmures do esqueleto; os cabelos vivos da malabarista tentaram enforcá-la, mas Mônica conseguiu se desvencilhar arrastando a mulher... O público ria enquanto Mônica tentava desesperadamente escapar, inclusive DC...

De repente, a mulher-borboleta conseguiu conter a jovem, enrolando-a nos tecidos. Mônica tentou lutar, mas as amarras eram fortes. O tecido a segurava e a rodava no lugar. O circo inteiro girava diante de seus olhos, transformadas em sombras sem rosto, apenas silhuetas embaçadas, de coisas que se parecem com pessoas... A canção do fauno era a única coisa que ouvia, ninguém mais. Teimosa, ela insistia em lutar, mas o tecido a cobria, a segurava, a mulher a carregava para o alto. Num largo movimento, rodopiaram por cima da cabeça de todos, o casulo se fechando com Mônica dentro... Ela não queria desistir, tinha de lutar! No momento seguinte, Mônica sentia-se vestida com um collant sendo segurada pela mulher-borboleta e sua faixa de tecido, olhando para baixo...

DC num primeiro momento acha que era ilusão, tantas fitas VHS do Nimbus, ou DVDs do curso seriam capazes de explicar como se replicar os efeitos desejados. Cortinas de fumaça, alçapões secretos, efeitos de luz, brincadeiras com coisas que mudam a cor pela temperatura... Experimentos científicos de algum jeito que brincam com a ignorância e a ilusão. No entanto, não havia explicação para Mônica se transformando ao lado dele, teria? Efeitos de espelho? Poção mágica? Quando a levaram para o palco, ela realmente parecia parte do show... Porém como explicar que aquela integrante era sua namorada que conhecia essas pessoas pela primeira vez na vida? Como seria capaz de interpretar um papel para qual não ensaiou? Então ele percebeu o olhar dela de desespero sendo contida por aquele tecido vermelho. Ela não estava brincando. Teria sido algum plano de algum inimigo da turminha? O olhar indefeso dela foi o suficiente para fazê-lo perder qualquer bom senso.

Atirou o corpo para o palco, pulando em cima do murinho para cair no chão meio instável. Ao vê-lo, as crianças tentaram pegá-lo. E talvez fossem até mais fortes que ele, DC não poderia se dar ao luxo, tinha de ser mais rápido. Suas pernas eram mais longas que as deles e por isso conseguiu tomar uma distância maior em menos tempo. Mônica tinha sido contida no casulo e agora estava no alto do tecido, esforçando-se para se segurar... DC teria alguma chance se conseguisse subir pelo laço... Talvez ela tivesse medo de altura, o que seria um problema para o plano improvisado dele. Tinha de arranjar um jeito de subir, mas sem perturbar o tecido: qualquer movimento em falso seria fatal. Aproveitando que o gorila vinha em sua direção, usou todos seus conhecimentos ninjas para pular pelo ombro dele. No impulso se segurou na faixa e tentou escalar o mais rápido que pôde.

Mônica olhava para baixo horrorizada ao ver o namorado tentando escalar. Para soltá-lo, a borboleta humana, fez o tecido tomar impulso e rodopiar: seu objetivo é forçá-lo a soltar. DC segurava com todo o poder que tinha. Mônica também agarrava-se para não cair, sentindo pavor das mãos quase escorregarem. Reparou que a fumaça se adensava e a música do fauno ganhava velocidade e intensidade e seu coração batia forte com isso. DC ainda permanecia no lugar, mesmo que sentisse a névoa converter-se em fumaça, como se houvesse fogo. O gorila-humano preparava o momento para subir na corda, etão teria de agir mais rápido. Subiu com impulso, fazendo o giro titubear com a mudança de peso. Mônica ainda estava longe demais para ele conseguir alcançá-la, e a borboleta humana segurava a jovem apenas com o tecido. Infelizmente o Gorila pegou DC. Mônica gritou o nome do namorado e usou a força para conter o tecido, mas não conseguiu mais que atrapalhar o salto do gorila que segurava DC e os dois caíram coincidentemente no fauno.

Silêncio. A névoa que começava a se adensar de repente dissipou. Tudo ficou escuro, novamente o palco se iluminou com um homem no centro.

– Obrigado a todos e tenham uma boa noite.