Onde estava? Ao abrir os olhos, Mônica se viu amarrada pela faixa vermelha, agora caída no chão. Em volta dela, formas distorcidas e bizarras encaravam-na, criando por cima dela uma sombra densa. Cochichos e sussurros cobriam seus ouvidos. Os estranhos falavam encavalando uns aos outros, confusos. É ela mesmo? Deve ser... É ela. Não, ela não é tão nova assim, lembra daquela velha, aquela era ela... Não, nada disso, ela tinha que ser menor, igual àquela tampinha... Blefe. Não, não, ela não era tão pequena, nem tão velha, se parece muito com essa aí mesmo... Pelo menos, essa aí não é loira... O tamanho do dente parece certo também, o que eu não sei é o da orelha... E os olhos não eram mais escuros? Não, gente, é ela, idêntica... Você fala como se tivesse visto a verdadeira...

Mônica tentou se desvencilhar do aperto, mas a faixa parecia mais uma jiboia enforcando-a: por mais que se esforçasse, mais se sentia presa. O burburinho calou-se, dando lugar aos passos de alguém se aproximando. A garota reconheceu o homem que havia apresentado o circo: o velho esguio de cartola e bengala, cujo o rosto sumia nas sombras do chapéu, emoldurado pelos longos cabelos prateados. Reparou no terno escuro coberto por uma camada brilhante de glitter, talvez ainda com a vestimenta do espetáculo. No ombro dele, um mico-leão-dourado que a encarava com olhos esbugalhados e bem atentos. Logo atrás, veio o homem-gorila. Parados de frente para ela, o velho deu a ordem:

– Golias, leva-a para a gaiola. – no instante seguinte, o homem colocou a jovem protestando em suas costas, como se ela não pesasse mais do que uma pluma. E a enorme faixa que a segurava tinha desaparecido do nada, mesmo que suas mãos e pernas estivessem atadas.

Enquanto isso, DC ia aos poucos se levantando. Nada do Fauno ou do homem-gorila que estavam ali agora pouco, sob o corpo dele quando caíram os dois na arquibancada. Sumiram como mágica. Ainda tonto, DC erguia o corpo, procurando se localizar. Observou as pessoas saindo contentes do local, comentando maravilhadas sobre o espetáculo que tinham acabado de assistir. As luzes haviam voltado, nenhum traço de névoa mais, os bancos agora estavam todos praticamente desocupados... O palco era apenas aquele círculo de terra batida, vazio. Onde estavam as pessoas do circo? Onde estava Mônica? Levantou-se atordoado, perguntando para um ou outro retardatário sobre o paradeiro dos artistas. Riam, respondiam sorrindo que o circo misterioso tinha limpado o palco como mágica, um segredo do espetáculo... Não entendiam a pergunta do rapaz. Todos estavam deslumbrados demais para perceberem que nem tudo fazia parte do show. Sim, fora uma apresentação e tanto, nem mesmo ele poderia contrariar, mas pessoas de carne e osso não somem como fumaça... Onde foi parar todo mundo?

Olhou para a entrada, em busca de alguém que pudesse dar a ele respostas, mas não havia funcionário algum que pudesse lhe oferecer explicações. A última coisa da qual DC se lembrava era de cair junto do gorila em cima do fauno e aquela musiquinha irritante acabar. Também se lembrou de que tudo foi tomado pela escuridão e o silêncio sepulcral antes do velho falar alguma coisa para o público. Uma despedida... Antes disso, Mônica ainda estava dependurada naquela faixa, não? DC ouvia soar em seu ouvido o grito da namorada antes da queda. Depois nada. As tochas acenderam magicamente e todos foram convidados a se retirar. Mas onde estava Mônica? Gritou o nome dela. Alguns visitantes estranharam, até olharam para trás confusos. Será mesmo que achavam que aquilo fazia parte do show? Ninguém percebeu que não? Que fora tudo um engano? Onde ela estava? O show acabou, hora de ir embora... DC desceu as escadas, afoito, aflito. Passava pelas pessoas ignorando o que elas falavam. Precisava chegar até o palco para encontrar o alçapão, a porta de onde vieram todas aquelas criaturas que agora pouco se apresentavam. É por essa mesma porta que deviam voltar assim que terminasse, não? No alto da tenda, o mesmo vazio antes da apresentação, nenhum sinal da faixa vermelha ou do trapézio com as saltitantes fadas. As luzes no chão destacavam o palco, porém não havia nada. Nem marca, nem puxador, nem botão. Chão liso. Mônica?! Gritou o nome dela mais uma vez. Nenhuma resposta. Sem pensar, DC pulou dentro do círculo, tinha de encontrar a maldita porta-secreta. E de repente o palco estava de novo vazio.

DC sentiu o arranque quando os pés se chocaram novamente no chão que havia sumido de baixo de si ao pular. Percebeu a terra batida mal iluminada, mas em volta, ao invés das arquibancadas, havia os carros-casas estacionados no terreno baldio. Era a imagem típica das caravanas circenses, caixas grandes com rodas, vagões perfeitos para viagens de uma vida retirante. Como poderia o palco dar passagem para o estacionamento? DC se lembraria de percorrer o caminho, não? Estava ainda próximo da tenda, não? Sacudiu a cabeça para afastar as perguntas desnecessárias, precisava encontrar Mônica. Porém insistia em pensar: seria ainda o Limoeiro? O chão batido era o mesmo, e não era de todo estranho encontrar os vagões onde o circo transportava toda sua estrutura e pessoal. No entanto, não parecia mais a clareira onde tinham ido... Não havia mais árvores como as que tinham encontrado no caminho. Como era possível que o palco levasse para aquele lugar completamente diferente em questão espaço-tempo? Olhava em volta, e não conseguia nem ver a tenda ou as barracas, como é que já desmontaram uma estrutura daquelas? Não teria como num milésimo de segundo, entre ele se jogar da arquibancada ao palco, terem desmontado tudo... Sendo irmão de um mágico de meia-tigela, DC reconhecia que aquilo não era a mesma ilusão que Nimbus estava acostumado a fazer quando tirava o coelho da cartola ou acertava a carta escolhida de um dos seus espectadores. Aquilo era de fato magia...

Passando por entre os caixotes de rodas, DC reconhecia alguns personagens peculiares que há pouco haviam se apresentado: as crianças acrobatas que correram atrás dele agora brincavam de pega-pega entre si, completamente alheias à presença dele; as fadas trapezistas, de fato apenas três, se mostravam excelente contorcionistas enquanto ajudavam um quarto integrante a pintar um móvel cheio de curvas; a trupe cigana-pirata lidava com um tecido enorme para costurar; apressados, os dois gêmeos anões passaram por DC equilibrando várias caixas cheias de garrafas enquanto discutiam os lucros da noite; a garota do martelo, Atalanta, pregava um poste para servir de varal, o esqueleto puxava uma linha, e a malabarista usava os cabelos para torcer as roupas molhadas. Estavam tão distraídos com suas tarefas que não repararam no rapaz.

DC foi caminhando, até se deparar com o cubículo idêntico à barraca da bruxa, e lá estava a senhora terminando de misturar a sopa no caldeirão. Como ela havia sido tão amigável antes, o rapaz concluiu que ela seria a melhor pessoa com quem falar para pedir informações. Aproximou-se da janela dela e viu-a bastante compenetrada na tarefa de mexer o caldo. O cheio era bom, uma mistura de mandioca e carne cozida, que abriria o apetite de qualquer um naquela noite fria...

– Olha, quem quiser o caldo quentinho, tem de ser agora... Todo mundo sabe que se ficar muito tempo no fogo, agarra no fundo e ninguém quer aquelas raspas... Você! – ela levantou a cabeça e o encarou, seu olhar tinha algo de espantado, será que tinha medo dele? DC não saberia, porque não reparou direito.

– Oi, tudo bem com a senhora? Lembra de mim? Comprei uma maçã do amor mais cedo... Estava com a menina mais linda do mundo, lembra? Por acaso a senhora viu a Mônica, minha namorada?

A garganta da velha parecia entalada com um sapo.

Uma das crianças se aproximou da barraca:

– Já está pronta, Brunilda? Vim correndo... – olhou DC de cima a baixo, com desdém – O que ele está fazendo aqui?

– Ele veio pela garota... – Brunilda ficou de costas, fingindo procurar algum tempero na estante.

– A garota? Golias a levou para o escritório do velho. Sabe como é: Sr. Dante manda, o gorila obedece.

– E onde fica o escritório dele? Por que a levaram para lá?

– Ah, garoto, tá vendo aquele trailer ali no fundo, é o escritório do velho, qualquer assunto é para tratar com ele. Sei de nada não...

DC não esperou mais informações ou avisos, correu até o local indicado pela criança. Alguns integrantes do circo que agora aproximavam do cubículo da velha a fim de tomar do caldo estranharam a presença do rapaz. Não tinham outra reação que não o espanto, ninguém tentou impedi-lo, ninguém queria confrontá-lo. Seria impossível a entrada de qualquer pessoa de fora, afinal a barreira mágica impediria o acesso, concluiu DC... Discutiam em murmurinhos, enquanto o jovem fazia o caminho até o trailer do proprietário do circo. Não seria mais do que um mal-entendido, e os dois estariam a caminho do Limoeiro em poucos minutos. A parte mais difícil seria convencer a namorada a não quebrar tudo em forma de retaliação, mas DC faria seu melhor para segurar a mão dela e lembrá-la da importância de voltar logo para casa...

Passando por eles, DC sentia o quanto todos estranhavam sua presença ali, cochichavam com a voz baixinha, apontavam para ele, olhavam-no espantados e confusos. Não era a recepção mais amigável do mundo, mas DC já estava acostumado a ser o peixe fora d’água para os outros. Por isso, apenas sorria de volta para quem cruzasse seu caminho. Corriam dele, temerosos, surpresos. O que era de fato novidade para o rapaz, afinal ser esquisito era natural para ele, mas não era assustador... No mais, procurou ignorar e focar em sua missão: ele estava ali para levar Mônica para casa, afinal ela tinha de voltar o mais cedo possível se não quisesse levar bronca do pai. Olhos espantados, ora esbugalhados, seguiam-no, o que era um pouco incômodo, mas suportável. Devem ter medo de pessoas de fora, aprendeu que determinadas comunidades nômades, marginais da sociedade, criam laços fortes entre os indivíduos para o bem comum do grupo e tendem ao preconceito em relação aos de fora como proteção de seu modo de vida, costumes, identidade. A velha e familiar xenofobia...

De frente para o trailer, sentiu um arrepio na espinha. Era um dos caixotes mais largos, com uma escadinha na frente e uma janelinha. Pintado de preto, tinta descascando, era um dos vagões mais mal descuidados e velhos. A porta era de madeira também, mas parecia mais grossa e carunchada. Não condizia com um rico dono de circo famoso nem de um poderoso mago, destoava até mesmo dos outros carros. Isso pouco importava. DC achou bom bater à porta antes de forçar a entrada. O homem-gorila atendeu. Passado o constrangimento e a surpresa inicial, DC iria pedir para ver o proprietário quando ouviu alto Mônica gritar e o barulho metálico o distrair.

– Quem bate, Golias?

O gorila na porta hesitou, paralisado ante a imagem do rapaz. Segundos depois veio um mico ligeiro, pulando entre os móveis do carro para ver quem estava na porta. No ombro de Golias, o pequeno animalzinho soltou um grito estridente.

– Ah, sim, deixe-o entrar.

Apesar da hesitação, o homem grande que bloqueava a porta deu passagem ao rapaz. DC sorriu e agradeceu. No interior, o carro era extremamente claustrofóbico. Havia muitos móveis encostados na parede: gaveteiros, estantes, um assento acolchoado encoberto por uma porção de lixo. Havia coisas demais espalhadas por todos os cantos: estátuas, bijuterias, livros, panos, papeis, velas, coisinhas de decoração, quinquilharias indecifráveis... No canto à direita, a mesa do velho iluminada por uma lâmpada amarela e bem ruim. A pequena luminária jogava aquela luz fraca por cima dos vários materiais de escritório com os quais o velho parecia trabalhar, mas em cima da mesa só havia papeis em branco, notas de dinheiro jogadas à revelia, nada parecia ter realmente importância. Olhando para o homem atrás da cadeira, DC não conseguia decifrar o rosto dele: a sombra da cartola, o enquadramento dos cabelos e a parca luz não tornavam visível a face do velho. O salto do mico interrompeu o encarar do rapaz. Ao lado dele, uma gaiola esguia para apenas uma pessoa de pé. Dentro dela estava Mônica vestindo o collant da apresentação e correntes nos pulsos. DC reparou também que a garota tentava falar, mas a boca tinha algum tipo de fita que a impedia.

– Sim? – o velho foi o primeiro a dizer.

DC não soube de imediato que dizer. Focou o olhar no velho.

– Que apresentação magnífica do seu circo, Sr. Dante! Foram todos maravilhosos, que espetáculo tão bem articulado, que grupo fantástico... Todos os números foram de tirar o fôlego... Eu vim aqui, porque queria um emprego no seu circo incrível!

DC evitou de olhar para Mônica. A face da garota tinha se contorcido em uma odiosa carranca. Era inacreditável o que ela tinha acabado de escutar da boca do namorado. Se não fosse o tampão na boca, ela teria gritado a plenos pulmões toda a raiva que borbulhava na veia. Ela sabia que DC não era normal, mas a ponto de querer trabalhar para o raptor dela?! Que brincadeira de mau-gosto era aquela?!

– Não tem trato, garoto, você não me serve para nada... – o velho ia gesticular para Golias tirar DC de lá, quando o ouviu mais alto:

– Aí que o senhor se engana, Sr. Dante! – corajoso, DC bateu com a mão na mesa do velho – Pode não parecer, mas não sou um garoto normal, tenho certeza que tenha de especial para agregar ao seu circo, sei que posso te surpreender! Aprendo rápido o que for, sei fazer acrobacias, sou bem ágil e resistente...

– Sempre tem espaço para mais um palhaço, certo? – o comentário jocoso do homem-gorila atrás de DC recebeu o olhar frio do proprietário, como forma de repreensão.

– Não vejo como você seria útil, rapaz... – o velho riu – Mas vejo que você não aceitaria um não como resposta, não é? Alguém deve ter um serviço para você, uma vassoura para varrer, uma roupa para lavar... Se ao menos ainda tivéssemos os elefantes, aí sim eu saberia onde empregar seus inúmeros talentos... Dito isso, junte-se a nós, tenho certeza que alguma alma caridosa precisará se sua ajuda... – o sorriso do velho se alargou, quase cruel.

– Agradeço a oportunidade, Sr. Dante, não vai se arrepender! – ele pegou na mão do velho e balançou animado.

O sorriso inocente no rosto do namorado fazia o sangue de Mônica ferver ainda mais, sentia vontade de se livrar daquelas amarras, gritar com ele e socar o rosto dele até que não sobrasse um dente na boca dele. No entanto, era a primeira vez que a força dela parecia não significar nada. Sentia algemas nas mãos e nos pés além da boca fechada. A jaula onde a prenderam era pequena demais, visualmente ridícula para sua estatura e, apesar de serem apenas grades, sufocante. Golias conseguiu carregá-la com muita facilidade, sem nem ao menos sentir o impacto dos golpes que ela tentava inferir contra ele. Por mais que jogasse o corpo contra as barras, não se moveram. Nada sucumbia à força dela e Mônica se sentiu fraca, inútil. Invisível quando seu namorado saiu sem nem pedir por sua liberdade...

– O senhor tem certeza, Sr. Dante? O moleque...

– Golias, não há mal algum de deixar o garoto aproveitar o tempo... Afinal vamos ter que repetir a apresentação... Ele não estará no palco antes de terminar o espetáculo, garanto. – o sorriso do velho parecia mais gentil que assustador, ainda que carregasse uma sombra.

Dois toques na porta. Sem esperar resposta, DC escancarou a porta que havia acabado de encostar, não havia nem um minuto. Apenas parte do corpo tinha entrado no trailer, apoiando o peso na maçaneta. Encarou as quatro figuras que o observavam atentos, anunciando:

– Ah, o jantar está pronto. Brunilda estava chamando todos para comerem. Não demorem se quiserem evitar as raspas no fundo da panela. Se não me engano é caldo de mandioca. E parece muito gostoso. – novamente o sorriso amigável no rosto dele, como se não estivesse contrariado com toda aquela situação ridícula, como se não a visse ali presa. – Ela está chamando todo mundo, afinal todos vão precisar de energia para o próximo espetáculo, né?

Ante o comentário dele, o velho sorriu. Concordou que o jantar seria a melhor ideia. Pediu à Golias que levasse Mônica. O movimento a fez titubear dentro da gaiola. O dono do circo ia na frente, seguido pelo homem-gorila. DC vinha logo atrás, para se certificar de que Mônica estava bem. A jovem o encarava com um ódio quase palpável. Ela focava em segurar nas barras para se manter de pé e equilibrada dentro daquela armadilha. Por isso era fácil para ela ignorar o olhar de pena que o namorado lançava para ela. Sorte dele que a boca dela estava fechada, ela tinha muitas coisas para dizer para ele.

Junto ao restante do grupo, viram a mesa estendida e todos sentados em volta. Golias colocou a gaiola no chão de forma bruta. O impacto incomodou Mônica, mas ela resistiu. Sr. Dante pôs-se entre os dois, uma mão na grade e a outra no ombro de DC, e anunciou os novos integrantes: Mônica, a jovem bela que se transforma em uma fera; e o novo faz-tudo do circo. Brunilda foi a primeira a perguntar se ele tinha certeza. O silêncio do velho veio acompanhando de um sorriso condescendente, o que inibiu qualquer outra pergunta. Ofereceu DC um lugar para se sentar, afastando-o de Mônica, que os observava com raiva e vergonha. O olhar dos outros sobre ela, vestida com aquele collant ridículo e presa...

Todos comiam. O constrangimento inicial deu lugar a uma agradável recepção. Havia acolhimento nas palavras dos integrantes de circo, ainda que se limitam a DC. Para Mônica, só o isolamento da jaula. Sr. Dante sentou-se na ponta da mesa, a poucos passos da jovem. As duas mãos enluvadas do velho apoiavam-se na bengala. Ele observava a todos sem se servir de um prato. Todos partilhavam de pão, talheres, pratos, numa confusa troca solidária. O mico saltou do ombro dele ia pulava pela mesa, procurando comida, cutucando alguém. As brincadeiras e conversas tolas preenchiam o frio daquela noite.

Brunilda aproximou-se do velho com um prato, mancando um pouco. Golias, que já tinha suavizado a carranca, foi gentil e perguntou a ela se queria se sentar na cadeira ao lado do Sr. Dante, onde ele estava sentado, mas ela recusou agradecida. O olhar dela recaiu sobre Mônica que recuou no pequeno espaço. A velha sorria com a boca meio desdentada, gesticulando que trouxera um prato de comida para a garota.

– Duvido que ela vá comer, Brunilda. – a voz séria do Sr. Dante obrigou a senhora encará-lo pelas costas.

– Você diz isso porque a garota prometeu greve de fome ou você não pretende descosturar a boca dela, Dante? – o sorriso dela não tinha a mesma simpatia antes. Burburinhos.

– Se agora ela é a mais nova integrantes do circo, então é da família, não? – DC falou antes de encher a boca com uma colherada – É assim que o senhor trata membros da sua família?

– Nem imagino como ele trataria da sogra... – brincou um integrante no meio dos cochichos.

– Ora, Dante, a garota precisa comer, saco vazio não para em pé, como dizia minha avó...

O velho abaixou a cabeça, deixando escapar um risinho. Com um estalar de dedos, a costura que matinha a boca de Mônica fechada sumiu. Ela até deixou escapar um grunhido assim que se viu livre.

- Também não vejo necessidade das mãos estarem atadas se ela precisa ter alguma mobilidade. – novamente a velha provocou.

Com um estalo as correntes se abriram. Mônica não tinha palavras. A caridade da senhora havia a comovido a ponto de não pensar mais nas pessoas ao redor. Aceitou o prato, afinal já sentia o estômago roer de fome. Com a boca cheia, agradeceu à senhora que a olhava com carinho.

Por sua vez, DC parecia muito satisfeito ao se enturmar. Como um fã, ele perguntava sobre o espetáculo. Queria saber dos segredos que o circo escondia: como um trapézio aparecia do nada. Ora, as barras se escondiam nas treliças da tenda. E as plantas? Sementes de feijões mágicos, vindas do próprio João. Os trapezistas no ar não poderiam ser apenas o trio, parecem um grupo maior... Seriam espelhos? Na hora dos rodopios, as roupas largas parecem fantasmas voando do lado... E a cabeleira mágica? Ora, ela nasceu assim, apesar de que o cabelo teve de aprender malabarismo... O entusiasmo dele contagiava e os integrantes o acolhiam como se ele fora um antigo amigo. Até que alguém o perguntou se ele não queria ir para casa, se não está com saudade...

– Não, que isso? Esse circo é perfeito para mim... – a resposta dele fez Mônica olhá-lo de volta atordoada e surpresa, quase engasgando com o caldo – A única coisa que eu queria fazer é ligar pro Nimbus, ele term que ver esse circo, ainda mais sendo um mágico de meia tigela... Mas não tenho celular.

– Duvido que fosse ter alguma serventia, garoto.

– O sinal aqui é péssimo?

Risos sem respostas.

– Que tal tomar uma com a gente, garoto? – um dos gêmeos convidou-o.

– Nada disso, Alexandre, ele é de menor. – a malabarista o repreendeu.

– E o próximo espetáculo? Vai ter ensaio no picadeiro? – perguntou DC.

Alguns riram.

– É sempre uma surpresa no Espetacular Circo do Sr. Dante.

– E acho que já tivemos bastante emoção por uma noite. – decretou o velho levantando o corpo apoiado na bengala. O mico cruzou a mesa e posou novamente em seu ombro.

O restante do grupo recolheu aos poucos os talheres e os pratos que estavam na mesa. Mônica terminava o caldo enquanto Brunilda, sentada na cadeira providenciada por Golias observava a jovem. Sr. Dante se reteve um pouco na frente das duas, reparando no olhar raivoso da jovem. Sem uma palavra, bateu com a bengala na grande, e num passe de mágica a gaiola pequena transformou-se num quadrado maior, com um travesseiro e um cobertor dobrado em um canto. Retirou-se sem dirigir mais uma palavra sequer.

Não demorou para Mônica terminar de comer. Os outros já tinham ido fazer suas atividades, apenas Brunilda tinha ficado próxima. Agradecida, a jovem entregou o prato e a colher para a senhora à sua frente. Perguntou curiosa se estavam todos ali do circo. Por algum motivo, a imagem do Fauno surgira em sua mente, mas não havia nenhuma pista de sua presença.

Uma das crianças que passava por ali ainda com a máscara de bicho deixou escapar um riso.

– Não tem fauno... – disse antes de correr para se juntar às outras.

Incrédula, Mônica repetiu a pergunta à bruxa, que encarava o prato nas mãos, com uma expressão indecifrável. Sorrindo de forma triste, ela respondeu:

– Alguns usam máscaras, querida, faz parte do show. A aranha tece a teia conforme acha que vai pegar moscas... Só sai da cortina o que se quer mostrar.

A velha bruxa saiu, deixando Mônica desolada com mais perguntas do que respostas. Ela também não entendia o que estava acontecendo. Uma parte de si queria encolher até sumir. Outra buscava no próprio abraço conforto. Cobriu-se com o cobertor, deitando a cabeça no travesseiro para conseguir abafar as lágrimas. Ela queria voltar para casa, queria pedir desculpas ao pai por ter ignorado os avisos, por ter minimizado o perigo... Queria que o celular estivesse ali para atender a ligação do Cebola, se é que ele insistiria em ligar... A teimosa era ela, e agora também as lágrimas que caíam do rosto...

Alguém se aproximou da jaula. Agarrada nas cobertas, a jovem se recusava a olhar de volta. Apertava os olhos, queria afundar o rosto no travesseiro, porém tinha um cheiro de perfume barato ou de alguma coisa velha guardada por muito tempo. Escutou um toque singelo na grade. Seria DC? Ele não ligava para ela. Já devia ter feito tantos amigos por lá que se esqueceu da namorada... O barulho persistiu, alguém queria chamar sua atenção. Mônica então levantou o rosto, esfregando de leve o rastro de lágrimas.

Na sua frente, o palhaço que tinham encontrado antes. A roupa dele era preto e branca, o que antes ela não havia notado... Ele ainda estava maquiado, mas não havia o sorriso falso que marcava o rosto mais cedo. Uma lágrima desenhada expressava bem a consternação. O que ele queria? Mônica perguntou com raiva. Humilde, ele esticou os braços na direção dela, oferecendo de volta os bichinhos de pelúcia que tinham ganhado mais cedo. Ela desceu o olhar, fez uma força enorme para não chorar. Aceitou hesitante o gesto, esticando as mãos.

Delicado, ele arremessou o coelhinho e a girafinha dentro da grande. Mônica os pegou e involuntariamente os apertou contra o peito. Que decepção tinha sido aquele dia que parecia tão legal... Viu o palhaço sorrir mesmo com a maquiagem triste. Agradeceu-o, e voltou a enroscar-se nas cobertas, frágil, apertando os brinquedos contra o peito como fizera incontáveis vezes com Sansão. Ele parecia satisfeito de vê-la parar de chorar. Os olhos negros e doces do palhaço a encaravam e por algum tempo ela se perdeu neles, pois os reconhecia de algum lugar e gostava tanto deles... Aos poucos o sono foi a tomando, devagar e sorrateiro, sob a luz do luar de uma lua de papel.