Circo Macabro (remake)
1 Enfim dias normais
Bateu o sinal escolar naquele começo de tarde ensolarado e gostoso. A brisa amena que passava não deixava ficar nem quente demais, nem frio demais. O sol bonito brilhando no topo deixava o dia tão feliz, tão diferente daquele feriado pavoroso em Sococó da Ema. Como um dia qualquer, a turma se encontrava na saída da escola. Como o mesmo tom de sempre, Mônica reclamava da aula chata do Licurgo, um tanto brava demais para ser contida. Magali contemporizava sem querer contrariar a amiga, afinal Mônica não era fácil de controlar. Cascão e Cebola estavam por perto, concordando com as impressões revoltadas da amiga.
– Aula chata do Licurgo, desta vez ele se superou mesmo. Nem me lembro direito o que ele explicou hoje. Pra falar a verdade, não consegui entender o que ele passou nas últimas aulas... – Cascão declarou um tanto decepcionado consigo mesmo.
– Está acontecendo isso comigo também! – a voz de Mônica se elevou um pouco – Eu presto atenção, mas a matéria não entra na minha cabeça, parece grego... E a gente aprendeu grago no mês passado! Corro o risco de ir muito mal na prova surpresa marcada para semana que vem.
– Bem, se você precisar de ajuda com a matéria, Mô, pode contar comigo. – Cebola se ofereceu com um sorriso amigável.
Antes que ela pudesse responder, escutou DC gritar a alguns passos atrás, vindo da biblioteca depois de entregar o livro sobre o comportamento das capivaras.
– Galera, saudações! – DC cumprimentou todos com um sorriso escancarado antes de abraçar a namorada e dar um selinho nos lábios dela – Que aula legal, né? O Licurgo bateu o recorde desta vez. Nunca me diverti tanto. Mal posso esperar para revisar a matéria.
– Se fosse outra pessoa, eu não acreditava. – brincou Cascão, não contendo o risinho.
– Sorte a sua, então, docinho, eu não entendi nada. O Cebola até ofereceu de me explicar a aula de hoje.
– Perfeito! Podemos revisar juntos, não? Vou adorar estudar com vocês hoje.
– Hoje? Ah, esqueci... – Cebola desconversou – Hoje não vai dar, desculpa, Mô, esqueci que eu combinei com meus pais uma coisa...
– Na verdade, ele esqueceu de combinar com os pais a desculpa que ele ia dar. – Cascão cochichou com Magali, que pôs a mão na boca para conter o riso. Cebola só revidou com um olhar mortal.
– Tudo bem então, Cê, fica para a próxima. – Mônica se virou para DC – Somos eu e você, garoto, para revisar a matéria toda, espero que você saiba me explicar.
– Prometo dar meu melhor, capitã! – DC bateu continência para a namorada, que apenas balançou a cabeça e mordeu os lábios para conter o sorriso bobo.
– Então vamos indo. – Mônica pegou a mão do namorado e se despediu dos amigos com um aceno eufórico.
O passo apressado que ambos tinham fez com que se afastassem logo do grupo. O plano era irem para casa dela, almoçar o que Dona Luísa deixou pronto no forno e ir direto para a sala estudar. O pai tinha proibido o quarto dela como área de estudo. Mônica achava a regra boba, mas obedecia ao pai. DC não se importava, até preferia assim, afinal não queria comprar briga com o sogro. Para evitar conflitos, às vezes é necessário acatar regras bobas. Andando mais uns passos, ele soltou um suspiro:
– Uma pena o Cebola ter um compromisso hoje, né? Teria sido legal ele ter vindo...
– Você queria mesmo que o Cebola viesse com a gente? – as sobrancelhas curvadas da garota deixavam claro sua surpresa.
– Claro, por que não? Ele é um ótimo aluno, ia explicar a matéria direitinho para gente. E tem mais, altas coisas legais acontecem quando estão vocês juntos.
– É, principalmente plano infalível... – ela revirou os olhos.
– Eu queria participar mais dessas aventuras incríveis com vocês... Nada acontece neste bairro. Se eu tivesse viajado com vocês...
– Não tinha espaço no carro, DC, já disse. – a voz incisiva de Mônica foi como um corte. Seco.
– Eu sei, Mô. – o olhar dele caiu para o chão, pensativo.
– Você queria ter ido ou só está com ciúmes por eu ter viajado com o Cebola? – ela provocou com um sorrisinho bobo.
– Não, sem ciúme.
Mônica soltou da mão do namorado, brusca.
– Aff, DC, parece que você não se importa comigo... – fez um bico infantil, tentando disfarçar o desconforto das emoções sem nome em seu peito – Não se incomoda de eu viajar com o Cebola, nem liga se alguém der em cima de mim...
DC aproximou-se dela por trás, abraçando-a de forma a conter a garota. De forma confortante e segura, como um travesseiro.
– O que eu posso fazer, Moniquinha? Como eu posso discutir com o bom gosto de alguém? Eu super entendo quem achar você linda, maravilhosa, não tem como eu discordar da pessoa. E ficar com raiva do óbvio? Não faz sentido, né? Além do mais, você me escolheu, não? Se você quer ficar comigo, não tem porque eu ficar com medo de você me trocar por outro, certo? – a voz do rapaz carregava um tom de insegurança mesmo que as palavras saíssem de sua boca com determinação e certeza.
Mônica não soube o que responder.
– Além disso, não é justo eu querer monopolizar você e com isso afastar você dos seus amigos. Não quero te obrigar a escolher nenhum lado, isso seria tão chato, amor...
Desvencilhado do abraço, Mônica virou o corpo para encarar os olhos do namorado. Deu um soquinho de leve no ombro dele.
– Você não está separando ninguém, DC. Tem horas que os namorados querem ficar a sós também, é normal, esqueceu?
O garoto sorriu de volta, mostrando todos os dentes. Normal não era o forte dele. Os dois sabiam disso.
– Não vou contra-argumentar, gosto muito quando ficamos só nós dois... Você é uma aventura em si. Te ajudar com a matéria é tão perigoso, Mônica Souza, que chega a ser missão suicida. – uma gargalhada boba irrompeu da garganta dele.
– Besta! – a garota revidou com um outro soquinho, agora não tão leve, no ombro dele.
DC roubou um selinho dela antes de puxar a mão de Mônica e guiá-la em direção da casa dela. Ela se sentia meio abobada naquele começo de tarde. Tão normal, tão banal e ao mesmo tempo tão bom. O sol a pino, quase na hora de almoço, brisa amena a brincar com alguns fios de cabelo. Continuaram andando pelas ruas, agora lado a lado, um acompanhando o passo do outro quando DC percebeu um cartaz no poste.
Papel tipo jornal, barato, afixado com aquela antiga cola meio amarelada que deixou marcas no poste. DC achou o máximo as cores gritantes do cartaz, impresso em linogravura. Ele reconheceu a impressão graças ao curso que fez no último fim de semana para passar o tempo e distrair da saudade da namorada. Anunciava o “Esplendoroso Circo Magnífico das Incríveis Criaturas do Senhor Dante onde o impossível, vestido de sonhos, é a estrela no palco das ilusões. Venha se maravilhar com aquilo que encanta as estrelas. Apresentação imperdível. Única noite. Bairro Limoeiro, rua das Camélias, terreno baldio emprestado. Às 21h. Se este cartaz te encontrou, esteja convidado. Não perca a chance de se entregar às maravilhas. Imperdível!”
– Olha, Mô, que interessante! É disso que estamos precisando!
– Circo, DC? – a cara dela se contorceu em descrença – Isso não é um programa meio... infantil, não?
– Talvez... Sim. Admito. Circo pode ser coisa de criancinha, e talvez seja bem demodê. Não são mais comuns de se ver por aí, né? Não têm mais público... Quando foi a última vez que você foi a um circo? – antes que ela respondesse, DC colocou o dedo na boca dela – No entanto, Srta. Souza, é um programa para todos os públicos... Deve ter atração para todos os gostos, inclusive o meu. E a senhorita sabe o quanto isso é difícil.
Mônica não conteve o riso. Certamente, agradar o namorado era difícil, para não usar uma palavra mais pesada. E de fato ir ao circo seria um dos programas menos insuportáveis e enfadonhos que ela teria de suportar para ver aquele sorrisinho que aquece o coração dela. Uma noite com palhaços, malabares e um punhado de pipoca não era uma má ideia.
– Vou chamar então a Magali... Talvez o Cascão queira ir também...
– Sim, vamos com a turma toda! Vai ser muito divertido!
O entusiasmo de DC era contagiante. Tirou foto do cartaz para mandar para Magali. Sugeriu à amiga de levar Quim, afinal ela vivia reclamando que ele trabalhava demais... Cascão também gostaria de ir, talvez não com a Cascuda, já que ela era outra focada em trabalho e escola, sem tempo para diversão infantil. Cogitou por uns instantes chamar o Cebola, porém desistiu. O rapaz estava tão chato ultimamente que seria difícil ele aceitar um convite para o circo com DC. Se um não queria monopolizá-la, o outro não sabia dividi-la. Guardou o celular logo que mandou para os dois amigos a mensagem. Voltaram a caminhar, prestando atenção ao que DC imaginava que teria o circo maravilhoso: focas falantes, trapezistas trogloditas que trepavam em tiras finas de cipó, ou ainda malabaristas que manipulavam motocicletas de metal maciço...
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