Circo Mágico

1 Bravura Indômita


Notas iniciais
Boa leitura.

Circo Mágico

Capítulo 1 — Bravura Indômita

Hans consegue se lembrar de como seus pais e irmãos o apoiavam e o ajudavam quando precisava sair para caçar, cantar para a natureza, curar um animal doente ou reviver uma planta morta.

Todos de sua família e conhecidos são elfos, criaturas mágicas que são capazes de enormes feitos. Mas não são as únicas criaturas mágicas existentes: há também as fadas, ninfas, sereias, lobisomens e muito mais seres que se revelaram ao mundo depois de anos.

No início, os humanos ficaram relutantes em aceitar que havia outros seres vivos que coabitavam os mesmos lugares que eles. Criaturas que eram mais fortes, belas, inteligentes e outras que poderiam facilmente ser seus predadores. E até incluírem leis e respeitarem seus novos vizinhos, muitos morreram em revoltas e protestos por causa da xenofobia e do medo de morrerem nas mãos de possíveis predadores. Seus pais testemunharam muitos atos cruéis que ocorreram entre as diferentes raças existentes, e também sofreram com a perda de um de seus filhos numa dessas batalhas.

E depois de alguns anos, Hans e seus irmãos vieram ao mundo. Um lugar que estava devastado pelas ambições humanas, mas que ainda sim possuía seus encantos. E ele amou tudo o que viu e todos: os primeiros raios de sol que iluminavam e acolhiam as almas viventes com seu calor aconchegante — observado por ele da janela de seu quarto ou de cima de uma árvore -, o canto harmonioso das águas quando se encontravam com as pedras e seguiam o curso do rio ou ainda as belas vozes de algum ser místico que por ali se escondia dentre as árvores ou montanhas.

E, por uma ironia do destino, ele agora estava encarcerado em um lugar desconhecido, porém repugnante, onde não havia mais os raios de sol, os animais, o curso da água ou seus pais. Nada mais que já conhecera em seus anos de juventude encontravam-se ali com ele. Era a primeira vez em muito tempo que se sentia sozinho. E com medo.

Sua visão de elfo podia ser apurada, e é melhor do que a de mortais; entretanto seus olhos esmeraldas quase não conseguem distinguir as paredes frias e constituídas de pedra ou as algemas que se encontram em seus pulsos e tornozelos, esta última ligada a um ferro preso na parede. Pequenos buracos no teto fornecem uma pequena fração de luz lunar que pouco ilumina o ambiente no qual ele e outros estão acorrentados.

Suas orelhas captam o som de passos vindo em direção a eles e o deixam alerta. Com muito esforço, Hans tenta se levantar, quase caindo duas vezes durante o lento processo. Ele está fraco e com dor. E sabe que o pior ainda está por vir.

A porta se abre e três humanos passam por ela e se prostram diante deles com um sorriso malicioso. O loiro deixa um grunhido fraco escapar de seus lábios, um som que somente os imortais ou seres místicos escutaram. Seus orbes são vendados, assim como dos outros.

Eles os puxam pelas correntes e os conduzem para fora do subterrâneo, como se fosse algo normal. Porém, Hans sabe que aqueles seres de carne fraca já perderam a moral e a noção de certo e errado há muito tempo, quando decidiram trabalhar com algo tão desumano quanto aquilo.

E em pouco tempo, Hans percebe que já chegaram ao lugar, pois sente a mudança de ambiente ao ter passado da grama com os pés descalços e parado no chão de piso gelado. Imediatamente, o pano que obstruía sua visão foi retirado e levado pelos homens. Somente ele e os outros imortais (ou quase imortais) estão ali com ele, algo que só nota porque consegue ouvir as batidas descompassadas dos corações de cada um ali. Está escuro e aquilo só serve para aumentar seu nervosismo.

E, em um milésimo de segundo, os holofotes se acendem e o lugar é iluminado, cegando temporariamente Hans, que olha para baixo no mesmo instante. A enorme plateia é revelada e eles são a atração principal da noite.
Uma voz grossa e masculina é emitida pelas caixas de som que estão espalhadas pelo circo:

–– Senhoras e senhores, sejam muito bem vindos ao Circo Mágico. Hoje seus maiores desejos serão realizados com a presença de nossos belos e graciosos atores, que estão muito empolgados.

Hans está ultrajado. Empolgados em serem expostos como meros objetos? Eles eram até proibidos de se pronunciarem! Outro grunhido irrompe pela sua garganta e ninguém nota. Toda a atenção está voltada para aquela voz.

–– Hoje teremos uma participação especial de nosso licantropo e as belas ninfas.

Oh não, o licantropo? Hans gela com o que o dono daquele doentio circo diz. O licantropo conhecido como Gunsche é um ser terrível e maldoso, viciado em fazer outros sofrerem e ter a atenção para si. Gunsche já matou muitos elfos e outros seres mágicos ali, naquela mesma arena.

–– Sentem-se e fiquem à vontade, senhores. Aproveitem o show.

E assim que nenhum som mais saía, as pessoas sentadas nas confortáveis poltronas ao redor da arena começaram a gritar de forma entusiasmada. Hans mira seus companheiros e vê que todos começaram com a apresentação. Ele também é obrigado a participar, contudo seu estômago parece se contorcer em agonia ao pensar no que teria de fazer.

Um dos guardas o olha de modo indagador e o aponta uma bela vampira. Hans sabe o que tem de fazer, no entanto, se recusa e permanece imóvel. Seu olhar se volta para os guardas armados e eles o ameaçam; e mesmo assim se recusa a participar de algo tão nojento.

Os homens que servem o dono do circo se voltam para ele e franzem a testa e gesticulam em direção a vampira. Hans reconhece cada ser mágico que está ali presente participando da orgia, algo realmente doentio, mas que os humanos adoravam ver e gastavam muito dinheiro com isso. Hans se recusa a ser como eles e fazer sexo com ela, ainda mais sendo para outros verem e aplaudirem.

Hans mira todo o ambiente ao seu redor e tenta fugir, todavia, os guardas o seguram e o espancam fortemente com os objetos em suas mãos. O jovem elfo cospe sangue e tenta se revirar no chão e se desvencilhar dos ataques, mas não consegue: seu corpo protesta contra os movimentos. Seus músculos ardem e som de ossos se partindo são ouvidos por ele, que emite um guincho de pavor. O coração está disparado e a intensidade da batida do órgão faz o elfo pensar que seu peito irá se romper a qualquer momento.

Quando o rapaz fita a plateia, sente nojo e repulsa por tais pessoas, ainda mais por uma moça que o observa chocada – ou é o que imaginou que fosse. Ele odeia tais humanos, e ela por vê-lo naquele estado lastimável e ainda sim não fazer nada.
Ele lhes deseja a morte. Uma lenta e dolorosa morte antes de sucumbir à inconsciência acarretada pelas lesões e dores que se apoderam de seu corpo.

Ao despertar de um sono sem sonhos, Hans sente que suas pernas estão um pouco dormentes pela posição em que dormira. Os músculos do braço e peitoral são os mais feridos e os únicos que mais lhe incomodam. Respirar é algo complicado e que exige muito esforço para fazer o ar entrar e sair corretamente de seus pulmões.

Ele só percebe que ainda é noite quando se levanta e vê frestas de luz lunar vindas de uma rachadura no teto do cativeiro em que o mantinham. Há quanto tempo ficou inconsciente? Não havia outros seres místicos ali, então ainda devia estar ocorrendo o show mágico. Talvez já tivesse passado das 2h00...

Sua audição apurada capta o som de passos sutis e o ranger da porta de metal que é aberta aos poucos. Com seu olfato, consegue detectar o cheiro humano que emana daquele corpo quente e estranho; mas sabe que é uma mulher pelo perfume adocicado. Ele rosna baixo e seus orbes miram a figura que se revela nos filetes de luz que ousam iluminar o ambiente. Com raiva e indignação, o elfo nota que aquela mulher é a mesma que estivera na plateia o observando enquanto lhe desferiam surras e palavrões ríspidos, prosseguidos de cuspes. Enfim, tinha sido humilhado e ela não fez nada; apenas estampou em sua face o horror por ter presenciado a cena.

Maldita...

Parecendo alheia a irritação do elfo, a moça se aproximou; seus olhos chocolates inocentes e desprovidos de maldade brilhavam com singular tristeza. Porém, não esperava que ele tentasse a atacar, e só não ficou ferida porque a corrente que o prendia o puxara para trás. Ela ofega e recua dois passos cautelosos. Senta-se de forma desajeitada no chão e o mira com lágrimas nos olhos, que não demoram a rolar pelo rosto.

–– Eu sinto muito. –– ela sussurra num fio de voz, contudo, o tom é cheio de melancolia. Soava sincera aos ouvidos do homem.

Sentir muito não mudaria nada e não o tiraria dali. A culpa poderia a consumir e devorar seu âmago, porém do que adiantaria sentir isso se ela estava ali e não em algum lugar denunciando aquele submundo desprezível que criaram? Na verdade, ele até compreendia o porquê dela não tentar: as autoridades não ligariam; até aprovariam talvez, e o ciclo de sequestros, destruição da dignidade dos seres vivos e o sexo continuariam. Além do mais, desconheciam a extensão daquela rede de tortura e sadismo e os indivíduos poderosos que estavam por trás de tudo aquilo. Era perigoso arriscar e muito fácil morrer com um ato mal calculado.

–– Por favor, deixe-me ajudá-lo. –– ele ouve a voz doce e preenchida de amargura ressoar pelo recinto. Deveria ou não confiar em alguém como ela? Se bem que, já estava cansado de sofrer naquele lugar e apanhara muito, outra surra ou traição de sua confiança não importaria muito agora que não tinha forças para se defender, muito menos ânimo para tal.


Com um suspiro resignado, meneia a cabeça e permite que a jovem se aproxime. Ela poderia facilmente mata-lo daquela distância que os separava com as próprias mãos delicadas e hesitantes que eram direcionadas a si; entretanto ela o surpreende quando inicia a acariciar seu rosto magro e retirar algumas madeixas do cabelo que insistia em pender sobre seus olhos.

–– Permite-me cuidar de suas feridas?

Ele a fita curioso com a pergunta que fora feita, todavia, faz um gesto que indicava que lhe daria permissão para que o fizesse.
Com uma saída rápida, ela retorna trazendo panos e uma pequena caixa de curativos e analgésicos. Não demora muito para que aquelas pequeninas mãos dela limpassem o sangue, cortes e colocassem curativos em seu abdômen e rosto. Também o fizera tomar água junto de remédios que deveriam aliviar a dor em questão de minutos, o que era muito bem vindo pela parte do elfo.

Entretanto, não podia deixar de ficar espantado pela atitude dela, assim como a submissão que sempre era refletida nos orbes chocolates e na postura curvada dela, evitando o contato visual. Nunca esperou que algum humano demonstrasse compaixão ou tivesse alguma atitude nobre; mas ela demonstrou. E ele a considerou tola, embora no íntimo sentisse que poderia confiar naquele ser tão diferente de sua própria espécie desprezível.
Mal sabia que aquela noite mudaria o rumo de sua vida.

O tempo transcorreu de modo comum e ele não sabe se já se passaram dias ou meses depois da noite em que a conheceu e do dia em que o separaram de sua família. Tudo continua do mesmo modo de antes: de dia a solidão e a privação da comida; de noite o espetáculo sexual que é obrigado a participar. Reconhece que somente se encontra com sanidade quando a jovem vem cuidar dele, leva comida e conversa com ele depois das performances sexuais que desempenha. No restante do dia, tem a impressão de ver coisas que não existem, assim como ouvir, e trava um diálogo com essas sombras turvas que tomam o contorno dela.

“Está mesmo ficando louco, Hans”.

E ele tem de concordar com sua consciência. Talvez fosse a falta de alimentos somada ao isolamento que estivessem o deixando assim, totalmente perdido num redemoinho de apotegmas sem nexo; e que sempre o faziam buscar conforto naqueles amigos e parentes imaginários.

Ele se sente um pouco mais contente com a crescente amizade que se forma entre ele e a moça, que depois de muitos dias descobrira se chamar Louise. O laço que ambos compartilham transcende o comum afeto, e ele questiona se a relação dos dois já ultrapassou a linha imaginária que delimitava a amizade. Será que poderiam ser considerados como algo mais? Havia um nome melhor que pudesse atribuir àquele relacionamento estranho que se instalara no meio tempo em que trocaram palavras cochichadas nas noites gélidas e nos olhares ternos? Talvez houvesse, mas com a dor de cabeça que tinha e a impaciência pela demora da volta dela o impediam de continuar aquela linha de raciocínio que se formara do nada.

E é uma dessas noites em que compartilham a companhia um do outro que formam um plano de fuga. Uma tremenda loucura se parasse para pensar melhor, contudo a mente estilhaçada e o coração dolorido dele o fazem ignorar essa possibilidade e enterrá-la no fundo da mente, que só visitaria assim que saísse dali.

Existia a possibilidade de dar certo e saírem com vida, junto com a de morrerem tentando ganhar a liberdade, algo que o loiro sentia tremenda falta. Porém, fluía pelo seu corpo a vontade de batalhar pela liberdade que lhe arrancaram injustamente, acompanhada da ínfima esperança que se apoderava de suas veias nos monólogos que travava consigo mesmo. E com seus amigos imaginários, que somente serviam para confirmar que morreria insano naquelas condições em que era mantido, caso não sumisse dali logo.

E um acordo foi estabelecido entre Hans e Louise a respeito da fuga deles dali três dias, numa noite de inverno. Obviamente que se encontravam um pouco ansiosos com tudo aquilo e com o que aconteceria, afinal, nunca mais se veriam: deveriam seguir caminhos opostos para desviar a atenção de possíveis guardas e baixar suspeitas. Poderiam se encontrar algum dia num desses caminhos traçados pelo destino, no futuro? Ambos desejavam que sim.

Hans deita no chão gelado e úmido, ouvindo a respiração leve de alguns seres que dormiam pacificamente, enquanto outros arranhavam a pedra com suas unhas, perdidos em pesadelos sombrios relacionados ao que vivenciaram ali. E o loiro entendia-os muito bem, embora nunca tivesse trocado uma palavra com eles.

Com as pálpebras fechando-se e a mente esvaziando-se gradualmente de qualquer lembrança ou dos eventos do dia, Hans pensa no que o aguarda por trás da porta de metal. A primeira coisa que faria seria tragar o vento com energias renovadas e com um sorriso sincero. Finalmente teria como voltar para casa, e Louise faria o mesmo.

O quanto precisavam um do outro era visível, e era óbvio que a única coisa em que mentalizou antes de dormir envolvia a humana encantadora que se apegara. Afetuoso e passional, era o sorriso que se formara em seus lábios ao adormecer.

Hans amava a liberdade, assim como a mulher que a representava.

Notas finais
O que acharam do primeiro capítulo? (: Comentem, por favor, só assim saberei o que devo melhorar e no que me empenhar mais.