Circle

7 Capítulo VIII - A Verdade por trás do Círculo


Eu fui embora;

Vi tempos melhores ontem.

É difícil dizer;

Que tudo vai ficar bem.

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Tudo agora parece rodear minha cabeça, como um enigma que não irá se resolver, a menos que eu enxergue o outro lado e entenda tudo.

Estou deitado na banheira, a água quente contrasta com a temperatura da minha alma, mas me faz sentir alívio. A faca, gentilmente alocada na borda da porcelana, parece exibir marcas de sangue, cada vez que a encaro de forma finalizadora.

O espírito de Anne ainda está em volta, flutuando plasmática com o vento, aguardando o meu ato pagão. Não há pressão por ela, que me assiste enquanto cantarola uma canção e rodopia pelos cômodos do meu apartamento.

Fantasmas, com mais vida e prestígio do que eu.

Não há dúvida ou medo. Eu não sinto mais nada.

Os olhos que almejo são a única coisa que me atrevo a procurar, todavia, ainda não está no momento de vê-los.

Encaro isso como o meu ritual de partida, por isso, não posso acelerar as coisas.

Está na hora de fazer os dois cortes verticais em meus pulsos.

...

(corte)

...

É mais difícil cortar o pulso esquerdo, não pensei que poucos segundos de sangramento causassem tais vertigens. Isso é tão estranho.

...

(corte)

...

Está feito!

Será que eu deveria orar agora? Ou mesmo clamar por um Deus que eu sempre recusei? Quem sabe rezar pelo mesmo Deus de Anne, o sacro infinito?

Parece-me uma ideia tola, por mais que nada agora realmente pareça tolo.

Quanta hipocrisia, ou será... medo?

Não existe medo em mim. Eu ainda estou firme e inabalável, sem qualquer tentativa de voltar atrás.

Não sinto dores, ou qualquer coisa nesse sentido, só... vazio. É como se eu fosse nada no microcosmo, nem sequer matéria.

O sangue escorre pelos meus braços e transforma a banheira em água vermelha. A coloração do banheiro também parece escurecer, como os cantos da minha visão.

Pode ser só impressão minha, porém, não sinto mais o tempo passar. Nem os barulhos de Annebeth pelo meu apartamento.

Também não escuto o tique-taque do relógio na cozinha e, é bem verdade, que eu o sinto parando, como tudo a minha volta. Como se nada mais pudesse envelhecer ou perecer, estático, como numa fotografia perene.

Será que realmente existe um ritual para morte afinal?

Bem, se de fato existe, eu aguardarei aqui, e assim verei Anne. Meu único e grande amor...

Sam? Mãe?

Sim, eu não sinto qualquer dor (psicológica ou física), eu sinto o nada me preenchendo, o completo vácuo. Meu corpo se encontra em um ciclo de êxtase, findando em uma incomum... paz.

Já escutei antes uma frase que descreve esse momento perfeitamente...

“Agonia, êxtase, paz: Cada passagem tem sua própria beleza.”

Essa, talvez, sejam as passagens do círculo final da morte.

Assim, com isso, agora elas se apresentam a mim, como manifestação desse bizarro e intrigante ritual.

E então, chega a agonia:

Incompleto. É assim que se resume essa sensação. Não é algo que incomoda, mas sim algo que te torna incompleto. Como procurar amargamente pela peça final de um quebra-cabeça, e perceber que, sem essa peça, ele continuará sem sentido e você jamais poderá entender que imagem ou revelação ele pode te proporcionar. É tão agoniante chegar tão próximo do fim e não poder admirar a bela imagem final que se apresenta para nós. Porém, ainda assim, é lindo ver o quão longe cada vida chega, e lindo perceber a natureza tão imperfeita da existência que nos cerca.

Nada me faria implorar por vida novamente.

E esse é o significado de agonia – O fato de nunca conseguirmos completar os objetivos que nos fora dado no momento de nosso nascimento. É intrigante, contudo, perceber que podemos olhar a outros quebra-cabeças e, ao vê-los, identificarmos rapidamente a peça que lhes falta, e o que as imagens das vidas de outras pessoas nos proporciona. Interessante e sádico perceber que não sabemos como nos encontrar, como nos completar; mas conseguimos completar ao outro. Somos incompletos, mas completos suficientes para concluir outros quebra-cabeças que não os nossos, entende? Tão belo enxergar outras vidas; tão triste não enxergamos a nossa própria.

Incompleto, a agonia é o incompleto.

E agora, eu sinto o êxtase:

Vazio. Músculos, veias, artérias, batimentos cardíacos; o que é tudo isso de tão complexo? Estou tão perto de sentir os sons primitivos que o corpo faz ao evoluir ou... involuir. Relaxante, mortalmente relaxante. É como a ideia que tive há pouco, como se eu fosse apenas matéria no vácuo, existindo no microcosmo ou universo, sendo tudo e ao mesmo tempo nada, perdido eternamente no vazio. E não há caminho de volta por aqui... ah... não há mais nada para trás. Porém, isso não me faria recuar. É lindo perceber que é impossível retornar.

Nada me faria recuar do ponto em que me encontro.

E essa é a representação do êxtase – Um espaço vazio e infinito no vácuo, preenchido por um turbilhão de pensamentos desconexos, sem sentido, soltos aos quatro ventos, sendo captados por qualquer um ou por ninguém. Interpreto-o como orações, ameaças, despedidas, declarações, medos, amores... Estamos todos flutuando nesse espaço, junto a todas essas memórias e sentimentos, num eterno vácuo sem fim. E daí surge o sentimento de vazio que adquiri durante todas essas semanas a fio.

Vazio, o êxtase é vazio.

E finalmente, vem a paz:

Certeza. E assim, tirado das minhas últimas forças em vida, dou a essa palavra um significado literal. A paz é a eterna certeza e aceitação de que nossos pensamentos, nós, estamos soltos pelo universo, sem conseguir dar forma a nossos sentimentos, devido a nossa natureza incompleta. É a certeza de sermos humanos, logo, imperfeitos. Conhecendo cada limitação e entendendo, a partir disso, o “para onde vamos? ” e “o que somos? ”. Perguntas cabíveis a seres que ainda não alcançaram a epifania da verdade... ah... que lindo poder enxergar a verdade mais uma vez.

Nada me faria recusar essa verdade novamente.

E esse é o preceito de paz – A epifania concedida a todo ser humano que se encontra próximo da morte, mostrando que existe sim uma verdade absoluta, porém que talvez nunca saibamos; quem sabe quando formos para o outro mundo, após nossa passagem. E essa revelação só virá aos que enxergarem as belezas expressas em cada pensamento e sentimento, em cada imagem incompleta e no significado específico da frase mortal. E então, vem a certeza de vossa imperfeição, a certeza de que tudo... tudo... tudo nesse mundo, e quiçá no outro, possui uma verdade absoluta.

Certeza, a paz é certeza.

Agora eu finalmente entendi tudo... não tenho mais dúvidas quanto a nada, e finalmente posso partir.

“J’veux pas mourir toute seule. ”

Anne vem ao meu encontro, ainda estou deitado na banheira de porcelana, preso à minha cela corpórea. Contudo, posso finalmente vislumbrar sua silhueta enquanto ela se aproxima.

Seu lindo rosto, exatamente como sempre foi; seu sorriso com os lábios, seus olhos verdes misteriosos e jocosos, sua graciosidade quase perfeita. Ela irá me levar através das escadarias para o paraíso, o lugar a que realmente pertencemos.

A mão dela se envolve em minha nuca, acariciando meus cabelos. Incrivelmente, sinto esse carinho com minha alma, a prisão de meu corpo é descartada nesse momento, a carne em composição de carbono não me proporciona qualquer sentimento.

Anne desce suas mãos gentis ao meu pescoço, e, por alguns instantes, ela parece me estrangular; contudo, não pertenço mais a esse mundo incompleto, por isso, não sinto a dor.

Tudo o que acontece aqui não tem mais nada a ver com o mundo que deixei para trás.

Não sinto minha respiração parar, na verdade, mal sinto minha própria respiração.

...

Espere, o que é isso que sinto agora? O que Anne está fazendo em mim?

A pressão de seus dedos chega ao meu pescoço, a dor se aproxima, e essa dor é tão carnal, tão... real.

Eis a tempestade.

Como isso pode estar acontecendo? Eu já deixei aquele mundo para trás, eu tive a epifania, a certeza, eu vi a verdade.

— Mas você não merece os céus ou o paraíso, você tem um pacto comigo Gwy... – É a voz de Anne, exatamente como eu me recordo. Ela fala sem emoções, como se fosse uma marionete sem alma, mas tudo nela parece real.

— Por que, Anne? Eu não consigo entender...

— Porque o nosso círculo é para sempre, e para sempre será... e você só será meu para sempre, se sua morte a mim reservar. – A voz sem sentimentos continuava – O calor do fogo das velas sobre seu túmulo irá me relevar como a única luz que pode te salvar.

Então ela precisa me matar. Ela quer me matar com suas próprias mãos. Mas como? Ela está morta também, não está? O que é isso tudo, está tão confuso. Minha epifania, minha revelação, minha verdade.

Ela ainda existe? Ela ainda... vive?

— Eu, te... amo! – Para que essas palavras agora? Ela não irá te deixar, talvez você nem queira isso. Você quer que ela te mate, não é?

A pressão sobre meu pescoço aumenta, e os graciosos lábios de Anne mostram um sorriso psicótico.

— Eu também. – Apesar dessa resposta, tudo o que eu sinto é frio vindo dessas palavras. Só frio.

— Adeus! – Consegui sussurrar, enquanto o ar finalmente se esvaía dos meus pulmões.

Sente-se bem agora? Ou está decepcionado? Entendeu, correto? Esse é o círculo, esse é o contrato, esse é o poema.

Círculo... NOSSO... círculo.

Que palavras vivas, que essência morta. Ela está viva ou morta?

O que é sobrenatural? O que é real?

Vida? Morte?

Eternidade.

É tão escura as luzes do final... gostaria de ver um anel de...

...

Os cantos de meus olhos estão escurecendo, o ar escapou completamente de meus pulmões, a força em meu pescoço é demais. Eu não lutei, ou sequer precisei, eu só aceitei tudo isso por você, Anne. Só me diga:

Por quê?

Por que você me traiu?

Anne?

Boa sorte. Tudo irá ficar bem.

É o poema? Eu sabia, eu entendi tudo...

A Verdade por trás do círculo.

Adeus...

13

MANCHETE

JORNALISTA COMETE SUÍCIDIO EM NOITE DE VÉSPERA DE NATAL

Na madrugada da última sexta-feira, no dia 24 (vinte e quatro) de dezembro, fora confirmada a morte do jornalista Gwyn Devlin Parker em seu apartamento.

O ato aconteceu no banheiro, onde a vítima aparentemente cortou os próprios pulsos com uma faca em sua banheira, às, aproximadamente, 23 (vinte e três) horas.

Gwyn era um colunista neste jornal e se encontrava de férias antecipadas, devido a diagnósticos de instabilidade mental e agressividade, após alguns surtos e casos ocasionados no mês passado. Esse período fora marcado pelo luto do rapaz devido a morte de sua grande amiga de infância: Annebeth Silver Linger.

A perícia e os policiais só constataram a morte do jornalista 2 (dois) dias depois do ocorrido, visto que ninguém tivera notícias de Gwyn e os vizinhos começaram a reclamar de um cheiro desagradável vindo de seu apartamento.

Dentro do cômodo em pleno estado de deterioração, os investigadores adentraram e perceberam o local completamente revirado do avesso e bagunçado, com cadeiras e mesas quebradas e toda sorte de lixo espalhado.

Além disso, foram encontradas cartas endereçadas a amiga do jornalista, já mencionada anteriormente nessa matéria.

Conforme depoimentos de familiares e amigos, Gwyn e Annebeth eram muito íntimos e o jornalista teria enlouquecido após o desaparecimento de sua colega, dessa forma, escreveu-lhe diversas cartas, entretanto, nunca as enviou.

Todas se encontravam guardadas em sua estante, que parecia ter sido esmurrada e pisoteada diversas vezes nas últimas semanas, possivelmente em algum surto de fúria, como vinha sendo caso frequente em sua personalidade, conforme os últimos prognósticos fornecidos.

A garota em questão, Annebeth, estava desaparecida desde que viajou para as Montanhas Avon há alguns meses. Familiares dela afirmam que isso aconteceu depois de uma intensa e calorosa briga entre ela e Gwyn.

As notícias da morte dela foram divulgadas 3 (três) dias após seu desaparecimento, comprovando que ela se matou ao se jogar do cume de uma das montanhas.

O que intriga aos investigadores é que no apartamento de Gwyn fora encontrada uma carta onde ele justificava o seu próprio suicídio, em que afirmava ter visto sua amiga antes do ato e dizia que ela o incentivara a se matar.

Isso pareceu um absurdo aos policiais que comprovaram que a mulher em questão estava morta. Contudo, a perícia tem provas que transtornam todas as expectativas, até dos mais céticos que desacreditam em ações sobrenaturais.

Junto ao corpo morto de Gwyn foram encontradas fortes marcas de dedos em seu pescoço, indicando e sugerindo que, mesmo com os cortes horizontais no pulso, a morte do jornalista não teria sido por sangramento, e sim por asfixia.

Através de digitais coletadas das cartas, da faca e do sangue encontradas no apartamento, a perícia identificou que além do DNA de Gwyn, também se encontrava o DNA de Annebeth, que fora comparado a partir de uma mecha de cabelo dela, guardada na estante do jornalista.

Isso mobilizou aos policiais e os familiares das vítimas a iniciarem uma busca pela mulher, a despeito de uma Certidão de Óbito em nome da garota que “supostamente” se encontrava falecida.

O mais suspeito é que o corpo de Annebeth não teria sido sepultado, visto que não fora encontrado.

Diante de todos esses acontecimentos, a polícia então iniciou uma procura à Annebeth, mesmo não entendendo todas as nuances ocorridas nesse conturbado caso.

Se você souber de alguma informação útil que possa levar até essa mulher (cuja foto se encontra na página seguinte), por favor, entre em contato com a polícia ou com o nosso jornal pelo número próximo ao rodapé da página.

E aqui, como representante de toda a equipe do Jornal Circle, deixamos nossos mais sinceros e verdadeiros pesares aos familiares do nosso ilustre jornalista Gwyn D. Parker. Temos certeza de que, onde quer que ele esteja, estará em um lugar...

Melhor.

FIM(?)

Notas finais
Então, com esse capítulo, dou fim à essa história iniciada em 2013/14. Creio que consegui destrinchar boa parte do que gostaria de ter escrito à época e dado, finalmente, um final para essa singela história. Agradeço a todos que leram e comentaram na Fic e espero que tenham gostado e aproveitado a história, que, a sua maneira, apoiaram e deram suporte para essa conclusão. A fim de menção, todas as letras do início dos capítulos foram retiradas da música do Hollywood Undead - Circle, ao qual foi de vital relevância para a inspiração na Fic. Acredito que isso é tudo. Muito obrigado mais uma vez, espero que tenham aproveitado essa singela fic. Enfim, creio ser tudo, até a próxima... Longos dias, Belas Noites~ — Gabriel.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!