Circle

6 Capítulo VI - O Adeus


Ela se foi como um anjo,

Com suas asas, deixe-me queimar esta noite.

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Memórias póstumas de um defunto jornalista.

Hoje é Véspera de Natal, do ano da virada do milênio.

Tudo era para estar em uma enorme, acolhedora e extasiante paz, contudo, está tão frio e sem sentido, vazio, incompleto.

Que novidade, não?

Talvez só eu me sinta assim. Talvez só a minha alma, profundamente melancólica, sinta-se perdida, incompleta, depressiva...

Ou será que ela também se sente assim?

É verdade, Anne também percebe exatamente como eu, quem sabe até mais, já prevendo a conclusão de sua própria teoria sem sentido.

O oito deitado, a vida como duas rodas unidas em um, o círculo.

Tudo recitado em versos sorumbáticos de um poema escrito por ela mesma, em um paradoxal momento de tristeza e felicidade após finalmente escalarmos as montanhas Avon, as mesmas que sempre sonhara escalar.

O dia era cinzento, distante, bucólico... transformava o que nossos olhos enxergavam em um baço horizonte de visão branca. Poderia haver algo que nos rodeava enquanto nos encaminhávamos para o topo daquela fria... tão, tão fria... montanha.

Eu senti prazer e desalento, num misto incomparável e sem sentido, onde tudo desaguava em ilações sem quaisquer revelações de uma verdade única e concreta.

Por isso, talvez, eu tenha perdido a fé em verdades...

A carta enviada por Anne chegou a mim três dias após eu ter escrito a minha, trazendo a caligrafia perfeita dela em cada verso ornamentado. Nela, Annebeth poetificava sobre o metafísico círculo eterno, e trazia consigo a data em que a fé que mencionei anteriormente fora perdida das minhas antigas e contestáveis verossimilhanças.

Ela me respondeu, e o sinal disso tudo era apenas um: era o nosso “Adeus precoce”.

Quanto tempo demoramos para perceber isso? Que sentido há em esperar tanto?

Porque a letra de cada estrofe daquele lindo poema, que apenas descrevia o pagão ato de suicídio, era trazida a essa data em específico, a essa data em especial.

Névoa das montanhas embaçaram a minha visão,

As flores que morreram no buquê que te entreguei antes do seu casamento,

As promessas que te fiz de que iria mudar, e nunca cumpri.

Você é a vela e o calor, a única coisa que pode me salvar do frio eterno, do sentimento gélido que alcança gradativamente minha alma.

Esses eram os significados das palavras escritas ali, dando-me um sentido visual, pouco literal, fundando num fático fardo pecaminoso.

Esse era, sem dúvidas, o convite de Anne para que eu me juntasse a ela nos palácios do...

Paraíso.

Ela já se encontra lá, e caminha pelos caminhos sem volta de um novo mundo. Um mundo perfeito, tão diferente desse atual.

Sinto-a me contornar, sua presença me observando enquanto penso, reflito, vivencio.

— Anne, eu te amo!

O vento sopra em meus ouvidos uma velha cantiga, trazendo as palavras de um amor recíproco e... perdão. Estou tão excitado por ouvi-la.

Quando tempo faz, não é mesmo, Annebeth?

É, eu acabarei com tudo isso agora e irei me juntar a você.

Suicídio. Essa é a palavra do nosso eterno círculo.

Dois amantes Shakespearianos.

“A dor de um adeus precoce...

E a alegria de um amor tão forte. ”

O adeus acontece nesse mundo, pelo menos; nesse círculo, ao menos.

Agora, me dou conta do quão melancólico essa noite se apresenta. Onde está toda a magia? Onde está a felicidade? Onde está o sentido?

Perdidos em algum lugar próximo àquelas montanhas, onde Anne se foi...

Você morreu lá,

Recitando nossos poemas às montanhas, não é?

Meu amor...

E o seu desejo que eu parta com você é forte, então, não recusarei ou sentirei medo.

Será meu adeus para essas últimas e tão conturbadas semanas sem sentido.

Eu quero tanto ver seu rosto, aquele sorriso. O quanto a amo, o quanto eu quero tê-la mais uma vez em meus braços.

Por isso, eu irei partir.

Mas não sem antes me despedir. Irei redigir a minha carta de adeus, para todos os que talvez se importem com o fim dramático e confuso desse...

Defunto jornalista.

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24 de dezembro, 1999.

Aos amigos e familiares que lerão essa carta,

Aqui vos digo: Adeus!

A vida não possui qualquer significado sem Anne e, com a certeza de que ela está morta, tudo o que me resta é o mais impuro fim: meu suicídio.

Eu a sinto agora, me rodeando, me chamando para o paraíso perdido além das nuvens do céu.

Além dos infinitos céus azuis...

Para os que têm algum questionamento sobre como é a morte, bem, a resposta veio a mim nessas últimas semanas, que foram um tanto melancólicas, com pitadas singelas de nostalgia.

E é verdade o que dizem. A cada dia mais que nos aproximamos dela, as lembranças das coisas boas do passado vêm até nós.

Talvez para nos fazer sentir culpados, ou incompletos, por ir embora. Para nos manter atados a esse mundo frio. Tudo ressoa cristalino em minhas lembranças, como se não só pudesse vê-las, mas tocá-las, experiencia-las.

Entretanto nada... absolutamente nada... conseguiria me prender aqui por mais tempo, pois o significado de “viver” se esvaiu completamente para mim.

De uma forma estranha, eu sabia que não assistiria à passagem do milênio. Eu tenho afazeres em outro lugar, um lugar melhor, livre desses sentimentos carnais e imperfeitos.

A banheira está cheia, a faca posicionada gentilmente na borda, apontando para o meu peito. O rosto de Anne não saí de minha cabeça enquanto escrevo, nem por um instante. Eu preciso vê-la melhor, senti-la, ouvi-la, toca-la.

Que coisa, acho que estou enlouquecendo.

Na verdade, você já está louco!

Feliz Natal e boa passagem a todos os que se importarem e lerem esta carta. Aos que não esperavam esse ato tão contestável vindo de mim, peço-lhes profundas desculpas. Porém, justifico-o como necessário, afinal, nada vale a pena sem ela.

Nada...

Anne se tornou o ar para mim. Sem ela, eu não posso respirar ou viver.

Estou sentindo-a acariciar meu pescoço. Eu preciso ir.

Por essa carta, amigos, eu vos digo adeus!

Gwyn D. Parker.