Circle

3 Capítulo III - O Confronto


Tudo pareceu tão inútil.

Eu não merecia isso...

Mas para mim, você era perfeita.

5

02 de dezembro, 1999.

Ó, querida Annebeth,

É muito estranho olhar ao passado agora e me ver sorrir... me ver sorrindo segurando sua mão naquele velho balanço do colegial.

Nós éramos um casal bem estranho, não é? Na verdade, acho que nunca fomos. Até entendo o seu lado, entendo ter negado meu pedido de casamento há alguns anos, mesmo eu tendo lhe entregado aquele “anel de luz”, como você chamou à época.

Sim, afinal, eu sou um louco, imprudente, maníaco. Alguém frio, desprovido de certas emoções, bipolar, com personalidade forte demais para lidar e com... leves... impulsos... psicopatas.

Eu sei que você tem medo de mim e, não a culpo de se sentir assim.

Jason sabia disso melhor que ninguém, certo? Ele te avisou para se afastar de mim, disse que eu era perigoso, contudo, você preferiu acreditar em mim e não no seu tão inefável noivo.

Que relação sem sentido essa a nossa, não? Parece que você confiava tanto em mim, todavia, sentia-se tão insegura ao meu lado, por quê?

Ora, Anne, sejamos francos, você nunca me amou... Só meu usou a vida inteira.

Eu sei que leu minhas malditas cartas e entendo tudo o que você quer que eu faça agora. Sim, eu te conheço bem o bastante para saber os motivos por trás do seu silêncio. É isso que você quer, não é? O círculo! Me ver preso cada vez mais nessa brincadeira estúpida que você criou para nós estarmos juntos para sempre.

Só que agora esses malditos empecilhos não irão mais me impedir.

Já estou na minha última grande tentativa, estou para cair e, agora, nem você pode me ajudar, sua meretriz!

Entre viver em nossa relação sem sentido de amor e ódio e fazer as coisas ao meu jeito, eu farei pela primeira vez à minha maneira.

Eu matei Jason, seu noivo, talvez já desconfiasse disso, mas, agora, foda-se!

Ele sabia demais sobre mim, ele a estava afastando de mim. Fazia-me sentir ciúmes de como as coisas funcionavam entre vocês. Ele era o Sr. Perfeitinho e você não o merecia... você merece alguém como eu, tão quebrado quanto você!

Recorda-se de como nos conhecemos? Você era a menininha excluída de outro estado no 3º ano e eu era o insociável garoto do balanço. O garoto que os outros garotos tinham medo.

Mas você se aproximou de mim. Me fez tocar sua mão... me fez parar de encarar os infinitos céus azuis para olhar os seus perdidos e solitários olhos.

Fez-me jurar coisas que eu jamais prometeria a alguém, disse que seríamos... amigos... para sempre. Disse que seríamos um para sempre.

Você ocultou esse lado ruim em mim por um tempo, transformou-me em alguém normal, quase sociável.

E ENTÃO VOCÊ SOME?

Agora eu cheguei ao fundo do poço, estou completamente perdido, minha alma não consegue mais responder pelas sequelas em meu corpo.

Tudo o que desejo agora é que esse mundo desabe. Não me importo com o que irá acontecer com nada... nem mesmo com você.

Sabe uma coisa interessante? Lembra-se dos fantasmas que mencionei antes? Agora eu consigo entender as palavras que eles sussurram aos meus ouvidos, e significam...

INFERNO!

ESSA É A MINHA MALDITA VIDA DESDE O INSTANTE EM QUE TE CONHECI!

QUE MERDA!

PORRA, ANNE! QUE DROGA!?

Por que me fez escrever isso? É exatamente o que você quer, não é? Eu sempre soube, tudo é tão óbvio... é a porra do seu maldito círculo de novo, certo?

É tudo culpa sua...

Você continua me usando.

Quer saber? Eu desisto... foda-se!

Vá para o inferno, esse é nosso glorioso fardo!

Adeus...

Gwyn.

6

Os dias nunca significaram nada para mim, afinal...

Eu sempre pensei no sol e na lua como deuses simbólicos, com o único objetivo em definir as estações, datas, dia e noite, o passar do tempo.

Porém, existe muita coisa oculta dentre esses pensamentos.

O céu é uma maravilha ímpar, em sua interminável imensidão. É a única coisa que me aquece nesses tempos de infância, enquanto o sol me atinge, eu estarei esperando aqui, no balanço, pelo meu paraíso.

Sim, esse balanço da pré-escola é o lugar ideal para refletir sobre todas essas coisas. Acho que sou uma criança estranha. Os outros garotos provavelmente não pensam nessas coisas, sobretudo nessa idade.

Talvez por isso eles me excluam.

Não é como se eu me importasse, mas as coisas parecem tão solitárias dessa forma.

Do que isso importa agora? Eu não quero pensar sobre isso, apenas desejo admirar e refletir sobre esse infinito céu azul sobre mim, e esse sol que gentilmente beija a minha pele.

Afinal, tem sido sempre assim.

Os dias só precisam passar, até que eu me torne adulto e possa mudar as coisas que eu acho que devem ser mudadas.

“Serenidade necessária, para aceitar as coisas que não posso modificar; coragem necessária, para modificar aquelas que posso e; sabedoria, para conseguir distinguir umas das outras”.

Para que fazer planos agora? Essa passagem, essa infância, é inútil. Nada aqui realmente importa ou irá importar.

...

Snif Snif Snif

Que som é esse? Parece alguém chorando... será que...

Hã?

Quem é essa garota no balanço ao meu lado? Quando ela chegou e se sentou aqui? Por que ela está chorando? O que está acontecendo?

Eu realmente não entendo...

— Olá, menina, o que aconteceu? Por que está chorando? – Espero que não seja nada grave, mas, espera... por que eu me importo?

— N-N-Nada... está tudo bem. – Ela dizia, enxugando as lágrimas.

— Tem certeza?

— Não.

Mais choro. Sua feição ficava ainda mais intensa, com as lágrimas caindo em cascatas do seu rosto. Havia alguma coisa ao redor dela que, à primeira vista, em não pude discernir.

Gostaria de saber o motivo de seu choro, porém...

Você não deveria. Certamente é uma menininha mimada, como todas as outras, deixe-a chorando aí.

— Quer me contar o que está te fazendo mal?

— Os meninos... – Ela começava, entre soluços e fungadas. – E-E-Eles estavam me xingando, falando mal do meu cabelo, do meu sotaque e de onde eu vim. Me chamaram de esquisita e caipira, só porque eu não sou daqui. – Deu uma breve pausa. – Eles falavam pra ninguém se aproximar de mim, porque eu sou um animal cheio de doenças.

O choro acentuou no final, entretanto, seu choro parecia mais controlado agora.

Após, pude olhar a figura da menina sentada no balanço ao meu lado. Ela era de fato estranha, e realmente parecia uma interiorana no seu modo peculiar de se vestir e falar, além do cabelo loiro mal penteado. Todavia, havia uma beleza particular e ingênua dentro dela, algo... bonito.

Diga-me, Gwyn, o que nós temos a ver com isso? Não é nosso problema, é dela... concentre-se em admirar os infinitos céus azuis.

— Qual o seu nome?

— Annebeth, mas de onde eu vim me chamavam só de Anne... e o seu?

— É Gwyn. Mas acho difícil você encontrar algum apelido para isso. – Conclui.

Ela parou o choro e sorriu de repente.

E então tudo mudou dentro de mim.

Ela sorriu para mim. Ninguém nunca sorrira para mim antes.

O sorriso dela era tão lindo, como o de um anjo em uma tempestade de neve, iguais aos que vi naqueles globos de neve no Natal. Algo aqueceu em meu peito, algo diferente do calor do sol, algo... especial.

Eu quero ver o seu sorriso novamente, eu preciso desse sorriso de novo.

— Você é engraçado e... gentil. Um menino gentil. Foi a primeira criança a conversar comigo aqui. – Ela dizia, limpando as lágrimas do rosto e parecendo mais animada agora.

— Você também parece amável e... bonita. – Ela deixou escapar um risinho envergonhado, ela está corando. Será que eu também estou? Sinto meu rosto queimando e minhas mãos suando. Por que eu estou nervoso? O que estou dizendo? Será que estou me ouvindo?

Esqueça tudo, eu preciso ver aquele sorriso de novo.

— Sabe Anne, eu sou um excluído aqui, assim como você. Os garotos têm medo de mim por algum motivo que eu não me importo. – Eu comecei dizendo. – E, já que somos ambos excluídos, acho que podemos ser amigos. Com o tempo, eles irão se esquecer de nós e poderemos nos enturmar com outras pessoas. O que acha?

Ela sorriu mais uma vez.

Que visão maravilhosa!

Mais incrível que os intermináveis céus azuis...

Por que os olhos verdes dela parecem brilhar agora? Por que isso está me afetando?

— Sim! Isso seria muito bom Gwy! Seremos amigos “para sempre”, promete? – Ela dizia me oferecendo seu dedo mindinho.

É tudo o que eu mais desejo.

— Prometo. – E entrelaçamos nossos dedos mindinhos, como num pacto.

Por que estamos prometendo isso? Eu só queria analisar os dias passarem, eu não queria me envolver ou me responsabilizar.

Mas esse sorriso... ela... eu não consigo entender o que é isso tudo.

Ela é tão, única. Eu me sinto estranho, de uma forma boa.

— Me dá sua mão, Gwy?

— Claro, Anne.

Mãos dadas naquele balanço. Sinto dentro de mim um sentimento estranho.

Eu não sei o que é, mas é bom.

É muito bom!

— Essa é a nossa promessa, assim como o infinito, o círculo eterno, o oito deitado. – Ela cantarolava. – Como meus pais sempre dizem, para sempre.

— Como um círculo, para sempre... – Por que estou repetindo isso?

Porque mamãe me disse uma vez, pouco depois de papai partir, que o amor é um círculo vicioso.

E o que é o amor?

Ela... ela é amor.