Circle

4 Capítulo IV - A Questão


Eu estou despedaçado por essa vida,

Se isso é vida, eu direi adeus.

7

Agora eu consigo sentir exatamente o que as aves sentem ao voar...

Vi-me por entre nuvens e paraísos inexplorados, acima dos infinitos céus azuis, onde sequer o mais moderno avião ou foguete pudesse alcançar.

E talvez, o mais inacreditável fora perceber que, ao chegar tão alto, você se sente inferiorizado.

Pois o cenário que se desenha além dos céus é uma infinidade de incontáveis estrelas.

Estrelas essas que você não pode tocar.

Estrelas essas que te fazem perceber que, ainda que voe alto, jamais alcançará o topo.

Estrelas essas que revelam que, ao alcançar os céus, você finalmente pode enxergar o inferno ao qual todos nós estamos presos.

E então você entende por que jamais conseguirá se tornar uma delas...

Os meses e semanas sem Anne têm sido difíceis demais para eu suportar. Além de escassas notícias sobre seu paradeiro, eu ainda lhe disse coisas horrendas em um momento de infundada fúria, completamente sem sentido.

Todavia, acredito que ela já esperaria por isso, caso seja a mesma Annebeth que conheci...

Será?

É provável que ela espere pelas minhas desculpas, exatamente como eu sempre acabo fazendo quando percebo que a magoei.

Sempre.

O mais estranho de tudo é perceber que as cartas que a envio continuam desaparecendo. Alguém as está pegando, isso sem dúvidas, mas... quem?

Será que algum engraçadinho decidiu brincar com a minha cabeça e zoar um pouco comigo?

A região do parque que as coloco é basicamente um esconderijo que só Anne e eu conhecemos, entretanto, há a possibilidade de alguém ter acesso ou conhecimento daquele local.

Ultimamente, não posso confiar nos meus próprios pensamentos, quiçá conjecturar sobre ações de outras pessoas.

Só que, como eu posso descobrir se o que acontece é fruto de uma pegadinha/brincadeira ou não? Quem quer que esteja coletando as cartas simplesmente irá me esperar ir embora, para então toma-la.

Hum... creio ter uma solução interessante para isso.

Eu posso resolver isso com uma simples questão. Uma pergunta cuja resposta só Anne e eu possamos saber, destarte, eu talvez possa desvendar o mistério.

Anne não deixaria de me responder, ainda mais após a última carta que enviei. Ela deseja nos ver novamente no círculo, porém, não tenho certeza se estou completamente pronto para voltar a ele.

Estou?

Seja como for, se não houver resposta, saberei que é alguém zoando comigo.

Se houver uma, Anne está viva.

Simples assim.

O melhor de tudo é que agora os fantasmas da minha cabeça finalmente desapareceram. Talvez as pílulas que o médico receitou foram realmente necessários, sinto-me muito melhor agora.

Jamais acreditei que isso e as poucas sessões de terapia iriam ser suficientes para me ajudar. Tenho estado muito mais relaxado.

Essas coisas funcionam melhor que o álcool, sem dúvidas.

E, segundo o prognóstico, as ilusões possivelmente ocorreram devido ao luto e meu recente histórico com as bebidas. Acredito ser uma explicação plausível, afinal.

Apesar das coisas melhorarem, contudo, eu tenho sentido uma energia estranha, quase essência, emanando da minha velha estante. Mesmo agora, sentado na poltrona da sala a encarando, algo ali me traz um frio na espinha.

Faz um bom tempo desde a última vez que a abri para procurar alguma coisa, entretanto, pensar em abri-la agora me faz sentir um receio enorme. Quase medo genuíno. Estranho.

Muito estranho.

O mais bizarro é que ela parece ter sido aberta recentemente... e, frequentemente.

Nah. Isso é bobagem. Devo estar imaginando coisas, afinal, eu ainda não estou 100% recuperado do meu problema, ainda devem existir sequelas.

Sequelas... profundas?

Faltam apenas 10 (dez) dias para o Natal, acho que devo escrever para Anne logo. Não quero perder a oportunidade de lhe desejar um Feliz Natal e de quem sabe, convida-la a vir até aqui, muito embora acredite profundamente que ela não virá.

De qualquer forma, eu tenho que me desculpar com ela e, principalmente, ter certeza de que não estou sendo ludibriado.

Eu sei exatamente a única pergunta que tocaria a nós dois se feita.

E a única que somente nós conhecemos a resposta.

E dessa resposta, espero que realmente seja ela.

8

15 de dezembro, 1999.

Olá de novo, querida Anne,

É estranha essa minha peculiar forma de ser, não é mesmo? Há poucas semanas lhe escrevi palavras tão frias, duras e odiosas para, na vez seguinte, iniciar uma frase com “Me perdoe...”.

Mas essa é uma verdade minha que você bem conhece. Não foi a primeira vez em que acabei me exaltando e falando coisas sem pensar, como não seria a primeira vez que você ficaria assustada ou confusa.

Porque você me conhece muito bem para saber que eu sempre me arrependo das coisas ruins que eu te digo.

Então, peço profundamente perdão por todas aquelas esdrúxulas coisas que escrevi na última carta.

Você me perdoa?

E, se me perdoa, eu te suplico para que venha até mim e diga-me olho no olho.

Pois eu preciso te dizer mais uma vez, dentre tantas outras que...

Eu te amo!

Estou enlouquecendo sem você por aqui. Comecei a lhe escrever essas cartas sem pretensão, colocando-as sempre no nosso “esconderijo” no parque, esperando apenas que se você voltasse, fosse até lá para procura-las.

Todavia, as cartas que escrevo começaram a realmente sumir; temo que alguém possa ter encontrado nosso “lugar secreto” (muito embora essa possibilidade seja quase nula). Por isso, agora, eu quero, digo, preciso ter certeza de que é você, Anne, quem as está recebendo.

Para isso, elaborei uma questão que gostaria que você respondesse.

Lembra-se do dia que subimos aquela montanha a primeira vez? A mesma que eu sempre quis escalar, e que estava um frio tenebroso quando chegamos perto do topo; aquela mesma que ficamos sentados observando os mares de montanhas se desenhando à nossa frente.

Recorda-se do poema sobre nós que você escreveu?

Eu adoraria que você me recitasse ele novamente, verso por verso, em uma carta-resposta, datada com o dia em que o escreveu. Dessarte, eu teria certeza de que você está viva e que, assim, eu posso te trazer de volta...

Para uma nova vida.

Nossa vida.

Isso pois, eu preciso ver seu rosto uma vez mais. O seu sorriso, seus olhos, sentir seu eflúvio com o vento e o jeito inquietante que você mexe em seu cabelo sempre que estamos próximos o suficiente para trocarmos respirações.

Por favor, é tudo o que eu te peço!

Os fantasmas que me aterrorizavam já se foram, desapareceram junto ao gélido frescor que vem desse solstício de inverno.

Afinal, talvez esteja muito frio para eles circularem por aí, não é?

O doutor me disse que provavelmente eram ilusões geradas pelo álcool. E eu concordo com ele, por isso parei de beber.

Não sei se essas criaturas possuíam algum significado especial (a epifania que lhe escrevi na última carta não passara de um mero devaneio, talvez mais um fruto do álcool), mas sua partida me faz sentir tão em paz, tão zen.

Paz essa tão relaxante, quase mortal.

Uma paz em um momento de adeus.

Creio que esse fora um dos meus timos de filósofo. Você sempre fora muito melhor nisso que eu, mas me recordo de você dizendo que eu poderia alcançar esse nível, sempre que relaxasse minha mente, corpo e espírito.

Dessa vez a inspiração surgiu dos nossos tempos, os quais eu realmente encontrei paz.

Entretanto, para que tudo se complete, ainda é necessária à sua presença aqui, ao meu lado.

Quero toca-la, senti-la, mais uma vez.

Volte logo, Annebeth, por favor...

Eu só tenho você.

PS: Feliz (?) Natal!

Gwy.