Circle

2 Capítulo II - Os Fantasmas


Eu estava correndo em círculos.

Eu me machuquei...

Apenas para encontrar o meu propósito.

3

28 de novembro, 1999.

Olá novamente, Anne,

A cada dia que passa o frio parece se tornar mais intenso. Sinal de um longo e rigoroso inverno.

Pude perceber que a carta que te enviei não se encontra mais no lugar que a deixei, o que pode querer dizer várias coisas, dentre as quais que, quiçá, você a tenha encontrado, já que raríssimas pessoas conhecem esse lugar do parque. E menos ainda sobre esse nosso refúgio.

É estranho como certos segredos configuram todo um lugar, não é? Afinal, isso representa para nós algo muito mais simbólico que um esconderijo, não é verdade?

Isso revela bastante de nossas personalidades profundamente distintas, não?

Bem, se de fato leu minha primeira carta, quero que saiba que preciso que você volte. Por favor, venha rápido!

Recentemente, conversei com seu irmão Charlie. Ele e toda a sua família tentam colocar na minha cabeça que você está morta, dizendo-me para superar isso, como eles.

Mostraram-me os noticiários que anunciaram sua morte nas nossas montanhas especiais há dois meses, forçando-me a superá-la e seguir em frente, como eles vem tentando. Todavia, me recordo de você falando para nunca confiar no que eles dissessem, já que você sequer confiara a eles o motivo que te levou até aquelas montanhas.

Recordo-me do que você contou aquele dia, antes de partir. Você precisava resolver um último detalhe e, então, teria a solução para todos os seus problemas. Eu quis ir com você, mas aquela era a sua missão, você precisava ir sozinha e, por isso, a deixei.

Após, não obtive respostas, e tentei um meio de me comunicar com você.

E saber que a primeira carta que mandei já não se encontra mais aqui é um sinal de que você pode sim estar viva.

Então, agora quero lhe contar sobre alguns acontecimentos peculiares que me ocorreram desde nossa primeira conversa.

Eu comecei a enxergar vultos, iguais aos dos filmes de terror, em todos os lugares. Vultos esses em mantos brancos e negros, alternadamente entre o dia e a noite.

Posso afirmar com certeza de que não são ilusões do álcool (sim, infelizmente, eu voltei a beber).

Esses seres balbuciam palavras em uma língua que eu não consigo entender. Resmungam expressões fósmeas cada vez que meus pensamentos beiram lembranças...

De nós dois.

E se escondem em janelas e paredes sempre que tenho lhes encarar os rostos.

O que me é uma dúvida pertinente, será que possuem algum?

Parece brincadeira, mas minha mente está seriamente perturbada, e não é algo normal. Eu temo eles a cada minuto em que pisco meus olhos, não consigo dormir, imaginando-os rodeando minha cama, entrando em minha mente, levando-me cada vez mais próximo da...

Morte.

Eu queria estar brincando, de verdade, mas não. Isso está me afetando demasiadamente, de uma maneira que não julguei ser possível.

Um medo oculto está se formando em mim, medo de que se eles me pegarem, talvez a morte que tanto temo não seja o pior que pode acontecer.

A verdade é una, Anne, estou loco!

Cada hora que passa a paranoia se enraíza em minha cabeça, minha mente gira e... Droga! Borrei a folha. Acabei de sentir um desses fantasmas, de manto branco. Esses são os piores, eles sugam cada memória pura da minha mente, aumentando cada vez mais minha... solidão.

Eu não imagino como serão as coisas daqui pra frente, mas, a cada dia, os percebo se multiplicar, aproximando-se mais e mais de mim. Já quase consigo senti-los fungar meu cangote, resmungado em sua língua desconhecida impropérios aos meus ouvidos enquanto escrevo.

Certamente, não posso combate-los sozinho. Eu irei ceder...

Volte. Logo. Anne. Eu. Preciso. Muito. De. Você.

Gwyn.

4

Tensão. Cada vez mais profundamente na mente conturbada desse defunto jornalista.

Ou seria um jornalista defunto?

Devo dizer que a causalidade do experimento me é, sem dúvidas, atraente.

Qual experiência mais vívida do que a morte?

Isso me remete a tantas lembranças, vindas das regiões mais ocultas da minha cabeça. Era assim a descrição de alguns que puderem escrever sobre os seus últimos momentos em vida.

A morte é a recordação de todas as coisas boas da vida, o que ironicamente nos faz sentir pior que assistir às más passagens.

Afinal, você jamais irá sentir saudade de coisas ruins que viveu, contudo, talvez se sinta incompleto em cada lembrança agradável que teve. Claro, se viveu como alguém minimamente humano.

Se teve ou não sentimentos.

Entretanto, não. Esse ainda não é o meu adeus, ainda não...

Já que os fantasmas que caminham por entre os cômodos desse adstrito apartamento são hóspedes, possivelmente com mais vida e prestígio do que eu.

Um jornalista defunto.

A presença deles já não me afeta, não mais. Todas as forças que tinha para lutar ou até temer já se esgotaram por completo.

Minha melancólica poltrona se transformou em meu observatório particular.

Agora, eu tento decifrar cada murmúrio rouco deles e, ao prestar bastante atenção, por poucos instantes, eu ouço a voz de Annebeth praguejando meu nome...

Loucura, não?

A apoteose de todos esses maus agouros se reúne em minha mente. Ironicamente (ou não), em quase todos, minha mente desenha Anne... sorrindo.

O dia em que fui demitido do meu primeiro emprego...

O dia em que Sam, meu cachorro e único amigo, morreu...

O dia em que ela quase se casou com aquele cara, e quase me fez ir preso...

O dia em que fui expulso da casa de meus pais...

O dia em que as felizes montanhas que sempre sonhei escalar estavam frias...

Em todos esses momentos, lá estava ela.

Realmente sorrindo? Talvez me consolando? Bem, isso é, de fato, uma incógnita.

Ei, fantasmas, o que acham disso?

Loucura, não?

Estou atado às mesmas velhas frases, aos mesmos velhos pensamentos, às mesmas velhas pessoas... enquanto esses malditos fantasmas não param de circular os móveis dessa casa.

Círculos.

A eterna repetição de uma ação sem final, seria isso uma epifania?

Sam, você conseguiria responder a isso, abanando seu rabo e correndo atrás do mesmo...

Círculos.

Como minha vida com ela ao meu lado, coisas boas e ruins, rodeando-nos a cada dia, presos ao nosso pacto.

Cada dia que se passava... rotina... diária... repetitiva...

Círculos.

Como o emblemático poema de nosso momento mais feliz (?).

Recitado de maneira tão melancólica e fria.

Círculos.

Como meus óculos, jogados sobre a velha mesa.

Como o “fascínio vivo”, o amor não tão recíproco, minha existência desde o instante em que te conheci...

Círculos!