Notas iniciais
Encaro minha imagem refletida no espelho, estou melhor do que aparento estar. Esses dias que estou na casa de Matteo, me fizeram ganhar alguns quilos, ganhei roupas novas e um novo visual. Minhas madeixas escuras já não estão mais sem vida, estão macias e brilhantes, além de eu ter mechas loiras, estilo californianas. Nunca tinha pensado em como ficariam meus cabelos assim, mas confesso que gostei bastante do resultado.
Não posso negar que estou sendo muito bem tratada e que minha vida aqui é bem melhor do que a que eu tinha em Buenos Aires, mas do que isso adianta se não tenho meu pai e meu namorado ao meu lado? E mesmo que papai estivesse aqui, não seria mais a mesma coisa entre nós dois. Ele foi um tremendo de um cretino ao me colocar no meio de uma de suas malditas apostas. Não sei se algum dia irei o perdoar por isso. No entanto, morro de saudades de Simón, mas sinto que nunca mais o verei, e isso me machuca profundamente.
Matteo, ou Matt, ainda não sei ao certo como me referir a ele, tem sido bem legal comigo, até agora não tentou fazer nada que não me agradasse, mas tem alguma coisa nele que me deixa meio desconfiada. Eu não tenho como saber o que é, porque ele não se abre comigo, diz pouco sobre si mesmo ou sobre sua família. Tudo que consegui descobrir até agora foi que ele veio de uma família bem simples e que perdeu seus pais em um acidente de carro quando tinha quatro anos.
"Eu só me lembro do rosto de minha mãe, ela tinha a expressão apavorada e me abraçou." , é sempre isso que ele me fala. E também tem uma tia dele, da qual ele não fala nada, nem o nome. Ele parece ter alguma magoa dela, uma magoa bem grande.
Ouço batidas na porta de meu quarto e apresso-me a sair do banheiro, acabo de sair do banho, mas estou tão perdida em pensamentos que nem vesti minhas roupas, apenas minha lingerie. Coloco o robe e amarro bem, para que não solte e aconteça algo constrangedor.
— Já vou! — grito e corro até a porta, abrindo-a.
— Oi. — Ele murmura e corre os olhos por meu corpo com uma expressão maliciosa. — Desculpa, eu não...
— Tu-tudo bem. — Xingo mentalmente por gaguejar. Ainda não consigo compreender porque fico extremamente nervosa sempre que o vejo. Pigarreio. — O que quer?
— Eu... — ele pigarreia e me olha nos olhos. — Gostaria de saber se quer assistir algum filme comigo. Quer?
— Ah claro. Deixe-me só terminar de me vestir.
Ele assente e se retira, fecho a porta e respiro fundo. Coloco um short jeans e uma regata preta, calço meus chinelos e desço para me encontrar com Matteo. Por algum motivo que eu não sei explicar, estou um tanto quanto ansiosa para passar um tempo com ele.
A casa de Matteo é enorme, eu considero uma mansão, mas segundo ele, não é. É muito fácil se perder aqui, tanto que isso aconteceu comigo nos primeiros dias, mas Matt deu algumas voltas comigo pela casa e eu estou começando a me acostumar. Só tem uma coisa com a qual eu acho que nunca vou me acostumar: Os seguranças.
Há diversos seguranças espalhados por toda casa e quintal, não há um lugar sequer que não tenha segurança. É intimidante e um tanto desagradável, não tem muita privacidade. Matteo ia deixar um segurança na porta de meu quarto, vinte quatro horas, mas eu convenci ele a não fazer isso. Demorou, mas consegui convencê-lo. Em compensação, eu só posso sair acompanhada por ele ou por dois seguranças. Mas eu até que entendo Matteo, por mais sufocante que seja, é para a proteção dele e de todos à sua volta, ter tanto dinheiro trás lá seus perigos.
Ando pelo extenso corredor, procurando a sala de televisão, mas como o esperado, eu me perdi. Bufo e me viro, querendo tomar o caminho de volta para a sala de estar, mas dou de cara com o peito de Matt.
— Perdida novamente, Menina Avoadinha? — Ele ri e me encara fixamente. Bufo. Eu simplesmente odeio que esse apelido idiota que Matteo arrumou para mim, e ele sabe disso, parece fazer isso somente para me provocar.
— Idiota. Sabe o quanto odeio ser chamada assim. — reviro os olhos e ele me encara fixamente novamente. Perco a respiração por alguns momentos. Céus, como esse homem poderia ser tão lindo assim? Logo me repreendo por ter este tipo de pensamento. Afinal, eu continuo tendo um namorado, mesmo que nunca mais o volte a ver. — Você poderia estar me esperando, não?
— Desculpa. Vamos.
Sigo ele pelo corredor e viramos à direita, encontrando dois seguranças parados ao lado de uma porta. Matt abre a porta e entramos na aconchegante sala de televisão, sento-me no sofá, em frente à TV. Ele coloca o cd no aparelho de DVD e se senta ao meu lado, mas bem afastado de mim.
— Que filme você escolheu?
— Eles existem. Já assistiu? — nego. — Então, cinco amigos vão passar o final de semana em uma cabana nos remotos bosques do Texas, para eles seria um final de semana cheio de festas e aventuras. Mas tudo muda quando o que parecia só diversão se torna um terror ao serem perseguidos pelo feroz e lendário Pé Grande.
— Aí Matteo, eu tenho medo. — olho horrorizada para ele. Eu simplesmente tenho pavor de filmes de terror.
— Fica calma, ok? É só um filme, nada aconteceu de verdade e nem vai acontecer. — ele pisca e chega mais perto de mim. — Qualquer coisa, pode me abraçar.
O encaro por um tempo e balanço a cabeça positivamente, ele sorri e dá play no filme.
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