Uma semana havia se passado desde a minha primeira sessão na sala de jogos. Matteo nem me procurava mais. Ele mal ficava no mesmo cômodo da casa que eu, e quando ficava mal me dirigia o olhar fingindo estar absorto em alguma coisa extremamente importante. Eu ja estava ficando cansada dessa indiferença dele e nem sabia mais o que pensar sobre o assunto. Minha mente estava embrulhada, pensando em mil teorias que pudessem explicar porque ele agia assim comigo. Desde que ele se declarou apaixonado por mim, o que me surpreendeu muito alias, nunca mais me procurava, e isso era no mínimo estranho para mim pois estava no contrato que eu era sua submissa e teria que satisfazer os seus desejos carnais. E ademais, depois do que Matteo falou pra mim naquele dia percebi que eu também estava completamente apaixonada por ele. Eu sequer sabia como isso havia se dado, mas Balsano havia conquistado em cheio meu coração, e eu não fazia a menor ideia de como arrancar esse sentimento de dentro de mim, afinal apesar de Matteo ter se declarado para mim ele nunca fez mais nada para demonstrar que suas palavras haviam sido sinceras, pelo contrario. Afastando-se de mim Matteo me dava a impressão de que eu sequer era importante para ele, apenas um mero objeto sexual, que nem para satisfaze-lo servia mais.

Deitada em minha cama bufo. Sinto raiva por não conseguir tirar esse imbecil dos meus pensamentos. Tudo o que eu menos queria era estar apaixonada por ele, no entanto agora era tarde demais. Talvez Simón tivesse mesmo razão naquele dia em que nos vimos na baia veneziana. Talvez ali eu ja estivesse apaixonada por Matteo como ele disse, e apenas não quis ver, preferindo ficar cega aos meus sentimentos. Suspiro. Por um momento lembro-me do que Simón havia me contado sobre Matteo, e que por estar tão absorta nele, e nos desejos e coisas que estava sentindo, ainda nem havia apurado a versão de Matteo dos fatos. Afinal, cada moeda tem dois lados. Me levanto, sem me importar se estava de pijama e rumo ao escritorio dele, decida a tirar isso a limpo naquele instante.

Bato na porta de leve e escuto uma voz rouca que conheço muito bem me dizendo para que entrasse. Obedeço e vejo Matteo tirar os olhos do que estava fazendo e ficar vidrado em meu corpo. Engulo a seco, nervosa pelo jeito com que ele me olha.

— Lu, Luna. — Gagueja, parecendo afobado. — Se queria falar comigo poderia pelo menos tirar esse pedaço de pano que chama de pijama e por algo mais apropiado para a ocasião. — Diz, agora parecendo irritado.

Dou um leve sorriso, tentando disfarçar minha extrema felicidade ao saber que eu ainda o afeto. Com isso me vem uma vontade louca de enfrenta-lo, e é isso que eu faço.

— O corpo é meu, querido, e eu visto o que quiser nele. — Digo, sem medo.

Matteo bufa, cerrando os punhos. Percebo que ele usa toda sua força de vontade para não levantar nesse exato momento em vir em minha direção. Ele pragueja algo em italiano, algo que nem consigo compreender, mas percebo que eu o irritei e me sinto vitoriosa.

— Diga logo o que quer, Valente. Estou ocupado. — Fala, de forma seca, mas isso sequer me intimida.

Ando em sua direção, puxo sua cadeira e sento em seu colo, começando a acariciar seu resto. Sinto Matteo estremecer com meu toque e o volume em sua calça ganhar vida. Com isso acabo ficando excitada também.

— Senti saudades, Matteozinho. — Sussurro em seu ouvido, com uma voz doce. — Nunca mais me procurou.

Matteo bufa e tira minhas mãos de seu rosto. Ele desvia seu olhar do meu, e percebo que o quão nervoso ficou por eu estar assim tão próxima dele.

— Nem comece com essa ladainha, Valente. Estive extremamente ocupado durante essa semana, e além do mais eu não gosto nada que minhas submissas fiquem cobrando minha atenção. Eu a procurarei que achar que deva. Agora saia do meu colo, e me deixe em paz. Vai fofocar com Nina. — Diz, extremamente irritado, e me empurra para que saia de seu colo.

Suspiro. Ainda não desisti.

— Ocupado? — Indago, com um tom irônico estampado em minha voz. — Deve estar por ai iludindo outra trouxa dizendo que a ama para depois nem procura-la mais. — sorrio ao ver que Matteo tem toda sua atenção fixada em minhas palavras. — Ou então deve estar se reunindo com seus amiguinhos da mafia, planejando outro assassinato como fez com seus pais. — Solto a bomba, pronta para ve-la explodir.

O rosto de Matteo enrijece, seu maxilar se contrai, e seus olhos ficam mais escuros que o normal. Ele cerra seu punho em cima da mesa, sua força tamanha que faz todos os papeis voarem de encontro ao piso e eu dar um pulo. Matteo se levanta, e vem em minha direção em passos rápidos, e estremeço, sentindo uma pontada de medo do que ele possa vir a fazer.

— Como sabe que estou na mafia, Luna? — Pergunta, seu tom de voz baixo, quase inaudível, mas extremamente perigoso. Seus olhos escuros me encarando, fazendo um tremor percorrer por minha espinha. O encaro e engulo a seco. De repente toda a coragem que eu tinha para enfrenta-lo se esvaiu, em pouquíssimos segundos. Agora resta somente o medo e a apreensão.

— RESPONDA! — Ele exige, gritando alto, me fazendo tampar meus ouvidos com as mãos e estremecer mais uma vez. Eu poderia correr feito uma fugitiva medrosa, mas decido que estando aqui vou com isso ate o final.

— O seu irmãozinho querido Simón me contou. Ele me contou tudo, Matteo. Inclusive que sempre tentou mata-lo inúmeras vezes, sem sucesso. Que foi internado num hospicio, mas fugiu para Veneza. E também que entrou na mafia, assassinando seus próprios pais, de uma forma fria, sem piedade alguma-. — Revelo, sem aparentar o receio que sinto pela reação que ele possa vir a ter. — Nem adianta tentar negar, eu sei de tudo.

Espero que ele se atire contra mim, em completa furia e me xinge de todos os nomes que possam existir, mas estranhamente não é isso que acontece. Em vez disso, Matteo cerra os punhos e volta a socar a mesinha. Me espanto como ele ainda nem machucou sua mão, tamanha é a força que ele emprega nisso. Ele esta mesmo irritado, isso é mais que visível.

— CANALHA, DESGRAÇADO! — Matteo esbraveja, furioso. Vejo lagrimas se acumularem em seus olhos, mas talvez seja uma miragem minha. — Simón não tinha o direito de te envolver nisso, Luna. ELE NEM TINHA! — Grita, completamente alterado.

Me assusto. Nunca vi Matteo tão afetado dessa maneira. Ele encontra-se sentado em sua cadeira, com as mãos entre a cabeça, que por sua vez encontra-se entre suas pernas. Ouço soluços saindo da boca dele, indicando que ele chora. Fico preocupada, e tento consola-lo, mas ele tira minha mão que pousei em seu ombro.

— Matteo, acalme-se. — Peço, tirando suas mãos de rosto e o obrigando a olhar-me. — Conte-me o que houve, sem mentiras. Talvez assim eu possa lhe ajudar. — Digo, enxugando suas lagrimas. Sempre vi Matteo como alguém frio, sem coração e sem sentimentos. Mas, ao ve-lo nesse estado percebo que ele é um ser humano, como qualquer outro. Que sofre como qualquer outro. Que precisa liberar seus sentimentos como qualquer outro. Aqui neste momento estou conseguindo enxergar o verdadeiro Matteo, o Matteo que ele não mostra pra ninguém.

Ele me olha fixamente, e nesse momento consigo enxergar o sofrimento e o ressentimento que ele sempre guardou para si, por muito tempo. O abraço fortemente, que ele se aconchega em meu peito. Chorando feito uma criança. Acaricio seus cabelos, me sentindo bem de poder lhe consolar pelo menos uma vez.

Depois de alguns segundos, Matteo se afasta e pega em mão.

— Pode não acreditar em mim, Luna. Sequer tem motivos para isso. Mas, o Simón distorceu tudo. — Ele fez uma pausa e me olha, talvez esperando que eu fale algo, mas como isso nem acontece ele continua. — Quem sempre teve inveja de mim foi ele. Desde criança. Ele sentia raiva minha por nossos pais darem mais atenção a mim, o filho legitimo e ele o adotado. Isso era tudo da cabeça dele, pois eu tenho certeza que nossos pais amavam os dois igualmente. — Matteo pausa novamente para respirar enquanto eu sigo escutando, atenta a cada palavra. Enquanto Matteo me conta tudo posso ver sinceridade refletida nos olhos dele, coisa que não consegui ver nos de Simón. — Ele tentou me matar varias vezes. Tentando me afogar na piscina, ou tentando me jogar da escada. Cada vez que ele tentava tirar minha vida Simón me olhava com tanto odio, e raiva. Dizia que eu era o culpado de sua vida ser uma porcaria. Que eu sequer o amava e roubava os pais dele. Que era melhor ele voltar para o orfanato. Que se eu saísse da vida dele tudo melhoraria. Eu tentava argumentar, mostrar meu carinho e o amor que estava disposto a lhe dar. Mas de nada adiantava. Foi quando ele tentou me incendiar com um isqueiro aos treze anos que Simón foi levado ao psiquiatra, que constatou que ele tinha um grave problema mental. E que necessitava ser tratado. O internaram na clinica, e eu me sinto culpado por ver meu irmão naquele estado, mesmo sem eu ter tido culpa.

Matteo para de falar por alguns instantes e eu sequer sei o que falar. Estou muito surpreendida. Surpresa que Simón teve esse tipo de caráter, e que tenha sido capaz de distorcer tudo na maior cara dura para que eu odiasse o Matteo. Isso tudo era inacreditável. Esse Simón em nada se parecia com o Simón pelo qual me apaixonei na escola. Nem sei o que pensar.

— Mas, então e a mafia, e a morte de seus pais? — Pergunto, ainda sem entender essa parte da historia.

Matteo suspira e me olha novamente.

— Simón ficou dois anos internado na clinica, quando descobrimos que ele havia fugido, e agora morava sob custodia da milionária Sharon Benson. Fomos na mansão dela procura-lo e pedir que ele voltasse para casa. Mas, de nada adiantou. Ele sequer quis ouvir e nos expulsou rudemente, quase batendo em minha mãe. Eu estava destroçado com tudo isso. Mas, o pior ainda estava por vir. Eu sabia que meu pai tinha uma mansão em Veneza, no entanto eu sequer imaginava de onde ela provinha. Foi quando, mexendo no computador de meu pai descobri que ele pertenceu a mafia, e tinha inúmeras dividas com eles. Minha vida estava desmoronando. Era uma desgraça atrás de outra. Eu nem sabia o que fazer. Foi então, que num dia homens estranhos invadiram nossa casa e mataram meus pais friamente. Então eu jurei que iria vingar a morte deles. E por isso me mudei para a Italia e entrei na mafia, onde acabei me tornando chefe. Mas, não foi por querer, Luna. Foi apenas por vingança. Vingança que ainda nem consegui concretizar. — Matteo termina, e estou chocada com tudo que contou.