Notas iniciais

Por Christian.

Eita porra.

Que dor do caralho na cabeça.

Ah, tudo parece rodar ainda, minha cabeça parece que vai explodir, eu sinto meu corpo pesar quinhentas toneladas, meu estômago está roncando, implorando por comida ou qualquer coisa que sustente o vazio.

Abri os meus olhos devagar, sorrindo e agradecendo internamente pelo quarto onde eu estava estar escuro, os blecautes impediam a entrada de luz.

Contei até dez algumas vezes para até então decidir me levantar.

Inicialmente somente me sentei na cama e acendi o abajur, vendo o horário no relógio, eram quase oito e meia da manhã, e quando eu olhei em volta me dei conta onde eu estava.

No meu antigo quarto.

As paredes cobertas de pôsteres das minhas bandas preferidas há mais de dez anos atrás, a foto da minha mãe biológica colada em um dos meus pôsteres.

Minhas roupas da noite de ontem estão jogadas no chão.

Eu vestia uma calça de moletom e uma blusa que pareciam ser grandes demais para meu tamanho.

Eu estava cheirando a sabonete, mas eu não me lembro de ter tomado banho.

Como eu vim parar aqui?!

Ah não!

Recordações da noite passada passaram a rondar a minha mente.

Puta que pariu.

Que merda eu fiz ontem?!

Eu me lembro da minha briga com Mia, dela me dizendo que me achava nojento, e que não tinha perdão para o que eu tinha feito, ela não conseguia entender o meu lado, eu queria mostrar á ela o meu lado e eu queria que ela tivesse empatia por mim, mas ela simplesmente não entendia, ela me achava o errado da história, eu não me sentia assim.

Eu fiquei puto, eu fiquei muito puto com a merda que tinha acontecendo, eu só queria esquecer a bosta que fiz de tentar consertar o nosso relacionamento, então fui beber, por que eu sabia que se eu bebesse, eu iria conseguir esquecer por algumas horas tudo que estava acontecendo.

Quando Ana veio atrás de mim tentar me parar, eu fui estúpido com ela, e de raiva por mim mesmo e pela forma que a tratei continuei a beber, porém passei a beber numa velocidade muito mais rápida que anteriormente.

Eu só conseguia pensar o quão fodido eu era.

Minha irmã me odiava.

A mulher que eu amava logo iria me deixar ao se dar conta do merda que eu sou, por que eu sei que em algum momento Anastásia vai se dar conta de que eu não sou bom suficiente para ela, ela vai querer mais, vai querer alguém que não tenha um passado fodido e uma tonelada de merdas nas costas pendentes.

Eu sei que isso um dia vai acontecer por que sempre foi assim e sempre vai ser.

Eu só estrago as coisas boas em minha vida, e Anastásia vai se dar conta disso, vai se dar conta que merece alguém melhor e não um fodido como eu.

Isso me fez querer beber ainda mais.

O fato de saber que jamais serei bom suficiente para a única mulher que amei e amo.

Ah droga, o discurso.

O maldito discurso.

Meus pais irão me matar.

Que vergonha que eu passei e que eu fiz todas as pessoas em minha volta passar.

Tem algum buraco para eu enfiar a minha cabeça e jamais sair novamente para assim parar de fazer merda?

O que eu irei dizer para minha mãe? Eu não faço a menor ideia.

Me levantei tomando muita coragem e um bom copo de suco de laranja e comprimidos para a ressaca –que alguém havia deixado na cabeceira da minha cama -.

Lavei bem o meu rosto em uma tentativa falha de tirar aquele aspecto fodido de “hei, olhe para mim, acabei de sair de uma fodida dor de cabeça”.

Olhei para minha roupa amassada sabendo que não tinha nem como trocá-la por outra qualquer coisa, então dei de ombros e contei até dez para descer as escadas e encarar a minha família.

Eles estavam na mesa central da cozinha tomando um farto café da manhã com muitas conversas e risadas – que bom que o acontecido de ontem não tenha afetado o humor deles, eu acho. –

Anastásia e Katherine estavam aqui também.

Merda!

Eu não queria que Anastásia estivesse aqui agora, por que eu sei que ela vai querer explicações que no momento eu não estou nem um pouco confortável de dar.

Quando eu apareci e todos constataram a minha presença ali, aquele silêncio constrangedor tomou conta do lugar.

Ótimo, me sinto em uma cena de filme neste exato momento.

Os olhos de cada um parecem arregalados e sem saber o que dizer.

Estava uma situação desconfortável ao extremo.

Porra.

Mil vezes porra!

Eu quero definitivamente desaparecer.

—Ah... Bom dia... Família. – Eu os cumprimentei sem graça ainda pensando em cavar um buraco para enterrar a minha cabeça.

Eu sinto minhas bochechas queimarem.

Devo estar vermelho como um tomate.

—Bom dia filho, está com fome? – Perguntou minha mãe parecendo estar totalmente bem com a situação e não como se quisesse me estrangular até a morte por causa da vergonha de ontem.

—Estou um pouco sim. –

—Sente-se então, Rosa fez panquecas com bacon, seu prato da manhã favorito não é? –

—É sim. – Respondo me sentando na cadeira vaga ao lado de Mia.

O silêncio ainda se faz presente, mas não com tanta intensidade.

Logo Elliot que parece perceber o clima começa um assunto qualquer usando o seu senso de humor para chamar atenção para ele e sair um pouco os olhares de mim.

Agradeço com um rápido aceno para ele que pisca em retribuição.

Logo assuntos começam a surgir ali e aqui e novamente as pessoas da mesa estão conversando animadamente, enquanto eu prefiro ficar calado na minha, comendo a minha panqueca com bacon.

A maioria das pessoas preferem ovos com bacon, mas até os meus gostos culinários são peculiares.

—Como está à ressaca maninho? – Perguntou Mia sussurrando perto de mim e com nível de sarcasmo bem elevado.

—Está bem. Obrigado por perguntar. – Respondi normalmente, ignorando o seu sarcasmo proposital.

Eu iria agir normal com Mia, não iria ignorá-la ou provocá-la, irei agir com maturidade.

—Você bebeu ontem daquele jeito por causa do que aconteceu lá em cima entre nós? – Ela questionou ainda aos sussurros sobre nossa briga de ontem.

—Foi o principal motivo. –

Ela revirou os olhos.

—Espero que não me culpe por ter agido como um completo babaca ontem. –

—Fique tranquila, eu sei que a culpa foi somente minha, eu não te culpo por nada. –

—Que bom por que saiba que eu ainda acho nojento tudo o que aconteceu, não é bebendo e se fazendo de vitima que vai conseguir o meu perdão. –

—Eu não vou discuti com você agora. –

—É claro que não, você não vai querer ter o seu segredinho nojento e sujo sendo exposto em um café da manhã. –

Cerrei os olhos com a sua provocação.

—Hei, o que tanto vocês dois cochicham ai hein? – Perguntou Katherine, nos interrompendo e minha vontade foi de agradecê-la por isso.

—Nada não, só coisas de irmãos. – Mia respondeu em meu lugar.

Katherine não pareceu se contentar com a resposta, porém se calou.

Anastásia me olhava com uma expressão de preocupação, eu sorri para ela a fim de acalmá-la.

O restante do café da manhã ocorreu normalmente.

Todos estavam se esforçando ao máximo para não demostrarem ou falarem nada referente à noite passada.

{...}

—Onde está papai? – Perguntei a Elliot enquanto subíamos as escadas para o seu quarto, ele iria me emprestar algumas roupas.

—Saiu cedo para a advocacia. Tinha um caso sério para resolver. Apesar de hoje ser sábado. Você teve sorte, por que se ele estivesse aqui hoje de manhã você não teria escapado de um interrogatório no café da manhã. –

—Saiu alguma coisa na mídia? –

—Não, a sua sorte é que somente fotógrafos contratados estavam na festa e nosso pai teve que descolar muita grana para calar a boca deles e eles não soltarem nenhuma foto ou informação. –

—Eu pagarei de volta á ele. –

—E vai mesmo por que foi uma grana preta. –

—Já entendi a vergonha que passei ontem a noite não precisa me relembrar. –

—Ah qual é, eu vou te lembrar disso pelo resto da sua vida, foi um dos seus maiores micos. –

Elliot vasculhava seu guarda roupa em busca de alguma roupa para mim.

—Somos do mesmo tamanho praticamente Elliot, me da qualquer roupa e pronto. – Resmunguei.

—A questão não é essa, a questão é que tenho que ver se estão limpas. – Ele explicou cheirando uma camisa. –Essa está meio termo. –

—Meio termo? Não tem como uma roupa estar meio termo Elliot, ou está suja ou está limpa, simples assim. –

—Hei, para mim não tem essa de totalmente limpa e totalmente suja, você sabe que eu sou variado na questão de higiene pessoal. –

—Isso é um jeito bonito de dizer que você é porco? –

Um travesseiro voou em direção ao meu rosto.

—Eu não sou porco, só não sou pirado nessa coisa de limpeza. –

—Próxima desculpa por que essa não cola mais. – Zombei.

Elliot me jogou uma camisa preta e um jeans claro.

Toma, tão ai totalmente limpas. – Foi a sua vez de zombar.

—Olha que vou confiar em você. –

—Não confiaria. –

Eu ri enquanto ia para o seu banheiro me trocar.

{...}

—Mas agora é sério Christian, por que você bebeu daquele jeito? – Perguntou Elliot sentando em sua cama enquanto eu arrumava meus cabelos na frente do seu espelho.

Merda!

O que eu iria dizer á ele?

—Merdas e mais merdas acontecendo na minha vida Elliot. -

—E essas merdas estão relacionadas á empresa ou ao seu relacionamento com a Ana? –

—Muitas coisas Elliot, só isso que eu posso dizer. –

—Anastásia estava nervosa e apreensiva na festa, algo aconteceu lá Christian, eu posso sentir, por que você não confia em mim e me conta? Eu posso tentar te ajudar com isso. –

—Esse tipo de merda eu tenho que resolver sozinho Elliot. –

—Esse é o seu problema Christian, você esconde tanto as coisas dos outros, das pessoas que você pode confiar, guarda tudo para si e não quer ajuda, e isso ainda vai te ferrar cara. –

—É muita merda para resolver Elliot, e eu não quero mais ninguém metido nisso, não quero mais pessoas se ferindo, não quero envolver muita gente nisso, eu prefiro resolver eu mesmo sozinho esses problemas para não magoar os outros, e sempre foi assim e sempre funcionou dessa maneira. –

—Mas talvez esteja na hora de você mudar Christian, mudar essas atitudes por que resolver de vez em quando as coisas sozinho tudo bem, mas sempre, isso não faz bem para ninguém, por que você está cheio de problemas guardados somente para você dentro de si mesmo e vai ter um momento que você vai explodir Christian e isso não vai ser bom. –

—Vai por mim Elliot, eu prefiro assim. –

—Tudo bem cara, mas você sabe que pode contar comigo, não sabe? –

—Claro que sei, obrigado Elliot, obrigado mesmo. –

Ele sorriu e apertou a minha mão e demos um leve abraço com tapinhas nas costas um do outro.

Eu sabia que podia contar com Elliot. E eu gostava disso. Gostava de ter novamente o meu irmão como meu melhor amigo.

{...}

Assim que sai do quarto de Elliot dei de cara com minha mãe.

Sua expressão era de receio e expectativa.

—Você sabe que qualquer problema que tiver poderá contar sempre comigo não sabe? –

Ah mãe, se você soubesse da verdade jamais olharia novamente em minha cara.

—Eu sei sim mãe. –

—Está tudo bem com a empresa? –

—Só alguns problemas, mas nada que eu não posso resolver. –

—Seu relacionamento com a Ana está bem? –

—Está sim, brigamos algumas vezes, mas brigas normais de casal. –

—Eu te conheço o suficiente para saber que você não irá contar a verdade, mas eu quero que saiba que quando estiver pronto para contar, eu estarei aqui. –

A abracei levemente.

—Obrigado mãe, muito obrigado. –

—Apenas não se abra Christian, pare de guardar tudo para você, isso não irá te fazer bem, tente se abrir, confiar mais nas pessoas. –

Grace havia dito praticamente o mesmo que Elliot.

—Eu irei tentar mãe, eu prometo. –

Ela sorriu incerta da minha promessa, mas me abraçou novamente, dizendo que me amava, eu retribui a declaração, algo que eu não fazia a um bom tempo.

{...}

Anastásia estava sentada na sala vendo TV.

Sentei ao seu lado vendo que ela assistia algum programa de culinária da manhã qualquer.

—Ah... Já podemos ir se você quiser. – Eu disse um pouco constrangido ao me lembrar de ontem e de que ela me viu naquele estado vergonhoso.

—Tudo bem, eu irei me despedir de Grace. – Ela murmurou.

—Irei esperar lá fora. –

Alguns minutos depois Anastásia saiu da casa enquanto eu estava a esperando no carro.

Ela entrou sem dizer nada, e eu sabia que o caminho seria longo e silencioso, então não hesitei em colocar alguma música para não ficar aquele silencio constrangedor.

Foram exatos trinta e dois minutos até chegarmos ao escala, tudo feio no silencio que me agoniava e me deixava angustiado e apreensivo.

Eu preferia que ela estivesse gritando comigo, me xingando e até mesmo me batendo do que essa porra de silencio.

Quando entramos no nosso apartamento eu já me sentia esgotado pela falta de palavras, eu me sentia exausto por aquele vácuo e necessidade de som.

—Por favor, fala alguma coisa. – Implorei quando fechei a porta e a vi indo em direção á sala parando perto da mesinha de centro. –Grita, me bate, me xinga, mas por favor, fala alguma coisa. – Declarei me aproximando.

Ela assentiu coma cabeça.

—Eu quero a verdade sobre ontem, mas eu quero mesmo a verdade, não quero meias palavras e muito menos mentiras Christian, eu quero a verdade, e se você se recusar a contar, me desculpe, mas não iremos poder continuar dessa forma. –

Engoli em seco.

Bom, eu acho que talvez agora eu realmente preferisse o silencio.

Continua.

Notas finais
Até o próximo....