Cinquenta Tons Mais Intensos.
69 Um passado em cinquenta tons. - Parte I.
Notas iniciais
Por Anastásia.
—Eu não sei se é uma boa ideia falar. – Disse Christian se sentando no sofá com um ar de derrota.
Eu poderia até ficar com pena dele nesse momento, mas eu definitivamente já estou cansada das mentiras, dos segredos e das faltas de respostas, eu preciso saber da verdade ou isso vai me enlouquecer.
Estou cansada de diversas coisas acontecerem com Christian e eu não saber o porquê do seu comportamento.
Eu só preciso de uma explicação verdadeira para entender o porquê de ontem, e por que ele envolve esse muro em volta dele mesmo como se fosse necessário para não se machucar.
—É uma ótima ideia falar Christian e eu quero que você fale, eu preciso que você conte a verdade. –
—Para que? Está no passado. –
—Se estivesse no passado você não teria bebido pra caralho ontem para esquecê-lo. –
—Ana... Por favor... –
—Não Christian. Chega, eu cansei de ser paciente e boazinha com você, já deu, eu quero a verdade e quero agora. –
—Eu não quero te perder. –
—Você não vai me perder. –
—Eu vou sim se contar a verdade. Eu sei que quando você souber você nunca mais irá querer olhar para mim. –
—É tão sombrio assim seu passado? Por acaso você matou alguém? –
Christian deu uma risada irônica.
—Talvez só a mim mesmo. –
Me sentei ao seu lado no sofá, pegando em sua mão e apertando na minha, o fazendo sorrir de verdade.
—Eu prometo não ir embora. –
—Promete mesmo? –
—Se você quiser eu prometo de mindinho. – Eu disse apontando meu menor dedo em sua direção querendo selar a minha promessa.
Christian rio.
Porém levantou seu mindinho também e o entrelaçou no meu.
Selamos juntos a promessa que não iria embora após ele contar a verdade.
Após nós soltarmos os nossos dedos, Christian suspirou.
—Tudo bem. Então... Ah... Tudo começou quando eu tinha treze anos. Eu comecei a virar aquele típico adolescente rebelde que fazia coisas que eu sabia que não podia fazer, não ouvia os meus pais, e tratava-os de forma bem grotesca, eu não era o melhor exemplo de aluno, minhas notas eram baixas e minhas amizades eram péssimas, foi uma época que eu decidi ligar o foda-se e deixar para lá, tudo o que eu fazia era brigar no colégio e me meter em diversas encrencas. Eu não fazia por que gostava, eu fazia por que eu estava frustrado, frustrado com todo o meu passado, e a cada dia que se passava eu sonhava com a minha infância, eu sonhava com ela e principalmente com ele e eu odiava o fato de ambos ainda mexerem comigo, odiava o fato de eu próprio me achar insuficiente para a minha própria família. Elliot e Mia eram perfeitos, e eu? Eu era o garoto estranho e adotado que veio de um passado fodido de um cara que me batia todos os dias e uma mãe que não levantava um dedo para me acolher. –
Parei para analisar o nó que havia dado em minha mente.
Eu sabia que Christian havia sido adotado, mas não sabia quem eram ou foram os seus pais biológicos.
—Christian... Como assim? –
—Minha mãe... Ella era o nome dela, era uma prostituta viciada em drogas. Meu pai? Eu não faço nem ideia de quem seja, mas tinha um cafetão, o cafetão da minha mãe, ele batia nela praticamente todos os dias, mas ele não contentava somente em bater nela, ele batia em mim também. – Lágrimas escorriam do rosto de Christian, ele não conseguiu se segurar e acredito que eu também não, pois eu sentia o meu rosto molhado. – Ele me batia em todos os lugares do corpo, principalmente na região do tórax, ele adorava apagar os seus cigarros em mim, e ele fazia isso mesmo sem eu fazer nada, eu poderia me comportar bem o dia todo que ainda sim no final do dia eu ainda iria apanhar muito, muito dele. –
Apertei sua mão com força, em uma tentativa de passar conforto para ele.
—Ele batia nela bem na minha frente, me fazia assistir enquanto batia nela e quando... Quando a estuprava também. Ela não reagia, simplesmente ficava lá, aceitando ele bater nela, ela não fugia, não dava esperanças de que iria fugir, ela simplesmente parecia aceitar tão fácil aquilo, e eu a odiava, eu odiava o fato dela não lutar, eu odiava o fato de eu ainda amá-la por que ela era a minha mãe e isso eu não podia mudar. Eu passei fome, muita fome, me esqueci de quantas vezes fiquei sem comer, implorando por alguma coisa preencher meu estômago e nada. Isso foi até os meus quatro anos de idade. Até que um dia em uma quarta feira, ela me chamou na cozinha, me deu um sanduíche e um copo de achocolatado, me esperou comer, me abraçou e disse que me amava, foi à primeira vez eu a ouvi dizer que me amava, ela me deu banho, e colocou roupas limpas em mim, e disse para eu ficar em seu quarto o dia todo. E eu fiquei lá assistindo desenho animado na sua antiga e pequena TV, algumas horas depois eu não ouvi mais seus passos e nem sua presença no apartamento, decidi desobedecê-la e sai do quarto para ver onde ela estava... Eu a encontrei caída no chão da cozinha... A chamei diversas e diversas vezes e ela não acordava, simplesmente não acordava de jeito nenhum, tinha comprimidos ao lado do seu corpo, mas eu era pequeno demais para saber o que era aquilo. Tentei pedir por ajuda, mas ninguém me ouviu... Ninguém...—
Christian parou de contar para poder respirar.
Lágrimas ainda escorriam de seu rosto e ele parecia quebrado.
Mas parecia também aliviado por contar para mim.
Christian teve um começo de infância totalmente traumático e infeliz para qualquer criança, ele cresceu com uma mãe que infelizmente não deu atenção ao seu filho e um cafetão que o espancava todos os dias e a única solução que sua mãe encontrou para acabar com tudo foi se suicidando.
Eu sabia que a infância de Christian não tinha sido fácil, mas não passou na minha mente que seria desse ponto.
Eu estava mal por ouvir tudo o que tinha ouvido.
E ainda tinha muito mais por vir.

Continua.
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