Cinquenta Tons De Vermelho
9 Capítulo 9: Um Sinal Maligno
Notas iniciais
Gomen!!
Meu computador ficou no conserto por dois meses e a tonta não tinha salvo a história em outro lugar.Além disso estou com muitos trabalhos da faculdade para resolver, talvez(quase certeza) o próximo capítulo só saia nas férias.Mas eu prometo treta!!
Bem,enfim,
Espero que gostem!!
E se forem me crucificar,façam isso nos comentários!Eu me alimento deles!
A água caía morna, mais para quente do que para frio, e aliviava as dores pelo corpo da diretora. O líquido passava pelas curvas dela sensualmente, molhando o corpo levemente arroxeado na região pélvica.
Apesar de já estar morto, o corpo dela ainda respondia a alguns estímulos como se estivesse vivo. As costas também doíam por conta da mesa, mas nada que ela não pudesse aguentar, por isso tinha preferido o chuveiro a banheira, sua maior preocupação agora eram as partes íntimas que doíam muito. Pegou a bucha e passou no sabonete e depois no corpo, lavando-se com cuidado para que não doesse.
Mataria Alucard por aquilo, apesar de ter sido bom. E a arma tinha servido como um ótimo brinquedo estimulador, mesmo quase a tenha rasgado por dentro quando ele começou a desejá-la demais.
Ainda podia se recordar da sensação de ter seu membro na boca e de como se sentiu poderosa, apesar de estar numa posição submissa. Se ela tivesse vontade na hora, poderia ter quebrado alguns ossos, apenas que por pouco tempo, o esfaqueado e até mesmo o matado tamanha a distração e a concentração dele nos movimentos dela. Aquilo revolvia na mente dela várias vezes, chegando a ser irritante.
Saiu do banho e enrolou-se numa felpuda toalha marfim, secou seu corpo vagarosamente, meio que apreciando a leve dor que sentia, já anestesiada pela água. Secou as pontas dos cabelos e enfiou-se num roupão, para só então sair do banheiro que parecia uma sauna. O vapor saiu junto com ela, porém, quando entrou no quarto frio ela ainda assim pôde sentir a rajada de vento gélido, que lhe era tão cara em dias quentes, atravessando sua nudez. Pegou uma calça já passada e uma camisa, vestiu suas roupas de baixo e de cima sem muito se importar se combinavam, escolheu a primeira gravata que viu e deu o nó ao redor do pescoço, vestiu as meias e calçou os sapatos masculinos.
Deixou o quarto de dormir com plena consciência de sua fome, o estômago roncava baixo, pedindo por um saco de sangue bem fresquinho. Descia as escadas impaciente por causa disso enquanto penteava os cabelos com os dedos, tentando desembaraçá-los. A mansão estava completamente escura, mergulhada num silêncio que Integra considerava uma bênção, mas não podia negar que policiava cada canto à procura de dois pontos vermelhos e uma fileira branca de dentes afiados, que tentava reproduzir um sorriso, mas que só transmitia medo aos desavisados.
Depois de muito procurar por eles encontrou, no térreo, um par de olhos vermelhos e um sorriso branco de presas afiadas enfileiradas, uma após a outra. Todavia não era nem um pouco assustador.
Celas Victoria lia um romance policial de Agatha Christie num canto, sentada numa poltrona verde escura. A diretora estranhou, a policial não fazia o tipo que lia e sim o tipo que assistia aos clipes das Spice Girls na MTV, principalmente se fosse Agatha Christie. Caminhou suavemente até ela e sem fazer barulho, pôs o dedo em cima do livro e abaixou-o.
-Onde Alucard esconde os sacos de sangue? –Ela perguntou.
A jovem, após quase sofrer um ataque cardíaco com o susto mesmo já estando morta, e tendo derrubado o pesado livro nos próprios pés, tentou se recompor o mais rápido o possível. Ela se levantou com tudo, quase caindo e saudou a diretora.
-Onde Alucard guarda os sacos de sangue? –Integra perguntou mais uma vez.
-Bem, no frigobar dele... Eu acho... Mas para quê... –Ela parou aí. A menina ainda não tinha assimilado ainda o estado da mestra de seu mestre, e talvez nunca fosse. Tinha a Dama-de-Ferro como um ideal a ser seguido, e sempre é duro quando esse ideal cai.
A diretora tomou a direção do porão, desceu as escadas, e abriu a porta que dava para uma parte ainda mais obscura do passado de sua família, e talvez de toda a Inglaterra. Percorreu os corredores, que formavam quase um labirinto, sem necessitar de ajuda ou de uma luz. Naqueles quase onze anos de diretoria tinha gravado cada milímetro quadrado do lugar, cada pedra era profundamente conhecida por seus olhos, cada pedacinho de musgo que crescia era lembrado toda vez em que ela mapeava mentalmente o lugar.
Parou na porta do quarto onde nunca, exceto quando acordou Alucard, ousou entrar. Era uma porta normal de madeira, exceto pelos desenhos da entrada, que barrariam a saída do seu vampiro de estimação caso assim ela o desejasse. Riu silenciosamente. Lembrava-se vagamente do dia em que chamou seu servo de poodle mal domesticado, ele tinha ficado vermelho como o sangue consumia e ameaçou dar-lhe umas palmadas. Lembrou-se também de Walter salvando-a de surra que Alucard prometeu que daria, pondo-o numa coleira especial, feita de alhos. Se Alucard tinha uma coleira, então isso fazia do quarto dele a casinha do cachorro.
E cães são extremamente territoriais.
O que ele faria caso a pegasse ali? Seu estômago roncou. Que se dane, ela era sua mestra e tinha todo o direito do mundo de entrar e sair do quarto dele, assim como ele fazia com o seu.
Abriu a porta e se deparou com um quarto relativamente arrumado para os padrões que ela tinha em mente quando pensava nele. Havia um trono na parede direita, com alguns tecidos adornando as pedras que constituíam a parede em si. Um quadro de cerca de cinquenta centímetros, ilustrando um homem de barba, cabelos encaracolados castanhos, olhos âmbares e um rosto bastante masculino numa roupa vermelha que Integra não sabia dizer com certeza o que era, enfeitava a parede contrária à porta. Logo abaixo dele o caixão em que Alucard se recolhia todas as manhãs e do qual se levantava todo o início de noite e um tapete de urso bem antigo no meio do quarto, muito bem conservado por sinal, mas um pouco comido pelo tempo.
Havia alguns quadros colocados no chão, de costas para Integra, perto do ataúde. Na parede contrária à do trono se encontravam um pequeno guarda-roupa e uma escrivaninha bem antiga, que a vampira suspeitava ser da época em que ele era rei. Ao lado da porta um baú e um manequim com um vestido rosa.
Ela observou melhor e descobriu que era seu vestido de debutante. Junto a ele estavam seus sapatos, seu anel de debute, brincos e pulseira. Tudo pendurado num manequim, mais ou menos do tamanho dela na época. Puxando na sua memória, ela não se lembrava de ter encontrado seu vestido na manhã seguinte à horrível festa de 16 anos. Sempre achou que Walter o teria guardado num dos muitos quartos, onde as roupas de infância da diretora estavam ficando até o mordomo arrumar um espaço entre outras roupas antigas que ele fazia questão de guardar.
Entre o busto do vestido e o manequim havia um pedacinho de algo branco, que a diretora puxou e descobriu ser o papel que Sir Penwood deixou cair no chão depois da dança por causa da textura e cor do papel. Ela abriu-o, julgando não ser mais algo importante e possivelmente secreto por parte do seu padrinho na Távola, e encontrou apenas alguns desenhos de setas e bolinhas. Após alguns segundos de ponderação sobre o que seriam os retângulos desenhados nos cantos e os círculos de cores diferentes, descobriu que aquele papel era só uma cola do esquema de passos que Penwood deveria fazer durante a valsa. Ele era um dos poucos casos onde mesmo colando, o indivíduo ainda conseguia errar.
Bufou.
Guardou o papel onde o encontrou e mirou o baú. Não pensou duas vezes e o abriu. Dentro havia papéis muito antigos, quase totalmente amarelados, a maioria escrita em romeno e aparentemente detalhava o esquema de batalha dos exércitos da Valáquia. Alguns potinhos que lembravam os potes de Health Points e Mana Points dos MMORPGS, com líquidos coloridos dentro. Abriu um de coloração azul-claro e descobriu que ele pingava só que no teto, não no chão, tapou-o e colocou de volta em seu lugar. Descobriu um vestido vermelho medieval, com uma coleção de joias em ouro branco, num estilo muito parecido ao do anel que ele lhe deu quando ela fez 16 anos. Depositou as joias em cima dos papéis com cuidado e suspendeu o vestido. Aparentemente cabia nela e não estava nem um pouco sujo, muito menos mal cheiroso ou mofado. Muito pelo contrário, tinha até saquinhos de perfume entre os tecidos de cima e de baixo.
Subitamente, sentiu vontade de experimentá-lo.
Despiu-se, ficando apenas de calcinha, vestiu com certa dificuldade o espartilho que acompanhava o vestido. Só então pôs o vestido que lhe serviu perfeitamente, até mesmo na cintura e nas partes mais apertadas. Sentiu vontade de ver-se apesar de não ter um espelho ali.
-Eu poderia arranjar-lhe um, mas vampiros não refletem em espelhos. –Uma voz masculina disse-lhe. Integra olhou para um Alucard de peito nu e calças meio abertas, sentado quase que com a coluna na cadeira que fazia par com a escrivaninha. –Está muito bonita assim, falta só arrumar o cabelo.
Ele se levantou e foi para trás dela. Puxou uma mecha de cabelo louro de cada lado, bem na parte das costeletas, enrolou-as e prendeu com uma das joias que ela descobriu ser um prendedor de cabelo. Rapidamente trançou as duas até que terminaram e prendeu com outras joias, e fechou o colar ao redor do pescoço da vampira. Terminou de enfeitá-la com as pedras preciosas e arrumar melhor o vestido no corpo dela. Afastou-se e contemplou-a mudo.
-Está deslumbrante. –Ele finalmente disse depois de alguns minutos. Ele passou mais alguns minutos calado, depois caiu em si. –O que você está fazendo aqui?
-Como o que estou fazendo aqui? Eu sou sua mestra, posso fazer o que quiser com você!
-Você bisbilhotou em minhas coisas...
-Você bisbilhota minha vida há dez anos...
-Você está vestindo uma roupa antiga de alguém que você nem conhece e que eu guardei como lembrança...
-Você tem guardado meu vestido de debutante no seu quarto e não duvido que tenha usado...
-Bem, nós nos divertimos... –Ele confessou. –Mas não da forma que você acha que foi.
-E de que forma foi?
Integra já estava se preparando para o “não é da sua conta”.
-Nos divertimos, só isso. Não foi de forma pervertida, nem para os seus padrões.
-E porcos voam.
-Garanto que se tivesse me divertido dessa forma, nem inteiro ele estaria. –Bem, ele tinha razão nisso, ela duvidava muito que seu vestido continuaria inteiro após uma noite de “diversão”.
-E de quem são aqueles quadros perto do seu caixão?
Ele olhou para ela com um rosto calmo, mas ela sabia que ele tinha se lembrado de algo doloroso. Ela foi até os quadros e pegou um dos quadros. Mostrava uma jovem de cerca de vinte anos, talvez um pouco menos, com cabelos ondulados mais negros do que os de Alucard, lábios finos e olhos azuis, um rosto bastante delicado e muito branco, beirando a anemia, magro com bochechas pequenas e mãos finas e pequenas. Usava um vestido verde escuro medieval, mas como era um retrato do busto Integra não pode ver se ela era realmente magra, quase doente ou se era só o rosto. Pôs o quadro no chão e pegou outro, era uma fotografia de uma mulher idêntica à primeira, mas em roupas vitorianas. Dessa vez Integra podia ver o corpo todo da mulher, quer dizer, imaginar, pois as roupas dela encobriam quase tudo, de modo que ficava impossível saber se ela estava doente ou não.
Usava um vestido azul claro, que cobria desde seu pescoço até os pés, não era possível nem ver os pulsos. Carregava algo que parecia ser uma bolsinha na mão esquerda.
-São Mina e Elisabeta?
-Sim.
Ela depositou o retrato no chão.
-Todos esses quadros são, na verdade. –Ele disse. –Sou alguém que vive no passado, bem sabe que não consigo viver em lugares com menos de cem anos. Ainda me sinto incomodado nesta casa, onde tudo para mim cheira novo como no dia em que trouxeram os móveis. Por isso escolhi a Abadia de Carfax, e por isso continuei morando lá mesmo com a supervisão de centenas de soldados em tudo que fazia até que essa casa tivesse vinte e cinco anos. Preciso levar minhas raízes comigo.
-Nenhum retrato de família?
-Fora o de Elisabeta, só o da minha mãe. –Ele foi até o baú e pegou uma tela enrolada. A jovem vampira chegou perto dele, ficando atrás do mais velho. Ele virou-se e abriu a tela enrolada com cuidado, revelando uma mulher no alto de seus quarenta anos, com uma ou duas marcas de expressão, cabelos castanho-claros encaracolados adornados por pérolas, olhos verdes, nariz fino e um rosto um pouco gordo, além de lábios de espessura mediana. Obviamente era uma pessoa que sorria muito, pois mesmo o retratista querendo pintar uma expressão séria, ou ao menos sem uma definição do humor da modelo, havia um leve sorriso ali.
-Ela era bonita. –A diretora disse.
-Sim. E muito sorridente, apesar de ter sido infeliz. –Integra olhou para o baú aberto e viu outra tela enrolada, com um azul bem escuro, com o que parecia ser uma enorme nuvem negra, que chamava a atenção. Pegou e desenrolou com cuidado.
-Quem é este homem?
Na tela havia um homem de cerca de vinte e poucos anos, quase trinta, de pé com cães de raças violentas de diversas cores ao seu lado. Atrás dele, um campo de batalha com pedaços de corpos destroçados de humanos e animais, cavalos em sua grande maioria, e sangue por quase toda a paisagem. Apesar de quase tudo ser escuro no quadro, com grandes manchas em vinho ou em preto, o homem era plenamente visível. Tinha cabelos castanho-claros curtos para a época, batendo na base do pescoço, além de um par de olhos verdes mais claros do que os da mãe de Alucard. Tinha um belo nariz, sem um arco muito grande, fino assim como seus lábios, sobrancelhas arqueadas e um rosto retangular, bastante masculino que faria muito sucesso entre as damas da corte da rainha Elizabeth II. No entanto sua expressão era de divertimento psicopata. Em meio a corpos mutilados de pessoas e animais, alguns mortos outros agonizando seus últimos momentos, ele tinha um sorriso largo, de contentamento, como se aquilo fosse um passatempo doentio, um vício talvez.
Alucard quando viu a tela que estava na mão de sua mestra tratou de arrancá-la da jovem vampira.
-Nunca mais procure por esta tela. –Ele disse, obviamente furioso por ela ter achado.
-Quem é esse homem?
-Isto, — Ele disse. – não é o retrato de um homem. É o de um monstro.
-De quem é esse retrato, Alucard?! –Ela inquiriu, nervosa com ele e sua falta de respostas.
-Há certas coisas nesse mundo, Integra, — Ele começou, enquanto guardava as duas telas dentro do baú e o trancava. — que ficam melhores sem serem lembradas. Aquele monstro... Não é algo bom de lembrar, nem para mim, nem para ninguém. Ele fazia parte da história oficial da Valáquia, da Romênia e do já caído Império Otomano. Mas todos decidiram excluí-lo de suas histórias oficiais, nem os velhos aldeões que prezavam pela História de suas nações ousaram pronunciar alguma palavra referente a esse monstro. Eu sou o único que se lembra dele.
-Quem é ele?
-Não queira saber.
-Quem é ele?
-Se eu o chamo de monstro, mestra, então é melhor nem falar dele. Juro por tudo que ainda me resta que Hitler parecia uma criança com uma colônia de formigas com fogo no rabo perto daquele... Monstro.
-E por que não destruiu o retrato desse tal monstro se não gosta dele?
-Por que... Para mim, é impossível esquecê-lo. Agora é melhor que você saia, afinal não há nenhum motivo para que continue aqui.
-Você não manda em mim. Além disso, eu estou com fome.
-E porque não disse logo?
Ele caminhou até seu caixão. No canto da parede havia uma pequena caixa preta que a diretora descobriu ser um frigobar. Alucard o abriu e atirou um saco de sangue tipo A+ para a jovem mestra.
-Cuide bem dele e beba com gosto. É o único que tenho desse tipo.
-Está tentando compensar o que fez comigo com a arma?
-Como?
Ela levantou a saia do vestido, mostrando as manchas roxas em sua barriga. A dor voltava lentamente conforme a anestesia da água morna ia passando. Alucard se aproximou e examinou o local. Em seguida deu um tapa sem força na barriga dela. Integra uivou de dor.
-Passa em três ou quatro dias.
-Você fala assim porque não enfiaram uma arma dentro de você.
-Não, mas enfiaram coisa bem pior. Vai demorar um pouco, mas logo você se acostumará com a dor e o sofrimento, e nenhum dos dois importará.
Integra teve um pouco de dó dele. Ele tinha foi estuprado desde os cinco até os catorze anos de idade por homens adultos que só o maltrataram. Bem, ele tinha sido mais bem tratado do que todos os outros prisioneiros dos otomanos, porém ainda assim tinha sido abusado mental e fisicamente. E às vezes ele realmente parecia não passar de um menininho de cinco anos que reclamava, ao seu jeito, por atenção e carinho, implorando por colo.
-Quanto tempo?
-Eu não sei, cada um leva um tempo.
-Eu quis dizer quanto tempo demorou para você.
-Foi logo na primeira vez. Talvez porque eu já estivesse preparado, eu não lembro de me importar com dor e o sofrimento. Todavia eu ainda os odeio.
-Quem?
-Todos. O meu pai, os otomanos, os soldados, aquele monstro... Ainda sinto ódio de todos eles.
Isso era novo. Alucard ainda tinha problemas com o passado antes de Elisabeta, contudo um psiquiatra, por motivos óbvios, estava fora de questão. Bom, mas ela poderia tentar pelo menos ouví-lo. Se ele falasse, claro.
-Estão todos mortos, Alucard. Não há sentido algum em continuar odiando todos eles. –O servo olhou friamente para ela, com certeza estava reprimindo algo.
-Isso não muda o que eles fizeram. Tire o vestido para que eu possa guardá-lo.
-Não. –Ele rolou os olhos. -Código de Hamurabi: Olho por olho, dente por dente. Você ficou com meu vestido, eu ficarei com este não importa o que ele lhe signifique.
-E onde vai guardá-lo?
-Vou perguntar para Walter, mas ele será bem tratado e talvez não precise de saquinhos de perfume. Vou me certificar de que ele será lavado algumas vezes de forma bem delicada. Mas eu quero saber por que o anel de dezesseis anos que você me deu de presente parece tanto com o estilo dessas joias.
-Por que eu gosto desse estilo. Simples assim.
-E o que eu gosto não importa?
-Você não gostou? –Ele fez uma cara de incompreensão. –Deveria ter me dito.
-Não é que eu tenha gostado, mas é uma resposta pouco provável para uma pergunta simples. Você levou, sim, em conta o que eu gosto, se não teria me dado o anel que você guardou.
-Eu não sabia do que você gostava, você não era de usar enfeites. Então me baseei no que eu gosto, num estilo um pouco mais delicado. Meus gostos tendem a não mudar com o passar dos tempos. Se você também gostou é porque temos gostos parecidos, apenas isso. Agora, se me der licença vou dormir, pois estou me sentindo cansado mentalmente.
Sem cerimônia, desceu as calças na frente dela e jogou-as na cadeira onde estava sentado. Foi até o caixão, abriu-o, cobriu-se e fechou o ataúde. Integra foi até o caixão e murmurou baixinho.
-Eu ainda vou ficar com esse vestido.
Ela saiu do quarto ainda trajando as roupas medievais, rezando para que ninguém a visse assim, esquecendo-se de suas próprias roupas nos aposentos do servo. Despiu-se cuidadosamente, notando como o vestido fora bem armazenado, pois não havia um fiozinho solto. Dobrou com cuidado e colocou em cima de seu caixão, selecionou algumas roupas normais e vestiu-se novamente.
Pegou o saco de sangue que havia trazido consigo e rasgou uma pontinha. Alucard tinha razão: sangue tipo A era realmente mais gostoso, talvez porque as proteínas nele preservassem um pouco do sabor de sangue fresco mesmo depois de ficarem horas numa geladeira, ou talvez porque fosse um tipo sanguíneo comum, de pessoas com alimentação relativamente boa.
Terminou de beber e surpreendeu-se ao perceber que não havia uma gotinha vermelha em suas vestes. Jogou o saco no lixo e desceu as escadas para poder trabalhar.
No escritório as pilhas estavam desorganizadas: estavam todas no mesmo nível, amontoadas ao redor da cadeira e em cima da mesa. Em verdade, não havia uma única folha sequer no chão sem que estivesse milimétricamente arrumada e com uma proteção, uma pasta marrom de papel cartão, para evitar o contato entre a sujeira e a parte de trás das folhas.
Ela pegou uma das folhas do topo de uma das pilhas da mesa e sentou-se em sua cadeira. Analisou as páginas por cima, encontrando anotações à lápis feitas por Alucard em cada página, às vezes quatro em cada parágrafo, explicitando soluções para cada um dos problemas. Em todas as folhas havia algum tipo de anotação, em algumas apenas uma palavra, em outra uma página anexada, frente e verso, com a letra de Alucard.
Ela pegou outra anotação de uma pilha que normalmente era dos casos não analisados, mas também estava assim. Olhou a dos casos de extremo cuidado, outra vez, tudo comentado, sem gracejos ou qualquer tipo de piada. Pegou mais duas folhas de pilhas diferentes, e tudo também já estava feito.
Alucard já tinha terminado o trabalho por ela.
Ela sabia que ele era capaz de dar conta de absolutamente tudo, desde a papelada até a parte mais agressiva do trabalho na Hellsing, mas ainda assim esperava que ele fosse apenas arruinar o trabalho dela deliberadamente, só para irritá-la. Bom, se já estava feito, então ela ia fazer alguma outra coisa.
Mesmo com certa desconfiança quanto ao conteúdo das anotações do vampiro nos outros papéis ela se levantou e foi à biblioteca. Passando os dedos por entre os livros, pegou um exemplar de “O Médico e o Monstro” e começou a reler, sentada em uma cadeira macia. Logo percebeu a presença familiar de Celas, que, por sorte, não puxou papo com ela, apesar de estar surpresa com Integra no lugar.
Ela pegou um livro qualquer e sentou-se numa cadeira próxima.
Integra mergulhou no livro, passeando pela história do criador e a criatura que dividem um só corpo, com diferentes personalidades. Ela realmente gostava daquela história, porém sempre se perguntou se o doutor não sofria com esquizofrenia ou mesmo outra doença, como múltiplas personalidades.
De qualquer forma, a ideia de duas pessoas dividindo um só corpo fascinava-a. Na vida real, se não houvesse nenhum tipo de cura, isso poderia levar a verdadeiras confusões e talvez até um desastre internacional. Se George W. Bush vivesse no mesmo corpo de Osama Bin Laden, ou Slash e Axl Rose, ou Lady Diana e Camila Parker, ou Integra e Alucard... Não, esse último caso seria um verdadeiro desastre. Era melhor nem pensar.
Olhou para o lado e viu Celas na metade de um livro. Era “Dom Casmurro” e ela estava com cara de quem não entendeu absolutamente nada do que estava sendo falado.
-É a parte dos olhos de ressaca?
-Hum? –Celas levantou os olhos. –Ah, é... É sim.
-Significa que os olhos dela são muito atraentes que fazem com que o Bentinho se perca olhando para eles, que é levado a olhar cada vez mais para Capitu, e é tragado pelo olhar dela, arrastado por ele, como o mar de ressaca.
-Uau! Esse Machado de Assis manjava de figura de linguagem!
-Sim, manjava... –Só não manjava de mudar o jeito de Celas falar. Integra voltou a ler seu livro.
De repente, um soldado entrou na biblioteca com tudo, derrubando algumas estátuas e fazendo com que Celas e Integra se assustassem.
-Senhora, um alerta vermelho vindo do palácio de Buckingham! A rainha corre perigo de morte!
-O que foi?! –Integra se levantou num salto, largando o livro no chão.
-Um ataque! Um ataque de um vampiro!- Ele disse arfando.
-Mas os guardas deveriam ter dado conta! Passaram por treinamentos semelhantes aos meus!
-A senhora não entende... Esse vampiro... Esse vampiro não relou um dedo em ninguém, mas todos os guardas estão mortos!
-O QUÊ? COMO?!
-Ele... Ele só entrou no palácio e começou a andar por aí, os guardas foram tentar impedir, mas acabaram mortos! Um conseguiu sobreviver e alertou os outros e a rainha, ela está em seu quarto, isolada.
-ALUCARD!!!
O servo brotou das paredes, aparecendo com sua forma totalmente negra no meio do aposento.
-Eu sei, estou pronto. Celas pegue suas armas.
-Sim, mestre!- Celas saiu correndo junto com o guarda para pegar suas coisas.
Integra virou-se para o servo.
-Como isso pode acontecer?
-Provavelmente esse vampiro era muito rápido ou tinha vetores, como Lucy.
-Mesmo assim será necessário muito cuidado, estamos lidando com a rainha e sua família, não podemos deixar com que um fio de cabelo dela seja cortado.
-Não se preocupe, até eu chegar lá, e não vai demorar muito, alguns guardas vão resistir. Eles serão nossa garantia de que chegaremos a tempo. Há mais de mil guarda lá, mesmo que ele seja tão poderoso quanto eu, jamais conseguiria matar todos de uma única vez, aliás, vampiros tão poderosos quanto eu gostam de matar, gostam de ver seus oponentes caindo um a um.
-Estou pronta! –Disse Celas, com suas armas, na porta da biblioteca.
Os três correram até os carros e Celas ficou um pouco desapontada quando viu seu boneco de neve despedaçado. Mas tinha sido necessário.
Entraram num dos carros de combate da Hellsing e colocaram uma sirene de polícia que lhes fora dada em caso de emergência. Burlando todos os carros e caminhões da estradas, quase atropelando um motoqueiro, chegaram no palácio de Buckingham.
Estava deserto.
Nenhum guarda de chapéu esquisito estava lá, nenhuma pessoa passando, nenhum turista vagando perdido, nenhum mendigo. Um passarinho começou a piar num galho de uma das árvores, mas logo foi atingido por uma bala de dentro do palácio e caiu morto.
Integra estava furiosa com a invasão.
-Alucard, tem ideia de quem poderia ter feito isso? Não há ninguém aqui, nem um barulho de tiro, exceto o que matou o passarinho. Ninguém está correndo ou desesperado.
-Não faço a mínima ideia, mestra. Eu vou entrar para conferir. Celas venha comigo. Integra, caso algo importante ocorra ou eu conseguir chegar até a rainha, eu avisarei.
-Não rele um dedo na família real. – Ela disse.
Ele sorriu sarcasticamente.
Integra ficou no lado de fora não por questões de segurança, como normalmente faria, mas por questões de que ninguém sabia sobre ela. Nem mesmo a rainha.
Alucard andava despreocupado por fora, contudo, por dentro estava quase tão furioso quanto no dia em que pôde dar o troco nos otomanos. Caminhava por uma passagem escura com uma serva tremendo atrás dele.
Apesar de inexperiente, maluquinha e doce demais, ele tinha muito carinho e apreço por ela. Chegava a ser uma filha para ele. Ele andava calmo, até que pisou em algo.
Abaixando-se viu que era uma mão morta, pegou-a e observou se havia algum machucado, nada. Olhou com cuidado para o resto do corpo, nada, e ainda havia sangue nele. Na verdade, nada estava alterado, nem taxa de glicose nem nada. Alucard virou-se rapidamente para Celas.
-VÁ PARA JUNTO DE INTEGRA!
-Mas... – Ela assentiu e saiu correndo.
Quando Integra a viu, correu para junto de seu servo, porém ele a lançou para uma das paredes exteriores, fazendo com que ela caísse com tudo no chão, mas não desmaiasse.
Arrancou algumas partes da cerca e fez uma jaula para ela.
-É melhor que não vá, não é um vampiro comum ou a Millennium. É muito pior do que você pensa, eu devo ir sozinho, você e Celas só vão atrapalhar. –Ele disse para ela.
-E a família real?
-Se saírem daquele quarto, estarão mortos e eu não posso fazer nada quanto a isso.
Ela não tinha aprendido a saltar, então estava presa ali. Alucard entrou no palácio com as duas armas na mão e o instinto e agressividade a mil. Pela primeira fez, em séculos, se pegou rezando.
Notas finais
Lucy:Essa Lucy NÃO é a do livro,mas sim a de "Elfen Lied",que tem dois chifres na cabeça e braços assassinos de dois metros de comprimento.
Comentem se eu esqueci de explicar algo!
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