Cinderela
4 O quarto capítulo
Notas iniciais
Há coisas que não queremos fazer
4
Cinderela chegou ao enorme palacete (às vezes denominado “lar”) com pãezinhos e bolos fresquinhos numa cesta, ela suspirou de desgosto. O mensageiro do Rei já estava ali na porta, esperando por alguém.
— Minhas desculpas, senhor, entre. Eu estava pegando pães e doces no comércio, não sabia que viria tão cedo.
— Não se preocupe, minha jovem. Só vim trazer os convites para o baile. Não sei se já soube, mas, Ariana morreu de cólera.
— Ouvi algo parecido. — mentiu Cinderela (o príncipe precisava parar de lhe fornecer informações privilegiadas. A mentira não uma coisa da qual ela gostava, ou, até mesmo feita com desenvoltura por ela; mesmo que ele teimasse que não era MENTIR, era ENCOBRIR PARTE DA VERDADE.)
— Aqui estão, para as quatro damas desta casa. Mesmo que a única donzela legítima seja a com quem falo.
Cinderela riu agradecida.
— Obrigada. Aceita uma pedaço de bolo?
— CINDERELA!— bradou a Madrasta às suas costas— Pare de confraternizar com empregados do palácio. Pegue os convites e vá ajudar suas irmãs com o banho anual.
Cinderela engoliu em seco. Era a única que tomava banho todos os dias, não acreditava em superstições bobas e transpirava muito durante o trabalho doméstico.
— Claro, madrasta. — ela pegou os convites e preparou-se para o inferno. Seriam Charmin e Charlotte, comentários maldosos, uma esponja e doze meses de pura sujeira.
Ela entrou na requintada sala de banho com toalhas, glicerina líquida e cera quente.
Charmin e Charlotte já estavam despidas, discutiam a respeito da escolha (impetuosa, de acordo com Charlotte) do príncipe, era um tanto desconcertante o fato de estarem completamente nuas, e de que suas axilas e pernas não eram depiladas há 12 meses.
— Entrem na banheira, por favor.
— Oh, Cinderela. Entramos se quisermos. — reclamou Charlotte.
— Está frio, entrem na banheira.
Charmin pulava de uma perna para outra, como se refletisse: obedeço s minha irmã e congelo, ou faço o que Cinderela pediu e não morro de hipotermia?
Mas, era Charmin e Charmin não reflete, ela deveria estar avaliando a possibilidade de se equilibrar em uma perna só.
— Por favor.
— Só vou entrar porque estou com frio, não porque você mandou. — revelou Charlotte
— É isso aí. — confirmou Charmin.
Elas entraram na banheira e afundaram os cabelos sebosos.
E, como num passe de mágica, a água, antes cristalina, escureceu com a sujeira.
Charlotte encarava Cinderela como se esperasse algo.
— Cinderela, mamãe pediu que nos ajudasse com o banho! E você sabe que NÓS não sabemos usar a esponja.
— Mas nós sabemos! Char, aprendemos ano passado! — exclamou Charmin
— Não, nós não sabemos, irmã.
Charmin entendeu a ordem das coisas e riu tardiamente.
— Ah.
— Passe esponja na gente, Cinderela.
— Eu até passaria. A não ser, é claro, que vocês se incomodem que eu conte à Zofia sobre certo chá erval que desapareceu da despensa. Aquele (vocês sabem) que foi dado a ela pelo Imperador chinês, por um pequeno servicinho no Oriente.
— Não fomos nós que tomamos— exclamou Charlotte, nervosa.
— Oh, eu sei que vocês não beberam daquele chá, é refinado demais para vocês, mas também sei que vocês ofereceram-no a alguém, ou melhor, um alguém, um burguês, um pouco mais velho que nós, 15 ou 16 anos, cabelos claros, de olhos azuis; um filho de Austríacos, ele cortejou ambas no mercado de vestimentas.
— Você não faria! Isso não!— duvidou Charmin
— Acalme-se, Charmin, ela não tem coragem. E tem muito mais segredos que nós. Por exemplo, onde passou a noite de ontem, Cinderela? — conjecturou Charlotte.
E pela primeira vez em três anos, ela queria depilar suas irmãs de criação, queria que elas sentissem DOR. Muita dor, de preferência!
Fale com o autor