Cinderela
5 Aqui jaz o capítulo cinco
Notas iniciais
Há coisas que não conseguimos terminar
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— Cinderela, suas tarefas para hoje são as de sempre, porém gostaria que limpasse os dosséis das camas de todos os quartos, limpasse a fonte e desse banho no gato. Gostaria, não. Isso é uma ordem.
— Mas, e o baile? O rei... ele pediu...
— O rei pediu que você fosse, contanto que terminasse suas devidas tarefas, você compreende, Cinderela?
Cinderela queria esganar Zofia. Seria sua chance de ver o príncipe, mas Charlotte e sua grande boca comentaram sobre a noite que ela passara fora do castelo. O que fez com que a madrasta trancasse todas as portas todas as noites e lhe confiscasse as chaves.
Não iria deixar de ver o príncipe.
Ela engoliu o orgulho e respondeu:
— Sim, madrasta.
— Você sabe que se sentiria deslocada dentre todas aquelas jovens tão belas. Isso é para o seu bem.
— Claro, madrasta. — disse Cinderela com a voz estrangulada. — Vou subir e pegar o gato. Com licença.
Ela chegou à sua torre com lágrimas nos olhos, não queria chorar. Ela havia sido forte em horas muito piores que esta.
Não chorara enquanto limpava o sangue derramado por causa de sua Madrasta.
Mas, queria chorar por um príncipe.
Não chorara quando quase morreu de Peste Negra.
Mas, ainda queria chorar por um príncipe.
E as lágrimas, agora impossíveis de ser contidas, escorriam por seu rosto.
Ela queria pensar que eram lágrimas de raiva como quando damos uma topada na mesinha de centro.
Mas, ela sabia que eram lágrimas diferentes.
Lágrimas que foram acumuladas durante anos e anos de amizade.
Amizade: a palavra a fazia trincar os dentes. Príncipe e amizade: não são termos que garotas gostam de ouvir. A não ser que um “mais que” fosse adicionado à lista.
Não era fácil admitir, mas ela gostava dele mais do que gostaria.
Amava seus olhos, aqueles que faiscavam toda vez que a viam xingar em alemão.
Amava seu dar de ombros.
Amava as noites que passava adormecida em seu colo.
Amava a convicção em suas palavras.
E, principalmente, amava a certeza que tinha, não era Charmin, Ariana, Pansy ou Charlotte.
Era ela.
Truddy era a única peça solta em seu raciocínio.
Porque ela sumira?! Deveria estar ali ajudando. Deveria ter lhes contado tudo.
Cinderela pegou o gato gordo de suas irmãs e coçou atrás da orelha felpuda dele.
— Vamos tomar banho, gatinho...
Ela levou-o para a cozinha, encheu uma bacia com água quente e tentou colocar o gato ali. Ele a arranhou e mordeu, porém ela nem ao menos sentiu, não conseguia parar de pensar em Charmin e no príncipe.
Imaginou-os casando, tendo filhos, Charmin ficando grisalha e o príncipe engordando. Imaginou o príncipe virando Rei. Charmin e Edgard vivendo felizes para sempre.
Aquilo lhe causava enjôo, era torturante.
Cinderela deu banho no gato vagarosamente. Depois de secá-lo, pegou o esfregão e tentou concentrar-se na limpeza do salão.
Era impossível. A espuma a fazia lembrar-se do príncipe cochichando ao seu ouvido sobre alquimia.
Limpar as cortinas era como reviver o dia em que descobriu tudo.
As almofadas a lembravam-na do formigamento em sua bochecha.
E as escadas. As escadas a faziam lembrar algo perdido em sua mente há muito tempo.
Sua mente girava. Tinha doze anos, estava encolhida embaixo da escada, ouvia duas vozes; Zofia e Truddy, com certeza.
— A menina é sim a pretendente. Ela é a próxima na lista, Zofia.
— Ariana, a sobrinha de minha prima, se casará com o príncipe. E ponto final.
— Zofia! Cinderela é a única apta para esse fardo. Ela sabe escrever, sabe alemão e inglês, além de francês. E lê um pouco. Sob os cuidados necessários ela será a princesa ideal.
— Isso não é escolha sua, irmã. Ela será minha criada. Já apaguei a maior parte de suas lembrança, como fiz com Edgard. O idiota já morreu e ela é a sujeira que sobrou.
—Zofia, seu talento subiu-lhe a cabeça. Quer mesmo transformar sua enteada em uma serviçal? Isso é ridículo. E apagar o passado dela? Isso é duplamente ridículo.
— Aceite, Truddy, somos avessas. Sua mágica não vai servir-lhe de nada. O que vai fazer? Proteger o príncipe? Tirar Ariana do caminho? Sempre haverá opções. Charmin. Charlotte. Hortência. Violeta. Pansy.
— Você não vai matar EDGARD! Ariana não permitiria...
E foi aí que Truddy sumiu, fez PUF. Cinderela exaltou-se.
— Quanto disso você ouviu? — gritou Zofia
— N-nada. — gaguejou ela, balançando a cabeça em frenesi.
— É bom que seja verdade. Vá ajuda suas irmãs com a música.
— S-sim, s-senhora.
E agora a realidade voltava aos poucos, mas a confusão virou pânico, a tristeza tornou-se raiva e seu amor pelo príncipe multiplicou-se.
Então, Truddy e Zofia eram irmãs, Zofia queria matar Edgard.
E ela estava certa, Edgard era seu “algo mais”.
Charmin, Charlotte e Zofia desceram as escadas prontas para o baile, a cara cheia de pó, os cabelos trançados e vestidos horrorosos.
— Oh Cinderela! Que pena... Você não terminou suas tarefas! Mas... — Zofia sorriu maliciosamente. — A carruagem já chegou. E você nem sequer tem um vestido.
Charmin e Charlotte soltaram risadinhas histéricas, e, como de costume, concordaram intensamente.
— Enfim. Que pena. Até mais, Cinderela.
As três saíram em fila indiana, empinando o nariz e o queixo mecanicamente.
Cinderela suspirou e caiu sentada ali mesmo, no meio daquele salão. Chorando e chorando ainda mais.
— Cinderela.
E o choro só aumentou. Ela mataria Zofia se fosse preciso.
— Cinderela.
E agora ela estava gritando. Mataria esganada e esfaqueada.
— Cinderela! Pare com isso! Menina boba!!!
— Truddy?— perguntou Cinderela, procurando pelo salão vazio.
—Estou aqui. — disse Truddy, que era uma mulher franzina como Zofia, porém com cabelos louros e os olhos estranhamente pretos. Ela falava de forma arrastada e preguiçosa.
Cinderela sorriu.
— Truddy, eu senti tanto a sua falta! Edgard e eu ficamos procurando por você todas as tardes e depois Raffin disse que você fez PUF. Minha nossa! Eu senti tanto a sua falta...
Truddy ergueu uma sobrancelha.
—Você e o príncipe?
Cinderela enrubesceu.
— Sim...
— Oh, perdão. Eu vim aqui com um propósito, não é mesmo? Você vai ao baile!
— Mas, eu não terminei minhas tarefas e...
Truddy deu um aceno de mão e tudo estava brilhando.
— Agora terminou. Venha, Cinderela! Vamos lavar esse rosto, porque nem magia some com esse tipo de sujeira.
Ela limpou o rosto de Cinderela com água corrente e glicerina. Depois de avaliar o trabalho bem feito, perguntou:
— O que acha de azul?
— Azul?— murmurou Cinderela, meio aturdida com o excesso de atenção.
— O vestido. Você gosta de azul?
— Não sei. E rosa? Rosa é mais feminino não acha?
— Vai ser azul. Azul combina com você. —revelou Truddy. Ela bateu uma palma.
Cinderela olhou para si mesma: usava um vestido azul claro longo, com pequenos detalhes prateados e espiralados por toda a saia, sem mangas bufantes ou armaduras de metal como ditava a moda; uma gargantilha fininha de ouro branco com um brilhante azul enfeitava o pescoço; nas orelhas, brincos de pedraria turquesa; as mãos exibiam luvas brancas e dois anéis prateados; o cabelo pesava no alto, preso em um coque e os pés exibiam lindos sapatinhos de cristal.
Estava linda. Quase tanto quanto o príncipe.
— Vamos lá, Cind, a magia acaba na décima segunda badalada.
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