Cigana De Luxo!
22 Recomeço
Notas iniciais
1 ANO DEPOIS
- É claro que tudo mudou. – Os dedos finos faziam movimentos de vai e vem, enquanto as unhas vermelhas tocavam na mesa. Em seu pulso, brilhantes pulseiras desviavam a atenção de seu anel, com um grosso rubi sobre o dedo anular. A mão comprida segurou a xícara com força, mesmo estando quente, levando o chá que parecia fervendo em direção à boca para mais um gole degustante. – Dizem que as escolhas de outras pessoas não afetam em nossa vida, mas é mentira. Ela não é mais a mesma.
Segundos longos se passaram, e a mudança que a mulher rica tanto prezava realmente aconteceu, suas palavras não eram invenção. Continuou falando após deixar apenas uma pequena gota de chá dentro da xícara.
- A única coisa intacta em sua alma é a dança... – Sorriu. – Esse dom nunca desaparece.
- Acha que ela está infeliz?
- Não que seja a palavra certa, mas há muito tempo não a vejo sorrir com total prazer. Seria desatento meu?
Fez uma pergunta retórica e decidiu que seus próprios pensamentos analisassem a resposta. Por fim, Ana cruzou as pernas, arrumou o longo cabelo agora castanho e fitou a expressão desatenta da mulher em sua frente. Camila estava belíssima, esse um ano passado a mudou muito, ainda mais se falasse da novidade de seu coraçãozinho.
- Acho que...
Não teve tempo de terminar a frase. O solo rangeu e assim como a porta anunciaram a chegada de alguém. Os pés descalços, que aparecerem primeiro, revelou sua identidade antes mesmo de verem seu rosto.
Não foi algo “divino”, mas o sol iluminava a parte da sala onde a cigana de olhos azuis parou. Era incrível como havia mudado, seus cabelos agora mais lisos forçava a visão para o corpo esbelto e torneado. A beleza natural ainda era mesma, embora algumas mudanças significativas.
- Desculpem... Atrapalho a conversa?
Ana sorriu, analisando a garota por alguns segundos.
- É claro que não querida.
- Eu só vou pegar um livro... – A morena se dirigiu as prateleiras, tirando um livro grosso e velho no meio de tantos novos.
Camila arrumou-se na cadeira, olhou pela segunda vez no relógio e levantou-se.
- Depois nos falamos Ana.
- Onde... Vai...
Camila desaparecera pela porta antes de responder fazendo Ana coçar o cabelo, curiosa. Por fim, fitou Jazmim que discretamente saía pela outra porta.
- Espere, quero falar com você.
A cigana sentou-se em frente à Ana cautelosamente, evitando manter muito contato visual.
- O que houve?
- Jazmim, já se passou um ano, e nada mudou. Pensei que essa tristeza passaria com o passar dos dias. – Disse Ana, fazendo Jazmim brincar com os dedos, estava nervosa. – Apesar de não entendê-la muito bem, eu a respeito. Gosto de você querida, mas está vendo a sua vida passar ficando presa dentro de si mesma, sustentando apenas a angústia e a tristeza.
Jazmim tentou se controlar, mas era tão inevitável falar sobre isso sem que as lágrimas caíssem de seus olhos.
- Eu não consigo... Eu queria não sentir o que estou sentindo, mas eu sinto. Não consigo esconder, não consigo abrir um sorriso e fingir que está tudo bem porque não está! – Jazmim se curvou, levando as duas mãos em direção aos olhos molhados. – Quando o conheci, jurei odiá-lo com todas as minhas forças, mesmo sabendo que não podia permitir a mim mesma tal sentimento. E se eu pudesse escolher Ana, escolheria nunca o ter conhecido, escolheria não sentir isso... Mas... O que posso fazer?
Ana segurou sua mão com força, tentou mostrar um sorriso confortante mais não conseguiu. Nem a ela Bernardo disse quando voltaria, ou se voltaria. A única coisa que pode pensar nas coisas melhorarem era Jazmim fazer o que sabia de melhor. Talvez isso mudasse seu ânimo... Quem sabe...
- Por que não dança? Não como uma prostituta, mas apenas como uma de minhas meninas.
A cigana levantou a cabeça, olhando fixamente para Ana, e abrindo um pequeno sorriso.
- Faria isso?
- Jazmim... Seria um prazer ter você lá. E também, quem não gostaria de ver a mulher mais bonita da cidade dançar?
A cigana sorriu de leve, mordendo os lábios inferiores e abaixando a cabeça novamente. Não demorou nem um minuto para concordar, respirando fundo.
- Ótimo. – Comentou Ana satisfeita. Caminhando em direção a porta, antes que saísse, girou os calcanhares novamente. – Sabe, Bernardo não queria que eu lhe dissesse, mas...
- O que? – Jazmim levantou-se, fazendo Ana a fitar seriamente.
- Foi ele quem a comprou Jazmim.
A face da morena se distorceu de forma surpresa, fazendo Ana dar um leve suspiro.
- Mas eu pensei que...
- Não. Eu nunca te venderia para Gaspar, e, além disso, Bernardo deu o lance mais alto, algo que eu nunca o imaginaria pagando por garota nenhuma e nem pelo mais poderoso tesouro.
Jazmim olhou para os próprios pés, e antes que Ana pudesse virar novamente, disse:
- Mas, porque ele não me disse?
- Não sei. Apenas não queria que você soubesse... Queria que pensasse que Gaspar a comprou, mas isso nunca aconteceu.
Ana sorriu fraco, arrumou o longo casaco e desapareceu pela porta. Jazmim que ainda estava com o livro em seu colo, segurou-o com as mãos tremendo e desviou seus pensamentos... Por quê? Por que ele não a dissera? Não encontrou respostas, e talvez nem houvesse alguma convincente.
...
Camila sumiu no resto do dia, e Jazmim ficou no quarto ensaiando passos de sua paixão. Ana tinha razão, serviu para ela animar-se... Não por completo, mas já era uma mudança importante.
“– Por que está chorando?
Perguntou Bernardo a apenas alguns centímetros da garota.
– Eu não entendo você. – Respirou fundo. – Diz que me odeia, mas não consegue me libertar... Por que me protegeu se sente isso? Por que me magoa e depois me beija? Eu não sei o que pensar... Sinto-me perdida, confusa, eu só quero...
– O que? – Perguntou Bernardo se aproximando.
– Que não me iluda. Que não machuque meu coração.”
Jazmim fechou os olhos... Chegou a sentir o toque de Bernardo, porém não deixou aquela ilusão desperta tomar conta de seus sentidos. Sentou-se na cama, respirou fundo.
- Não posso mais continuar assim.
Deslizou a mão sobre os cabelos e atirou-se na cama. Pensou um pouco, e decidiu que a partir daquele momento, só iria importar o futuro dali em diante.
...
A cigana só voltou a ver Camila quando estava indo para a boate de luxo, no carro, as duas conversaram.
- Por que anda sumindo?
- Eu? – Perguntou Camila, disfarçando. – Como assim?
- Não vi você a tarde toda...
- Há! Eu estava resolvendo umas coisas, nada de importante.
Camila voltou a olhar a paisagem empoeirada da janela embaçada do carro, enquanto Jazmim lançou um olhar de desconfiança sobre a garota.
- E essas coisas por acaso, tem haver com livraria... Garoto... Ou algo assim? – Jazmim sorriu.
Camila a olhou de canto, fez uma careta e não respondeu fazendo a cigana ajeitar-se e apoiar o cotovelo sobre a abertura da janela do carro. Pensou em implicar com Camila, mas já estavam chegando, e casa estava lotada e seria uma noite muito longa. Respirou fundo. “Vamos lá!” – Sussurrou para si mesma.
...
A música começou a tocar tão rápido que foi quase como despertar de um sonho. Fazia tempo que não dançava, e isso não era ruim, significou que daria tudo de si. O máximo. A cigana sorriu, e não demorou a em volta do palco encher-se de homens empolgados e com olhares maliciosos. Outros admiravam de longe, com ganância.
O ritmo da música já começara agitado, e do começo do palco, surgiu uma linda mulher, erguendo-se e balançando o corpo junto com a música. Tinha uma sensualidade e confiança incrível para dançar, fazendo da mais ingênua música uma fonte de sedução.
Vienes arrepentido, vienes pidiendo perdón,
(Vem arrependido, vem pedindo perdão)
Diciendo que me quieres he sido tu primer amor.
(Dizendo que me quer, que sou teu primeiro amor)
Ya no quiero tus labios porque otros lo han besado,
( Já não quero seus lábios porque outros o beijaram)
Y el amor que te tenía con tristeza lo he olvidado.
( E o amor que temias com tristeza você esqueceu)
A cigana rebolava, mexia as mãos, a cintura, mantendo um equilíbrio sobre si mesma. Jogou os cabelos para trás, fazendo seu corpo cair e erguer novamente. Sentia a música percorrer desde a ponta de sua cabeça até seus dedos. Era incrível como aquela garota dançava.
Fuera de mi, ya no quiero tu querer,
(Fora de mim, já não quero te querer)
De mi mente te he borrado,
(Da minha mente eu te apaguei)
Ya no quiero besar tus labios.
(Já não quero beijar seus lábios)
Por segundos voltou ao seu passado, parecia estar dançando em casa, porém os passos não eram totalmente um flamenco... Eram passos misturados, sedução, provocação... A dança proibida... De tudo um pouco.
Não foi mentira quando quase parou de dançar. Sentiu uma presença diferente seguido de um pouco mais de silêncio, porém seus olhos não conseguiam enxergar quem era. Sentia que alguém a observava de forma diferente, estranho... Ignorou.
Fuera de mi, ya no quiero tu querer,
(Fora de mim, já não quero te querer)
De mi mente te he borrado,
( Da minha mente eu te apaguei)
Ya no quiero besar tus labios.
(Já não quero beijar seus lábios)
A música repetiu, mas aquela sensação diferente não foi embora. Porém quando a música parou, dando espaço para os gritos insecáveis e os assobios junto com palmas de longe, os olhos da cigana procuraram por entre a multidão alguém diferente. Nada. Alguns rostos conhecidos, porém nada significativo.
Não demorou-se, saído do palco depressa.
Camila vira de longe Jazmim agradecendo e saindo do palco, fazendo a garota olhar para a porta de trás aberta, estava sozinha. Sem demora, puxou a cigana para o lado, em direção à parte de trás.
- O que foi?
- Eu vou sair... – Camila desviou o olhar.
- É? Com quem?
Jazmim sabia de quem Camila falava, mas queria ouvir da boca da amiga. Sorriu, fazendo Camila a fitar de canto.
- Você sabe...
- Tudo bem, só volta antes de amanhecer. – A cigana piscou fazendo Camila a abraçar.
- Vai ficar bem?
- Claro!
As duas sorriram, fazendo Camila se afastar e abrir a porta.
- Obrigada.
A garota sorriu, desaparecendo pela porta. A música ainda estava alta, e provavelmente seria uma noite longa. Jazmim sentou-se onde estava, cantarolando...
- Fuera de mi, ya no quiero tu querer...
Fez uma pausa, pensou ter ouvido um barulho. Acabou por ignorar.
- De mi mente te he borrado...
A cigana parou de cantar, virando a cabeça para o corredor afastado. Não havia ninguém. Levantou-se, indo em direção à escuridão.
...
Camila entrou no carro e encontrou o garoto do lavraria, estava o mesmo, com um sorriso simbólico. Beijou os lábios de Camila, fazendo a garota apoiar a cabeça em seu ombro.
- Estava com saudades.
- Nos vimos hoje à tarde. -Sussurrou Camila.
- Uma eternidade! – O garoto segurou o rosto dela com as mãos, acariciou levemente e deu um longo selinho sobre seus lábios.
- Exagerado. – Camila sorriu. – Hoje sou só sua.
Os dois se beijaram com paixão, onde as mãos do garoto se apossaram das pernas de Camila, sua blusa foi abaixada com cuidado enquanto ele beijava seu pescoço.
- Espera, vamos pra sua casa.
- Tudo bem...
Mas não parou assim, só após um dez minutos enrolando uma possível transa, foi que Camila empurrou o garoto para ligar o carro. Os faróis se acenderam, fazendo Camila depositar os olhos sobre onde eles iluminavam. Assustou-se, quase quebrando a mão do garoto ao segurá-la. Quem estava ali?
...
Jazmim não tinha medo do escuro, na verdade, desde pequena estava acostumada com ele. Fazia dele seu amigo nos momentos de solidão. Andou mais um pouco, foi até o final do corredor, sentiu-se estranha e de certa forma boba por pensar sei lá o que. Balançou a cabeça negativamente e voltou pelo mesma escuridão, apressando mais o passo dessa vez.
A cigana parou encostada na parede, sorriu, e futricou nas pulseiras de sua mãe que agora podia usar sem medo.
- Fuera de mi, ya no quiero tu querer, De mi mente te he borrado...
- Ya no quiero besar tus labios.
De repente a voz grossa se dissipou da escuridão pelo resto do cômodo, fazendo Jazmim sentir seu coração bater forte. Ela conhecia aquela voz, estremeceu.
A imagem embaçada foi ficando evidente, os rangidos dos passos pelo chão de madeira ficavam mais fortes. Jazmim deu alguns passos para trás, e não demorou pra sua aflição terminar, e provavelmente para confirmar suas suspeitas.
Mais de um ano havia se passado, e para Jazmim, aquele homem devia estar morto. Porém, andando em direção a ela como quem anda em direção ao inferno, ele sorriu após completar a música de seus sonhos. Jazmim respirou fundo, batendo contra a parede e ficando o mais longe possível dele. A cigana se lembrava daquele homem como se fosse ontem, a cicatriz da bala ainda era evidente em seu rosto.
- Você?
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