Cigana De Luxo!
23 Medo
Notas iniciais
O medo pode se manifestar de várias formas e ele está presente em cada ser vivo do planeta, cada um da sua forma. Podemos ter medo do escuro, de fantasmas, de altura, de fazer escolhas, do sim, do não... Mas o que realmente é o medo? Afinal, tememos o escuro ou o que há nele?
Afirma-se que o medo é o maior inimigo do homem. O medo está por trás do fracasso, da doença e das relações humanas desagradáveis. Milhões de pessoas têm medo do passado, do futuro, da velhice, da loucura e da morte. O medo é um pensamento em sua mente e você tem medo dos seus próprios pensamentos.
Um menino pode ficar paralisado pelo medo quando lhes dizem que há um homem mau debaixo de sua cama e que vai levá-lo. Quando o pai acende a luz e mostra-lhe que não há ninguém, ele se liberta do medo. O medo na mente do menino foi tão real como se houvesse de fato um homem debaixo de sua cama. Ele se curou de um pensamento falso em sua mente. A coisa que temia, na verdade, não existia. Da mesma forma, a maioria dos seus medos não têm base na realidade. Constitui apenas um conglomerado de sombras sinistras e as sombras não têm realidade.
Ralph Waldo Elerson, filósofo e poeta, disse: Faça aquilo que você receia e a morte do medo será certa.
Na verdade é que você nasceu apenas com dois medos: o medo de cair e o medo do barulho. Todos os seus outros medos são adquiridos. Livre-se deles.
O medo normal é bom, o medo anormal é mau e destrutivo. Permitir constantemente os pensamentos de medo acarreta o medo anormal, obsessões e complexos. Temer alguma coisa persistentemente provoca um sentimento de pânico e terror. Você pode superar o medo anormal quando sabe que o poder do seu subconsciente pode mudar os condicionamentos e realizar os desejos acalentados por seu coração. Este é o amor que expulsa o medo. Enfrente seus temores, traga-os à luz da razão. Aprenda a sorrir dos seus temores e acenda a luz. Você perceberá que o medo não passa de uma simples sombra no meio da escuridão.
...
Aqueles olhos já assombraram algumas de suas noites, e ela estava ali agora vivendo uma realidade diferente, sendo forçada a encarar as coisas agora de outra maneira. Sinceramente, aqueles olhos a transmitiram um terror profundo, e mesmo vendo a marca em seu rosto ela ainda não conseguia acreditar que Gaspar estava ali em sua frente. O que poderia fazer? Como poderia fugir dali? Por cinco segundos pareceu visualizar cada oportunidade de fuga, das mais insanas até as mais remotas. Estava amedrontada e segurou a pulseira de sua mãe com força.
Era como entrar em um labirinto e dar voltas e voltas e nunca encontrar a saída. Se acontecesse alguma coisa ninguém a ajudaria... E se nunca encontrasse? E se ficassem assim para sempre? Temeu tal destino, e de certa forma, assemelhou o que estava vivendo a isso.
No rosto de Gaspar brotava um sorriso malicioso ao corroê-la dos pés à cabeça, e isso era o que menos importava para a cigana nesse momento. Engoliu seco, sentindo um frio na espinha quando Gaspar deu seu primeiro passo.
- Você mudou...
- Não se aproxime de mim! – Jazmim recuou.
- Está mais... Gostosa... – Gaspar deu mais dois passos em sua direção, o que fez Jazmim recuar o suficiente para bater as costas na parede. – Eu ainda não me esqueci do nosso encontra inacabado da última vez... Temos coisas há acertar. Não acha?
Jazmim tentou pensar rápido, fitou as possibilidades de fuga... Havia uma porta atrás de Gaspar. Se pelo menos conseguisse passar por ele.
- Bernardo irá matá-lo se souber que está aqui... Ele... Ele pode encontrar aqui a qualquer momento!
As gargalhadas de Gaspar se dissiparam pelo corredor, e em nenhum segundo ele parou de provocar medo nela. Caminhando em sua direção como se fosse a atacar.
- Acha que não sei que ele a deixou? – Sorriu. – Agora que está sozinha, vou poder fazer o que quiser com você...
Gaspar segurou fortemente seus braços puxando a garota em direção ao seu corpo. Jazmim o empurrou com toda a força para longe, e Gaspar não esperava por isso, o chutando logo depois. A cigana correu, atingindo a maçaneta e tentando abrir a porta desesperadamente. Não conseguia... Virou-se. Gaspar segurava a chave, e a jogou para o outro lado, avançando para cima de Jazmim logo em seguida. Tentou beijá-la, mas sentira dor e o próprio sangue escorrendo sobre a face, uma bela mordida.
A mão de Gaspar foi em direção ao rosto de Jazmim, fazendo a garota cair no chão. Seus olhos se encheram de lágrimas, fitou Gaspar com ódio. O mesmo a levantou pelos longos cabelos, encarando seus olhos molhados.
- ACHA QUE EU SOU IDIOTA? ACHA? – Gritou, jogando a garota longe. Jazmim levou as duas mãos ao rosto, encolheu-se no canto, enquanto Bernardo aproximava-se da garota, tirando o cinto da calça. – Vou lhe ensinar a me respeitar!
...
A porta do carro foi aberta. Camila fitou o rosto bravo de Ana, enquanto o garoto que estava ao seu lado ficou absolutamente imóvel, não disse nem fez nada.
- Saia do carro. – Disse Ana.
Camila obedeceu. Caminhou até a frente do carro e ficou esperando a enorme bronca que Ana lhe daria. Ela sabia e sempre soube que uma das primeiras coisas que Ana disse ao deixá-la trabalhar na casa, foi que nunca se envolvesse com alguém fora do trabalho. Isso nunca acabava bem.
- Ana eu...
- Não quero ouvir Camila! – Exclamou a mulher, olhando fixamente de forma desapontada para o rosto da garota.
- É que não estávamos fazendo nada demais Ana, apenas...
- Apenas o que? – Cortou. – Você sabe Camila mais do que qualquer pessoa que a regra número para as garotas que trabalham pra mim é não ter nenhum tipo de relacionamento fora! Quando eu te acolhi essa foi a única coisa que te pedi...
Camila abaixou a cabeça... Sentia-se mal por desapontar Ana, mas também, não escolher aquele garoto que a fazia se sentir tão especial, era como vestir a faixa de que era apenas mais uma prostituta qualquer.
- Você me trata como se eu não tivesse sentimentos Ana... Achou que eu nunca fosse me apaixonar na vida? – Perguntou Camila, com os olhos chorosos.
- Eu sei que tem sentimentos. Você é uma mulher como todas daquela casa e como eu. Somos mais sensíveis e às vezes não sabemos lidar com as coisas. Mas essa é a nossa forma de vida, é a que escolhemos ou a que devemos ter por necessidade. – Ana respirou fundo, limpando as lágrimas que caiam dos olhos de Camila. – Hoje você é como nós. E NÓS temos que fazer sacrifícios... E NÓS não somos livres para amar.
Camila levou uma das mãos aos olhos, os limpando de qualquer forma. Aquelas palavras parecem rasgar seu coração, ou perfurá-lo, deixo para você escolher a maneira mais dolorosa de se sentir. Perdeu o chão por alguns segundos, pois pensava que Ana estava certa, e isso era o que mais doía.
- Vamos.
A mulher segurou a mão de Camila, a puxando para dentro, fazendo ela garota virar em direção ao garoto que ainda estava dentro do carro, triste. Foi como se ambos se olhassem em câmera lenta, e de certa forma ele sofria por dentro também. Camila escondeu o rosto quando o próprio cabelo atingiu sua face... Estava chateada, envergonhada e acabada por dentro.
...
As mãos dela estavam amarradas com o cinto grosso de couro, onde com um puxão, Gaspar conseguiu levantá-la do chão e prensa-la contra a parede. Os soluços de Jazmim se dissiparam pelo cômodo, ela tentava não olhar em seus olhos, mas Bernardo fazia questão de puxar seu rosto para ver as lágrimas descendo. Ela esperneava, tentava gritar e bater nele, mas o que conseguia era apenas que ele ficasse mais bravo. A olhou nos olhos.
- Sabe Julieta... Ou Jazmim... – Sorriu. – Está me deixando ainda mais excitado.
Gaspar se colocou no meio de suas pernas, erguendo o vestido da garota e deslizando a mão pelo meio de suas pernas. A cigana tentou gritar, fazendo com que o homem tampasse sua boca com uma das mãos.
- Você é deliciosa, sabia? Vamos ver se é tão boa assim comigo te fudendo.
Jazmim sentiu a mão de Gaspar lhe atingindo o sexo, com força, ele penetrou-a com os dedos. A garota deu um grito abafado, ele a machucava... E Jazmim cada vez mais sentia repuno daquele homem, nojo.
- Estou te machucando? Não viu nada ainda meu amor. – Sussurrou Gaspar, chupando o lóbulo de sua orelha. — Eu sei que você gosta...
Gaspar tirou a mão da boca de Jazmim, fazendo a garota fitá-lo com ódio.
- Eu tenho nojo de você.
- Não se preocupe cigana... Vai se acostumar.
Ele se afastou um passo e abriu a calça com um sorriso nos lábios. Jazmim virou de costas e tentou conter as lágrimas, mordendo os lábios inferiores de raiva. Suas pernas estavam bambas e todo o seu corpo doía, sua boca sangrava e havia marcas roxas por toda a sua pele.
Gaspar tentou beijá-la mais uma vez, mas antes que pudesse o dar um chute como da última vez, ele segurou suas pernas.
- Dessa vez não querida...
Outro tapa fez Jazmim cair, mas antes que pudesse se agachar barulhos externos fizeram Gaspar ficar em silêncio. Esbravejou para si e tirou da cintura um canivete, o colocando sobre o rosto de Jazmim.
- Se falar alguma coisa eu te mato, sabe que sou capaz disso. Mato você e sua amiguinha. Ouviu bem?
- Sim. – Sussurrou.
Fitando seu pulso, Gaspar arrancou a pulseira de lindas pérolas, e Jazmim não teve forças para tentar pegá-la de volta. Abaixou o rosto.
- Só para ter certeza. – Disse ele.
Gaspar virou de costas, abriu a porta com a chave que jogara no chão e saiu. Jazmim se ajoelhou, curvou-se e chorou por mais alguns segundos. Sentia-se suja e parecia que iria desmaiar a qualquer momento se ousasse fechar os olhos.
Foi diferente a sua situação quando Ana entrou pela porta. Na verdade, não vira direito como Jazmim estava, apenas a chamou para irem embora. A cigana já estava de pé, virada de costas para que ninguém percebesse seus olhos inchados.
A cigana caminhou lentamente até o carro, e após entrar, fitou Camila que chorava discretamente. Supôs que provavelmente havia acontecido alguma coisa, mas não conseguia pensar nisso... Ainda conseguia sentir aquele hálito alcoólico lhe atingir a orelha e a pele macia. Mas o que mais a atormentava era que não podia falar nada. Se Gaspar era capaz de fazer o que prometera se ela dissesse algo? Sim, muito capaz. E Jazmim não conseguiria viver com isso se soubesse que colocou a vida da única amiga que tinha em perigo.
...
A porta se bateu em suas costas.
Após entrar, Camila atirou-se na cama de bruços ficando em silêncio até Jazmim perguntar alguma coisa. Queria o apoio de sua amiga, precisava de algum conselho ou pelo menos um abraço. Mas Camila não sabia o que havia acontecido... Afinal, como poderia? Quando a cigana entrou, a primeira coisa que fez foi trancar-se no banheiro.
A cigana deslizou sobre a porta de madeira até cair sentada no chão, abraçou os próprios joelhou e escorou a cabeça nos mesmos. Chorou baixinho para Camila não perceber...
- Jazmim? – Chamou Camila. – Preciso falar com você...
- Agora não posso Camila!
A cigana tentava abafar o choro mais parecia quase impossível. Levantou-se com dificuldade, apoiando o próprio corpo sobre o piso frio do banheiro.
- Por favor, Jazmim, preciso lhe contar uma coisa, estou muito mal!
- JÁ DISSE QUE AGORA NÃO POSSO!
Ela gritou com toda a força fazendo Camila recuar da porta do banheiro e limpar uma lágrima teimosa.
- Eu sempre te ouvi em todos os seus problemas... Sempre te apoiei e te dei conselhos. E agora que eu preciso disso... Ignora-me? Vira as costas pra mim?
Jazmim percebeu o silêncio diferente vindo do lado de fora do banheiro, mas não disse nada, não podia dizer nada. Por hora, seria melhor que ela se afastasse... Pelo menos era o que achava.
- Quer saber? ÓTIMO! Eu não preciso de sua amizade mesmo. – Camila abriu a porta do quarto, fitando pela última vez a porta de onde Jazmim usava como um esconderijo. – Vou dormir em outro lugar!
Jazmim ouvira do banheiro a porta se bater. Foi doloroso demais ter que virar as costas pra Camila. A garota caminhou até o boxe, ligando o chuveiro quente e tirando a roupa. Assim, deixou que a água levasse embora toda a dor e toda a angústia que sentia dentro de si. Pois enquanto lavava seu coração, tirava toda aquela sujeira de sua pele, mesmo que em cada toque fizesse ela se lembrar daquele homem repugnante.
Não aguentou o peso do próprio corpo, teve que sentar-se no boxe frio e esperar ter forças para levantar novamente. Entre suas pernas, escorrera pingos de sangue, forçando a cigana a flexioná-las cada vez mais perto uma da outra.
E assim caiu em prantos angustiantes, agora podia chorar alto e não se importar com nada. Lembrou-se de cada momento ao lado de quem a deixou, mesmo prometendo a si mesma que não sofreria mais por isso. Porém, como evitar? Sentia-se sozinha, abandonada... Sofrera tantas coisas que nem gostava de lembrar. Bernardo a tirou a pequena felicidade tão depressa, de forma tão cruel. Mas já fazia mais de um ano... Por que choras? – Sua consciência perguntava.
“– A única forma de você se livrar de mim... A única forma de você ir embora é morta. Eu nunca vou deixar você se afastar de mim.”
Ela ainda se lembrava daquelas palavras, não esquecera nem sequer por um minuto mesmo tirando da cabeça aquele que as disse. A cigana fechou o chuveiro, enrolou-se na toalha e deitou-se no chão frio... Talvez assim, com frio, ela conseguisse se sentir viva, sentir alguma coisa que não seja medo ou dor novamente.
O que faria a partir dali? De que forma viveria? Fugiria? Se esconderia por algum tempo?
Eram perguntas que talvez iriam a atormentar no dia seguinte, mas não naquele momento. A única coisa que Jazmim fez foi fechar os olhos deitada no chão frio e recordar apenas o passado... O passado em que ela um dia foi feliz.
Adormeceu igual aquela vez... Quente protegida...
Adormeceu igual aquela vez em que pensava estar nos braços de um demônio, enquanto sonhava com o céu. E de certa forma, recordou-se verdadeiramente o quanto amava estar daquela maneira.
“Se apenas em meus sonhos te encontro, em meus sonhos quero continuar vivendo.”
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