Cigana De Luxo!
24 Amizade e Mentira
Notas iniciais
O capitulo foi perdido várias vezes, mas acho que ficou bom. Espero que gostem : )
Ela estava com frio quando acordou. Seu corpo doía e seus cabelos ainda estavam muito úmidos. Lentamente Jazmim esticou o corpo já há oito horas encolhido de frio, bocejou. Levantou-se com um pouco de dificuldade e foi em direção a pia do banheiro, fazendo o espelho em sua frente refletir uma imagem polêmica. O diferente foi que não se preocupou, não fez nada, apenas ignorou sua face pálida e seu corpo fraco. Jazmim pegou o roupão que era de Camila e enrolou-se nele, saindo do banheiro logo em seguida e atirando-se na cama.
Não importava o que fazia, parecia que o suor, o hálito, a saliva e o cheiro daquele homem ainda estava em seu corpo. Por segundos arranhou a própria pele como se pudesse tirar um pouco daquilo de si. A garota mordeu os travesseiros de raiva, soltando um grito abafado que parecia explodir seus nervos e suas cordas vocais.
A porta estava fechada e mesmo assim impediu a cigana de dormir. As vozes altas lá de fora a fizeram levantar para ver quem estava, mas o que despertou mesmo sua atenção foi ter escutado – ou pensado escutar – a voz de Camila. Agora estava mais calma e precisava falar com ela, não queria perder sua amizade.
Jazmim abriu a aporta, dando de cara com a garota que recuou alguns passos.
- Camila preciso falar com você!
- Quando eu queria falar você não escutou, por que agora acha que vou escutar o que tem a me dizer?
A cigana se aproximou tentando a puxar pelo braço, mas antes que pudesse encostar em Camila uma garota robusta se colocou em sua frente.
- Desde que chegou aqui só trouxe problemas pra gente. – Ela se pronunciou. – Sai fora!
- Camila eu quero falar com você! Por favor, me escuta!
- Não vou escutar Jazmim! Por que você não me escuta? – Camila se irritou.
- Estou ouvindo...
Camila deu um passo à frente, olhando nos olhos da cigana.
- Tarde de mais... A dor já passou.
Camila se afastou, passando por Jazmim rapidamente enquanto a garota robusta que lhe dirigira a palavra a empurrou quase que imperceptivelmente. A cigana apenas observou sua amiga, ou ex amiga, se afastar.
...
“Não sei o que fazer. Mesmo me sentindo protegida aqui dentro parece que a qualquer momento ele vai entrar pela janela e me agredir. Penso em desistir de dançar, ir para bem longe e talvez... Encontrar Alexander... Tudo para não ver aquele homem novamente. Mas então penso em Camila, que tantas vezes me ajudou e tem sido a única amiga que tive, pelo menos verdadeira. Sei que ele seria capaz de matá-la e depois me enviar de presente seu corpo, e isso iria me destruir. Camila morta por minha causa? NUNCA! JAMAIS! Ninguém vai se machucar por culpa minha! Então, acho que tentar evitar ir a lugares muito afastados já é um bom começo... Evitar sair de casa... Evitar conversar muito com as pessoas. Quem sabe ele não me esqueça? Pois embora me sinta angustiada e enojada quando estou perto dele, gosto de olhar para a marca em seu rosto, assim também lembro quem a deixou lá.”
Jazmim estava na cozinha tomando mais do que demoradamente um copo de água, onde por fim, o largou sobre a pia e caminhou em direção à escada. Ana estava em seu escritório, e a porta entre aberta dava a oportunidade para a cigana visualizar ela falando ao telefone. É claro que não era a intenção de Jazmim espiar, mas sua curiosidade foi maior, além de ter ouvido palavras mais do que interessantes em seu ponto de vista, tirando o fato de serem incrivelmente questionadoras.
- Sim está tudo bem... Eu não posso fazer isso o tempo todo... Você foi embora como todas as outras vezes e foi fácil por que agora se preocupa tanto? ... Não. Eu lhe asseguro que está tudo bem... Já sabe quando volta?... Claro. Como ele não iria querer negociar com o homem mais poderoso do país?
Após as palavras de Ana, Jazmim não teve mais dúvidas. Sim, era ele ao telefone: Bernardo. Mas por que Ana lhe escondera que ainda falava com ele? Por que tanto mistério? Indignou-se. A cigana sentia-se apunhalada por dentro, indignada por tantas mentiras... Mas a cima de tudo, sentiu saudades.
O telefone caiu de sua mão tão lentamente que Ana quase teve tempo de segurá-lo antes que espatifasse no chão. Porém, o que mais importa era a imagem de uma garota que aparecera após a porta ser afastada. Será que ela havia ouvido? – Perguntava em seus pensamentos. Jazmim não disfarçou, realmente afastou a porta com força, depositando um olhar raivoso e confuso em Ana. A mulher, após deixar o telefone cair no chão, virou em direção a Jazmim com a expressão mais surpresa que a cigana já vira na vida. Agachou e recolheu o celular, fingindo que nada tinha acontecido.
- Nossa querida... Me assustou!
- Não precisa fingir Ana. – Falou Jazmim.- Eu sei que era ele ao telefone.
- Ele? Ele quem?
- Por que mentiu pra mim? Por que me disse que não sabia onde ele estava? – Perguntou a garota de forma decepcionada, fazendo Ana respirar fundo.
- Não... Não... Eu não menti. Não era ele ao telefone querida!
- Não tente me enganar mais, por favor! Ou, agora, o homem mais poderoso do país é outro?
Ana arrumou o cabelo um pouco bagunçado e colocou o celular sobre a mesa, fitando a face de Jazmim logo em seguida.
- Não era ele, está bem?
- Quer dizer que o que eu ouvi não aconteceu?
- Quer dizer que apena se enganou!
A cigana fitava Ana de forma inconformavel. Como queria que ela acreditasse que tudo havia sido um engano por parte dela? Não acreditara que Ana mentira na cara dura pra ela, e o pior de tudo era que não conseguia pensar de outra forma. Sentiu em seu coração que era com ele que ela falava então como pensar o contrário?
Seus pés caminhavam para trás e em sua face não havia expressão alguma. Não queria chorar, não queria sorrir, não queria nem sequer respirar, apenas correr. Correr para bem longe, se esconder, transformar novamente a sua vida. Fazer um milhão de novos começos e criar um milhão de novos “falsos finais”.
- Se ele não quer eu saiba então também não quero mais saber... Está morto pra mim.
Ana não conseguiu tocá-la antes de Jazmim sair correndo. Porém não foi como ela pensava ou queria. Os muros que a protegia também a faziam prisioneira, e o pior do que sofrer riscos era simplesmente não arriscar, parar no tempo e ficar da mesma maneira todos os dias.
Como Bernardo era diferente dela, diferente até demais para existir algum traço apaixonante. Não que culpasse ele por se afastar dela... Talvez ele havia cansado... Talvez ele realmente quisesse a evitar... E essa última suspeita era também a mais coerente pra ela.
Como não conseguiu correr para fora correu de volta para seu quarto, sentindo-se mais presa do que estava há alguns minutos. Pensou em dormir, mas não estava com sono, embora essa era a única coisa que precisava naquele momento. Sua noite foi péssima, e não só por dormir no chão frio e úmido, e sim por sonhar com a última pessoa que queria. E dessa vez, ele não a salvava com um tiro, ele não a abraçava, ele nem sequer lhe dirigia a palavra. Ela apenas via ele indo embora como se fosse a primeira vez.
...
Não que quisesse estar ali, mas de alguma forma estranha não tinha escolha. Há apenas um dia por semana para as garota saírem e escolherem o vestido de luxo da próxima apresentação, e dessa vez não ficara em dúvida, sabia exatamente o que queria. Para ela estava sendo difícil não estar com Jazmim, pois desde que a garota chegara na casa, as duas sempre saiam juntas. Camila conseguia ver a garota de longe, distraída, como se estivesse ali apenas para matar o tempo. Passava por vestidos belíssimos e nada a interessava, e o pior era que dificilmente olhava Camila como a mesma queria. Podia se fazer de difícil, é verdade, mas desejava voltar a ser amiga da cigana. Seu orgulho estava ferido, embora Camila percebesse que pela primeira vez as garotas estavam a aceitando mais no grupo, o que não acontecia antes quando andava com Jazmim.
A cigana a olhou tentando mostrar um sorriso no canto dos lábios, o que fez Camila virar de costas, séria. Não estava se sentindo bem com aquela situação toda, pelo contrário, pensou ser um exagero e sua parte, mas também não recebera o apoio de Jazmim quando ela precisou que achava que deveria. Aquilo também a magoou, aquilo também a fez chorar.
- Camila, já escolheu? – A voz final lhe chamou a atenção para uma garota negra, alta, com um corpo firme e um belo rosto.
- Já sim.
Camila estava com dois vestidos na mão, mas sabia qual iria escolher, o outro era apenas por precaução.
- Então vamos pagar!
A garota sorriu, puxando Camila em direção ao caixa. Jazmim fitou de longe as duas conversando, girou os olhos e sentiu-se mal mais uma vez. Esbravejou raivosa, mas antes que pudesse ir até lá uma mão lhe cobriu a boca.
- Quietinha. – Gaspar sussurrou.
...
- Eu sempre pensei que ficava melhor de preto, mas você tem razão! O vermelho caiu super bem em mim! – A garota sorriu para Camila que apenas esticou os lábios em um sorriso fraco. – Mas... Será que é esse mesmo? Será que os homens vão gostar?
- Vá com o que achar melhor. – Disse Camila.
- Nossa... Antes você era mais detalhista.
- Não! – Exclamou Camila irritada. – Antes eu era mais fútil, assim como você.
Camila pegou a sacola com o vestido dentro que acabara de pegar e saiu em direção ao lado de fora, ficando esperando alguns poucos minutos até todas as meninas saírem.
- Acho que agora podemos... – Parou, observou, onde as meninas conversavam todas alegremente. – Onde está Jazmin?
...
A mão fria lhe cobrira a boca, e aquelas palavras saindo com o mesmo tom de voz fizeram seu pesadelo retornar. Seu estômago embrulhou, parecia que ia vomitar por cada palavra dita. Ele a arrastou com uma faca na cintura até a porta de trás da loja, saindo por lá mesmo. Era um beco com apenas uma saída, e parecia que suas chances de sobreviver eram as mínimas possíveis. Seu corpo foi prensado na parede de pedra, suja, fazendo a mão de Gaspar lhe puxar o cabelo com força.
- Me solta seu doente! – Sussurrou de forma agressiva.
Gaspar sorriu a fitando daquela maneira. Jazmin apenas sentira a língua quente daquele miserável deslizar sobre sua bochecha até sua boca, a invadindo mais uma vez.
- Você não disse nada, ou disse Jazmin?
- Não. – Respondeu a garota com os dentes cerrados.
- Que bom. Eu odiaria ter que matar a sua amiguinha...
A mão esquerda dele percorreu sua perna até o colo de seus seios, parando. A olhou nos olhos, enquanto a garota tentava desviar daquele rosto o máximo possível. Ele acariciou seus seios, enquanto Jazmin gravava as unhas na própria mão de tanta raiva.
- Sei que me odeia, mas vai aprender a gostar de mim. – Sorriu, aproximando os lábios de sua orelha. – Por bem ou por mau.
Gaspar desceu a mão novamente em direção à feminilidade de Jazmin, a fazendo contrair as pernas rapidamente. Da ultima vez ele a machucou, teve medo, raiva, não iria deixar fazer aquilo de novo. O homem lhe empurrou contra a outra parede, prensando seu corpo com força e colocando a faca em seu rosto.
- Eu odiaria ter que machucar esse rosto lindo. Então, não me obrigue!
Os olhos da cigana se encheram de lágrimas e ela não queria chorar, não na frente dele. Sentia-se a pior pessoa do mundo naquele momento, sem nenhum tipo de proteção, nem mesmo uma gota de esperança a preenchia.
Lentamente Jazmim abriu as pernas, fazendo a mão de Gaspar lhe penetrar com força por entre a saia. A faca na mão de Gaspar parecia querer cravar em seu rosto, ela mal conseguia mover-se. Queria gritar de dor, mas não podia, ele a mataria se tivesse a chance... E por pensar assim, mesmo que por alguns segundos, talvez a morte a tirasse dos braços daquele homem repugnante.
- Me espera às dez horas no lado de fora da casa hoje... Se não eu mato a sua amiga. Entendeu?
A cigana não respondeu, e não foi por falta de tempo, apesar de a voz de Camila poder se escutar vindo perto. Ela gritava, o que fez Gaspar se afastar e abrir a porta da loja novamente. Fez menção de cortar o próprio pescoço antes de desaparecer pela porta, deixando Jazmim sozinha, com lágrimas nos olhos, e completamente aliviada por isso. Camila apareceu, onde a cigana correu para abraçá-la, com força...
- O que aconteceu? – Perguntou Camila assustada.
A cigana ficou em silêncio por alguns segundos, respirou fundo e a abraçou novamente.
- Só me abraça, por favor.
Camila a abraçou, e vê-la chorando a fez derramar algumas lágrimas involuntárias. Por um segundo sorrio... Mas não pela situação, e sim por achar que talvez iriam ficar brigadas para sempre.
- Me diz Jazmin, o que aconteceu?
- Nada... É que...
- Jazmin, me diz! Não pode ter sido nada você tava chorando!
A cigana respirou fundo, limpou as lágrimas e tirou o cabelo do rosto.
- Fui assaltada. – Respondeu rápido, a primeira coisa que veio à cabeça. – É. Um homem chegou e tentou me assaltar, mas eu não tinha nada, e você chegou, então ele fugiu.
- Nossa! Graças a deus não aconteceu nada!
Camila a abraçou novamente fazendo a cigana apenas olhar para baixo.
Poderia ter contado, é claro, mas o que faria Camila diante disso também? Talvez ficaria indignada, preocupada, e qualquer uma das milhares de opções, e nenhuma delas era boa pra esse momento.
- Desculpa por não ouvir você...
- Está tudo bem agora. – Camila sorriu.
- Se não quiser voltar a ser minha amiga tudo bem eu entendo!
- Jazmin... – Camila segurou sua mão. – Eu disse que já está tudo bem.
A cigana sorriu, fazendo as duas saírem daquele beco imundo. Porém, antes que isso acontecesse a morena fez questão de olhar para trás. Parecia que alguém as observava, parecia que não estava sozinhas, o que deixava Camila com um frio na espinha. Fitou a face de Jazmin enquanto caminhavam até o carro. Ela parecia preocupada, angustiada, como se cada passo pudesse derrubá-la a qualquer momento. Mas apesar de perceber isso, Camila não deixou o sorriso confortante sumir de seu rosto.
...
O dia estava nascendo naquele lugar. As mulheres já lavavam roupas no tanque atrás das casas enquanto maridos saiam para trabalhar cedo. As crianças já brincavam nas ruas, porém a maioria já se podia ver com um caderno na mão e lápis, indo para a escola. Essa era a vida rotineira de pessoas comuns, simples. Mas Bernardo Guilertina não estava em meio a essas pessoas. Foi à Argentina apenas por negócios, já que tinha um trabalho incomum com o presidente.
- Espero que agora tenhamos um acordo. E que esse problema antigo entre nós se encerre logo. – Falou o presidente.
Bernardo abriu a maleta que foi entregue a ele, fitando os exatos oitocentos mil reais em notas. Olhou satisfeito, entregando a maleta para seu segurança.
- É claro. Se ficar longe de minhas fronteiras não teremos mais problemas. – Disse Bernardo, arrumando o terno e apertando ainda mais a gravata escura.
- Entenda que se não fizer isso, não consigo chegar a quem quero. – Falou o presidente ainda mais estressado do que a alguns segundos. – Não vou mais ser subornado.
- Isso é uma ameaça?
As armas dos seguranças que estavam com Bernardo foram engatilhadas, e apontadas em direção ao presidente. O mesmo recuou alguns passos.
- De forma alguma. — Respondeu de mau gosto, fazendo as armas voltarem as suas posições iniciais.
- Ótimo. Se quiser uma comunicação fale comigo antes!
Bernardo virou de costas, andando com firmeza em direção ao carro. Um segurança baixinho abriu a porta fazendo o louro entrar junto com a mala que também era entregue. Não fez questão de abaixar o vidro para cumprimentá-lo antes de o carro arrancar, apenas continuou como estava, fazendo o presidente o olhar torto.
- Quero esse homem morto! – Sussurrou para si.
O seu último trabalho havia sido feito, o que fez Bernardo olhar a cidade que se afastava mais aliviado. Não gostava muito de sair do país, sempre havia suspeitos de ambos os lados. Mas agora, além de ter tirado um peso de suas costas¸ tinha um motivo para ficar feliz após tudo isso.
- Que dia é hoje?
- 09 de Setembro. – Respondeu o motorista.
Bernardo deu um sorriso no canto dos lábios, deslizou a mão sobre o cabelo e largou a maleta ao seu lado.
- Que coincidência incrível.
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