Cigana
2 Daly
Notas iniciais
Estava super acostumada a acordar antes do sol nascer. Gostava de ver a paisagem de cada lugar diferente de cada acampamento. A sensação de paz de todos dormindo ainda, alguns roncando, outros silenciosos e mais outros se mexendo e, até mesmo falando enquanto tinham sonhos. Tudo isso dava-lhe um sentimento de certa solidão. Não que ela gostasse disso. Era a serenidade interior matinal que ganhava a cigana. Odiava acordar assustada. Não lhe trazia boas lembranças.
Passando entre um e outro deitado na grama, alojou-se, sentando-se na ponta do pico. Ali ela tinha visão privilegiada de duas estações do ano, como que uma começando na outra. Ela conseguia ver um desfiladeiro de grama recém aparada, umas rochas na beira de um enorme lago, do qual os ciganos vinham se banhando há semanas. Bonitos pinheiros robustos de folhagem num verde até brilhoso. Do outro lado do lago, mais pinheiros o cercavam e, logo atrás, o branco. Uma montanha com 3 pontas de pura neve. Tudo isso, anunciava o inverno rigoroso que estava por vir. Uma paisagem de tirar o fôlego àquela hora da manhã. O primeiro raio de sol apontou um facho de luz vindo de traz do morro de neve e bateu nos cabelos vermelhos da cigana.
Imediatamente, ela levou o dedo à sua mecha de cabelo, suspirou fundo e teve uma certeza: Estava na hora de levantar acampamento e seguir estrada. Acariciou sem perceber sua tatuagem de roda de carroça, no calcanhar direito. Dali a segundos, todos estariam de pé, cada qual com sua tarefa de retirada.
Adiantou-se voltando para sua barraca. Pôs-se a guardar em seu baú os pertences que ganhara durante sua estadia no acampamento de Reine. Haviam joias e mais joias espalhadas pelo chão e pela cama, na estante penduradas algumas roupas das quais fora presenteada, lenços e mais joias.
— Sabia que estaria acordada – ouviu uma voz e olhou para a porta.
— O inverno está chegando. Já sei que vamos partir, estou me adiantando – ela foi fria nas palavras.
Ele, como sempre, entendia o descaso da cigana.
-Ora, Daly... Não seja tão grosseira. Ainda estão acordando...
-Eu sei, Roman. Por que não vai cuidar da sua barraca?
Com isso, o homem riu e se retirou. Estava acostumado com as ignorâncias em contrapartida de Daly.
Em minutos, todos estavam zanzando no acampamento. A viagem em questão seria um tanto longa para que os ciganos pudessem fugir um pouco do inverno mais rigoroso. O lugar em que eles se encontravam não tinha muita escapatória. O objetivo era que, se eles chegassem no centro da Dinamarca em menos de uma semana, tudo estaria, no mínimo, razoável. A área da Noruega em que estavam, e com a rapidez da estação tenebrosa se aproximando, eles deveriam ser ágeis.
Daly discordava totalmente da escolha. Sabia muito bem o que faziam com ciganos por lá. Mas o líder Nic, não lhe dera ouvidos. Não tinham opção por conta da estação.
— Estamos todos prontos para seguir? – O próprio gritou no meio do acampamento.
A cigana ruiva colocou a cabeça para fora da barraca. Sua família nômade estava em frenesi. Alegres, animados, entusiasmados, ansiosos. Daly sentia algum temor, mas ao mesmo tempo, anseio pelo que estava por vir. Coisas novas, cidade nova, acampamento novo, novas danças, novos presentes, novas roupas, novas pessoas para alegrar e levar sua dança. Era de partir.
Levantar acampamento e seguir estrada.
— Levantar acampamento e seguir estrada! – Os ciganos gritaram em uníssono.
O violista preparou seu instrumento. As crianças se uniram em uma só barraca por segurança. As grávidas subiram e se acomodaram com os pandeiros. Os homens tomaram suas posições. Cavalos estavam à postos, saudáveis e preparados. Daly jogou para fora sua marca. Uma moeda de prata pintada na parte de baixo com esmalte vermelho e um D marcado na parte da frente.
Certamente, hora de ir.
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