Cigana

3 Casamento de Infância


Notas iniciais
Coisas meio turvas vão acontecer neste capítulo. Boa leitura!

Ela abriu os olhinhos pequenos e puxados com certa pressa. Alguém a sacudia fortemente.

— Vamos, levante!

Não entendeu. Demorou um tempo até identificar onde estava.

Cortinas cintilantes formavam triângulos no teto logo acima da sua cabeça. Piscava, tentando ser rápida, mas não saía do lugar.

— Daly, pelo amor de Kali*, você precisa levantar. Ele vai chegar daqui a pouco tempo. Temos que aprontar você – sua mãe falava, apressadamente.

Em questão de milésimos de segundos, tudo ficou claro. O casamento. Os acordos. As obrigações. Os preparativos. O encontro. Tudo aconteceria hoje. Hoje seria o dia de conhecer seu noivo, o qual fora prometida aos 11 anos.

A mãe de Daly, uma bonita cigana da cor de jambo, envelhecida pelos aborrecimentos com o pai de Daly, dos cabelos negros e olhos amarelos. Corria de um lado para o outro na tenda humilde. Jogava panelas, panos, joias, numa tentativa em vão de arrumar o espaço a tempo do cigano de clã rival chegar.

Norma prometera sua mão para casar com o cigano da vez do clã rival mais rico. O objetivo era que, com o casamento de sua única filha, a família dela melhorasse de vida e parasse de roubar nas aldeias vizinhas. O cigano ao qual fora prometida tinha 37 anos. Ela imaginava como isso seria nojento e embaraçoso. E sua mãe não estava nem um pouco preocupada com isso. Só precisava cumprir com o combinado de casar e ter um neto. Era o necessário para começar a ver a cor das riquezas.

Na cabecinha da cigana ruiva, estava tudo errado. O que seria de sua infância se deixasse isso acontecer?

Norma fizera uma maquiagem escura em torno dos olhos, com lápis preto, simbolizando e destacando os olhos egípcios da filha. Soltara-lhe os cabelos vermelhos e cheios, que era a melhor forma de aparência de Daly. Envolvera seu rosto com um pano vermelho, de modo que somente os olhos oblíquos da cigana ficassem a mostra. Estava toda adornada em tecido vermelho e dourado, com joias simples também douradas. Daly odiava essa cor. Tudo que ela preferia era prata ou semelhante.

Borrifava perfume doce quando a serva entrou no quarto e anunciou a chegada da família cigana rival.

Daly tremeu.

— Termine de fazer isso e já venho te chamar — Norma empurrou na mão da menina o frasco com o líquido, o cheiro peculiar de morango.

Enjoativo, ela pensou.

Era o momento. Não poderia deixar isso acontecer. Se sua mãe voltasse, estaria tudo acabado. Seria o fim.

O fim de sua infância, o fim de sua liberdade, o fim de sua inocência, o fim de laços familiares, porque a partir dali, odiaria sua mãe, ainda mais. Teria que entregar seu pequeno corpo, ainda em formação, para um homem. Ela não assimilava a gravidade disso, porém era a última coisa que queria no momento.

Não pensou por mais muito tempo. Levantou os panos da tenda pelo outro lado, correu por alguns cômodos, derrubando objetos pelo chão até tomar a vista. O chão de saibro e o verde à distância a chamava. O tempo estava cinzento. Era um mar de cinza, vermelho escuro e a mata ao longe, entretanto um cenário convidativo.

Ela correu como nunca antes, deixando tudo para traz. Sua mãe, sua tenda, suas coisas, sua vida.

Podia imaginar a expressão de Norma voltando para o quarto e encontrando tudo no chão espalhado, o perfume aberto, escorrendo no chão. Ela entenderia na mesma hora que Daly tinha fugido. Odiaria. Naquele momento, não tinha mais filha. E nem vida, certamente depois disso o clã rival a levaria para a morte. A fuga da filha seria o estopim para tal ato.

Isso Daly não fazia ideia.

Enquanto corria, pensava no que poderia encontrar. Ela sonhava com uma aldeia colorida, com cavalos, tendas com objetos de prata, outras crianças as quais pudesse brincar, plateias para levar sua dança, presentes que ganharia, os gritos, alguém que lhe penteasse os cabelos antes de dormir e lhe contasse histórias de ciganos ancestrais para acalmá-la.

Estava perdidamente enganada.

Correu não se sabe por quanto tempo. Até começar a caminhar. Estava exausta. Os pés já esfolados, seus calçados em migalhas. Suas roupas suadas e coladas no corpo, porém intactas. A noite começava a apontar no céu, bem na sua direção. O verde da floresta estava engolindo-a. Andou mais algum tempo, horas talvez. Sua barriga roncou e suas pernas cederam.

Sentiu medo. Sentiu vontade de voltar. Sentiu saudade da mãe.

E sentiu medo novamente. A essa altura, não teria mais nada na sua tenda. Nem a própria tenda. E ela, mais uma vez, não fazia ideia.

Ouviu barulhos.

O instinto de sobrevivência que ela nem sabia que existia se florou.

Continuou andando, agora arisca. Procurando não fazer barulho e atenta aonde pisava, o máximo possível, porque a noite já tomava o céu por completo.

Ouviu gritos abafados.

Todos os seus sentidos a flor da pele. Evitando o máximo de barulhos.

Ouviu de novo. Havia sons de luta e alguém com gritos abafados, falhos. Como que estivesse tendo a boca tampada.

Andou mais um pouco, abaixada. Estava difícil enxergar.

— Se alguém te ouvir, eu juro que te mato — uma voz masculina, sádica, sussurrava.

Daly arregalou os olhos. Falava com ela?

Os gritos de novo. Sons de luta, roupas sendo rasgadas.

Ela procurava e não achava. Aquilo estava agoniante.

As pessoas caíram. Quantas eram?

Finalmente enxergou. Eram ciganos?

Ele rasgava as roupas dela. Barulhos de pedras por perto, roupa sendo rasgada, joias sendo arrebentadas, cabelo puxado, os gritos abafados. A garota empurrava o homem. Eram jovens. Daly viu quando ele subiu as saias da menina. Passava a mão por dentro das pernas dela. A menina não estava gostando. Ela não queria.

De repente, ficou quieta. Ele se mexia em cima dela. Daly não estava entendendo. Aquilo não parecia certo.

Ele se mexia, rápido. A menina estática. Olhando para cima, imóvel. Sua cabeça foi forçando para traz, na direção da cigana ruiva. O homem em cima dela, como que esfregando e rindo baixo. Sussurrando alguma coisa. Daly estava perto o suficiente. O homem indo mais rápido. Mais rápido e mais ofegante. A garota despencou tanto a cabeça para traz que alcançou os olhos da cigana.

Ele não parava de se mexer em cima da outra. Daly teve certeza. A menina deitada, sendo forçada a fazer aquilo que não queria, não conseguia impedir que o homem saísse, era cigana também. Daly se viu através dos olhos dela. Uma lágrima escorreu dos olhos de cada uma das garotas.

Daly não tinha tempo. Já estava acabando. Tinha que fazer alguma coisa.

Ela virou de costas e uivou, como um lobo. Mas estava muito próxima deles.

No mesmo instante, o homem olhou na sua direção. Não conseguia vê-la. Estava escuro e ela tomara o cuidado de se posicionar atrás de uma árvore.

Ele cessou o que estava fazendo em cima da garota.

Ela uivou de novo, dessa vez mais alto e virada para eles.

O homem levantou correndo. Ajeitou as calças finas, vestiu sua camisa de manga comprida e levantou a cigana do chão com um pulo.

Segurou ela bem forte, como Daly pôde ver, apertando-lhe os braços. Só era possível ver por conta da luz da lua que batia por entre as folhas das árvores.

— Se você ousar contar pra alguém, eu te mato. Juro que mato e como suas tripas. Ainda não terminei com você.

Ele disse baixo e sussurrado. As duas ciganas ouviram bem. Se arrepiaram juntas e choraram juntas.

O cigano saiu de perto, correndo.

Daly começou a correr na direção da cigana que fora deixada só. A mesma ouviu barulhos dos galhos secos sendo amassados e correu também, na direção oposta. Daly cogitou tê-la assustado.

A pequena corria, tentando acompanhar a moça. Mas já havia corrido durante todo o dia. Já vira coisas de mais para que sua idade pudesse suportar. Não aguentava mais nem uma gota por hoje.

Correu até não enxergar mais a cigana.

Tropeçou num troço elevado que não deveria estar ali. Adormeceu no mesmo momento.

Notas finais
E então, gostaram? Para quem não entendeu, este capítulo inteiro é um sonho turvo da nossa cigana. No próximo capítulo virão melhores detalhes. *OBS: Neste capítulo, há uma fala em que a mãe de Daly diz: ''pelo amor de Kali''. Para quem não conhece, Kali é a santa protetora dos ciganos. Mais dúvidas, comentem, por favor!!! Segue lista de personagens: Norma ( mãe de Daly ) : https://i.pinimg.com/originals/ce/d1/86/ced1866170fa2b1a5cc637a5df5fa977.jpg Daly aos 11 anos : https://4.bp.blogspot.com/-dGuU8hGQOVc/UDy4_3-J8uI/AAAAAAAAERM/MZESh4b7kUo/s1600/menina+ruiva.jpg