Cigana

4 A Chegada


Notas iniciais
Bom, demorei um tempo para postar. Prometo rever a grade de postagem. Sem muitos comentários para este capítulo, auto explicativo. Boa leitura!

Acordou com a voz da pessoa que mais odiava no acampamento e talvez no mundo.

— Deveria vir aqui fora, ciganinha.

Levantou a cabeça assustada. As barracas estavam paradas. Música, barulho, risadas, fogueira, o tilintar de joias balançando vinham lá de fora.

— Roman, fora! — Gritou.

Quanto tempo estava apagada? Já era noite lá fora.

O cigano saiu rindo e fechou a cortina. Daly demorou-se para entender. Partida. Acampamento em retirada. Em busca de novo lugar. Estrada. Quando entendeu o que estava acontecendo, os sons vieram à tona. Ela colocou a cabeça para fora da barraca e viu.

Todos fazendo festa. O acampamento estava descansando viagem. Havia uma roda em volta de uma fogueira. O frio reinava. Alguns dançavam, outros cantavam e batiam palmas, as crianças correndo. O vinho estava em vigor, passando de mão em mão.

Daly procurou suas saias mais quentes, protegeu as costas com seus lenços vermelhos, cobriu o rosto e saiu descalça.

— Você demorou, ciganinha — ouviu alguém dizer.

— Venha, dançarina. Mostre o que sabe — outra voz foi ouvida.

Ela começou a se mexer ao mesmo tempo em que batia palmas. Em alguns instantes, Daly era o centro das atenções. Rodando em volta da fogueira, os pés pareciam de penas e o chão, nuvem. Amava aquela sensação. A liberdade, a expressão, o brilho de sua dança.

Esquecera-se de tudo em questão de segundos. Não se lembrava mais de que tempos atrás estava sonhando com seu passado. Aqueles sonhos estavam se tornando frequentes.

Durante a dança, bebia goles grandes de vinho. Quando acabou, os ciganos gritavam, homenageando-a, parabenizando-a por sua dança.

— Eu nunca consigo tirar os olhos de você — Irina se aproximou, acariciando a própria barriga avantajada.

Depositou um abraço caloroso na ruiva e pousou um beijo em sua testa.

— Eu também não — Roman tomou a palavra entre as duas ciganas.

A mais morena deu para Daly um copo de vinho, fechou a cara e saiu de perto, ainda fazendo carinho em si mesma, no neném que estava para nascer.

— Você não cansa de me perseguir?

— A ciganinha mais desejada do clã, o que você queria? — Roman respondeu.

— Me deixa em paz — Daly cuspiu no chão.

Virou as costas, bebericando seu vinho. Agora, sem o calor da dança, voltava a sentir o frio da noite.

Catou seu pano do rosto, terminou o vinho e sentou na porta de sua barraca. Agora só se ouvia o violino, uma canção melosa e triste saía do instrumento. Tudo numa calmaria que vinha lambendo devagar o acampamento em repouso.

— Vamos seguir estrada antes do amanhecer, sugiro que descansem — Nicolas vociferou.

Daly olhou para o céu. Liso, nada de estrelas. Negro. Sem lua. O frio. Esse inverno seria mesmo bem difícil.

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Não tinha mais sono para voltar a dormir em sua barraca. E o pânico ameaçava tomar conta dela. Aqueles sonhos recorrentes que vinha tendo do seu passado. Tão reais. Tão vivos. Só poderia ser um sinal. Na verdade, a romani* não queria pensar nisso. Estavam em nova jornada. Além de tudo, já fazia tanto tempo. Quanto? Precisamente, 9 anos.

O que mais a assustava com tudo isso, era ter viva na memória a imagem de sua mãe. Fora-lhe muito ruim ao longo de sua infância, mas ainda era sua mãe. Um pedaço grande dela. A curiosidade por saber que fim levara aquela cigana de olhos amarelos.

Sentada no vão da frente de sua barraca, Daly olhava para o chão, terminando uma caneca de vinho.

Na mão esquerda, uma moeda de prata brincava entre seus dedos, passando por eles, com a sua marca estampada nela. Em pouco tempo, mais um pedaço dela estaria pelo chão, deixando a pista de onde ela passara, mais uma vez.

Nicolas veio sorrateiro e sentou-se ao seu lado, sem que ela percebesse. Acendeu um cigarro de palha e ofereceu a garota.

— Ouvi dizer que você não está satisfeita com o lugar que estamos indo — ele tomou a palavra quando ela tragou o cigarro.

A ruiva não respondeu. Na verdade, não tinha o que dizer a ele. Tinha seus motivos, seus medos, suas inseguranças e por mais que o líder da tribo pudesse ajudar, de qualquer forma, nesse momento não dependia só dele. Nic também estava dividido entre a segurança contra o frio e os costumes e leis do país que estavam indo. Faca de dois gumes apontada para ele.

Naquele momento, compreendeu o peso das decisões para ele. Sempre que os dois conversavam, ela acabava por entender a situação do cigano. Preferiu apoiar e ajudar do que reclamar. Guardou para si os medos, que também eram os de Nic, e terminou o vinho, devolvendo para ele o cigarro, quase no fim.

— Vamos ficar bem. Confio em você — ela deu um sorriso meigo.

Nic abraçou-a por uns minutos e depois levantou-se.

Estava na hora, novamente.

Ele pegou o berrante e assoprou. O barulho ecoou pelo acampamento adormecido e se estendeu pelo que pareceu toda a floresta onde estavam em descanso.

A moeda caiu dos dedos da cigana e, com todos à postos, a viagem retornou.

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O caminho continuou pela noite adentro.

Com o tempo de descanso, que para Daly pareceu minutos, entretanto para o resto da tribo cigana foi de 4 horas, deu-lhes força para seguir por mais uma caminhada de 10 horas direto.

Alternando entre as grávidas que dormiam, as crianças que tinham os pés machucados e doloridos, o frio que se tornava cada vez mais denso e difícil. Eles conseguiram chegar ao destino em apenas 4 dias, visto que a viagem seria de chegada prevista em uma semana. Quando alcançaram o vilarejo, todos os ciganos estavam exaustos até para comemorar com festa, vinho e dança.

Nic teve que ser muito rígido para que o povo descansasse pouco e caminhasse mais.

Ao se instalarem, era noite, Daly sabia que precisaria a todo custo dormir. O dia seguinte seria puxado, corrido e novo. Tudo seria novo. Ela não sabia o que poderia esperar pelos ciganos de sua tribo, mas era hora de trabalhar.

Alguns fizeram fogueira para aquecer o novo acampamento. Outros juntaram o máximo de mantas que puderam. Dormir todos juntos evitaria um pouco mais o frio.

Daly entrou em sua barraca, fechou as cortinas, deu uma grande golada em um resto de vinho que tinha no chão, ao lado de sua esteira e adormeceu.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Capítulo breve, com uma passagem rápida de como foi a viagem dos ciganos até o destino, Dinamarca. Ps*: Há uma palavra com asterisco no meio do texto chamada ''romani''. Significa povo nômade, como os ciganos também eram chamados, além de andarilhos, boêmios, gitanos, calons e ''rom''. Segue lista de personagens: Cigana Irina: https://extra.globo.com/incoming/3897148-c9e-a06/w533h800/fofa.jpg
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.