Fred sentia o estômago embrulhar cada vez que o carro balançava, segurando-se no banco para tentar se concentrar em outra coisa além do cheiro de lama e esterco vindo da janela da frente levemente aberta. Era a primeira vez que viajava para tão longe, mas algo dizia que o seu melhor livro viria de Cidadoll; tinha lido um artigo sobre a cidade em um blog de fatos curiosos e se interessou no que dizia, além de sentir algo estranhamente familiar vindo das palavras escritas na página.

"Desde 1915, Cidadoll ficou conhecida como a cidade das bonecas. Apesar da fama dos brinquedos realistas, nunca teve grande movimento turístico por ser considerada distante e de difícil acesso. Dividida por uma longa estrada de chão, que passa por uma escura floresta e corta um extenso pântano, muitos temem o possível não retorno da cidade. Ainda há relatos de que Cidadoll já foi denominada como o Vilarejo isolado. "

Com o que leu e as histórias que coletaria no local, não teria como ser recusado por nenhuma editora. Teria um bom material em mãos e seu primeiro livro publicado.

— Ah, por favor, não tem como ir mais devagar? — pediu Fred, enquanto tentava abrir a janela, no entanto o botão parecia emperrado.

— Se acalme, senhor. Já passamos pela floresta e estamos no meio do pântano. Com sorte a maré não está alta, se estivesse, teríamos que voltar.— informou o motorista. — E essa janela não abre.

— Eu vou morrer antes de chegar em Cidadoll. — O jovem se deixou largar no banco gasto do carro, e respirou fundo em busca de ar puro. Ao invés disso, o cheiro de lama se misturou com gasolina em suas narinas, fazendo-o ter uma crise de tosse.

— Se acalme, estamos quase chegando... — O homem riu, vendo a irritação de Fred pelo retrovisor.

— Eu espero que sim! — Ele se aprumou novamente no banco, vendo a paisagem do lado de fora ficar escura e o sol se esconder por trás das árvores altas e finas.

— Só mais uma horinha — completou o taxista.

Fred entreabriu os lábios para retrucar, entretanto foi interrompido pelo vibrar do celular no bolso do sobretudo bege. A tela acesa mostrava a palavra Tânia em letras azuis, abaixo da foto de uma mulher sorridente com os cabelos pretos presos em um coque; o jovem não hesitou em atender.

— Olá, Tânia. Sei que ligou por causa da viagem... Eu vou ficar bem, são só histórias.

— Tem certeza? — A voz do outro lado da linha perguntou em um tom preocupado. — Não é melhor escrever seu livro direto de sua imaginação, sem precisar correr atrás de perigo? E se voltar a ter aqueles pesadelos?

— Olha, é só uma cidade pequena. Não tem nada demais além de bonecas de porcelana — respondeu Fred, deixando-se largar novamente em um suspirar. — E quanto aos pesadelos, não os tenho desde os quinze anos. Não como eram antes, com tantas imagens...

— Quando te adotei, você parecia tão amedrontado! Suas noites repletas de gritos e...

— Estou tomando os remédios — interrompeu ele, esfregando as pálpebras com a mão livre. — Não parei, mesmo quando fui morar no prédio na quadra vizinha. Levo um presente de Cidadoll para você.

A mulher permaneceu um momento em silêncio, ouvindo-se apenas uma respiração cansada.

— Tudo bem, se cuida. Te amo, filho!

— Também te amo, m... Tânia! — Fred sempre teve um estranho bloqueio ao chama-la de mãe, mesmo que sentisse grande afeto por ela.

Após desligar o celular, o jovem guardou o aparelho novamente no bolso, voltando o olhar pensativo para a paisagem que corria do outro lado da janela levemente embaçada. Os pinheiros da floresta escura e as nuvens carregadas fizeram as pálpebras de Fred pesarem e acabou vencendo o incômodo, adormecendo. Após isso, o tempo pareceu correr, e só acordou ao sentir o motorista empurrar-lhe levemente o ombro. Entreabriu os olhos pesados observando o grande portão de ferro enferrujado da entrada do local onde se hospedaria.

— Chegamos senhor — afirmou o taxista, em um tom mais apressado do que o comum.

— Quanto ficou? — Perguntou o jovem, enquanto retirava a carteira do bolso da calça jeans.

— Duzentas libras. — O homem virou-se no banco, estendendo a mão direita em cobrança. Até que não achou o preço muito alto, devido ao tamanho da viagem.

— Tudo bem, um momento. — Fred enfiou a mão no bolso do casaco e retirou duas notas de cem entregando ao motorista.

Ao descer do veículo, o contraste de temperatura fez com que o escritor esfregasse as mãos geladas. Uma leve neblina seca percorria pelo ar, envolvendo os pinheiros secos ao lado do portão do lugar; as árvores se mostravam apenas em troncos e galhos retorcidos, que se estendiam para as barras enferrujadas. Fred deixou-se distrair pela curiosa imagem, até ser despertado pelo som de suas malas jogadas ao lado, voltando o olhar para o taxista que já voltara para o carro.

— Boa sorte, senhor! — falou o homem, mandando um aceno para fora da janela e arrancando o veículo em uma densa nuvem de poeira deixada no ar.

O escritor não se conteve em tossir, estreitando os olhos enquanto pegava seus pertences e seguia pelo portão entreaberto. Uma trilha de pedra cortava o extenso quintal até uma grande casa; a única que Fred encontrou disponível para hospedagem, no mesmo blog que leu a notícia sobre a cidade. Algo naquele lugar fez com que sentisse um leve arrepio, um pressentimento que não sabia distinguir se era bom ou ruim. Talvez fosse o canteiro de rosas mortas do lado direito da trilha, ou o balanço de madeira que rangia amarrado ao carvalho do lado esquerdo.

— Você é o garoto que ligou? — Uma voz rouca e cansada soou atrás dele, fazendo-o sobressaltar-se com o susto. Ao virar-se, deparou com uma senhora de grandes e ondulados cabelos brancos soltos sobre o ombro.

"De onde ela surgiu?"

— Oi! Sim ... Eu liguei para marcar a hospedagem — respondeu ele, olhando-a ainda com certo receio. Apesar de carregar um sorriso nos lábios, ela tinha um rosto quase cadavérico e olhos fundos de pupilas suavemente esbranquiçadas, os quais passavam um ar nada convidativo.

— Ótimo! Siga-me ... — Ela falou, e passou por ele lentamente rumo à casa. — Aliás, me chame de Tilde. Eu cuido da casa.

— Fredderick Biersmich, mas pode me chamar de Fred.

— Eu sei. Meu neto me disse. — Tilde deu uma leve risada, dando um tapa fraco no ar.

— Foi com ele que conversei quando liguei? — indagou o jovem, franzindo o cenho ao lembrar da voz nada simpática que o atendeu na semana que passou.

A senhora subiu os pequenos degraus e retirou do bolso do avental rosa que usava sobre o longo vestido um molho de chaves antigas, remexendo-o antes de selecionar uma de cobre.

— Sim, ele cuida praticamente tudo por aqui — respondeu ela, abrindo a porta em um ranger.

Fred entrou após ter a passagem liberada por Tilde, paralisando assim que passou do batente. O casarão era totalmente diferente da fachada, que mostrava madeira desgastada e pintura decadente. Ele era...Ele era lindo!