Cidadolls Amostra
3 Capítulo 2
O interior do lugar era como uma casa de bonecas; enfeitado com papéis de parede rosa e azul, com vários brinquedos espalhados aqui e ali, sendo a maioria de porcelana. Fred permaneceu parado no batente com o olhar fixo nas cores e móveis, sentindo a respiração pesar e levou as mãos às têmporas massageando-as. Aquele lugar parecia tentar acessar alguma parte bloqueada em sua memória, fazendo-o apoiar-se no cabideiro de madeira ao lado.
Flashes do orfanato que ficou até os treze anos invadiam a mente do escritor, em imagens de crianças correndo pelos estreitos corredores do local. No entanto, algo parecia diferente, as crianças usavam roupas diferentes e um grupo de freiras controlava-as.
— Vai ficar parado aí, menino? — Tilde retirou-o dos pensamentos, fazendo-o sacudir a cabeça como se quisesse espantar aquilo tudo. — Vou preparar um chá, sinta-se em casa.
O escritor esboçou um sutil sorriso, observando-a distanciar-se e retirou o casaco pendurando-o. Levou as malas até o início da escada caracol que levava ao segundo andar e deixou-as lá, seguindo para um dos sofás da sala de estar.
— Há mais hóspedes nesta casa? — indagou ele, após um suspiro de alívio por não estar sentado na poltrona desconfortável do táxi, esticando o pescoço para tentar ver a senhora na cozinha. Através da passagem em formado circular, se via um balcão de madeira que se estendia pelo lugar e parte de uma mesa.
— Hóspedes? — A sonora e estridente risada de Tilde ecoou pelo espaço, enquanto ouvia-se o barulho do tilintar das xícaras sobre os pires. — Não... Apenas duas pessoas vivem nesta casa: Eu e meu neto. Você, meu jovem, é o nosso primeiro e único hóspede.
Fred estranhou a fala dela, "Como assim único? Onde os outros visitantes se hospedavam, então? ".
— Então, os visitantes ficam em um outro lugar? Um hotel...
— Muitos não ficam por aqui para passar a noite — interrompeu ela, surgindo no batente segurando duas xícaras de chá, e seguiu até o escritor estendendo uma para ele. — E os que resolvem ficar... Como soube de Cidadoll mesmo?
— Vi sobre a cidade em um blog, daqueles repletos de histórias e lendas. Achei interessante — respondeu o escritor, bebericando o liquido adocicado. Sabia que estava se arriscando em uma cidade desconhecida, principalmente por não saber se aquele site era confiável ou não. Teve sorte de Cidadoll sequer existir e não ser apenas uma creepypasta. — Além de ser um bom lugar para escrever meu livro.
— É corajoso, escritor... — Tilde esboçou um calmo sorriso, ressaltando as quase imperceptíveis sardas nas bochechas pálidas.
Fred retribuiu o sorriso, pousando a xícara sobre a mesa de centro. Ela não parecia mais tão assustadora como da vez que ela o recebeu, e, de alguma forma, passava um ar sereno e gentil.
— Talvez. — Ele levantou-se, ajeitando as mangas compridas da blusa preta que usava. Na verdade, se não fosse um estranho sentimento que tivera, ele nem teria viajado; foi como se uma necessidade o tivesse tomado, chamando-o para Cidadoll.
Tilde levantou-se e seguiu em passos lentos até a escadaria.
— Venha... — chamou ela. — Lhe mostrarei seus aposentos.
Fred foi guiado para o quarto o qual ficaria no segundo andar.Tilde selecionou uma chave prateada do molho e abriu a porta em um leve ranger, revelando o cômodo; passava um ar reconfortante, o que fez o escritor esboçar um leve sorriso ao passar pelo batente.
— Fique à vontade — disse a senhora. — A chave ficará na porta.
Tilde se retirou, deixando o jovem sozinho e encostando a porta atrás dele.
Fred desfez as malas, guardando os pertences no grande guarda-roupas no canto do cômodo e deixou o pequeno pote de remédios ao lado do criado mudo; mesmo não tendo mais os pesadelos, deixaria os comprimidos perto da cama por precaução. Retirou os sapatos e sentou-se na beirada da cama, olhando-se no comprido espelho de moldura de madeira detalhada. Os orbes castanho-escuros mostravam um olhar cansado e os cabelos ondulados de mesma cor exibiam fios rebeldes caindo sobre a face do escritor.
— Eu preciso dormir — murmurou.
***
Fred sentia o corpo inteiro formigar, remexendo-se na cama sem conseguir pegar no sono. Enfim, rendeu-se, abrindo os olhos e voltando-se para o relógio analógico sobre o criado mudo; os números embaralhados, tornando quase impossível saber as horas.
— Fred! — Ele ouviu claramente uma voz infantil gritar, do lado de fora da casa. Levantou-se caminhando até a janela e puxou as cortinas roxas, observando o pátio pelas frestas da madeira.
Um garotinho segurando uma bola branca, encarava-o em um olhar quase congelado. Suas roupas lembravam um pequeno marinheiro, e, com os pés descalços, amassava a grama com os dedos com uma teatral expressão tristonha.
— Brinca comigo, Fred ...? — murmurou o menino, esticando os lábios em um largo sorriso logo após o pedido.
Biersmich sentia os batimentos acelerarem ao observar aquela imagem, sobressaltando-se ao ouvir aquele murmurar como se fosse um sussurro ao lado de seu ouvido. Automaticamente, ele caminhou para trás, tentando distanciar-se o máximo da janela até sentir as costas tocarem a parede. Virou-se para o interruptor e tentou acender a luz, porém mesmo com a insistência do escritor o cômodo não se iluminava.
"Isso está muito estranho ..." pensou, abrindo a porta do quarto. Sair daquele lugar parecia uma alternativa melhor. Entretanto, um corredor mal iluminado se estendia à frente rumo a um lugar incerto, deixando o escritor angustiado em qual escolha fazer.
— Fred, por que você não quer brincar comigo? — Ao ouvir novamente o murmuro do menino tão perto de si, ele instintivamente deu um passo à frente, se vendo no sombrio corredor. Seus pés tocaram uma superfície viscosa e gelada muito semelhante a lama, e talvez fosse. Olhou para trás brevemente, como se repensasse na ideia de voltar, porém a porta do quarto havia desaparecido.
— Olá?! — gritou ele, e sua voz ecoou pelo local, sem resposta.
Aquela situação estava muito surreal, só poderia ser um sonho. Fred resolveu tentar não sentir medo, controlar-se... Sempre teve pesadelos quando era criança, não se alteraria. Deu um passo à frente, notando a sola do pé afundar mais na massa densa e secou o suor frio na calça de pijama azul.
Ao longe, ouviu-se o quicar de uma bola, que se aproximava em um som ritmado. Fred respirou fundo e ergueu o queixo, seguindo firmemente pelo corredor ignorando o afundar a cada passo.
"Acorda... Acorda..." pensava ele, em desespero interno, quando observou a imagem do menino surgir diante dele. O olhar do pequeno se igualava ao do escritor, percebendo-se que ele já estava com a lama na altura do tronco.
— Você é um garoto muito mau, tio Biersmich! — falou o menino em uma voz rouca, segurando a cabeça de Fred em uma força anormal.
— Eu... Eu não entendo! — Os olhos de Fred marejaram, enquanto ele debatia-se na lama na tentativa de escapar, sem sucesso. A pequena mão pressionava a cabeça do escritor para baixo, afundando-o por completo.
***
Fred, em um impulso, sentou-se na cama apertando fortemente os lençóis brancos. Diante dos olhos marejados do jovem, imagens do pesadelo ainda vagavam como formas dançantes no papel de parede à frente. Voltou-se rapidamente para o criado-mudo, procurando o pote de remédios, no entanto eles haviam desaparecido; ele tinha certeza de tê-los colocado ali.
— Teve um sonho ruim, investigador? — Uma voz do outro lado, fez o jovem virar-se rapidamente, deparando-se com um rapaz. O outro segurava um pequeno caderno em mãos, e apesar das roupas finas, os cabelos destonavam em rebeldes cachos loiros.
— Não sou um investigador — retrucou, franzindo as sobrancelhas em uma expressão irritada. — Pegou meus remédios?
— Não peguei os remédios desinteressantes de ninguém — afirmou o outro encostando-se na parede ao lado do espelho. — E... Parece ser um detetive ou algo do tipo, pelo que diz em seu caderno. — Ele abriu em uma página aleatória e começou a ler. — Pesquisar sobre Cidadoll ...
— Poderia colocar meu manuscrito no criado-mudo, por favor? — interrompeu Fred. — E ... Quem é você?
— Me chamo Patrick Knox, sou o neto de Tilde. — O rapaz esboçou um sutil sorriso, arrumando os óculos de grau por cima dos olhos azuis e fechando o caderno. — Deveria saber quem sou, nos falamos por telefone. Aliás, não terá muito o que escrever em seu manuscrito. Muitas coisas em Cidadoll estão além de sua compreensão mental.
Fred estreitou os olhos, tentando entender as palavras de Patrick. Se não estivesse enganado, o loiro ao seu lado, tinha o chamado de burro em uma forma mais requintada. Levantou-se e seguiu até o guarda-roupa, notando o olhar do outro acompanha-lo.
— Escreverei o máximo para formar uma boa história — rebateu o escritor, retirando algumas peças de roupa do móvel e jogando sobre a cama.
— Ótimo! — Patrick esticou os lábios em um sorriso, devolveu o caderno a uma das gavetas do criado-mudo e caminhou calmamente até a porta. — Se arrume, escritor. Faremos um tour pela cidade, após de tomar o café que minha queridíssima avó preparou. Chá e torradas com geleia — falou e se retirou, fechando a porta em um leve baque. Havia um toque de ironia na fala dele, o que deu para Fred, a certeza de que não era bem-vindo naquele lugar. No entanto, sabia que aquele dia renderia muito para o livro que escreveria e estava disposto a um passeio com o neto de Tilde.
Fale com o autor