17 de Agosto de 1766

“Estou perdendo a fé, crianças morrem sem parar, mas Deus não ouve minhas orações”

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31/01/1991 — Quinta Feira

Me sinto mal, estou cada vez me afastando da minha verdadeira casa, estou indo embora para um cidade bem pacata no sul do Espirito Santo, sinto que estou abandonando momentos, lembranças e sentimentos para trás, será que vou esquecê-las?

– Ansiosos para uma vida nova garotos? — disse mãe de Alysson

– Nenhum um pouco, não entendi por que estamos vindo para cá... — respondo minha mãe com certo ódio

– Filho, seu pai tem novas oportunidades de empregos, os comércios estão trocando os velhos pelos novos — disse minha mãe dando uma leve risada.

– Hum..

Alex estava tão distraído com as paisagens que não percebeu a pergunta de mamãe, não tenho outra escolha à não ser aceitar essa nova vida. O resto da viagem foi um total silêncio, acho que todos estávamos estranhando nossa nova situação.

– Chegamos galerinha — disse meu pai.

– Até que a casa é bonita — eu falei repentinamente

– Consigo sentir que você vai gostar daqui, que tal, enquanto eu e seu pai esperamos o caminhão de mudanças, você e seu irmão vão passear pela cidade. — disse minha Mãe

– Acho.. legal... é pode ser interessante.

– Só não vão muito longe, e por favor, cuide de seu irmão.

– Pode deixar!

A cidade era pequena, acho que deve ser aquelas cidades que todo mundo conhece todo mundo, fofocas devem se espalhar fácil aqui, será que tem algo divertido nessa bodega de lugar? Passei pelo bairro de nossa rua com Alex, encontramos um parquinho, deve ser um ótimo lugar para ele brincar.

– Ei, maninho que tal irmos brincar no parquinho?

Ele balançou a cabeça levemente para cima e para baixo. Ficamos um tempo lá, meu irmão parecia se divertir, eu sentia uma sensação estranha, sinto que há algo nós observando, olhando atentamente percebi que havia ratos do outro lado da rua nós observando imóveis.

– Será que estou vendo isso mesmo ou estou enlouquecendo? Irmão vamos voltar — peguei em sua mão e fui ás pressas de volta para a casa.

Quando voltamos, ficamos esperando por horas até o caminhão de mudanças chegar, não tinha os melhores e maiores móveis porem dava para viver bem com eles, arrumamos a casa em algumas horas, o meu quarto óbvio era o mais grande comparado com o do meu irmão, a casa não era uma mansão, era bem confortável.

***

É um saco acordar cedo em pleno domingo, contudo minha mãe cismou em ir à igreja para conhecer a comunidade. A igreja era estranhamente velha, sua parede de madeira tinha sinais de mofo e sujeiras além de uma janela quebrada, percebi que não recebia uma reforma há séculos, o Pastor Leonardo, logo percebeu a presença de nossa família e nós apresentou a comunidade. Teve um Bingo pós missa, eu ganhei um terço, ele não me parecia um terço normal, invés de uma cruz, nela havia um ampulheta, não questionei apenas aceitei o prêmio e fomos embora.

***

Após esse domingo, infelizmente tive que ir para escola, acho que será uma experiência nova, já que não é um colégio militar, eu estudava a tarde toda, agora vou começar a estuda de manhã espero que ninguém me atanaze logo de manhã, se não isso vai acabar com o meu dia.

Cheguei na escola, e fui olhar os papeis em cada sala, fiquei um pouco perdido mas achei minha sala. A professora, logo me viu e percebeu que eu era aluno novo.

– Você é o aluno novo certo? Me disseram que uma família nova se mudou para a cidade — disse a professora

– Sim sou eu mesmo.

– Que bom, Alberto... Alberto é seu nome certo?

– É.. Alysson fessora

– Ahh sim, perdão.

Ela se virou para a classe novamente e perguntou:

-- Alguém apara apresentar a escola para o Alysson?


Um garoto levantou a mão lá no fundo da sala, ele era loiro, com um cabelo no estilo mullet, era foda demais, espero que ele não seja estranho.

– Eu posso

– Ótimo Thomas, seja amigável e apresente a escola pro Alysson.

– Beleza!

Enquanto ele me mostrava a escola, ele ficou surpreso em saber que me mudei para cá, pelo visto muitas pessoas não se mudam para essa cidade. Ele me mostrou a escola, ela era grande para um quantidade minúscula de alunos, passei em frente as salas e todas pareciam ter no máximo 20 alunos, como posso dizer..... a cidade parece ter mais gente velha do que nova. Apesar de ser grande, não tinha uma aparência agradável. Thomas me mostrou o resto da escola e paramos para matar o resto da aula no banheiro.

– Nossa se é bem... bonitinho — disse Thomas do nada

– Obrigado.....? — respondi desconfiado

– Você deve pegar vária garotas.

– É o que rapaz? que merda ce esta falando

– Perdão, pensei que homens conversavam assim , haha é que não conheço outros tipos de garotos além do meu grupo, então pensei que...

– Relaxa cara, não converso só de garotas e como vou pegar elas.

– Foi mal aí de novo.

– Não... sem problemas.

Senti o clima mudar, acho que ele ficou constrangido, porém não demorou para que fosse quebrado, enquanto menos esperávamos, um estrondo emergiu no banheiro.

– Hum? o que foi isso?

Fui até a porta e a puxei, no entanto ela não se movia.

– Thomas? acho que estamos trancado!

– Pera, deixa eu tentar.

Thomas puxou com toda força possível, mas a porta não se mexia. Nós começamos a gritar para que alguém pudesse nós ouvir, apesar disso parecia que ninguém iria nós atender.

– Será que a tia da limpeza nós trancou aqui? — disse Thomas tremendo

– Relaxa, uma hora ou outra vão sentir nossa falta e nós procurar.

– Isso pode levar quanto tempo?

– Talvez umas horas ai.

– O QUE?

Thomas começou a puxar a maçaneta freneticamente, além da porta, um cheiro podre começou a impregnar o banheiro, não era merda, era um cheiro estranho.

– Que porra de cheiro é esse? — eu disse cobrindo o nariz

Thomas estava tão desesperado tentando abrir a porta parecia que não sentia o cheiro. De repente um som estranho começo a ecoar junto com o cheiro, parecia som de ratos, o som aumentava cada vez mais e mais.

– Meu Deus o que está acontecendo, esse som é insuportável — disse Thomas

– Precisamos sair daqui — eu gritei

Começamos a gritar por ajuda. Depois de alguns minutos, a porta se abriu rapidamente e o sons pararam instantaneamente.

– Aah, achei vocês, vocês acham engraçado matar aula? — disse a professora furiosa.

– Eu... Eu.... — Thomas tentava falar com os olhoos arregalados.

– Professora... é que.... e....

– Não quero saber, direto para diretoria.

É.. minha mãe vai ficar furiosa. primeiro dia de aula e já fui pra sala do diretor. Enquanto íamos, eu e Thomas decidimos que não íamos contar o que aconteceu, o diretor ia achar que era uma desculpa esfarrapada e nos chamar de louco. Na sala do diretor, ele nós deu uma suspensão de um dia, poxa minha mãe vai matar, eu nem questionei e nem disse nada eu estava tão chocado com o que aconteceu, que eu... fiquei em silêncio, após sair da sala do diretor eu e Thomas retomamos esse assunto.

– Cara o que foi aquilo? — eu disse com cara de espanto

– Eu... não sei... — Disse Thomas com os olhos tomados de medo.

Após isso o silêncio chegou. Voltamos para a sala, me sentei ao lado de Thomas, ele me convidou para passar o recreio com ele e seus amigos, porém eu queria tentar digerir o que aconteceu e como eu ia conta para minha mãe que levei uma suspensão de um dia.

***

Eu cheguei em casa do meu primeiro dia de aula, não tive coragem de dizer que tomei uma suspensão, estava com medo de minha mãe surtar, eu poderia simplesmente fingir que ia a escola e matar aula em algum lugar, eu não conseguia mentir para minha mãe, era 5:45 da manhã, eu revirava a comida sem parar e respirava fundo, eu queria contar para minha mãe só que meu medo estava tomando meu corpo, até que:

– O que foi Alysson? Você está me encarando faz muito tempo, come logo antes que você tenha que sair de casa.

– E... e que...

– O que houve filho? Está tudo bem? Pode conversar comigo.

Eu não aguentei, e soltei... eu soltei que tinha levado uma suspensão.

– VOCÊ O QUE? VOCÊ SÓ PODE ESTAR FICANDO MALUCO , NO PRIMEIRO DIA DE AULA?

– M-mãe eu... fui para o banheiro e a p-porta emperrou e não abria, e-eu tentei sair... mas ela não abria, eu fiquei até lá até professora me achar. — eu dizia me contorcendo por dentro.

– VOCÊ ME FALA ISSO COM A CARA DE PAU E ACHA QUE VOU CAIR NESSA? — Minha mãe estava ficando roxa de tanto gritar.

Tentei conversar com minha mãe, ela não me ouvia, meu pai que ainda não tinha acordado, abriu os olhos rapidamente ao escutar os berros de minha mãe.

– Não... não é possível, seu primeiro dia de aula — disse minha mãe sem folego — Você vai ficar em casa, esta proibido de ver TV e jogar videogame.

– Tudo... bem..

Eu não questionei, afinal ela estava certa, e sé eu contar o que mais aconteceu ela vai dizer que estou inventando, ela estava tão furiosa que tudo que eu falava entra em um ouvido e saia pelo outro, apenas deixei para lá e desisti de tentar explicar. Meu pai ouvindo os berros desceu imediatamente, se fosse um ladrão, mamãe já teria levando um tiro com a pressa que ele desceu.

– Ei, Ei, Ei que baderna é essa logo de manhã? — disse meu pai enquanto estava com uma cara de morto.

– Seu filho.. FOI SUSPENSO. — disse minha mãe se segurando para não surtar.

– Não acredito mocinho, direto pro quarto vamos conversar agora.

Chegamos lá em cima e meu pai começo a conversar comigo.

– Olha filho, isso não está certo, você não é assim, por que estava matando aula? O colégio militar não te ensinou nada?

Tentei explicar o que aconteceu enquanto tremia igual uma vara verde na frente do meu pai, ele parece ter acreditado e continuo falando.

– Olha, isso pode realmente acontecer, eu espero que sua história seja verdade, dessa vez vou confiar em você so que se eu descobrir que você aprontou mais, você vai se ver comigo, entendido?

– Entendido...

Meu pai era mais calmo e sabia ouvir mais, acho que por ser jornalista isso o ajudava, minha mãe.... era outra história, ela subiu as escadas e veio em direção ao quarto e disse:

– Você não vai ficar vagabundiando nessa casa, não vai mesmo. Os proprietários antigos deixaram um monte de tralha no porão, quero que limpe e jogue tudo fora.

Eu... pensei que eu ia apanhar, acho que crescer me livrou disso. Minha mãe me deixou terminar o café da manhã antes de me mandar arrumar o porão, eu consegui comer melhor sem esse peso nas costas. Após terminar de comer, fui direto para o porão, eu não tive medo de entrar nele, se tiver algo lá em baixo com certeza vai ser menos pior do que desobedecer minha mãe. Ao descer o porão, eu conseguia sentir a poeira impregnando meu nariz, meu Deus quanto tempo alguém não limpa aqui, antes que eu pudesse começar a pensar como limpar aquela bagunçada, eu ouço um riso descendo as escadas.

– Mamãe me disse que você ta de castigoo — disse Alex, meu irmão mais novo em um tom sarcástico.

– Que cê quer? — eu respondi — espero que não esteja aqui para me atrapalhar.

– Irmão bobinho, limpa tudinho viu — ele dizia isso com um sorriso no rosto.

– MÃEE, o Alex ta me atazanando no porão — eu gritei

– Alex, suba logo. Você vai se atrasar para a escola — gritava minha mãe da cozinha da casa.

– Quando eu voltar, quero isso brilhando tá? — disse ele enquanto subia as escadas com sua cara lavada.

Ai que ódio bicho, tentei manter a calma, se não começaria a arrumar tudo com raiva e ficaria mais cansativo. Eu não queria limpar tudo de uma vez, havia algumas caixas, então comecei a xeretar algumas coisas dentro delas, em uma das primeiras caixas encontrei vários álbuns de fotos, em todas as fotos sempre haviam um senhor e uma senhora com uma cara de 60 a 75 anos, pelo visto devem ser os antigos moradores, por que deixaram isso aqui? Será que morreram e ninguém veio buscar? No fundo de uma dessas caixas havia um bilhete com um pedaço queimado nela havia uma flor morta colada, no bilhete dizia:

“ Eu amo tudo que você faz, mesmo quando você erra, mesmo quando você....”

É uma carta de amor normal, que jeito esquisito de se escrever um bilhete de amor, bem não posso tirar conclusões precipitadas, afinal, a carta estava queimada praticamente inteira. Guardei as fotos e o bilhete e deixei no canto, talvez eu devesse guardar por um tempo, vai que algum parente ou eles voltam e queiram de volta essas imagens.

Fiquei xeretando mais coisas em algumas caixas, vai que tenha algo de útil. Achei algumas roupas lotadas de pó, álbuns de música em disco de vinil, uma fita cassete, acho que meu pai possui um gravador de entrevistas por causa de seu trabalho, eu a peguei a fita, coloquei-a de lado e continuei a limpeza. E MEU DEUS eu pensei que seria rápido, fiquei tanto, mais tanto tempo lá em baixo que deu tempo do horário do almoço.

– Alysson, vem almoçar — dizia minha mãe parada em uma das escadas.

– Estou indo! — eu respondi em um tom alto

Eu logo peguei a fita, porem minha mãe nunca deixaria eu escuta-la durante o castigo, decidi atiçar um pouco a curiosidade do meu pai. Após o almoço, minha mãe voltou a escrever seu livro de fadinhas, eu subi ao escritório do meu pai, ele estava digitando sem parar no computador, com uma enorme pilha de papeis em cima de sua mesa.

– Pai, olha que massa o que eu achei. — eu disse enquanto esticava meu braço segurando a fita cassete. — Você ainda tem aquele gravador de entrevistas? Talvez dê para ouvi-la dentro dele.

– Filho, agora não posso, estou ocupado trabalhando na minha próxima matéria.

– Vai pai, por favor, vê o que tem dentro dela.

– Filho, é só você pegar e usar, ela está na última gaveta.

– Mamãe me mata se me ver ouvindo a fita ao invés de estar lá em baixo. Qualquer coisa você poderia dar uma desculpa que estava me mostrando algo ou sei lá....

Meu pai, olhou para fita e cedeu, ele agarrou a fita e pegou o tocador de fitas. Será que os antigos moradores gravaram suas experiências nessa casa? Fui a frente do tocador, meu pai botou ela e clicou em PLAY e esperamos ela tocar. No começo ouvimos um chiado e de repente uma voz esquisita começou a falar algo, estava tão abafado que não dava para ouvir nada. Meu pai disse:

– Provavelmente, a fita está danificada.

– Que droga!

Meu pai removeu a fita e disse:

– Eu vou ficar com ela por enquanto, quem sabe eu levo em uma loja para consertar ela.

– Sério? Isso seria muito legal!

– Pode ser, mas depende de alguém!

Eu sabia que era uma indireta para mim, ele provavelmente não queria que eu me metesse em mais nenhuma enrascada, eu sei que meu pai independente de tudo, consertaria aquela fita sem precisar do meu comportamento bom. Eu deixei a fita com ele e fui terminar de arrumar o porão, lá não havia mais nada de interessante, passei o resto da tarde retirando sujeira e tralhas enferrujadas. Fiquei me perguntando o que os pais de Thomas devem ter feito com ele, será que os pais dele pegaram pesado? Depois de um tempo, deixei esse pensamento de lado, terminei de arrumar e limpar tudo, e aquele lugar parecia completamente diferente do de manhã. Finalmente depois disso tudo pude descansar, cara nunca pensei que ficaria tão cansado depois da janta, fui direto escovar meus dentes e fui pra cama. Amanhã voltarei para a escola e espero que nada pior aconteça.