Cidade dos Anjos
2 -Pra você também.
Notas iniciais
–Rebecca? –Ele pisou em uma poça. Um pé de cada vez. Houve um silêncio fúnebre.
Eu fiquei parada ali. De costas pra ele. Meus cabelos molhados grudavam no rosto, o vento soprava frio e as últimas gotas da tempestade caiam.
A tempestade era em mim.
–Rebecca... –Ele repetiu. –Você me ama?
Por um momento eu queria dizer tudo, tudo aquilo que guardava em mim durante aqueles meses, destruí-lo com palavras, podia dizer qualquer coisa, qualquer coisa que pudesse demonstrar o que sentia.
A jaqueta aquecia meu corpo frio, quase morto. Nada podia descrever aquela sensação. Não tinha palavras capazes de significar aquela confusão.
Apenas coloquei meu capuz e balbuciei antes de sair andando:
–Eu amo flores.
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● ● ●
Abri os olhos lentamente, pisquei duas ou três vezes. As cortinas transparentes deixavam o sol passar, iluminando o quarto e aquecendo suavemente as minhas costas com os raios da manhã. Me espreguicei nos cobertores brancos, o relógio sobre a cômoda marcava 7:23 AM.
Virei-me de barriga pra cima, e o barulho do lençol me fez lembrar que não era o meu quarto, e que estava desprovida de qualquer vestimenta em uma cama estranha.
Encarei o teto por alguns instantes, até que me virei e pude ver Roxane dormindo no lado esquerdo.
Merda.
Levantei e procurei minhas roupas. Vesti a calça jeans desbotada e a blusa branca com os escritos “Not a Monday Person” que foi coberta com a jaqueta de couro.
Calçando as botas, percebi um agito de Roxy, tinha que ser rápida ou ela acordaria.
Amarrei o cadarço e saí pela porta silenciosamente. Alívio.
Me encostei na parede tentando lembrar daquela madrugada. Um borrão. Não tinha ideia do que acontecera depois daquele beijo e a dor de cabeça não ajudava. Desço as escadas quase me atirando de um degrau ao outro e depois de três lances de escada, chego ao térreo e deixo o prédio.
Mãos nos bolsos. Andar apressado. Atravessei a rua e segui a calçada, mas a questão é que não sei onde estou e ando sem rumo. Ou pelo menos andava.
Que fome.
Senti um cheiro de pão fresco, quentinho, mas ainda assim, algo doce. Uma torta? Avaliei que o cheiro vinha de uma confeitaria próxima, paro e procuro no bolso da calça uns trocados. Uma nota de vinte. Não era minha e não sei como foi parar lá, mas me garantia um café da manhã.
Entrei na confeitaria, não estava muito cheia então pude escolher onde sentar. Uma mesa de dois lugares encostada na janela, apenas perfeito.
O celular começa a vibrar no meu bolso, pego apressada e posso ler “Roxy”. Deixo cair na caixa de mensagens.
–Bom dia, já sabe o que vai pedir? –Uma garçonete de sorriso doce se aproximou.
–Um capuchino e, hum... Esse cheiro, é de que? –Perguntei.
–Crumble de maçã. –Respondeu anotando o pedido.
–Chique! –Me empolguei. –Caro... – Desanimei.
–Não, é o preço de uma fatia de bolo, mas bem mais gostoso. Vai querer? –A garçonete encorajou.
–Nesse caso, sim.
A garçonete foi embora e Roxy me liga de novo.
Não queria ignorá-la, ela é minha amiga, ou era, não sabia o que dizer. Então novamente, para a caixa de mensagens.
O cheiro de maçã caramelizada se aproxima e a garçonete coloca o crumble na minha mesa. Vinha até com sorvete.
–Bom apetite. –Disse a garçonete.
–Pra você também. –Respondi. E era melhor não ter respondido.
Morri de vergonha até que ela foi embora, rindo.
–AI! — Faminta e sem pensar, eu peguei na vasilha que estava muito quente. –Droga...
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Terminando de comer, pedi a conta, e lá se foi meu dinheiro. Indo embora, lembrei que não sabia como chegar em casa, então fui até o balcão.
–Huh, desculpa perguntar, mas que rua é essa? –Perguntei timidamente.
Depois de me orientar com a garçonete, saí da loja e andei até meu apartamento, não ficava muito longe, mas eu me sentia um lixo e só queria desaparecer.
Subi pelo elevador, exausta, e ao abrir a porta, tirei as botas e as joguei pelo apartamento, acidentalmente acertando o Cachorro, meu gato.
–AHHHH! CACHORRO, ME DESCULPA, CÊ SABE QUE EU TE AMO, NÉ CARA? –Disse abraçando (lê-se esmagando) o gato. –Você deve estar com fome, né? Vem, vou colocar sua comida.
Fui até a cozinha enquanto o Cachorro se lambia.
Sim, meu gato se chama Cachorro porque eu gosto de ver a confusão das pessoas quando falo dele.
Coloquei ração no pote e troquei a água. Depois disso fui para o meu quarto desejando uma longa e merecida ducha de água quente.
Tirei a roupa e joguei no chão, ao lado da cama. Fui até o banheiro.
–Eita. –Quando me olhei no espelho, encontrei alguns muitos hematomas. –Sempre soube que a Roxy era agressiva com as palavras, mas essa é nova.
Depois do banho, notei mais uma ligação, dessa vez de Alex. Pensei em retornar, mas realmente, não estava afim.
9:18 AM.
Vesti shorts velhos e um blusão azul claro florido, o clima agradável de um friozinho contrastando minha pele depois do banho quente fez com que me atirasse na cama.
–Boa noite-dia, Cachorro.
Fechei os olhos e o sono pesado tomou conta.
Só conseguia pensar em Roxy, ela me fudeu, literalmente.
O que fazer agora que não sei se sou lésbica/bi/alguma-coisa sexual? Essas coisas podem mudar depois de uma noite bêbada? Não estou preparada para um relacionamento, nem com Roxy, nem com ninguém. Preciso me organizar, principalmente depois daquela noite, foi tudo muito inesperado, mal sei o que eu fiz.
● ● ●
Acordei com alguém batendo na porta.
–Quem é? –Resmunguei embriagada de sono.
A pessoa bateu na porta com mais agressividade.
–QUEM É, CACETE? –Perguntei delicadamente.
–MEU PAU DE ÓCULOS, LEVANTA E ABRE ESSA PORTA, REBECCA. –Reconheci a voz de Alex.
Me levantei da cama e fui até a sala de estar, abrindo a porta vi Alex com as mesmas roupas da noite anterior.
–Oi Becca, oi Cachorro. –Ele invadiu meu apartamento.
–Hã, claro, pode entrar, fique à vontade. –Ironizei. –A que devo o desprazer da visita?
–Queria saber como foi a festa ontem. –Alex se jogou no meu sofá.
–Bebida, música, nada além do comum. –Disse voltando para o meu quarto em direção à pilha de roupas. –E você?
–Conheci uma morena fantástica.
–Não preciso de detalhes. Vocês foderam, blá blá blá, algo mais?
Encontrei minha jaqueta e tirei a caixa de cigarros do bolso, três haviam desaparecido, não era novidade, peguei um e ofereci outro ao Alex.
–Não, obrigado. –Ele recusou. –Nada muito importante sobre a festa também, apenas a morena.
–Sequer sabe o nome dela? –Atravessei a sala até a cozinha.
–Natália, Natasha, “Na” alguma coisa. –Ele dizia sem sequer esforçar a memória.
Abri a segunda gaveta perto da pia e peguei um isqueiro. Acendi o cigarro.
–Típico. –Retruquei. –Quais suas pretensões vindo aqui? Bater papo que não é.
–Sábia você é. –Disse a imitação pobre de Yoda. –Vim te convidar para almoçar.
–Bah, não tô muito afim. –Voltei para a sala onde ele estava e me encostei na parede. -Planejava usar das minhas habilidades de Master Chef e cozinhar uma água quente. –Ri.
–Pode usar das suas habilidades de outra forma e pedir sanduíche. –Alex me fez um olhar de “por que não?”
–Ok, mas você paga. –Desafiei.
–Não esperava outra resposta mesmo. –Ele riu pegando o telefone e discando o número.
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