Cidade dos Anjos
3 Pode ser, mas não tem Pepsi mesmo?
Notas iniciais
* Pock *
–Para. –Alex choramingou.
* Pock *
–Para...
* Pock *
–PARAAAA!
* Pock, pock *
–CARALHO, REBECCA. –Alex se levantou do sofá.
–AI, PORRA! –Acontece que eu estava deitada com a cabeça no colo dele.
* Pock, pock, pock, pock... *
A bola pula-pula que eu jogava no teto freneticamente irritando Alex, caiu e seguiu quicando até a cozinha.
–Vai lá buscar, você que derrubou! –Fiz biquinho enquanto apontava para a direção que a bolinha fora.
–É melhor você sem esse troço barulhento. –Ele murmurou, se jogando na poltrona azul ao lado do sofá. –Vem cá Cachorro...
–Humpf. –Bufei. –Há quanto tempo já estamos esperando esses sanduíches, mesmo?
–Sua ideia pedir desse restaurante. –Reclamou pegando o gato em seus braços. –Por que não cancela o pedido e vamos lá buscar?
–40 minutos? Obrigada por responder o que eu PERGUNTEI. –Disse olhando o relógio. –Cara, eu—
–MWEEEEEWN! –Cachorro reclamou.
–Solta o Cachorro, ele odeia quando você amassa a cara dele!
–Desculpa! –Alex o atirou no chão. –Gato fresco... –Sussurou.
–Ah, continuando. Eu gosto pra caralho desse sanduíche, beleza?
–O restaurante fica a um quarteirão daqui, e eu tenho fome, beleza? Engole o orgulho porque eu quero engolir meu X-presunto. Bora, bora.
Alex puxou meu braço me obrigando — SIM, OBRIGANDO – a me sentar, e delicadamente ATIROU o sapato que estava perto da porta na minha cara.
–PORRA! Faz o favor e taca o outro também? –Choraminguei.
–Levanta e pega. –Riu da minha preguiça de domingo enquanto saia do apartamento.
Revirei os olhos e calcei o pé direito.
–O esquerdo ta aqui, vamos logo, tô com fome. –Alex zombou.
Lancei um olhar de “vou comer seu cu no seco se continuar” e peguei o pé esquerdo, o calçando.
● ● ●
Andei, andei, andei. Andei que cansei, cansei, cansei. Cansei que—AH, FODA-SE.
Finalmente chegamos na sanduicheria. Aquele cheiro de hambúrguer na chapa inigualável e o som das pessoas conversando tomava conta do lugar, e eu escolhi a mesa por motivos de sim.
–Garçom! –Alex fez aquele sinal com a mão (parece que faz parte do material genético masculino, esses códigos cliente-garçom que só eles sabem fazer e nascem programados) e o garçom apareceu.
Fiquei brincando com o garfo enquanto ele explicava do pedido nunca entregue.
–Já vou resolver o problema. Vão querer algo pra beber.
–Pepsi.
–PEPSI?!? –Disse indignada.
–Só tem Coca, pode ser? –O garçom perguntou.
–PLOT TWIST. EM QUE DIMENSÃO ESTAMOS??? –Bati as mãos na mesa em espanto e isso atraiu alguns olhares.
–Pode ser.
–Vou querer água, chega de álcool pra mim. –Não acreditei no que acabara de acontecer.
O garçom, meio confuso, anotou os pedidos e foi embora.
–...
–COMO ASSIM PEPSI? –Indaguei.
–Eu gosto, ué. –Respondeu Alex, um pouco assustado.
–Bebe essa Coca e não falamos mais nisso, Alexandre.
–Meu Deus... –Alex riu. –Não olha agora.
–Não olha o quê? –E me virei para trás.
–Não olha!
–Meeeeerda. –Escorreguei na cadeira, me encolhendo no assento. –Merda, merda, merdaaa.
–Eu avisei pra não olhar.
Alex ria enquanto meu sangue gelou.
–Oi Becca, Alex. Vocês por aqui?
Meu cu piscou, eu senti.
Me arrumei na cadeira, e sorri forçadamente.
–AH HA HA, OI ROXY. –Eu tava nervosa. Eu tava morrendo. –TUDO BEM?
Os dois riram.
–De boa? –Alex cumprimentou.
MAAAAAAAAAAAAAAAAAANO, que situação.
–Rebecca, eu tentei te ligar. –É agora, eu tô sentindo... –Você esqueceu suas meias na minha casa.
Ué.
Cadê o esporro? O choro? Explosões? Mulheres peladas?
–Meias? –Disse desconcertada.
–Vai pegar aquilo de volta ou eu queimo antes que dê cria?
É, essa é a Roxy que eu conheço.
–Guarda de lembrança. –Eu não tinha caído em mim ainda, então falei besteira.
–Huh? –Ela fez cara de desentendida. Alex ria da situação toda. –Enfim... Eu vou indo, tenho que encontrar com alguém, até mais.
–“Guarda de lembrança.” –Alex disse assim que Roxy se distanciou. –Que ousadia.
–Ela fingiu que não sabia... –Disse chocada.
–Talvez tenha sido apenas um lance de uma noite só. Você que exagera as coisas.
–Mas ela disse que me ama! –A ficha ainda não caiu.
–Vocês estavam bêbadas. –Ele riu, eu cruzei os braços.
Ok, vamos lá, a gente transou nesta madrugada e ela finge que não aconteceu?
Hã?
Eu sou um nada assim? Sério, apenas um lance de uma noite? Ela disse “eu te amo”, foi sério? O que aconteceu?
Tenho que repensar minhas escolhas.
Mas talvez seja até melhor assim, fingir que nada aconteceu e só ignorar. Só... ignorar...
● ● ●
Os sanduíches chegaram e apreciamos as delícias do porco dentro de um pão.
–Obrigada pelo almoço, au revoir, Alex. –Acenei.
–Tchau, Rebecca. –Ele riu e foi andando.
Me levantei da mesinha bem-arrumada, com toalha xadrez branca e vermelha que ficava fora do restaurante.
Andando até em casa, ao atravessar a rua fui atingida.
Não literalmente, mas a tristeza chegou matando.
Hello darkness, my old friend.
A tarde estava bonita, então decidi caminhar no parque. Podia buscar o Cachorro, mas não que ele fosse gostar da ideia.
O verde depois do portal de ferro era quase magnética, aquela alegria que irradiava, crianças sorrindo e brincando. Eca :)
Antes de entrar, passei no sebo ali em frente e comprei um livro qualquer. Peguei meu romance clássico água-com-açúcar de 12 reais e me sentei no banco do parque. Deixei o livro do meu lado e coloquei as mãos no bolso do blusão.
–Humpf. –Bufei.
Por que não consigo fingir estar bem? Só colocar um sorriso no rosto e me camuflar na paisagem, ninguém notaria. Por que não é fácil?
Respirei fundo e apenas observei a paisagem por alguns instantes.
O tempo foi passando e eu me entretia com o livro surpreendentemente bom.
{imagem}
–Queria uma vida fácil assim. –Murmurei.
–Contos de fada são maravilhosos, não? -A loira me encarava com seus olhos cheios de rímel.
–Olá, Anna. –Disse de forma indiferente voltando meus olhos às páginas.
–Tente ser legal, Rebecca. –Ela se sentou do meu lado.
NÃÃÃÃÃÃÃO. QUEM AUTORIZOU ISSO? ESSE QUASE CONTATO FÍSICO??
–Gosta de romance? –Perguntou.
–Meh, não odeio. –Dei de ombros.
–Preparada para o jantar de família?
–O que você tem com isso, garota? –Abaixei o livro e me virei à tingida.
–Nada, só achei que você tivesse se esquecido, afinal reclamou disso a semana toda. –Ela fingiu inocência, como se não soubesse que eu queria evitar aquilo.
–Não esqueci não! –Esqueci sim.
–Já são quase cinco horas e você lendo no parque?
–Não preciso de muito tempo pra me arrumar. –Preciso sim.
–Como achar melhor. –Ela desviou o olhar.
Cretina. Me lembrou daquele ultraje. Tinha que correr pra me arrumar, meus pais moram longe e não posso perder o metrô.
–Ah, vou indo, tenho que alimentar Cachorro. –Fingi naturalidade ao levantar na pressa.
–“Alimentar cachorro?” –Pra quem não sabe do gato, parece que eu falo errado.
–Loira burra. –Murmurei.
–O quê? Crie desculpas melhores pro seu atraso. Melhor correr, “Becca.” –Ela ria enquanto eu andava rápido para longe dela, ou melhor, daquilo.
● ● ●
Me perdi, mas consegui chegar em casa. Agora corria contra o tempo para que pudesse me arrumar.
17:13, VAI!
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