Cicatrizes que Falam

6 Quando o Mundo Desaba


O ataque aconteceu antes do amanhecer.

O mercenário sentiu-o primeiro não como som, mas como ausência. O vento cessara, os insectos silenciaram-se, e aquele vazio antigo, que aprendera a reconhecer nos campos de batalha, instalou-se-lhe nos ossos.

Abriu os olhos de imediato.

Elira dormia a poucos passos, encolhida junto às rochas, o rosto finalmente sereno. Ele levantou-se sem fazer ruído, a mão já no punho da espada.

Foi então que ouviu o estalo. Demasiado perto.

— Elira — murmurou.

A resposta não veio em palavras, mas num grito abafado.

Ele virou-se a tempo de ver três homens surgirem das sombras, rápidos, coordenados. Um deles segurava Elira pelos cabelos, a lâmina pressionada contra o seu pescoço. Ela debatia-se, mas estava enfraquecida devido à perna, ao cansaço, à surpresa.

— Dá mais um passo e ela morre — disse uma voz conhecida.

Rethar avançou para a luz fraca da madrugada, um sorriso torto no rosto marcado.

— Finalmente — acrescentou. — O cão de guerra e a rapariga.

O mercenário sentiu algo rasgar-lhe o peito. Não medo. Raiva fria.

— Solta-a — disse, a voz baixa e mortal.

Rethar riu-se.

— Já vi este olhar antes. Homens que pensam que ainda podem salvar alguém.

Elira tentou falar, mas a lâmina pressionou mais a sua pele.

— Não — disse ela, com dificuldade. — Não faças nada.

O mercenário hesitou. Apenas um segundo. Um segundo a mais. Rethar fez um gesto rápido. O golpe veio por trás. O mundo explodiu em dor.

O mercenário caiu de joelhos, o ar fugindo-lhe dos pulmões. Quando tentou erguer-se, sentiu o peso de botas sobre as costas.

— Amarra-o — ordenou Rethar. — Quero que veja.

— Não! — gritou Elira. — Deixem-no!

Rethar aproximou-se dela, segurando-lhe o queixo com força.

— Tu vens connosco. Ele… — olhou para o mercenário — se sobreviver, que sirva de aviso.

Os olhos do mercenário encontraram os de Elira. Havia pânico nela. Culpa. Medo. Algo mais profundo.

— Elira — disse ele, rouco. — Olha para mim.

Ela obedeceu, lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto.

— Vais sobreviver — disse ele. — Ouviste?

— Não me deixes — sussurrou ela.

Rethar empurrou-a.

— Leva-a.

Os homens começaram a arrastá-la. Elira debateu-se, gritou, chamou por ele.

O mercenário tentou levantar-se, mas o mundo girou. Sangue quente escorria-lhe pela lateral do corpo. Caiu outra vez.

A última coisa que viu foi Elira a ser levada, o olhar fixo nele, como se aquele fosse o último fio que a prendia ao mundo.

Depois, escuridão.

Elira acordou com o cheiro a fumo e ferro.

Estava amarrada a um poste dentro de uma tenda improvisada. A perna doía-lhe de forma lancinante. O corpo tremia, não apenas de frio.

Rethar sentou-se à sua frente, tranquilo demais.

— Sabes porque te trouxemos? — disse.

Ela não respondeu.

— Não é por vingança. — continuou. — É para te quebrar.

A mão dele fechou-se-lhe no queixo.

— As pessoas como tu sobrevivem porque acreditam em algo. Em alguém.

Ela cuspiu-lhe na cara. Ele riu-se.

— Vamos tratar disso.

Os dias seguintes foram um borrão de dor e resistência. Interrogatórios. Ameaças. Silêncios prolongados. Tentativas de fazê-la falar, de fazê-la ceder.

Ela não cedeu.

Pensava nele. No mercenário. Na promessa do mar. No calor do casaco sobre os ombros. Agarrava-se a isso como quem se agarra a uma tábua no meio do naufrágio.

— Ele não vem — disse-lhe Rethar numa noite. — Homens como ele fogem quando perdem.

Elira ergueu o olhar, os olhos fundos mas firmes.

— Não sabes nada sobre ele.

Rethar inclinou-se.

— Sei que todos falham.

Ela sorriu, fraca, mas verdadeira.

— Então prepara-te para aprender.

O mercenário acordou sozinho, deitado entre árvores, o corpo envolto em dor. A ferida tinha sido mal tratada, mas não fatal. Os bandidos queriam que sobrevivesse.

Ergueu-se com dificuldade, apoiando-se na espada.

O mundo parecia mais vazio sem ela.

Cada passo era um esforço. Cada respiração, uma lembrança de que falhara.

Mas não parou.

Seguiu rastos, ignorou a dor, ignorou o sangue. Não dormiu. Não descansou.

A raiva sustentava-o. Mas não era apenas raiva. Era algo mais perigoso. Era amor.

Quando finalmente avistou o acampamento inimigo ao longe, o sol já se punha. O mercenário parou por um instante, observando as fogueiras, os homens armados, as sentinelas.

Pensou nela. Amarrada. Sozinha. A resistir.

— Aguenta — murmurou para o vento. — Estou a chegar.

Ajustou o punho da espada. Desta vez, não era uma missão. Não era vingança. Era uma promessa.

E ele cumpria sempre as promessas que importavam.