Cicatrizes que Falam
7 O Que Nunca Se Quebra
A noite caiu pesada sobre o acampamento de Rethar, carregada de fumo, vozes embriagadas e uma falsa sensação de segurança. As fogueiras ardiam altas, lançando sombras distorcidas nas tendas e nos rostos dos homens que riam, convencidos de que o perigo ficara para trás.
Não sabiam que a morte caminhava entre eles.
O mercenário moveu-se como um espectro, usando a escuridão como aliada. Cada passo era calculado, cada respiração contida. A dor no flanco ardia, mas já não lhe importava. Aquela ferida era apenas mais uma, não se comparava ao vazio que sentira ao acordar sem Elira.
Avançou primeiro pelas sentinelas exteriores. Um golpe rápido, silencioso. Depois outro. Corpos tombaram sem alarme, engolidos pela noite. Não havia hesitação. Não havia piedade. Não desta vez.
No centro do acampamento, ouviu um grito abafado. O coração acelerou-lhe.
Elira.
A tenda maior estava guardada por dois homens. O mercenário não parou. Atirou-se a eles com uma fúria contida, letal. Quando entrou na tenda, encontrou-a ajoelhada, as mãos atadas, o rosto marcado, mas os olhos ainda vivos, ainda ferozes.
— Elira.
Ela ergueu a cabeça de súbito. Por um instante, pensou que era imaginação. Depois viu-o. Ensanguentado. Real.
— Sabia… — a voz dela tremeu. — Sabia que vinhas.
Ele cortou as amarras num só movimento e ajoelhou-se à frente dela, segurando-lhe o rosto com cuidado quase reverente.
— Desculpa — disse, num tom quebrado. — Não devia ter-te deixado.
Ela abanou a cabeça, lágrimas a cair-lhe sem controlo, e atirou-se contra ele, abraçando-o com força. O corpo dela tremia, e ele envolveu-a com os braços como se pudesse protegê-la do mundo inteiro.
— Pensei que tinha acabado — soluçou ela. — Tentaram… tentaram quebrar-me.
Ele fechou os olhos, apertando-a mais.
— Não conseguiram.
Ela afastou-se apenas o suficiente para o olhar.
— E a ti? Estás ferido.
— Ainda estou de pé.
Um rugido de fúria ecoou à entrada da tenda.
— Que cena comovente.
Rethar surgiu, espada em punho, o sorriso cruel intacto.
— Devia saber que vinhas. Homens como tu não sabem desistir.
O mercenário colocou-se imediatamente à frente de Elira.
— Isto acaba aqui.
Rethar riu-se.
— Sempre acaba. A diferença é quem fica de pé.
O combate foi brutal.
Lâmina contra lâmina, força contra experiência. Rethar era rápido, cruel, e lutava com a arrogância de quem nunca perdera. O mercenário sentia o corpo a falhar, a ferida a abrir-se, mas mantinha-se firme.
Elira observava, o coração na garganta, cada golpe um terror.
— Luta como um homem que já morreu — provocou Rethar.
— Já morri? — respondeu o mercenário. — Só ainda não tinha percebido.
Com um último esforço, desviou o ataque de Rethar e cravou-lhe a espada no peito. O líder dos bandidos caiu de joelhos, o sorriso finalmente tinha desaparecido.
— Não ganhaste nada — cuspiu Rethar, antes de tombar sem vida.
O silêncio caiu pesado. O mercenário deixou cair a espada. As pernas falharam-lhe.
— Não! — gritou Elira, correndo para ele a tempo de o segurar antes que caísse.
Ele caiu de joelhos, depois ao chão, respirando com dificuldade.
— Ei… olha para mim — disse ela, em pânico, pressionando a ferida com as mãos. — Fica comigo. Por favor.
Ele ergueu a mão com esforço, tocando-lhe o rosto.
— Estás segura.
— Não fales assim — soluçou ela. — Não depois de tudo.
Ele sorriu, fraco.
— Prometi levar-te ao mar.
— Então levanta-te — implorou. — Ainda não acabámos.
Ele fechou os olhos por um instante, respirou fundo… e abriu-os novamente.
— Ainda não.
Com a ajuda dela, conseguiu levantar-se. Saíram do acampamento antes que os restantes homens reagissem. A floresta engoliu-os, como cúmplice.
Só quando o perigo ficou distante é que Elira parou, exausta. O mercenário apoiou-se numa árvore, o rosto pálido.
— Vais ficar bem — disse ela, mais para si do que para ele.
— Também acho.
Ela aproximou-se, abraçando-o de novo, desta vez com cuidado.
— Obrigada — murmurou. — Por voltares. Por não desistires de mim.
Ele apoiou a testa na dela.
— Nunca.
Ela fechou os olhos, respirando o cheiro dele, sentindo o coração dele bater contra o seu.
— Fica comigo — disse ela. — Não apenas hoje. Depois.
Ele hesitou. Depois respondeu com uma honestidade nua:
— Se ficar… vai doer.
— Já dói — respondeu ela. — Mas vale a pena.
Ele assentiu lentamente.
— Então ficarei.
Ali, no meio da floresta, feridos mas vivos, abraçaram-se como quem sobreviveu ao fim do mundo.
Não sabiam o que o amanhã traria. Não tinham promessas fáceis, nem finais seguros.
Mas tinham escolhido. E, às vezes, isso era tudo o que era preciso para continuar a caminhar.
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