Cicatrizes que Falam
8 O Caminho que Escolheram
A fuga prolongou-se até ao amanhecer.
Caminharam sem rumo definido, apenas para longe do que ficara para trás. A floresta abriu-se lentamente em colinas baixas, e o céu começou a clarear num tom pálido, quase indeciso. Quando o mercenário finalmente parou, já o corpo lhe tremia de exaustão.
Elira foi a primeira a perceber que ele não aguentaria muito mais.
— Chega — disse, segurando-o pelo braço. — Se deres mais um passo, cais.
Ele tentou contrariá-la, mas as pernas falharam-lhe. Acabou por se sentar no chão húmido, respirando com dificuldade.
— Desculpa — murmurou.
Ela abanou a cabeça, ajoelhando-se à sua frente.
— Não peças desculpa por estares vivo.
Rasgou mais um pedaço de tecido e voltou a tratar-lhe a ferida. O sangue ainda escorria lentamente, mas já não era o vermelho vivo de antes. Ele observava-a em silêncio, cada gesto dela carregado de uma concentração cuidadosa, quase íntima.
— Quando me levaram — disse ela de repente, sem levantar os olhos — pensei que nunca mais te veria.
Ele engoliu em seco.
— Pensei o mesmo — respondeu. — E isso… destruiu-me.
Ela parou por um instante, surpresa com a confissão.
— Nunca te ouvi falar assim.
— Porque nunca tive ninguém para quem valesse a pena dizer.
Os olhos dela encheram-se de lágrimas, mas desta vez não eram de dor.
— Eu tive medo — confessou ela. — Não de morrer. Mas de acreditar que alguém viria por mim… e estar errada.
Ele pousou a mão sobre a dela.
— Não estavas.
Ficaram assim durante um momento longo, como se o mundo tivesse decidido conceder-lhes uma trégua. O vento soprava suave, trazendo o cheiro distante de terra molhada e ervas esmagadas.
Quando o sol finalmente surgiu no horizonte, Elira ajudou-o a levantar-se novamente.
— Há uma estrada a sul — disse ela. — Costumava ser usada por comerciantes. Podemos seguir por ali.
— Para onde? — perguntou ele.
Ela hesitou.
— Para longe de tudo o que nos quis quebrar.
Ele assentiu.
— Parece-me um bom destino.
Caminharam devagar, adaptando o passo ao estado dele. Elira mantinha-se atenta, oferecendo apoio sempre que necessário. Pela primeira vez, não sentia que estava a carregar o mundo sozinha.
Ao meio do dia, encontraram um riacho. Elira insistiu para que ele descansasse. Sentaram-se à sombra de uma árvore antiga, as raízes grossas a emergirem da terra como cicatrizes expostas.
— Nunca pensei que sobreviveria a isto — disse ela, olhando para a água.
— Nem eu — respondeu ele. — Sobrevivi a batalhas piores… mas esta quase me venceu.
Ela virou-se para ele.
— Porque não fugiste? Tinhas essa opção.
Ele olhou para as mãos, marcadas, trémulas.
— Porque, quando te levaram, percebi algo que sempre evitei: que viver sem sentir não é viver. É apenas prolongar a morte.
Elira aproximou-se, sentando-se mais perto.
— E agora?
— Agora tenho medo — admitiu ele. — Medo de te perder. Medo de falhar outra vez.
Ela respirou fundo.
— Eu também tenho medo. Mas não quero voltar a caminhar sozinha.
Ele ergueu o olhar.
— Se ficares comigo, não posso prometer-te paz.
— Nunca procurei paz — respondeu ela. — Procurei verdade.
Ele sorriu, um sorriso raro, quase imperceptível.
— Então estamos alinhados.
A tarde avançou, e com ela veio um cansaço mais profundo, mas diferente. Não era o cansaço da fuga era o de quem finalmente permite ao corpo sentir tudo o que adiara.
Quando o mercenário adormeceu encostado à árvore, Elira ficou a observá-lo. Pensou no homem que conhecera dias antes: frio, distante, moldado pela violência. Pensou no homem que agora ali estava, quebrado, mas presente.
Sem pensar demasiado, pousou a mão sobre a dele.
— Obrigada — murmurou. — Por voltares inteiro… mesmo ferido.
Ele não acordou, mas os dedos moveram-se ligeiramente, como se tivesse ouvido.
Ao entardecer, retomaram a caminhada. A estrada de terra surgiu à frente deles, longa e vazia, perdendo-se no horizonte.
Elira parou.
— É aqui que as pessoas costumam escolher caminhos diferentes — disse, com uma pontada de receio. — Tu podias seguir sozinho. Recomeçar.
Ele ficou em silêncio por um instante. Depois deu um passo em direcção a ela.
— Passei a vida inteira a fugir de tudo o que me ligava a alguém. Não vou fazê-lo agora.
Ela sentiu o coração apertar.
— Então… vamos juntos?
Ele estendeu-lhe a mão.
— Juntos.
Ela aceitou.
Não foi um gesto grandioso. Não houve promessas eternas, nem palavras bonitas. Apenas duas mãos entrelaçadas e uma decisão silenciosa.
Enquanto caminhavam lado a lado pela estrada, Elira sentiu algo novo não a ausência de medo, mas a certeza de que, acontecesse o que acontecesse, não estaria sozinha.
E o mercenário, pela primeira vez desde que se lembrava, deixou de olhar apenas para o passado.
O futuro ainda era incerto, duro, talvez cruel.
Mas era um futuro partilhado. E isso fazia toda a diferença.
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