Cicatrizes que Falam

5 O Que Começa a Importar


A manhã nasceu enevoada, como se o mundo tivesse decidido esconder-se deles. A torre parecia ainda mais antiga sob a luz cinzenta, e o silêncio que a envolvia não era o da paz, mas o de algo à espera de acontecer.

Elira acordou primeiro.

Demorou alguns segundos a perceber onde estava. Depois sentiu o calor junto a si o mercenário permanecia encostado à parede, os olhos semicerrados, mas atentos. Não dormira verdadeiramente. Nunca dormia.

Ela endireitou-se devagar, tentando não o acordar. A perna protestou, mas menos do que no dia anterior. Observou-o em silêncio: as cicatrizes no rosto, o maxilar tenso mesmo em repouso, as mãos calejadas pousadas perto da espada. Um homem moldado para sobreviver, não para ser visto.

— Podes parar de me estudar — disse ele, sem abrir os olhos.

Elira sobressaltou-se, depois sorriu.

— Pensei que estivesses a dormir.

— Não quando alguém está a pensar alto ao meu lado.

Ela desviou o olhar, embaraçada.

— Desculpa.

Ele abriu os olhos e sentou-se.

— Estás melhor?

— Um pouco. Graças a ti.

— Graças ao descanso — corrigiu. — O corpo cura-se quando lhe dão tempo.

Ela riu-se baixinho.

— Falas como alguém que nunca se deu tempo nenhum.

Ele levantou-se, ignorando o comentário. Preparou-se para partirem, verificando as armas, observando o nevoeiro.

— Hoje chegamos à estrada principal — disse. — Se Rethar estiver por perto, será lá.

O nome caiu entre eles como uma sombra. Elira assentiu, sentindo o coração acelerar.

— Quero estar lá quando o encontrares.

— Não — respondeu ele de imediato.

— Não vou ficar escondida outra vez.

Ele virou-se bruscamente.

— Isto não é vingança, Elira. É sobrevivência.

— Para mim é as duas coisas.

Os olhos encontraram-se, firmes.

— Se me mandares embora — continuou ela — vou sozinha.

Ele suspirou, frustrado.

— És teimosa.

— Aprendi a ser.

Depois de um momento tenso, ele cedeu.

— Ficas atrás de mim. Sempre. E se eu disser corre, tu corres.

Ela assentiu, séria.

— Prometo.

Desceram da torre e avançaram pela floresta até alcançarem a estrada de terra batida. Marcas recentes denunciavam passagem de homens armados.

— São eles — murmurou ele.

Avançaram com cautela. Mais à frente, viram o que restava de uma caravana atacada. Um comerciante morto, outro ferido. Elira correu até uma mulher que chorava junto ao corpo do marido.

— Ele ainda respira — disse a mulher, em pânico.

Elira ajoelhou-se, rasgando um pedaço da própria túnica para estancar o sangue.

O mercenário observava o caminho, tenso.

— Temos de sair — disse. — Eles podem voltar.

— Só um minuto — respondeu ela. — Por favor.

Ele hesitou, depois assentiu, cobrindo-as. Quando terminaram, a mulher agarrou as mãos de Elira.

— Obrigada… obrigada.

Elira sentiu um nó na garganta. Aquela gratidão simples lembrava-lhe tudo o que perdera.

Enquanto se afastavam, ele falou:

— Isso foi arriscado.

— Se não o tivesse feito — respondeu ela — nunca me perdoaria.

Ele não discutiu. Apenas caminhou ao lado dela, mais próximo do que antes.

Ao fim da tarde, encontraram um abrigo natural entre rochas. O mercenário montou guarda enquanto Elira preparava algo para comer.

— Nunca te vi hesitar antes — disse ela, entregando-lhe um pedaço de pão. — Hoje hesitaste.

Ele olhou-a, sério.

— Porque agora há mais em jogo.

Ela sentou-se à sua frente.

— O quê?

Ele demorou. Depois falou, num tom baixo.

— Tu.

O coração dela bateu mais rápido.

— Isso assusta-te?

— Mais do que devia.

Ela sorriu, mas havia emoção nos olhos.

— Também me assusta. Mas… faz-me sentir viva.

O mercenário desviou o olhar, apertando o pão entre os dedos.

— Se te perder… — começou, mas não terminou.

Elira aproximou-se e pousou a mão sobre a dele. O toque foi leve, mas firme.

— Ainda estou aqui.

Ele fechou os olhos por um instante, aceitando o contacto.

— Não devia deixar isto acontecer — murmurou.

— O quê?

— Precisar de alguém.

Ela respondeu num sussurro:

— Todos precisamos de alguém. Mesmo os que aprenderam a viver sem isso.

A noite caiu silenciosa. Sentaram-se lado a lado, ombro com ombro. O vento soprava frio, mas nenhum deles se afastou.

— Quando tudo isto acabar — disse Elira — gostava de ver o mar.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Nunca viste?

— Nunca fui longe o suficiente.

Ele imaginou-a ali, livre, sem medo. A imagem apertou-lhe o peito.

— Se chegarmos lá — disse — eu levo-te.

Ela virou-se para ele, surpresa.

— Prometes?

Ele hesitou. Depois assentiu.

— Prometo tentar.

Ela sorriu, emocionada.

Nessa noite, quando Elira adormeceu, o mercenário manteve-se acordado, como sempre. Mas já não observava apenas o escuro à sua volta.

Observava o futuro algo que nunca se permitira fazer.

E percebeu, com uma clareza assustadora, que aquela mulher simples, ferida mas firme, já não era apenas alguém que protegia.

Era alguém por quem escolheria lutar. Mesmo que isso lhe custasse tudo.