Cicatrizes que Falam

3 Cicatrizes que Não se Veem


A estrada para leste estendia-se diante deles como uma ferida antiga, marcada pelas marcas de carroças, sangue seco e passos apressados de quem fugira sem olhar para trás. O mercenário caminhava com o passo firme de quem já percorrera caminhos semelhantes dezenas de vezes. Elira seguia-o agora mais próxima, não por confiança plena, mas porque a perna ainda lhe exigia cautela e porque, apesar de tudo, sentia-se mais segura à sombra silenciosa dele.

O sol subia lentamente, dissipando o frio da madrugada. O silêncio entre ambos não era incómodo, mas carregado. Havia coisas a crescer ali, invisíveis, ainda sem nome.

— Vais sempre à frente? — perguntou ela, quebrando a quietude.

— Alguém tem de ver o perigo antes que ele veja — respondeu, sem se virar.

— E se fores tu o perigo?

Ele parou. Virou-se devagar, avaliando-a com aquele olhar que já vira demasiadas verdades para se surpreender facilmente.

— Então é melhor que caminhes atrás de mim.

Ela sustentou o olhar, depois desviou-o, aceitando a resposta sem submissão. Havia força nela. Uma força diferente da dele, mas igualmente afiada.

Avançaram até encontrarem os restos de uma aldeia abandonada. Casas queimadas, portas arrancadas, o cheiro persistente de cinza e morte. Elira sentiu o estômago apertar-se. A perna falhou-lhe por um instante.

Ele reparou.

— Espera aqui — disse.

— Não — respondeu de imediato. — Já esperei o suficiente noutras ruínas.

Entraram juntos.

Cada passo era um golpe. Elira reconhecia aquele cenário como se fosse a sua própria aldeia repetida em ecos. O mercenário observava-a de lado, atento às mãos cerradas, à respiração contida.

— Foi assim? — perguntou ele, em voz baixa.

Ela assentiu.

— Pior.

Pararam diante de uma casa parcialmente intacta. Dentro, restos de móveis, um brinquedo de madeira partido ao meio. Elira ajoelhou-se, tocando-o com cuidado.

— O meu irmão tinha um igual.

A voz dela quebrou. Não em lágrimas, mas em algo mais profundo. Um cansaço antigo.

O mercenário sentiu um peso apertar-lhe o peito. Aquela sensação era-lhe familiar o reconhecimento de uma dor que não se podia apagar com vingança.

— Não devia ter sobrevivido — murmurou ela. — Às vezes penso que fui cobarde.

— Não foste — respondeu ele, firme. — Foste a única que ficou viva. Há diferença.

Ela ergueu-se, enfrentando-o.

— Tu falas como se soubesses.

Ele respirou fundo.

— Sei.

Houve um momento de hesitação. Depois, como se arrancasse algo de si mesmo à força, falou:

— Na última guerra em que lutei, recebemos ordens para segurar uma ponte. Civis tentavam atravessá-la para fugir. O inimigo vinha atrás.

Elira ouviu, imóvel.

— O capitão mandou fechar a passagem. Disse que o atraso custaria a batalha. Alguns soldados hesitaram. Eu não.

A voz dele manteve-se neutra, mas os olhos escureceram.

— Empurrei-os para trás. Homens, mulheres… crianças. A ponte foi destruída minutos depois.

O silêncio caiu pesado.

— Ganhámos a batalha — concluiu. — Mas perdemos tudo o resto.

Elira sentiu algo mudar dentro de si. Não compaixão simples. Não absolvição. Era mais complexo. Era compreensão.

— Porque continuas? — perguntou. — A lutar, a aceitar missões, a matar.

Ele demorou a responder.

— Porque enquanto avanço, não tenho de parar e pensar.

Ela aproximou-se um passo.

— E agora?

— Agora estou a pensar mais do que gostaria.

Os olhos encontraram-se. Não havia promessa ali. Apenas verdade nua. Um som distante cortou o momento. Cavalos. Vozes.

O mercenário reagiu de imediato, puxando Elira para trás de um muro caído.

— São batedores — sussurrou. — Do grupo dele.

O coração dela acelerou.

— Rethar, está com eles?

— Não. Mas seguem-lhe as ordens.

Os homens passaram perto demais. Um deles parou, farejando o ar.

— Há alguém aqui — disse.

O mercenário colocou-se à frente de Elira sem pensar. O gesto foi instintivo. Protetor.

Quando os bandidos finalmente seguiram caminho, Elira percebeu que estava a segurar-lhe o braço com força.

— Não devias — murmurou ela. — Pôr-te à frente assim.

— Não pensei.

Ela soltou-o devagar.

— É assim que as pessoas morrem por mim.

Ele olhou-a com intensidade.

— Não desta vez.

Continuaram a viagem até ao entardecer, encontrando abrigo numa antiga torre de vigia. Lá dentro, o vento uivava através das fendas de pedra.

Enquanto ele verificava os arredores, Elira preparava uma pequena refeição. Quando lhe estendeu um pedaço de pão, os dedos tocaram-se por um instante. Nenhum deles recuou.

— Porque me ajudas? — perguntou ela, quase num sussurro.

Ele pensou em mentir. Não o fez.

— Porque, quando te olho, vejo tudo o que deixei morrer.

Ela engoliu em seco.

— E isso não te assusta?

— Assusta — respondeu. — Mais do que qualquer lâmina.

Nessa noite, sentaram-se lado a lado, sem se tocarem, mas próximos o suficiente para sentirem o calor um do outro. Elira adormeceu primeiro, exausta.

O mercenário ficou acordado, de guarda, como sempre.

Mas dessa vez, quando a observou dormir, percebeu algo perigoso a crescer no silêncio do seu peito.

Não era dever. Não era missão. Era apego.

E ele sabia, melhor do que ninguém, que nada no mundo era mais mortal do que isso.