Cicatrizes que Falam
4 Quando a Guarda Cai
A chuva começou ao fim da tarde, fina no início, quase tímida, mas rapidamente se transformou num manto pesado que envolveu a torre abandonada. As pedras antigas absorviam a humidade, libertando um cheiro a musgo e ferro enferrujado. O mundo parecia encolher à volta deles.
O mercenário observava o exterior através de uma abertura estreita, atento a qualquer movimento. A chuva apagava rastos, mas também abafava sons tornava tudo mais perigoso. Elira mantinha-se sentada junto à parede oposta, a perna estendida, o pano já manchado de sangue seco.
— A ferida abriu — disse ela, sem dramatizar.
Ele virou-se de imediato.
— Mostra.
Ela obedeceu. Quando ele se ajoelhou à sua frente, Elira sentiu um aperto estranho no peito. Não era medo. Era a consciência súbita da proximidade, da vulnerabilidade partilhada.
— Tens de descansar — murmurou ele, enquanto reapertava a ligadura. — Estás a forçar demasiado.
— Se parar, penso — respondeu ela. — E pensar dói mais.
Ele não contradisse. Compreendia demasiado bem.
Quando terminou, levantou-se, mas Elira segurou-lhe o pulso. O gesto foi impulsivo. Ela própria pareceu surpreendida.
— Fica — disse, quase num pedido.
Ele hesitou. O toque dela queimava mais do que qualquer ferida antiga. Mas sentou-se ao lado dela, mantendo ainda alguma distância. O silêncio instalou-se, interrompido apenas pela chuva.
— Nunca te vi baixar a guarda — disse ela de repente. — Nem por um instante.
— É assim que se sobrevive.
— Ou é assim que se fica sozinho.
As palavras atingiram-no com mais força do que esperava.
— A solidão é mais segura — respondeu, mas a convicção vacilou.
Ela virou o rosto para ele.
— Eu pensava o mesmo… até perceber que sobreviver não é o mesmo que viver.
Ele fechou os olhos por um instante, como se aquela frase tivesse aberto algo que preferia manter fechado.
— Se me aproximares demasiado — disse ele, baixo — vou falhar.
— Em quê?
— Em proteger-te.
Ela sorriu de forma triste.
— Eu não preciso que me protejas de tudo. Só… não vás embora.
A confissão pairou no ar, frágil. O mercenário respirou fundo.
— Não prometo ficar — disse. — Mas prometo não te abandonar enquanto caminhares comigo.
Era o máximo que conseguia oferecer.
A noite caiu por completo. O frio infiltrava-se nos ossos. Ele tirou o casaco pesado e colocou-o sobre os ombros dela sem dizer nada. Elira segurou o tecido com ambas as mãos, inspirando o cheiro a couro, fumo e algo indefinível algo que agora associava a segurança.
— Porque continuas a fazer isso? — perguntou ela. — Estes gestos… contradizem tudo o que dizes.
— Porque o corpo lembra-se do que o coração tenta esquecer.
Ela inclinou a cabeça, apoiando-a na parede, tão próxima que os ombros quase se tocavam.
— Sabes o que mais me assusta? — confessou ela. — Não é morrer.
Ele esperou.
— É confiar… e perder outra vez.
O mercenário sentiu um nó no estômago. Aquela dor era-lhe familiar demais.
— Não posso prometer que não te vou magoar — disse. — Já magoei demasiadas pessoas.
— Eu sei — respondeu ela. — Mas mesmo assim, escolho ficar.
Ele virou-se para ela. Pela primeira vez desde que se conheceram, deixou que o olhar revelasse algo cru, desarmado.
— Isso é uma escolha perigosa.
— Todas as escolhas que importam são.
Um trovão ribombou ao longe. A torre estremeceu levemente.
Instintivamente, ele aproximou-se mais. Não para proteger mas porque precisava. O ombro dela tocou-lhe o braço. Nenhum dos dois se afastou.
— Quando isto acabar — disse ela, hesitante — o que farás?
— Não penso depois do fim.
— E se houver um depois?
Ele demorou a responder.
— Então… talvez aprenda a ficar.
Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
— Eu gostava disso.
A chuva abrandou durante a madrugada. Elira acabou por adormecer encostada a ele, a respiração calma, o corpo relaxado como não estivera em anos. O mercenário permaneceu imóvel, sentindo o peso dela contra si leve, mas suficiente para o prender ao presente.
Não a afastou.
Pela primeira vez em muito tempo, não montava guarda apenas contra inimigos externos. Lutava contra si mesmo.
Contra o desejo de acreditar. Contra o medo de perder.
Quando o amanhecer começou a insinuar-se entre as nuvens, ele percebeu algo com clareza dolorosa:
Salvar Elira de Rethar seria fácil. Salvar-se a si próprio dela… isso seria impossível.
E, apesar de saber que aquele caminho só podia terminar em dor, não recuou.
Porque algumas cicatrizes, quando partilhadas, deixam de doer da mesma forma.
E ele, um homem feito de guerra e silêncio, estava lentamente a aprender que a maior batalha não se travava com lâminas mas com aquilo que se permite sentir.
Fale com o autor