Cicatrizes que Falam
1 Cicatrizes que Caminham
O mercenário já não contava os dias. Contava contratos.
O tempo deixara de ser algo linear, era apenas uma sucessão de combates, estradas poeirentas e corpos deixados para trás. Em tempos fora soldado não um simples homem de armas, mas alguém que marchara em guerras verdadeiras, onde a morte não era um acaso, mas uma certeza à espera da sua vez.
O seu rosto era prova disso. Cicatrizes antigas atravessavam-lhe a pele como mapas de batalhas esquecidas: uma sobre a sobrancelha esquerda, outra a cortar-lhe o maxilar. Os olhos, outrora vivos, tinham-se tornado opacos, atentos, sempre à espera do próximo golpe. Não havia raiva neles. Nem alegria. Apenas vigilância.
Aceitava propostas. Executava. Recebia o pagamento. Seguia em frente.
Sem perguntas. Sem remorsos.
Naquele dia, a missão era simples: um líder de bandidos que aterrorizava a região, cobrando “tributos” às aldeias fracas demais para resistir. O nome pouco importava. Todos tinham nomes, até deixarem de os ter.
Seguia-lhe o rasto à dois dias quando ouviu gritos. Não gritos de guerra. Gritos de desespero.
O mercenário deteve-se no topo de uma encosta baixa, observando o caminho abaixo. Um casal de idosos tentava proteger-se como podia, encurralado por três bandidos. Um deles ria, empunhando uma faca demasiado grande para alguém que precisava de provar a sua força.
E então viu-a.
A jovem mulher surgiu de entre as árvores com uma rapidez silenciosa, como se fizesse parte da própria floresta. Movia-se com precisão, sem desperdício, mas não com a brutalidade de um combatente experiente. Era algo diferente necessidade, talvez. Desespero controlado.
Atirou-se ao primeiro bandido, usando o peso do corpo para o derrubar. O segundo virou-se a tempo de a atingir na perna com um golpe mal calculado. Ela caiu de joelhos, os dentes cerrados para não gritar.
O terceiro avançou, sorrindo. Foi nesse instante que o mercenário desceu a encosta.
O som da lâmina a cortar o ar foi rápido. Um corpo caiu antes de perceber o que acontecera. O segundo tentou fugir erro comum. O mercenário apanhou-o antes que desse três passos.
O líder do grupo, que observava de mais atrás, recuou. Reconheceu-o. Muitos reconheciam.
— Não era para isto… — murmurou antes de virar costas e fugir para a floresta.
O mercenário deixou-o ir. Por agora. Virou-se então para a jovem mulher.
Ela estava sentada no chão, a mão apertada contra a perna ferida, o rosto pálido, mas os olhos atentos. Desconfiados. Avaliadores.
Não chorava. Não implorava. Isso chamou-lhe a atenção.
— Consegues levantar-te? — perguntou, a voz grave, sem suavidade desnecessária.
Ela hesitou antes de responder.
— Eu consigo andar. — disse. — Não correr.
O casal de idosos agradecia entre lágrimas, mas ela mal lhes prestava atenção. Observava o mercenário como se ele fosse tão perigoso quanto os homens que acabara de matar.
Ele respeitou isso. Ajudou-a a erguer-se sem tocar mais do que o necessário. O calor do sangue atravessava-lhe a mão enluvada.
— Estão seguros agora. — disse aos velhos. — Sigam para o sul. Não fiquem aqui.
Quando se afastaram, ficou apenas o silêncio… e eles.
— Porque ajudaste? — perguntou ela.
O mercenário encolheu ligeiramente os ombros.
— Era o meu caminho.
Ela não pareceu satisfeita com a resposta.
— O líder… — disse, respirando com dificuldade. — Ele vai voltar.
— Eu sei.
Ela olhou-o de lado.
— E vais matá-lo?
— Sim.
Algo no tom dele fez-lhe acreditar. Não era bravata. Era um facto.
A jovem respirou fundo, o corpo a tremer agora que a adrenalina se dissipava.
— Então preciso de ir contigo — disse.
Ele franziu o sobrolho.
— Não.
— Ele vai caçar-me — insistiu. — E eu não corro bem.
O mercenário observou-a por longos segundos. Via nela algo que reconhecia demasiado bem: alguém a quem a gentileza falhara. Alguém que aprendera a sobreviver observando, desconfiando, nunca baixando a guarda.
— Não protejo pessoas — disse por fim. — Não de graça.
Ela assentiu lentamente.
— Não tenho ouro.
— Então não me sigas.
Virou costas.
Ouviu-a tentar dar um passo… e falhar. O som seco do corpo a cair ecoou demasiado alto no silêncio.
O mercenário parou. Suspirou. Voltou-se.
Ela estava no chão, os olhos cerrados, a tentar conter a dor, humilhada não pela queda, mas pela fraqueza.
— Levanta-te — disse, estendendo-lhe a mão.
Ela olhou para ela como se fosse uma armadilha. Mas depois, aceitou. Não confiava nele. Ainda não.
Mas pela primeira vez em muito tempo… sentia-se protegida.
E o mercenário, sem o admitir, sentiu algo diferente naquele aperto de mão: não o peso de mais uma missão, mas o início de algo que ameaçava quebrar a armadura que passara anos a construir.
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