Cicatrizes que Falam
2 O Peso da Confiança
A caminhada foi lenta.
O mercenário avançava alguns passos à frente, atento a cada som da floresta, enquanto ela seguia atrás, apoiando o peso num ramo improvisado como bengala. A perna doía-lhe mais do que queria admitir, mas mantinha os lábios cerrados. Aprendera cedo que a dor, quando mostrada, tornava-se convite.
Ele reparou, claro. Reparava sempre.
— A ferida precisa de ser limpa — disse, sem olhar para trás.
— Já tive piores.
A resposta saiu rápida demais. Defensiva.
Ele parou junto a um pequeno curso de água e ajoelhou-se, pousando a espada no chão com cuidado quase ritual. O gesto era estranho num homem como ele tudo nele parecia feito para matar, não para preservar.
— Senta-te.
Ela hesitou.
— Não vou magoar-te — acrescentou, num tom neutro. — Se quisesse fazê-lo, já o teria feito.
Era uma verdade crua. E ela sabia disso.
Sentou-se numa pedra lisa, observando cada movimento dele com atenção. Quando ele lhe afastou o tecido rasgado da perna, o toque foi firme, mas cuidadoso. Não havia pressa, nem brusquidão.
— Vai arder — avisou, antes de deitar água sobre a ferida.
Ela inspirou fundo. Não gritou.
— Estás habituada a isto — murmurou ele.
— A sobreviver.. — corrigiu. — Não a lutar.
Ele atou o pano com um nó simples e eficaz.
— A diferença é menor do que parece.
Houve silêncio por um momento. Apenas o som da água a correr e dos pássaros distantes.
— Como te chamas? — perguntou ela, quebrando a quietude.
Ele demorou a responder.
— Já não importa.
Ela franziu o sobrolho.
— Importa para mim.
O mercenário levantou-se, limpando as mãos ao casaco gasto.
— As pessoas que sabiam o meu nome estão mortas.
Ela engoliu em seco. Não por medo, mas por reconhecimento. Aquela frase tinha peso. Verdade.
— O meu é Elira — disse por fim. — Não o digo a muita gente.
Ele assentiu, aceitando a oferta sem a devolver.
Continuaram a andar até ao cair da noite, quando o mercenário decidiu parar. Acendeu uma fogueira pequena, controlada, difícil de detectar à distância. Tudo nele parecia pensado para não ser encontrado.
Elira observava-o enquanto comia um pedaço de pão duro.
— És um caçador? — perguntou.
— Fui soldado.
— Foste?
— Deixei de acreditar em bandeiras.
Ela sorriu de lado, um sorriso breve e triste.
— Eu deixei de acreditar em pessoas.
O olhar dele pousou nela por um instante mais longo.
— O que aconteceu à tua aldeia?
Ela não respondeu de imediato. O fogo crepitava entre eles, lançando sombras no rosto marcado dele.
— Invasores — disse por fim. — Vieram de noite. Alguns batiam à porta, pediam água, comida. Foram recebidos.
A voz não tremeu. Mas os dedos dela apertaram-se.
— Depois abriram os portões.
O mercenário fechou os olhos por um breve segundo. Já ouvira esta história antes. Demasiadas vezes.
— Levaram tudo — continuou ela. — Pessoas, casas, nomes. A minha família morreu a tentar proteger-me.
Silêncio.
— Aprendi a nunca confiar em gentilezas — concluiu. — Foi assim que sobrevivi.
Ele observou-a com mais atenção agora. Não via fragilidade nela. Via algo mais perigoso: resistência moldada pela perda.
— O líder dos bandidos — disse ele. — Chama-se Rethar. Trabalha para os mesmos homens que atacaram a tua aldeia.
Ela levantou o olhar de súbito.
— Tens a certeza?
— Absoluta.
O coração dela acelerou.
— Então não é apenas uma missão para ti.
— Nunca é apenas uma missão — respondeu. — Mas acaba sempre da mesma forma.
Ela hesitou, depois falou num fio de voz:
— Se o matares… tudo acaba?
Ele não mentiu.
— Não. Mas começa o fim.
Elira abraçou os joelhos, encarando o fogo.
— Quero ficar contigo — disse. — Até isto acabar.
O mercenário manteve-se imóvel.
— Não prometo que sobrevivas.
— Não prometo que não fuja — respondeu ela. — Mas quero tentar.
Algo nele cedeu. Não totalmente. Apenas o suficiente.
— Amanhã seguimos para leste — disse. — Há uma estrada onde ele costuma passar.
Ela assentiu.
Nessa noite, Elira acordou sobressaltada, o coração aos pulos. O pesadelo ainda lhe queimava a mente: gritos, fogo, mãos a puxá-la.
Percebeu então que não estava sozinha. O mercenário estava sentado junto à fogueira apagada, de guarda.
— Um pesadelo? — disse ele, sem se virar.
— Sempre, que adormeço.
— Também eu.
Ela aproximou-se, sentando-se a uma distância segura.
— Com o quê?
Ele demorou.
— Com os que não consegui salvar.
Ela não insistiu.
Mas naquele silêncio partilhado, algo mudou. Não era confiança plena. Não ainda. Mas era o começo de um entendimento silencioso duas pessoas quebradas a caminhar na mesma direcção, não porque acreditavam no destino, mas porque já não tinham nada a perder.
E, pela primeira vez em muitos anos, o mercenário percebeu que já não caminhava sozinho.
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