Cicatrizes da Alma
2 Uma recaída e uma chance de recomeço
Notas iniciais
Boa Leitura.
Reita saiu do apartamento de Aoi nervoso, querendo matar Ruki, com vergonha de si mesmo, e se amaldiçoando por não ter tirado Kai de lá. Ele entendia que o namorado precisava contar, então apenas torcia para que a história não se estendesse até ele. Só que ele também não queria ter deixado Kai sozinho para encarar aquela situação.
Foi quando a palavra ‘’sozinho’’ ecoou na mente de Reita. Ele já estava no estacionamento, e subitamente parou. Sem pestanejar virou-se e fez menção de voltar ao apartamento de Aoi. Lá, Uruha ainda estava assustado, tentando imaginar o que havia acontecido com os dois. Ruki amparava Kai como podia e Aoi se sentiu dividido. Uruha tinha um grande problema, e agora descobriu que seus dois melhores amigos também tinham um problema parecido. Era, sem dúvida alguma, angustiante e agonizante.
- Ruki, há quantos anos você sabe disso?
- Desde os quinze anos, quando o Reita me apresentou o Kai. – Disse o vocalista conseguindo fazer Kai se sentar na cama ao lado de Uruha.
Aoi ia continuar a falar, mas as passadas de Reita foram ouvidas e ele novamente se encontrava no quarto.
- Kai, vamos embora, é melhor.
- Reita, olha, o Ruki não falou nada detalhado, mas você não acha-
- Aoi, o que eu acho não é da sua conta e o que vocês dois acham não faz diferença alguma.
- Não é bem assim, Akira. – Disse Uruha, levantando-se – Eu não sei aonde o Ruki parou sobre contar o que vocês passaram no passado, mas o Aoi sabe o que ta falando. Sabe, não foi só você que sofreu quando era menor.
Uruha tremia, estava cabisbaixo e se controlava para não chorar. Kai estava estupefato e Reita estava confuso.
- Agora, Reita, Kai, Uruha, Aoi, será que vocês conseguem entender porque eu mudei tanto? Fiquei mais sério, mais nervoso? Desde que eu conheço vocês quatro, quando sei lá, eu tinha quinze anos, que eu guardo esses segredos. E eu tava ficando louco já! Eu posso realmente não entender cada dor que vocês sentiram e ainda sentem, mas isso não significa que eu não sofra e não tenha desejado estar no lugar de vocês. Então, antes de tacarem uma chuva de cometas na minha cabeça pensem em como eu estava sufocado por tudo isso e pela banda, e se ainda assim quiserem me apedrejar que seja por um motivo convincente.
Sim, a bomba tinha explodido. A união da banda estava definitivamente balançada. Ruki saiu do quarto e se dirigiu até a sala, sentando num canto e chorando, por ter tirado de sua alma tudo aquilo que ele comprimiu por tanto tempo.
No quarto, os quatro se encaravam, sem nada dizer. Uruha já não continha as lágrimas e Aoi fazia o que podia enquanto Reita tentava conversar com Kai.
- Me perdoa Kai, eu não devia ter saído desse quarto assim. Me perdoa, por favor.
- Ta tudo bem Reita, eu sei como você se sente quando o assunto é esse.
Os dois se abraçaram e uma seqüência de choros começou a ecoar pelo apartamento, tanto do quarto, quanto da sala. Aqueles cinco estavam num abismo que parecia lhes sugar cada vez mais, e no momento eles não sabiam como sair de lá. Só sabiam que cada vez mais eram puxados, e que aquilo era extremamente torturante.
- É por isso que você bebe Uruha?
- Sim, Reita. Pelo menos antigamente era. Depois de um tempo eu entendi que a bebida não ia levar nada embora e só ia me destruir mais.
Reita não falou nada, apenas ficou abraçado com Kai. Os quatro sabiam que muita coisa estava em jogo e eles precisavam conversar seriamente. Todavia, naquele momento nenhum dos cinco estava capacitado para aquilo, e o silêncio reinou por um bom tempo.
O sol havia praticamente ido embora já quando Ruki se levantou de seu canto e saiu do apartamento de Aoi. Reita e Kai já tinham ido também e apenas Aoi e Uruha ficaram no local, ainda no quarto do moreno.
- Você está bem, Kou?
- Eu acho que sim. Só não vou conseguir dormir. Não, eu tenho certeza que não vou conseguir dormir.
Aoi sentou-se na cama e Uruha se deitou apoiando a cabeça nas pernas do namorado.
- Não dá pra esquecer?
- Parece que aqueles quatro estão em cima de mim.
Uruha retraiu-se e apertou os olhos aos fechá-los, deixando as lágrimas descerem. Aoi, claro, não ia insistir no assunto e limitou-se a acarinhar os cabelos do namorado na esperança dele dormir. Porque, apesar de ter dito que não conseguiria, Aoi sabia que ele precisava daquilo.
Reita foi para a casa de Kai por ser mais perto. O baterista ainda estava em estado de choque, apesar de estar, de alguma forma, aliviado. Ele não dizia uma palavra, mas sabia que Reita, além de triste e de estar se amaldiçoando, estava furioso. Ele não gostava de tocar naquele assunto, e ter pegado Ruki falando aquilo para Aoi, mesmo que não tivesse revelado nada, foi uma punhalada nas costas do baixista. O problema, no entanto, e Kai sabia que se acontecesse ia ser péssimo, era se Reita quisesse ir brigar com o vocalista. Suzuki Akira definitivamente não podia sair daquela casa.
- Reita, você vai ficar aqui?
- Sim Kai, eu vou.
- Mas você não quer, não é verdade?
- Porque você acha isso? – Reita sentou-se no sofá e Kai se sentou ao lado dele.
- Porque eu te conheço a tempo demais pra saber que você odeia falar sobre isso – nesse momento Kai tirou de uma vez a faixa do rosto de Reita – e que você está furioso com o Ruki.
Kai odiava fazer aquilo, mas não podia deixar Reita ir embora. O baixista, no entanto, apenas pegou a faixa da mão do namorado e recolocou no rosto, sem esboçar qualquer sinal de raiva. Kai sabia que se não fosse namorado dele já teria levado um soco.
- Kai, eu não vou sair daqui, não se preocupa. Apesar de querer brigar com o Ruki eu sei que não é certo. Pode ir tomar um banho e tentar descansar. Eu não vou embora.
Kai hesitou, mas acabou indo. Iria ficar um bom tempo debaixo daquele chuveiro novamente, o que para Reita foi ótimo. Quando ouviu o barulho da porta do quarto se fechando o baixista arrancou com força a faixa, jogou em qualquer lugar, e sem sucesso tentou abafar a enorme quantidade de lágrimas que descia.
Ele sabia que era bem possível Kai estar escutando, mas não era como se ele pudesse se conter. Estava sufocado, cansado de colocar sorrisos no rosto como se realmente estivesse bem. E para piorar, o motivo de suas lágrimas começou a arder, fazendo-o lembrar que aquela marca jamais sairia e que se nada mudasse, ele provavelmente não agüentaria mais. Reita sabia que precisava de ajuda, mas ele não podia largar os afazeres para se tratar. Era a banda, ou ele. E sendo seus melhores amigos, ele não ia deixar seu mundo desabar.
Ruki também estava exausto. Jogou-se em sua cama e só o que fez foi tentar dormir. Estava deprimido, com medo, se sentindo culpado, mas no meio de tanta agonia, estava aliviado. Os três apareceram no momento errado e agora as coisas estavam realmente bagunçadas, mas o vocalista estava cansado demais para tentar pensar em alguma coisa. Para sua sorte, o sono veio logo.
Quando saiu do banho, Kai viu que Reita estava em sua cama, dormindo. O baterista resolveu não fazer barulho e se deitou ao lado dele. Ficou algum tempo pensando em como as coisas iriam acontecer agora, e só depois de uma hora conseguiu dormir.
De volta ao apartamento de Aoi, o relógio ao lado do criado-mudo dele acusava três da manhã. Uruha ainda estava acordado, mas o namorado dormia. Com todo o cuidado, e sem fazer qualquer barulho, levantou-se e foi até o banheiro.
Trancou a porta e ficou um bom tempo se olhando, as olheiras não mais escondidas pela maquiagem, os olhos inchados pelo choro, o verdadeiro Takashima Kouyou. Ele já tinha em mente o que ia fazer, mas ficava se olhando no espelho, tentando desistir. Havia jurado para Aoi e Ruki que nunca mais faria aquilo, mas a dor em seu coração era demais.
Ele então levou uma das mãos para trás do armário e de lá tirou uma pequena embalagem que escondia uma gilete. Apressadamente ele a tirou da embalagem, e sem pensar duas vezes a direcionou para seu pulso. Não importava onde ele ia cortar, ele não queria morrer apenas matar a sua dor, focando em outra. Não era nem de longe uma troca favorável a ele, mas era necessário.
Ele arrastava a gilete pelo braço limitando-se ao cotovelo para não se entregar. Muito sangue já escorria, mas ele não ligava. O instrumento rasgava sua pele sem dó e de seus olhos as lágrimas que saíam começavam a ser pela dor ao braço, apesar de xingar mentalmente todos aqueles que lhe feriram.
Aliás, olhar no espelho não era mais algo que importava. Sua promessa havia sido quebrada e Uruha só necessitava tirar toda aquela dor de seu ser. Lapsos dos onze anos em que manteve seu relacionamento com Aoi em segredo começavam a vir até sua mente, causando um choque no guitarrista.
Ao mesmo tempo em que ele se lembrava de seu juramento a dor o consumia completamente. Imaginar em contar tudo o que aconteceu para os amigos parecia mais difícil do que ele sempre imaginou, e talvez agora entendesse porque guardou o segredo por todos aqueles anos.
No entanto, seu choro estava alto demais. E Kouyou sabia que Yuu poderia escutar a qualquer momento. Todavia, o guitarrista não conseguia simplesmente abafar o choro. Sua dor, tanto por dentro quanto por fora estava demais. Ele estava arrependido de ter se cortado, e o pior: aquilo não havia amenizado a dor em seu coração.
Ele resolveu, por fim, se levantar e saiu do banheiro indo lentamente até o quarto. O sangue escorria fervorosamente pelo braço esquerdo do guitarrista cobrindo totalmente o anel que ele havia ganhado de Aoi e descendo pelos dedos deixando um caminho pelo chão e pelo tapete. Sua visão começou a ficar um pouco embaçada e quando ele abriu a porta Aoi já estava de pé fazendo menção de sair do quarto.
- Kou...
- Perdão Yuu, perdão.
Kouyou caiu ao lado da porta, chorando. Levou a mão direita até o rosto e a esquerda permaneceu imóvel no chão. Aoi foi até ele tentando ampará-lo e sentiu que seu corpo estava frio. Não muito, mas estava.
Num impulso, o moreno se levantou e pegou a primeira camiseta que viu pela frente. Envolveu o braço esquerdo e não seria exagero dizer ‘’sem vida’’ do namorado. Tentou fazer uma compressa, mas assim que apertou a camisa Kou reagiu, segurando o braço dele.
- Isso dói, droga. – Uruha levou a mão direita até o rosto.
- Eu sei Kou, mas, por favor, segura isso contra o seu braço.
Aoi se levantou e rapidamente vestiu a primeira coisa que viu pela frente. Como Uruha já estava vestido, o moreno não demorou e logo chamou um táxi. Para sua sorte, em dez minutos o carro já estava esperando.
- Kou, vem eu vou te levar pro hospital.
- Não Aoi, me deixa morrer Aoi, me deixa morrer.
- Não fala isso Kouyou, acha mesmo que eu posso viver sem você? Acha mesmo que eu vou te ver morrer nos meus braços e não fazer nada como se fosse à coisa mais normal do mundo? Não Kou, eu não vou te deixar morrer porque você é importante pra mim e eu te amo!
Uruha chorava muito. Levantou-se com certa dificuldade e abraçou o namorado.
- Eu também amo você Yuu, amo muito. Mas às vezes essa dor parece que vai me matar.
- Mas não vai Kou, não vai. Eu vou sempre ficar do seu lado, você nunca vai se sentir sozinho de novo, eu juro.
Eles se desvencilharam e Kouyou assentiu. Eles fizeram menção de sair do quarto, mas o loiro não conseguia mais enxergar direito. Sentiu as pernas fraquejarem e seu corpo tombou. Depois foi só escuridão.
Aoi, claro, entrou em desespero. Segurou como conseguiu o corpo do amado e pegou-o no colo, saindo em disparada do apartamento até o táxi. O motorista fazia o que podia, percorrendo rapidamente às ruas. Kouyou estava pálido e provavelmente havia cortado alguma veia, mas Aoi não podia ver, visto que havia muito sangue por cima dos machucados. E ele só conseguia pensar em fazer uma compressa no braço do namorado para que o sangue parasse de escorrer.
Em quinze minutos o taxista chegou ao hospital. Aoi pediu que ele esperasse enquanto ia levar o namorado para dentro e logo voltava para pagar. O taxista não gostou muito, mas assentiu. Aoi agradeceu e entrou correndo com o namorado nos braços para dentro do hospital. Rapidamente dois enfermeiros e um médico vieram até ele e ele explicou a situação o mais rápido que pôde enquanto eles levavam a maca com Kouyou para uma área mais reservada do hospital.
- Pode deixar que nós cuidaremos dele agora.
Aoi agradeceu e voltou para a entrada do hospital procurando o taxista. Assim que viu foi até ele.
- Kami-sama te abençoe.
- Boa sorte com ele, espero que tudo fique bem.
Aoi agradeceu, pagou e voltou para dentro do hospital. Fez o registro do namorado e foi até o segundo andar, local onde ele estava. O moreno andava rapidamente pelo corredor e quando chegou à porta do quarto o médico o esperava.
- Ele vai ficar bem?
- Nós conseguimos controlar o sangramento, mas um corte mais profundo acabou cortando uma veia, por isso ele perdeu tanto sangue. Ainda está pálido, mas nós já colocamos uma bolsa de sangue e outras estão chegando. Ele vai permanecer dormindo por algumas horas, mas imagino que isso seja melhor.
- Pelo menos ele está melhorando.
- Sei que não é da minha conta, mas porque ele se cortou?
Aoi respirou fundo e sentou-se num banco que havia na frente do quarto. O médico sentou-se a seu lado.
- Quando menor, o Kou adquiriu um trauma por algo que fizeram contra ele e cresceu muito perturbado. Então às vezes ele faz isso pra tentar aliviar a dor.
- Eu entendo. E não se preocupe nada será revelado. Mas, se quiser, nós temos uma psicóloga e-
- Eu agradeço doutor, mas não adianta. Eu o conheço faz tempo e sei que não vai adiantar.
- Bem, eu só espero que tudo fique bem. Você pode ficar dentro do quarto e se precisar chamar alguém eu vou pedir que apenas duas pessoas fiquem dentro do quarto com ele. Caso precise ir a algum lugar pode ir também. Nós vamos cuidar bem dele.
- Eu agradeço.
Aoi adentrou o quarto enquanto um dos enfermeiros ainda cuidava do braço de Kou. Ele tomava sangue pelo braço direito, visto que o esquerdo estava totalmente enfaixado pelos curativos, que iam da metade de sua mão até quase o cotovelo. Duas bolsas de sangue estavam presas ao aparelho, mas Kou ainda estava pálido e Yuu só ia relaxar quando ele voltasse a sua cor normal.
Por fim sentou-se na cadeira ao lado do namorado e logo o enfermeiro saiu do quarto. Yuu tentou segurar as lágrimas, mas não era como se ele pudesse ficar olhando para o namorado machucado daquela forma e fosse ficar bem. Era praticamente impossível. Ele só se limitou a não chorar tão alto pra evitar acordar Kouyou. E bem, precisava ligar para alguém. Já que não tinha carro, sabia que só poderia recorrer a uma pessoa.
Que nesse momento, inclusive, tinha acabado de acordar. Passava de cinco da manhã quando Kai acordou de um pesadelo. Suava bastante e levantou bruscamente, quase acordando Reita. Levou uma das mãos ao rosto e resolveu acordar direito. Permaneceu por dez minutos olhando para o nada até que por fim se levantou.
Foi até o banheiro e lavou o rosto. Sabia que não iria mais conseguir dormir, então resolveu ir para a sala. No entanto, quando voltou para o quarto para vestir algo, o namorado estava acordando.
- Aconteceu alguma coisa Kai?
- Eu tive um pesadelo e provavelmente não vou dormir mais, então tava indo lá pra sala assistir alguma coisa.
- E porque não assiste aqui?
- Não quero incomodar.
- Nossa Kai você me incomoda tanto. Meu coração ta cheio de ódio por você.
Kai sorriu e Reita fez o mesmo.
- Vem assistir aqui mesmo, não precisa ir pra sala. E pare de me tratar como se eu fosse um estranho.
- Eu sei que você não é um estranho, mas não consigo ser diferente.
- Por falar em mudar, — disse Reita abraçando o namorado e lhe dando um beijo na testa – você não disse que hoje eu ia começar a te dar aula de piano?
- Mas, e a bateria?
- Kai você pode fazer os dois.
- Acha mesmo?
Reita ia responder, mas o celular de Kai tocou. O baterista virou-se e pegou o aparelho de cima de seu criado-mudo. Era Aoi.
- Ohayo Aoi.
- O-Ohayo, Kai.
- Aoi, aconteceu alguma coisa? Sua voz ta fraca.
- Aconteceu sim Kai. E eu queria sua ajuda.
- Pelo amor de Kami-sama Aoi o que aconteceu? – Nesse momento até Reita ficou alerta.
- O Kou Kai, o Kou quase se matou.
- Como é que é?!
Enquanto Aoi explicava Kai deixou o celular no viva-voz e foi se arrumar com Reita. Os dois estavam apreensivos e se trocaram o mais rápido que puderam. Quando por fim terminaram, e antes de Kai deixar o celular normal novamente, ele e Reita escutaram claramente a última frase de Aoi.
- Kai eu não sei o que aconteceu com você e com o Reita, mas o Ruki tem razão. Vocês dois e o Kou precisam contar o que aconteceu quando eram menores. Antes que alguém morra mesmo.
Os dois se entreolharam por algum tempo até que Kai deixou o celular privativo novamente e os dois assentiram um para o outro e saíram da casa do baterista em direção ao hospital. No caminho, Reita aproveitou e ligou para Ruki, avisando da situação. O vocalista gelou, visto que sabia que aquela não era a primeira vez que Uruha fazia aquilo e disse que logo estaria no hospital também.
Enquanto Aoi esperava Kai e Reita chegarem tratou de enxugar as lágrimas e se acalmar. O relógio acusava quase seis da manhã quando o enfermeiro veio tirar a última bolsa e fazer um curativo na mão direita de Kou.
- O doutor disse que ele logo vai acordar.
Aoi sorriu e agradeceu. Não foi lá um sorriso muito animado, foi algo mais aliviado. Ele ficou ainda algum tempo sozinho com o namorado até que ouviu uma batida na porta e esta se abrindo. E apesar da ordem do médico de apenas dois ficarem no quarto, os três entraram de uma vez, e claro, ficaram estupefatos.
- Aoi, dessa vez foi tão ruim assim?
- Sim Ruki, o médico disse que ele cortou alguma veia por isso perdeu tanto sangue.
Lembrar daquilo não estava fazendo bem para Aoi. Ele estava exausto.
- Aoi, eu sei que quando ele acordar vai querer ver você aqui, mas não é melhor você ir para o carro? Pelo menos lá você pode descansar um pouco.
- Não Kai, eu agradeço, mas vou esperar ele acordar.
- Aoi, se ele vai mesmo precisar de você da forma que o Ruki falou, é melhor você estar bem para ajudar ele. – Reita deu ênfase no segundo ‘’você’’.
- Mas-
- Vai Aoi. Fica lá com o Reita ou com o Kai que quando o Uru acordar eu levo ele.
Aoi tentou protestar, mas acabou indo com Reita. O baixista ficou no banco da frente e Aoi assim que adentrou o carro se apoiou na porta e o sono rapidamente chegou.
Já Uruha também não demorou muito para acordar. Levou a mão esquerda até o rosto e Kai e Ruki puderam ver a extensão do machucado que ele havia causado em si mesmo. Ruki não ficou tão impressionado, pois aquela não era a primeira vez que ele via aquilo acontecer, mas Kai quase não conseguia acreditar.
- Cadê o Aoi? – A voz de Uruha soava baixa.
- O Aoi ta lá no carro com o Reita e deve estar dormindo. A gente o deixou ir e disse que quando você acordasse a gente te levava.
Uruha olhou para o curativo em seu braço por algum tempo e voltou a encarar Ruki.
- Eu fiz de novo Ruki. Mesmo jurando que isso nunca mais ia acontecer. Mesmo lutando pra nunca mais me machucar desse jeito, não deu. A dor era demais.
- Não pense nisso agora. Melhor você ir pra casa e descansar mais e junto com o Aoi. Depois a gente conversa sobre isso.
Uruha respirou fundo e se levantou alguns minutos depois. Calçou o chinelo com o qual Aoi o tinha levado e logo saiu do hospital com os amigos. Eles foram para o carro e quando o adentraram Aoi ainda dormia. Ruki ficou no meio e encostou-se a Aoi para que ele não caísse para o lado enquanto Kai dirigia.
Os cinco permaneceram em silêncio até chegarem ao apartamento do moreno. Quando Kai colocou o carro na garagem Ruki acordou o amigo e os cinco subiram. Não eram nem sete da manhã, mas nenhum deles conseguiria mais dormir, com exceção de Aoi, que mesmo não querendo sabia que o sono ainda o consumia.
- Aoi, é melhor você e o Kou irem dormir mais um pouco. – Disse Ruki, finalmente, após todos adentrarem o apartamento.
- Não Ruki, apesar do sono eu acho que mais ninguém aqui vai conseguir dormir, pelo menos não agora. E mesmo que ainda seja cedo, e eu esteja com sono, não dá mais para tentar dormir.
Enquanto Aoi falava Uruha passou da sala para o quarto, olhando para o chão e o banheiro, vendo todo o sangue que ele tirou de si mesmo. Chegou ao quarto e viu mais sangue no tapete e na porta. Fechou-a e sentou-se na beirada da cama, enquanto escutava as vozes dos amigos e do namorado na sala.
Seu coração estava com a pior das cicatrizes abertas. Sua alma não agüentava mais aquela dor tão terrível. Parecia que tudo havia acontecido há algumas horas atrás. Primeiro aqueles quatro, depois seu pai, depois a solidão e tudo aquilo estava deixando Kouyou maluco.
Ele não queria mais se sentir sozinho da forma como estava se sentindo, mas simplesmente não conseguia ficar calmo. Seu machucado doía, claro, mas para sua sorte o médico tinha lhe receitado algo para que a dor parasse. No entanto, ele queria algo que fizesse seu coração parar de doer. Só que não parecia haver remédio, até que ele escutou a porta ser aberta e Aoi adentrar o quarto.
- Aconteceu alguma coisa?
- É a solidão Aoi. A solidão batendo na minha porta de novo e fazendo toda a força do mundo para entrar.
- Ela só vai entrar se você deixar. – Aoi sentou-se na cama e abraçou o namorado.
- O problema é: Eu tenho força pra agüentar a fúria dela até ela se acalmar?
- Eu to com você Kou, você sabe disso. E por você eu enfrento qualquer coisa. Eu te disse, nem a morte vai separar a gente, jamais. Então não se sinta sozinho, você tem a mim e aos seus amigos lá na sala.
- Meus amigos devem achar que eu sou louco.
- Eles são seus melhores amigos. Eu tenho certeza que nesse momento eles estão pensando tudo, menos isso.
Kou tentava pensar assim, mas era difícil, tudo parecia estar lhe cercando e lhe sufocando, sem dar chance para ele tentar escapar.
- Aoi – Disse algum tempo depois – não me deixa cair. Eu não quero mais voltar para aquele abismo que eu me encontrava há onze anos atrás.
- Eu não vou te deixar cair nunca mais Kou, nunca mais.
Os dois se abraçaram e saíram do quarto alguns minutos depois. Kai tinha feito um café e Ruki e Reita tinham ido comprar algumas coisas. Os cinco comeram e tentaram conversar sobre qualquer outra coisa que não fosse o ocorrido com Uruha, mas não era fácil.
Eles resolveram apenas terminar de comer e então decidiriam o que fazer, apesar de estar meio claro isso. Aoi pediu a ajuda de Kai para arrumar as coisas enquanto Ruki, Reita e Uruha foram para a sala.
- Você ta bem Aoi?
- Apreensivo, porque bem, todo mundo sabe os que as próximas horas vão representar.
- Se for o melhor pra todo mundo essas horas que passarão vão nos ajudar.
Os dois concordaram e terminaram de arrumar tudo. Entreolharam-se uma última vez e então adentraram a sala. Aoi se sentou ao lado de Uruha, Ruki numa poltrona, sozinho, e Reita ao lado de Kai.
- Isso aqui ta parecendo um tribunal, eu sei, mas se a gente for parar para pensar, é de fato um. Eu sei que não devia ter falado com o Aoi sem consultar vocês dois, mas eu não conseguia mais agüentar. E apesar de eu ter ajudado vocês esses onze anos, agora isso está apenas nas mãos de vocês.
Os quatro se olharam.
- Quem começa? – Indagou Aoi.
- Eu. – Disse Kai seguramente.
- Então – disse Ruki – é hora da verdade.
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