Cicatrizes da Alma

3 ''O Garoto sem amor''


Notas iniciais
Lembrando que os caps com aspas são os passados deles, e também vale relembrar que eles não estão contando tão detalhadamente como eu, até porque isso seria impossível. Mas, não era como se eu pudesse escrever de qualquer jeito.

Ah sim, e agora começa o drama de verdade.

Boa Leitura.

Kai respirou fundo e segurou na mão de Reita. Os dois se entreolharam uma vez e o baterista começou a falar.

‘’Final de ano numa típica escola japonesa. O frio era intenso e os alunos se esquentavam como podiam enquanto riam alegremente e se despediam de mais um ano que passou. Todavia, na única oitava série dessa escola, alguns alunos choravam por se despedir de amigos com quem passaram aqueles quatro anos. E entre esses alunos, havia um que chorava e ria ao mesmo tempo com seus amigos. Seu nome, Uke Yutaka. Possuía covinhas únicas e era querido entre os amigos. Todos riam alegremente e quando o último sinal do ano para aqueles alunos tocou, todos desceram as escadas rapidamente e se despediram em frente à entrada da escola.

- Oe Yutaka, nos vemos por aí, certo? – sorriu um de seus amigos.

- Sim, com certeza.

O garoto sorriu e abraçou o amigo, logo em seguida vendo-o se distanciar ao lado dos pais. O jovem Yutaka viu todos os amigos fazendo o mesmo e respirou fundo, olhando uma última vez para o nome da escola. Sabia que agora teria que enfrentar uma situação um tanto quanto perturbadora, e decidiu voltar caminhando para casa. Sabia que ninguém iria lhe buscar, mas aquilo era normal. Apesar de solitário, o garoto estava acostumado.

Duas ou mais lágrimas escorreram por seus olhos, mas ele tratou de enxugá-las rapidamente. Havia decidido não chorar mais, apesar de ficar triste por saber que seus pais simplesmente o ignoravam. Há algum tempo isso acontecia, desde que ele tinha doze anos e foi praticamente espancado pelo pai. Ficou duas semanas no hospital e tudo porque seu pai achou que ele estava saindo com homens, pelo fato do garoto possuir apenas amigos.

Apesar de nunca ter parado para pensar sobre sua preferência sexual, Yutaka simplesmente não conseguia entender porque seu pai tinha tanta raiva dele ter amigos homens. Ele tinha colegas mulheres, mas a maioria dos pais delas não as permitia fazer trabalhos escolares com homens. Yutaka tentou explicar isso para o pai, mas tudo foi em vão. Desde aquele dia o garoto descobriu que a vida era mais dura do que um dia ele imaginou.

O garoto chegou em casa fazendo o mínimo de barulho possível. Passou cabisbaixo pela mãe dando apenas um rápido ‘’Oi’’ sem, claro, ser correspondido. Adentrou a sala e viu seu pai assistindo televisão. Olhou-o rapidamente e apenas assentiu. O homem nem o olhou nos olhos.

Aquilo era normal, mas sempre machucava o coração do garoto. Não era como se ele pudesse perguntar para os pais porque era tão odiado assim, visto que ele apanharia e não obteria as respostas. E como sempre, ele apenas foi para seu quarto, se isolar e chorar baixinho. Imaginava que às vezes seus pais escutassem, mas nunca ligassem. Desejava que aquilo tudo um dia passasse, mas parecia impossível. Ele só conseguia, a cada dia que passava imaginar que nunca conseguiria ser feliz naquela casa.

Tentou fugir algumas vezes, mas teve que voltar, pois, não tinha onde morar. Claro que todas as vezes que voltou foi brutalmente surrado pelo pai, enquanto a mãe permanecia sentada no sofá fumando e fazendo de conta que nada acontecia. Ele já estava cansado daquilo, mas também estava feliz por estar entrando no ensino médio, pois, significava que ele estava crescendo e logo estaria longe daquela casa.

No entanto, não era tão simples assim agüentar todo aquele descaso por parte das pessoas que mais deveriam amá-lo. Yutaka precisava dar um jeito em sua vida, e estava determinado a isso.

Todavia, não podia ficar pensando tanto nisso. Por várias vezes sua mãe o chamou para que a ajudasse, ou melhor, cozinhasse as coisas para ela. Logo cedo o garoto aprendeu a fazer as coisas, pois, como dizia sua mãe: os filhos foram feitos para isso.

Ele não contestava de forma alguma aquelas palavras porque sabia que seria pior. Seu pai sempre estava contra ele, mesmo que ele não fizesse idéia por quê. Apenas obedecia e fazia as coisas que era mandado. Se queimou algumas vezes, mas como já sabia se cuidar, sabia também o que devia fazer.

Durante aquela tarde sua mãe ficou no sofá assistindo diversas coisas enquanto o garoto terminava de arrumar tudo. Às seis horas, quando costumava jantar, Yutaka preparou a mesa e serviu os dois. Depois, claro, foi para seu quarto. Ou pelo menos tentou.

- Aonde vai Yutaka?

- Er... – o garoto baixou a cabeça e começou há tremer um pouco – vou deixar os senhores jantando e assim que me for permitido eu venho comer alguma coisa.

- É, parece que na base da cinta você aprendeu quem manda aqui. Agora pode ir moleque.

O garoto saiu da cozinha e lágrimas escorreram por seus olhos. Droga, ele nunca disse que queria mandar em alguma coisa, e por Deus, sempre amou seus pais. Mas, vê-los agir daquela forma e sem ao mesmo falarem o porquê daquilo o magoava bastante. No entanto, ele só podia baixar a cabeça e fazer o que lhe era mandado.

Foi para seu quarto e ficou deitado fitando o teto. Tentou não pensar em seus pais e ficou lembrando dos amigos. Entre eles, havia um que era mais do que especial para o garoto, aquele de quem se despediu e prometeu encontrar por aí.

Os dois mantinham uma amizade especial e se conheciam desde a sexta série. Yutaka ainda se lembrava de que um dia foi escondido com o amigo até a casa dele e viu o irmão mais velho dele beijando um amigo. Aquilo era um tanto quanto estranho para Yutaka, que nunca tinha visto aquilo na vida, mas ele não era preconceituoso. Os pais de seu amigo sempre disseram que o importante era o amor. E claro, o garoto acreditava nisso. Só que não entendia bem o que era o amor, pois bem, não tinha isso em casa.

E todos aqueles pensamentos de Yutaka o fizeram sair daquelas quatro paredes e o levaram para seu mundo, um lugar que ele amava ficar, onde havia o que ele achava ser amor e alegria, e bem, onde os pais não batiam em seus filhos. E Yutaka permaneceria nesse mundo por bastante tempo se não houvesse sido chamado por seu pai. Levantou-se de imediato e foi para a cozinha, recebendo um tapa no rosto do mesmo.

- Moleque te chamei mais de três vezes. Na próxima vez você vai ver o que te acontece.

O garoto pediu desculpas e rapidamente tirou a mesa, levando tudo para a cozinha. Arrumou tudo e só então pegou um prato com sua comida. Sentou-se perto da porta de entrada, e enquanto comia as lágrimas desciam incessantes por seus olhos.

A vida de Yutaka era basicamente essa. Nada fácil, cheia de perguntas e nenhuma resposta, muita dor e violência. Tudo, menos o tal do amor de quem ele ouviu tanto falar pela boca dos pais de seu amigo. Era sempre repreendido e se não seguisse rigorosas leis de seus pais sabia que seu castigo era apanhar e ficar de dois dias a duas semanas no porão, sem comer, apenas tomando água, e claro, só podendo sair para arrumar a casa.

E aquilo sufocava o garoto. Ele terminou de comer, mas como estava começando a acontecer a algumas semanas, logo que ele terminava de arrumar tudo ia para o banheiro vomitar. Não que fosse bulimia, mas Yutaka passava muito nervoso e não conseguia manter nenhum alimento sequer no estômago. E para piorar, ele estava de férias e só ficaria livre de casa quando as aulas começassem. Para sua sorte o período agora seria integral, mas os dias pareciam não passar.

E bem, aquela noite para ele já estava mais do que perdida. Restou apenas ir se deitar e dormir. Pela manhã acordou por volta de sete horas e foi para a cozinha começar a arrumar o café para os pais. Ficava feliz quando não os via por perto, pois, conseguia se sentir mais relaxado.

Até arriscava cantarolar alguma coisa. Sim, o garoto adorava música e seu sonho era ser baterista. Há alguns anos aquilo começou a tomar conta de sua cabeça, e agora que estava de férias talvez pudesse convencer seu pai disso. No entanto, sabia que poderia ser altamente repreendido. Apesar disso o garoto era destemido e achou melhor tentar conversar.

Quando seu pai chegou à cozinha o garoto sorriu e lhe deu um bom dia. O homem limitou-se a responder, ainda que secamente. No entanto, o garoto não podia perder a chance.

- Er... Pai será que eu posso conversar com o senhor um instante?

- Conversar comigo moleque? Para que?

- É que eu... Sabe... Eu tenho vontade de...

- De o que Yutaka? Anda logo.

- Eu queria tocar bateria. Mas sem incomodar o senhor e a mãe. Eu posso tocar em algumas revistas velhas ou algo assim, queria apenas a ajuda do senhor para poder pagar as aulas.

- O que eu ganho te pagando essas aulas?

Yutaka ficou calado. Tentou pensar em algo convincente, mas nada de muito especial, digamos assim, lhe vinha à mente. Mas, ele tinha que arriscar.

- Eu não sei o que mais poderia fazer pelo senhor pai. Não acho que faço demais, porque o senhor sempre me disse que os filhos devem fazer tudo pelos pais, mas eu queria fazer alguma coisa nessas férias sabe?

- Esta bem Yutaka, está bem. Mas eu não vou te dar uma bateria, você vai ter que arrumar um trabalho para poder comprar uma e deixar no seu quarto. E vai ter as horas certas em que poderá tocar.

O garoto sorriu alegremente. Seu pai não correspondeu, mas Yutaka não conseguia pensar em mais nada. Estava feliz demais para pensar em coisas ruins. Terminou o café dos pais e correu para seu quarto, consequentemente para seu computador.

Pesquisou diversas escolas de bateria e os preços de cada uma. Aproveitou e viu os preços dos instrumentos. Aquilo o desanimou por uns momentos, visto que ele demoraria a ter dinheiro para comprar uma bateria. Precisaria treinar com livros ou qualquer outra coisa que tivesse, mas não iria desistir de seu sonho de tocar.

A tarde foi com seu pai numa escola que havia perto de sua casa. Uma das poucas vezes em que saiu com ele, e ainda assim os dois não trocaram uma palavra. Adentraram o local, uma espécie de escola, até mesmo em níveis de grandiosidade. Havia uma área para atendimento, onde os dois esperaram e foram atendidos por uma única secretária.

- Bom, senhor, creio que o senhor esteja ciente do preço da mensalidade, e dos outros custos.

- Sim, sim, estou ciente de tudo. Quero apenas saber quando as aulas começam.

- Antes de qualquer coisa, o senhor precisa assinar aqui, e escolher o professor para seu filho. Existem vários professores dando aula aqui, mas para os iniciantes, apenas três.

- Watanabe Raphael.

— Certo. Portanto é só assinar aqui e tudo estará pronto.

O pai de Yutaka o olhou uma última vez antes de assinar. Estava visivelmente desinteressado nesse assunto de aula de bateria, então apenas assinou e voltou para casa, sem, claro, andar junto com o próprio filho.

- Eu vou na frente, e não ande como se estivesse me seguindo.

O garoto assentiu e permaneceu na escola por dez minutos antes de então, sair. Não encontrou seu pai em nenhuma parte do caminho, e apesar de toda essa ignorância por parte dele, Yutaka estava feliz. Suas aulas começariam na semana seguinte e ele estudaria até suas aulas começarem novamente. Após isso as aulas iriam para sábado e o custo da mensalidade baixaria. Aliás, foi justamente por isso que seu pai o inscreveu na tal aula.

Yutaka chegou em casa visivelmente feliz. Seu pai havia chegado alguns minutos antes, e por algum milagre, a comida estava pronta. O garoto achou estranho, no entanto não reclamou. Deixou os pais jantarem e logo em seguida fez o mesmo. Dessa vez atendeu o chamado de seu pai e não apanhou, o que fez com que a comida descesse sem muitos problemas.

Arrumou tudo, como sempre, e foi para seu quarto. Só conseguia pensar nas suas aulas e que duas vezes por semana ficaria longe daquela casa por algumas horas. Com isso o garoto foi dormir com um sorriso no rosto, coisa que não acontecia com tanta freqüência.

Assim os dias foram passando e Yutaka ia contando nos dedos quanto faltava para suas aulas começarem. No dia anterior ao combinado o garoto quase não conseguiu dormir e quando levantou de manhã nem o fato de ser ignorado pelos pais o impediu de fazer tudo e sair na hora certa de casa para chegar em sua aula.

Quando chegou à escola Yutaka se deparou com diversos rostos novos. Diversas pessoas, tanto homens quanto mulheres conversavam sobre várias coisas. O garoto escutava nomes de bandas e artistas internacionais, mas resolveu não dar muita atenção e foi para sua sala. E para seu espanto, havia apenas uma bateria, uma lousa e uma única cadeira.

Yutaka ainda bateu os olhos no papel que estava com ele, e confirmou que aquela era sim sua sala. Achou estranho, mas por fim, entrou. Não demorou muito e um homem, ostentando seus trinta anos, de cabelos que ultrapassavam o ombro e totalmente desgrenhados e muitas tatuagens, adentrou a sala.

- Uke Yutaka?

- Sim, senhor. – Yutaka sorriu.

- Olha covinhas.

O garoto sorriu e assentiu.

- Bem Yutaka, o que te fez querer aprender a tocar bateria?

O homem sentou-se na outra cadeira que havia na sala, de frente para o garoto.

- Ah desde que eu tinha onze anos eu tenho essa vontade de tocar bateria. Quero ter uma banda ainda.

- Uma banda? Gostei da idéia. E já tem nome para essa banda?

- Ah não, isso ainda não. Nem ao menos conheço alguém que toque qualquer instrumento.

Raphael riu e Yutaka fez o mesmo.

- Bem, tem mais algum motivo que o tenha feito vir pra cá?

- Ah, sabe, eu queria ficar um pouco longe de... De...

- De que?

- De casa, senhor.

- Você tem problemas com seus pais?

Yutaka retraiu-se na cadeira.

- Eu... Eu prefiro não falar sobre isso.

- Olha, eu respeito a sua decisão, mas não se preocupe, se você tiver um problema em casa, acredite, seu pai também tem um agora, porque escolheu o professor mais calado desse lugar. Se precisar desabafar ou contar o que for, pode vir até mim que eu vou escutar você. Porque acha que eu dou aula particular?

O garoto sorriu feliz.

- Eu agradeço sensei.

- Aliás, nem me apresentei. Meu nome é Watanabe Raphael.

Yutaka assentiu e o homem começou com sua aula. O garoto estava completamente compenetrado em cada palavra que Raphael dizia. Foi, sem dúvida, o melhor dia de suas férias. E ele sabia que as coisas começariam a melhorar, visto que suas férias seriam passadas ali, praticamente.

- Olha Yutaka-chan, se eu corri muito ou semelhante você vê se me dá uma bronca porque nem todo mundo pega as coisas da forma que eu falo.

- Não sensei tudo bem, eu entendi tudo que o senhor falou.

- Principalmente a parte em que eu quero ser seu amigo?

O sorriso do rosto de Yutaka sumiu e ele baixou a cabeça quase que imediatamente.

- Não acredita em mim?

- Acredito sim, senhor. Mas é difícil pensar nisso.

- E você apenas ignora?

- Sim, dói menos.

Yutaka pensou em tudo, menos no que de fato aconteceu. Ele sentiu seu professor lhe abraçando como se o conhecesse há anos. Aquilo era um tanto quanto estranho, mas para Yutaka era a melhor coisa que podia ter acontecido. Afinal de contas, ele nunca havia abraçado alguém antes.

- Quando precisar desabafar, venha aqui para a escola. Eu vou te escutar.

- Arigatou, sensei.

Os olhos do garoto se encheram de lágrimas e ele saiu da sala surpreso, mas totalmente feliz. Sabia que, pelo menos aparentemente, havia encontrado um amigo, e bem, iria abraçar mais ainda sua causa de tocar bateria. Agora, talvez não tanto pelo instrumento, não que ele tivesse perdido importância, mas sim por ter alguém que ele podia contar.

Claro que a felicidade de Yutaka estava ficando visível. Ele tentava esconder, mas seu pai por diversas vezes o perguntou por que ele ficava sorrindo tanto. O garoto apenas dizia que estava feliz com as aulas, mas não, era mais do que isso. No entanto ele ficou alerta e evitava sorrir tanto. Estava feliz, claro, mas ‘’descontava’’ sua felicidade nas revistas que ele usava como bateria e até mesmo em outras coisas.

Yutaka ficou meio chateado quando o natal chegou, pois, só veria seu professor novamente na segunda semana de janeiro. Tentou agüentar seus pais, mas acabou passando a data chorando, pois, eles foram para casa de parentes e nem ao menos deixaram algo para ele comer. Pelo menos não feito. E o natal do garoto foi apenas arroz com peixe que ele acabou vomitando por ter chorado tanto.

Aliás, aquilo o estava preocupando. Ele sabia que devia estar doente ou algo parecido, mas bem, não tinha como consultar um médico, visto que seus pais saberiam que ele anda vomitando e aí a surra seria maior. Ele apenas comeu, vomitou e foi deitar.

Seu ano novo também foi solitário, mas desta vez ele conseguiu comer alguma coisa. Seus pais ainda não tinham retornado e ele passou a data chorando também. Tentou não se preocupar muito com isso, mas precisava comer algo e manter no estômago.

Assim os dias solitários do garoto foram passando até que ele retornou para suas aulas de bateria. Aquilo, claro, foi maravilhoso.

- Hei Yutaka-chan, meu aluno virtuoso.

- Virtuoso sensei? Eu só me esforço o máximo que posso. – O garoto sorriu.

- E isso é ótimo, muito bom mesmo.

Raphael sorriu, mas notou que Yutaka estava mais magro. Tentou disfarçar e eles conversaram um pouquinho antes dele dar a aula. Tudo ocorreu normalmente, como era de se esperar, no entanto, quando a aula terminou, e Yutaka arrumou suas coisas, Raphael sentou-se em sua cadeira e pediu que o garoto esperasse um pouco.

- Yutaka-chan, nós podemos conversar?

- Sim sensei, as coisas estão arrumadas lá em casa, então hoje eu tenho um tempo.

- As coisas estão arrumadas? Yutaka é você que lava, passa e cozinha na sua casa?

Com muito custo o garoto assentiu.

- Sabe sensei, desde que eu me lembro meus pais nunca me olharam muito, nem nunca brincaram comigo ou me abraçaram. Apenas me batem e me obrigam a fazer as coisas com desculpa de dizer que os filhos nascem para fazer as coisas para os pais.

Raphael estava estupefato e Yutaka chorava.

- Sabia sensei, que a primeira pessoa que me abraçou foi o senhor?

Yutaka caiu ao perto de sua cadeira e Raphael foi até ele, abraçando-o.

- Calma Yutaka, calma, não chora.

- Dói chegar em casa e saber que eu vou ser ignorado pelas pessoas que eu mais amo. Eu não consigo odiá-los eles são meus pais.

- Yutaka, eles maltratam você, isso não é amor.

- Eu não sei por que eles fazem isso, mas eu sei que dói, e muito. Mas eles nunca me falam porque agem dessa forma, eu apenas escuto mudo e saio calado, mais nada.

Raphael abraçou seu aluno e tentou lhe ajudar dizendo algumas coisas. Agora ele sabia por que Yutaka gostava tanto das aulas. Não que ele fosse lá apenas para fugir de casa, ele realmente mostrava que gostava de tocar bateria. Mas é claro que ficar fora de casa para ele era uma benção. E algo que ele não abriria mão se isso o fizesse ficar melhor.

- Yutaka, não fraqueje. Nesse mundo nós precisamos ser fortes e pode ter certeza que no seu futuro eu vejo um baterista brilhante e que vai fazer esse Japão e o resto do mundo pular ao som de cada coisa que você fizer. Apenas acredite e seja forte.

- Eu tentarei sensei, eu tentarei.

Raphael abraçou uma última vez seu aluno e o deixou ir embora. Depois daquele dia os dois ficaram mais próximos e compartilhavam lágrimas direto. Aquilo os aproximou muito, mas quando o primeiro dia de aula no ensino médio de Yutaka chegou, ele sabia que só veria o professor aos sábado e aquilo machucou um pouco. Mas, saber que ficaria fora de casa o dia inteiro era maravilhoso também.

Com essa convicção o garoto foi para a escola. Era um lugar enorme, e vários de seus colegas de classe foram para lá. No entanto, nenhum deles caiu na sala de Yutaka. Todavia, como os alunos se sentavam em duplas, Yutaka pensou que logo conseguiria fazer amizades.

Como tinha certo afeto por estudar, sentou-se na frente. Os alunos foram adentrando a sala e nenhum deles quis se sentar com Yutaka. Ele estava acostumado com isso, mas machucava um pouco. Ainda havia alguns lugares vagos na sala, no entanto, Yutaka viu um garoto com um visual meio largado adentrar a sala. Seus cabelos eram pretos e estavam arrepiados provavelmente com gel. Ele tinha um ar mal-encarado, e bateu o olho na mesa de Yutaka, sentando-se ao lado do garoto.

Ok, Yutaka não julgava ninguém antes de conhecer, mas pelo amor de Kami-sama tinha que ser um cara mal-encarado sentando ao lado dele?

Enfim. Logo o sensei adentrou a sala e todos se apresentaram. Yutaka descobriu que o nome de seu ‘’amigo’’ era Akira. Suzuki Akira. Ele não parecia ser mal ou coisa parecida, só não tinha cara de quem queria fazer amigos.

No entanto, Yutaka quis parecer amigável e escreveu um bilhete com um ‘’Oi’’ e colocou perto do garoto, sem ao menos olhá-lo. Ele não sabia o que pensar, mas resolveu não olhar para o tal Akira. Aliás, ele não respondeu nada de imediato e Yutaka resolveu prestar atenção apenas nas aulas.

Quando o sinal para o intervalo tocou, porém, Yutaka fez menção de levantar e escutou uma voz ao seu lado.

- Oi.

Aquilo fez o garoto se virar para o outro e sorrir, deixando todas as suas covinhas à mostra.

- Desculpa o jeito de dizer oi, é que o sensei não ia deixar a gente conversar.

Akira teve que se concentrar no que o garoto dizia para não se perder no meio daquelas covinhas que ele interiormente descreveu como sendo ‘’a coisa mais fofa que ele já tinha visto na vida’’.

- Não, tudo bem, eu entendo você. De qualquer forma, prazer, Suzuki Akira.

- Prazer, Uke Yutaka.

- Só uma pergunta, você é Uke só no nome?

- Como é que é?

Yutaka ficou vermelho e Akira riu. Não uma risada maldosa, passava longe disso. Era algo mais alegre e divertido, como se os dois se conhecessem há muito tempo.

- Perdão, eu não resisti.

- Não, tudo bem, eu acho.

- Desculpa mesmo, é que sabe ninguém nunca fala comigo assim tão rápido.

- Nossa, por quê?

- Não faço idéia, huum, como posso te chamar, Yutaka-chan. Mas, eu acho que as pessoas não gostam de mim sabe? Elas me ignoram.

- Ah, eu sei como é isso.

Enquanto conversavam os dois saíram da sala e foram para uma área qualquer do pátio. Apesar de terem acabado de se conhecer, pareciam se dar muito bem já.

- Você também é ignorado?

- Sim, pelos meus pais.

- Cara, isso é cruel.

- Você é ignorado nas escolas?

- Sim, eu não tenho amigos. Saí da minha antiga escola sem nem ter falado com qualquer pessoa que fosse.

- Eu não sei dizer, mas acho que doeria menos ser ignorado do lado de fora do que do lado de dentro. A dor seria menos intensa.

- Você acha?

- Sim. Bem, pelo menos foi o meu professor de bateria que disse isso.

- Uou, você toca bateria?

- Sim, eu quero ter uma banda sabe?

- Cara, você é dos meus. Eu tenho um único amigo, e ele é vocalista. Eu toco baixo, só pra te situar. Sei lá, talvez a gente pudesse marcar de se ver e fazer uns covers.

Yutaka baixou a cabeça por uns instantes deixando o novo amigo um tanto quanto curioso. Afinal de contas, ele havia acabado de conhecer Akira e não podia sair contando toda a sua vida para ele. Mas, de alguma forma, ele parecia que realmente estava ao lado de Yutaka e não o faria mal. Por fim, o garoto resolveu arriscar.

- Na verdade, seria perfeito, mas bem, eu não tenho uma bateria, e...

- E?

- Meu pai não deixaria.

- Mas, você não disse que seus pais te ignoram?

- Não, Akira-san, eles me ignoram no sentido de me dar amor e carinho. Mas exigem que eu faça tudo em casa e eu não posso sair pra me divertir.

Akira estava surpreso. Ok, ele tinha problemas, mas pelo menos tinha uma família um pouco mais compreensiva em casa.

- Cara, isso é tão horrível.

- Você não faz idéia como.

Duas lágrimas se formaram entre os olhos de Yutaka. Ele tentou virar o rosto, mas Akira percebeu, e, indo de encontro ao garoto passou a costa de dois dedos sobre seus olhos, impedindo que as lágrimas caíssem.

- Oe Yutaka, eu sei que acabei de te conhecer, e conheço extremamente pouco sobre você, mas não chore. Sei lá, não sei tudo sobre você, mas sei que nossas lágrimas não merecem ser derramadas para algumas pessoas. Seria privilegio demais de elas nos verem chorando.

- Você acha?

- Tenho certeza.

O garoto tentou sorrir e agradeceu. O sinal logo tocou e os dois voltaram para a sala. Passaram o resto da tarde querendo conversar, mas, claro, sem poder. Despediram-se como se fossem amigos há muito tempo e cada um pegou seu rumo para casa.

Yutaka chegou em casa sendo xingado pelo pai. O garoto havia deixado um prato já lavado e seco em cima da pia porque teve que correr para a escola. Aquilo era, obviamente, um absurdo, no entanto, era a realidade de Yutaka. Ele pediu perdão diversas vezes e guardou o prato, e logo foi para seu quarto. Como estava estudando em tempo integral, sua mãe teria que fazer praticamente tudo agora, e aquilo deixou o garoto extremamente feliz.

Todavia, apesar dessa mudança, ele ainda tinha que esperar os pais jantarem, para então poder fazer isso. Depois tinha que guardar tudo, e assim que o fez foi se deitar. Só então lembrou das palavras de Akira e jurou para si mesmo que daquele dia em diante, seria forte.

Acordou pela manhã bem disposto, até. Fez seu café e o dos pais. Comeu rapidamente antes que eles aparecessem, lavou tudo e saiu de casa. Provavelmente seria repreendido, e aquilo lhe dava certo medo, mas bem, Yutaka tinha que tentar mudar aquela situação, ou não agüentaria ficar em casa mais três anos.

Chegou à escola sete e cinqüenta e foi para sua sala. Akira já estava lá.

- Ohayo Yutaka.

- O-Ohayo, Akira-san.

- Hei, aconteceu alguma coisa? Você parece meio nervoso. E pare de me chamar de –san. Apenas Akira está bom.

- Eu estou com medo.

- Medo?

- É eu tomei café antes dos meus pais e saí de casa sem lavar a louça deles.

- Yutaka, você não pode fazer essas coisas por esses idiotas.

- Eu sei, mas com eles não tem conversa, Akira, e eu sei que quando não faço algo que agrada só uma coisa me espera.

Yutaka estava visivelmente nervoso, mas Akira o abraçou pelo menos como conseguiu.

- Yutaka, e se você não for para casa hoje? Será que as coisas não vão amenizar?

- Eu duvido muito, talvez a surra fosse até pior. E além do mais, para onde eu iria?

- Ué, para a minha casa.

Como é que é?

Notas finais
Até o próximo