Cicatrizes da Alma

5 ‘’Ainda havia salvação?’’


Notas iniciais
Peço que me perdoem por qualquer erro que ainda houver.

Boa Leitura.

Aoi estava estático. Uruha não sabia mais o que pensar. Ruki, Reita e Kai choravam muito. Era como se as coisas tivessem acabado de acontecer. Aquilo machucava demais e agora estava claro porque Kai usava camisas de manga tão compridas e Reita não tirava a faixa. Eles não conseguiam mais continuar falando e Aoi acabou demorando um pouco também por causa de toda a informação recebida, mas foi até a cozinha e pegou três copos e uma jarra com água.

Kai e Ruki chegaram a tomar a água, mas Reita permanecia com a cabeça baixa e ainda chorava. Para ele era difícil encarar aquilo.

- Reita, levanta essa cabeça. – Disse Aoi depois de um tempo – Você realizou seu sonho e cumpriu sua promessa. Você é baixista, tem uma banda, e deu uma vida melhor para o Kai. Tenha orgulho disso e toda vez que você se olhar no espelho lembre que mesmo aquele maldito tendo feito o que fez você conseguiu.

Aos poucos o baixista pareceu sugar todas as palavras que Aoi disse. Ergueu a cabeça e abraçou Kai. Os dois permaneceram assim por um tempo até Reita finalmente aceitar a água.

- Vocês têm certeza que querem continuar?

- Pra quem chegou até aqui Aoi, o resto até é mais calmo. – Respondeu Reita.

‘’Akira havia sido levado para a área de queimados onde começou a receber tratamento. Sua mãe e Takanori estavam apreensivos, e mesmo ciente do grau da queimadura, Akira até estava calmo. Estava com uma dor forte, claro, mas uma anestesia fez o garoto conseguir suportar melhor. Toda a aparelhagem estava devidamente à disposição dos médicos e sua mãe e Takanori só podiam esperar.

Raphael também estava em estado de desespero. Encontrava-se numa outra ala do hospital e chorava muito. Yutaka tinha ido para uma cirurgia e o professor só conseguia lembrar de como encontrou o menino, totalmente inconsciente e quase morto. Havia perdido muito sangue e agora só Deus o salvaria. ’’

- Eu me lembro que o Rapha me disse que quando ele chegou e a polícia saiu quebrando tudo pra poder entrar, meu pai tinha acabado de me desmaiar e os policiais foram para cima dele e da minha mãe. Ele disse que me levou numa viatura pro hospital e depois disse que algumas coisas não precisavam ser relembradas.

‘’As horas pareciam intermináveis. Akira tinha ido para um quarto descansar, ainda que a base de remédios, visto que a dor ainda era lancinante. Sua mãe tinha recebido os devidos cuidados e dormia no quarto com Akira, mas em uma cadeira.

Já Takanori tinha ido para a ala de traumatologia para ficar com Raphael. O professor ainda chorava muito.

- Nada ainda, Raphael?

- Veio um enfermeiro aqui e disse que mais uma hora e talvez eles terminem.

Takanori respirou fundo e sentou-se ao lado do professor. Infelizmente eles só podiam esperar. E essa, definitivamente era a pior parte. Esperar...

Eles acabaram adormecendo e Raphael foi acordado por um enfermeiro algum tempo depois. No entanto, Takanori acabou acordando também.

- A operação já terminou?

- Já, sim senhor. Mas, o medico precisa falar com o senhor.

Tudo que uma pessoa não precisa é escutar um ‘’mas’’ dentro de um hospital. Ele olhou para Takanori e pediu que lhe esperasse enquanto ia falar com o médico. Seu coração disparou quando ele chegou em frente ao quarto onde Yutaka estava. O médico lhe esperava.

- Como foi a operação, doutor?

- A operação em si, senhor, foi um sucesso. No entanto, e pela forte pancada que ele recebeu na cabeça, o coma foi inevitável.

Raphael começou a chorar imediatamente. Ele não podia imaginar que Yutaka não sairia vivo daquilo. O médico o levou de volta para a sala de espera, onde a mãe de Akira se encontrava, junto com outras pessoas. Todos olharam para o professor que chorava muito.

- Senhor, por favor, se sente. Eu preciso saber quem são vocês que vieram com aquele jovem e o que são dele.

A mãe de Akira acabou respondendo. Raphael estava em choque e abraçado com Takanori. O médico foi com a mãe de Akira para a recepção onde resolveu tudo o que precisava e então retornou par a sala, para ficar junto com o professor. O médico retornou e chamou os dois de canto, novamente deixando Takanori sozinho.

- O coma foi causado por uma pressão intracraniana e nós colocamos um tubo para aliviar a pressão no cérebro. As lesões nos braços, nas pernas e no rosto nós já cuidamos, mas ele está muito machucado. Nós vamos tomar os devidos cuidados, mas infelizmente só resta esperar.

Raphael abraçou a mãe de Akira e começou a chorar. Ele não conseguia imaginar tendo que levar um caixão com Yutaka dentro. Aquilo fazia seu coração gelar. O medico pediu licença e se retirou, e a mãe de Akira levou Raphael para a sala de espera. Lá, ele conversou com Takanori.

- Taka-chan, o Yutaka está em coma. Você consegue entender o que é isso, não?

- Sim, eu consigo sim. – Disse o garoto com lágrimas nos olhos.

Takanori abraçou Raphael e os três permaneceram na sala de espera. As horas foram passando, pessoas entravam e saíam daquela sala, alguns médicos vieram avisar sobre falecimentos de algumas pessoas e aquilo estava matando Raphael. Ele acabou mandando Takanori para casa e foi com a mãe de Akira tomar um café. Eles precisavam sair daquele hospital.

Foram até uma lanchonete perto do hospital onde ficaram por quase uma hora, conversando sobre tudo que aconteceu. Não era fácil para nenhum dos dois segurar aquela barra tão pesada, mas eles sabiam que precisavam ser fortes, principalmente Raphael. Ele sabia que Yutaka não teria para onde ir, então precisava agüentar o máximo que conseguisse.

Só depois de muito custo os dois voltaram para o hospital e foram para a área de queimaduras, até o quarto de Akira. Ele estava deitado, com alguns aparelhos em seu corpo para medir seus batimentos cardíacos e pressão. A faixa de seu rosto que foi atingida estava protegida por um curativo relativamente raso apenas para evitar infecção. Ele olhou para os dois como conseguia, visto que abrir os olhos doía um pouco, e deu um pequeno sorriso.

- Akira, meu filho, você está bem?

O garoto não conseguia falar e respirava com ajuda de um tubo, para não forçar seu nariz, que havia sido queimado também, então assentiu levemente com a cabeça. Raphael ia adentrar mais o quarto quando o médico de Yutaka o chamou.

- O senhor me disse que eles dois são próximos. Não sei se é uma boa coisa você contar sobre o coma.

Raphael ia dizer algo, mas a mãe de Akira saiu do quarto no mesmo instante.

- Eu disse que ele está dormindo ainda

- Não tem problema, — Disse Raphael – pelo menos alguma coisa ele já sabe.

O médico deixou os dois e eles voltaram para a traumatologia, onde foi permitido que Raphael entrasse na UTI por alguns minutos para ver Yutaka.

O garoto estava relativamente... Calmo. Respirava com ajuda de aparelhos e estava sendo todo monitorado. Raphael havia escutado que as pessoas em coma conseguem ouvir tudo que se fala, então resolveu arriscar. Baixou o rosto para perto do ouvido de Yutaka e lhe falou.

- Apesar de estar um pouco machucado, o Akira-san está bem.

A resposta foi imediata. Yutaka respirou fundo, como se estivesse aliviado. Raphael sorriu e beijou a mão do garoto.

- Trate de ficar bem, Yutaka.

Saiu do quarto e voltou para a sala de espera. Aliás, agora, era só o que todos ali podiam fazer. Os dias foram passando, Takanori sempre voltava da escola e ia ver os amigos. Akira aos poucos foi saindo do respirador e conseguiu voltar a comer coisas sólidas. Conseguiu falar novamente uma semana depois do que aconteceu, mas decidiu não mais se olhar no espelho, e começou a usar uma faixa que cobria exatamente onde foi queimado. Só uma semana e meia depois foi descobrir sobre Yutaka. E aquilo doeu.

- Droga, vocês não podiam ter escondido isso de mim! – Disse o garoto chorando.

- Akira isso foi pro seu bem. Você estava respirando a base de um tubo, não podia passar nervoso.

- Eu quero ver ele Raphael, eu quero.

- Vem cá falar com o médico para ver se você pode.

Akira teve que insistir muito para poder ver Yutaka, mas por fim o médico deixou. Ele chorou um pouco, mas pegou na mão do namorado e disse algumas doces palavras enquanto a beijava. Yutaka respirou profundamente algumas vezes fazendo um sorriso brotar nos lábios de Akira, apesar de ele sentir um pouco de dor.

No entanto Raphael não conseguia se alegrar, e apesar de ficar feliz com as reações do namorado, Akira também não conseguia ficar bem. Aliás, ninguém conseguia. Duas semanas se passaram e Yutaka não acordava de forma nenhuma. Aquilo era preocupante até mesmo para o médico do garoto, que, bem, também estava achando o coma um tanto quanto longo.

- Doutor você acha que ele sai vivo dessa?

- Admito que já faça um tempo, senhor Raphael, até longo que seu, hum, como posso chamá-lo?

- De filho, por favor.

- Certo. Já faz tempo que seu filho está em coma, e isso é preocupante.

- Ele pode morrer, não é?

- Se o senhor mandar desligar os aparelhos.

- Chance de recuperação total?

- Eu não descarto, mas, reze. Porque a situação dele é delicada.

- Eu entendo.

Aquelas conversas com o médico estavam deixando Raphael cada vez mais preocupado. Ele tinha medo que Yutaka ficasse com seqüelas ou que não pudesse sair mais dos aparelhos. E aquilo era desesperador, tanto para ele, quanto para a mãe de Akira e Takanori, e claro, para o próprio Akira.

Com mais ou menos três semanas de coma, Akira começou a passar o tempo inteiro em frente à UTI, e mesmo que suas pernas doessem, ele não se mexia. Para Raphael estava mais do que claro que aqueles dois iriam mesmo passar muitos anos juntos. E claro, sem os pais de Yutaka por perto, isso seria possível.

Enquanto divagava, Raphael viu o médico de Yutaka se aproximar de Akira e lhe dizer algo. Logo depois viu o garoto adentrar o quarto da UTI.

Akira estava apreensivo. Há três semanas Yutaka estava em coma. Para ele era tempo demais. Chegou perto dele e segurou sua mão, como sempre fazia. Algumas lágrimas desceram quase que de imediato pelos olhos de Akira e ele beijou a mão de Yutaka e acarinhou-a, enquanto todo o quarto era preenchido apenas pelo som dos aparelhos.

No entanto, enquanto observava Yutaka, Akira baixou os olhos rapidamente para sua mão quando sentiu que algo se mexia nela. Foi quando viu que os dedos de Yutaka começaram a se mexer e o garoto respirou mais forte, como algo que Akira entendeu sendo: Hei, eu estou vivo, e vou acordar, pode esperar.

Quando por fim Yutaka parou, Akira saiu correndo atrás do médico, que estava com Raphael.

- Doutor, o Yutaka se mexeu.

Akira sorria deliciosamente. Raphael quase deu um pulo da cadeira e junto com o médico os dois foram para o quarto. O médico deu uma olhada nos aparelhos e Raphael sentiu duas lágrimas descerem por seus olhos quando o garoto novamente mexeu os dedos. O médico, quando viu, virou-se para o professor.

- Ele vai ficar bem.

Raphael gritaria o mais alto que pode se claro, fosse permitido. Ele foi para a sala de espera e abraçou Akira. Tanto os dois quanto Takanori e a mãe de Akira que estavam realmente felizes com aquela notícia.

A partir dali as coisas realmente começaram a melhorar. Yutaka mexia mais os dedos, apesar de ainda não acordar. Todos estavam esperançosos, e a equipe que cuidava de Yutaka fazia orações junto com Raphael e os outros torcendo pela melhora do garoto.

Foi quando, mais ou menos umas quatro semanas e cinco dias depois de Yutaka ter entrado em coma, e Akira estar na UTI com ele, o garoto começou a mexer os dedos, e quando Akira notou, ele aos poucos foi abrindo os olhos. Akira quase se beliscou para ver se não era mentira. Um sorriso se formou quase que imediatamente e ele deu um abraço meio desajeitado em Yutaka. Como ele ainda usava o respirador não conseguiu falar, mas deu algo parecido com um sorriso.

Akira saiu correndo atrás dos médicos e um dia depois Yutaka se recuperava num quarto fora da UTI. Raphael não lhe contou sobre o que aconteceu com seus pais, e o garoto também não perguntou. Chorou muito quando viu o rosto de Akira, mas jurou que iria ajudar o namorado a lidar com aquilo.

Yutaka também teria que fazer fisioterapia, mas só o tempo diria se ele voltaria ou não a tocar bateria’’.

- O fim da história vocês conhecem. – Disse Kai, mais calmo.

Aoi e Uruha assentiram. Reita estava mais calmo também, e principalmente aliviado por dentro, assim como Kai. Ruki estava melhor, mas sabia que ainda havia a outra parte.

- Tudo se encaixa perfeitamente. – Comentou Aoi – O Kai escondendo os braços, o Reita nunca tirando a faixa.

- É olhar para essas marcas ainda dói. – Comentou Kai.

- Pelo menos você e o Reita realizaram seus sonhos não? Isso é motivo para se alegrar.

- Eu não tiro sua razão Aoi – Disse Reita – mas é difícil se sentir gente se olhando no espelho e vendo isso.

Reita baixou a faixa deixando a marca da agressão de seu pai à mostra.

- Isso nunca vai mudar a pessoa que você é, Reita. É compreensível você ter repulsa disso, mas não fique se achando uma aberração. Porque você não é.

Kai aproveitou e ergueu as mangas de sua camisa, mostrando as cicatrizes para os amigos. Levantou as barras da calça e mostrou as outras cicatrizes. Eram marcas realmente doloridas e que tinham muita história, mas agora que os amigos sabiam Kai não tinha mais problemas para deixar à mostra.

- Oe Kai, você quer uma camiseta minha emprestada? É melhor do que essa blusa nesse calorão.

- Eu vou aceitar Uru, antes que eu morra desidratado.

Uruha riu e os dois foram para o quarto. Aoi começou há bocejar um pouco e só então se lembrou que não havia dormido direito. Viu Reita ir para o banheiro e ficou a sós com Ruki.

- Depois disso, Ruki, não é difícil entender a sua mudança.

- Lembrar de tudo que aconteceu chega a endoidar.

- E ainda tem o Kou.

- Acha que ele consegue contar?

- Eu não sei, mas acho que não. Ele sente vergonha.

- Apesar de fazer tanto tempo, ainda parece que foi ontem.

Aoi ia responder, mas viu Kai passando correndo em direção a cozinha.

- Ué, que será que aconteceu?

- Não sei Ruki, mas vai atrás dele que eu vou lá no quarto.

Ruki assentiu e enquanto ia para a cozinha, Aoi foi para o quarto. Adentrou o ambiente e viu Uruha se levantando.

- Oe, Kou, você ta bem? – O moreno foi até o namorado, ajudando-o a ficar de pé.

- Sim, é que me deu tontura. Deve ter sido por causa do sangue e porque eu não comi quase nada mais cedo.

Aoi ajudou o namorado a se sentar e no mesmo instante Kai e Ruki apareceram. O baterista entregou um pouco de sal para o amigo e ele colocou embaixo da língua. Como já havia entregado a camiseta para Kai, o guitarrista ficou um tempinho sentado antes de levantar, com a ajuda de Aoi, claro. Os quatro então foram para a sala e Reita já se encontrava lá.

Os quatro se sentaram novamente e Aoi notou que Uruha começou a tremer. Ruki também percebeu.

- Você está bem Kou?

- É que relembrar aquilo... – Ele apertou os olhos – Vai doer tanto.

Uruha baixou a cabeça e Aoi o abraçou como conseguia.

- Oe Uruha, se quiser a gente deixa para amanhã.

- Mas, Reita você e o Kai-

- Isso não significa que você precisa contar hoje. Até porque você também teve esse problema com o seu braço e o Aoi ta cansado. Acho que ninguém tem condições de continuar com isso hoje. Tenta descansar e amanhã a gente volta.

Os cinco se olharam e com um veredicto de Ruki eles decidiram voltar no dia seguinte. Reita e Kai levaram Ruki embora e Aoi e Uruha foram comer alguma coisa. Não estavam muito animados para conversar, mas não era como se eles fossem ficar calados um com o outro.

- Como você está Uru?

- Do braço até que bem.

- E do coração?

- Ansioso. Eu não sei se vou conseguir contar, Aoi. Dói tanto.
— Se você quiser, eu conto. – Disse Aoi levando uma de suas mãos até a mão do namorado.

Kouyou não disse nada, apenas assentiu. Eles terminaram de almoçar e foram para a sala tentar ver alguma coisa. Aoi colocou um filme e os dois ficaram abraçados enquanto assistiam. No entanto, nenhum deles estava, de fato, compenetrado naquilo. Uruha ficava pensando em como contaria sua vida para os amigos. Ele sabia que precisaria ter muita coragem.

Já Aoi não parava de pensar em Kai e Reita, apesar, claro, de estar pensando em Uruha também. Eram três problemas acumulados e muito fortes para que apenas uma pessoa pudesse sustentar. Ele se perguntou como os dois conseguiram agüentar onze anos, calados e sem qualquer ajuda, apesar, claro, de seu namorado também fazer o mesmo. Mas, é claro que como Aoi não tinha nenhum problema tão forte, podia ajudar mais Kouyou. Já Reita e Kai não conseguiam ajudar a si mesmos, quanto mais o outro. E claro Aoi se perguntava como Ruki conseguiu agüentar os três problemas tão calado como estava.

- Oe Yuu, já passou uns vinte minutos de filme, você entendeu alguma coisa?

- Nenhuma palavra.

Os dois riram e acabaram prestando atenção mais em si mesmos do que no filme. Não estavam animados para qualquer coisa que fosse, e como o sono começava a tomar conta de Aoi eles resolveram se deitar e tentar descansar um pouco.

Na casa de Kai ele e Reita tentavam se acalmar. Os dois estavam sem fome e ainda desnorteados. O baterista foi para a sala e se sentou no sofá fitando o nada. Reita sentou-se a seu lado e lhe deu um abraço, beijando-o na testa.

- Você está bem Kai?

- Aliviado por ter contado, mas parece que só isso não vai afastar os nossos fantasmas da gente.

- E o que você sugere?

- Eu não sei talvez procurar um psicólogo.

- Kai, a gente não tem tempo para isso.

- Mas Reita, alguma coisa precisa ser feita.

Reita não disse nada. Segurou o rosto de Kai com as duas mãos, ainda que delicadamente, fitando-o, olhos nos olhos.

- Você acha que a gente pode?

- Depois de tudo que a gente passou Reita, eu tenho certeza que a gente tem mais do que direito.

Dessa vez Reita realmente não respondeu. Beijou Kai e foi tomar um banho. O baterista foi logo em seguida para o quarto e se deitou, adormecendo logo em seguida.

Ruki não sabia como estava. Só sabia que queria mais do que nunca ajudar os três a superar aquilo. Não sabia como, mas queria. Tinha certeza de que seu tempo seria curto, mas tinha mais certeza ainda de que eles precisavam de tratamento. Nenhum dos três havia ido a um psicólogo quando tudo aconteceu, e bem, sabia que o pior de tudo ainda estava para ser revelado.

O passado de Uruha não era mais ou menos importante do que o de Kai ou Reita, mas, a dor parecia sim ser mais intensa. Ruki sabia que reviver toda aquela dor ia ser devastador para o guitarrista, mas também sabia que seria melhor que ele contasse. Pelo menos assim, e com o apoio de Kai e Aoi, Reita e Uruha se convenceriam a procurar ajuda.

Todavia, para Ruki estava difícil pensar naquilo. Ele estava cansado e resolveu tomar um banho. Deitou-se em sua cama e logo dormiu.

À noite, Aoi ligou para os três e marcou uma hora em seu apartamento. Ele fazia a janta enquanto Uruha tomava um banho. Aliás, tentava, pois, era difícil com o pulso cortado e machucado. A água, quando batia nos cortes fazia o guitarrista dar leves gemidos de dor.

Com dificuldade ele conseguiu tomar banho e logo em seguida foi para o quarto. Enquanto refazia o curativo em seu braço esquerdo, escutava Aoi conversar com Reita enquanto arrumava a mesa. Uruha sabia que seria um grande desafio contar sobre o que lhe aconteceu, e ele também sabia que provavelmente, quando chegasse à parte que mais lhe deixava aflito, ele provavelmente ia hesitar muito antes de conseguir falar.

No entanto, Uruha não queria pensar naquilo, pelo menos não no momento. Terminou tudo que tinha para fazer no quarto e foi para a cozinha. Aoi havia terminado de colocar a mesa.

- Shiroyama Yuu, me deixe te ajudar a fazer as coisas.

- Não senhor, só quando o senhor sarar do braço. – Disse, abraçando a cintura de Uruha e beijando-o.

- Você é um namorado muito amável.

- E você é muito malvado, Takashima Kouyou.

Enquanto Aoi falava, direcionou-se para seu lugar, assim como Uruha para o seu.

- Porque eu sou malvado, Yuu?

- Porque o senhor roubou o meu coração.

- Como se você não tivesse gostado.

Os dois riram e jantaram, tentando falar de outras coisas. Não estavam cem por cento bem, tanto física quanto mentalmente, mas tentaram se divertir o máximo que puderam. Sabiam que o dia seguinte seria decisivo para muitas coisas, mas não quiseram pensar naquilo, no momento.

Terminaram de comer e Aoi deixou Uruha ajudar, ainda que secando e guardando. Sabia que o loiro não podia encostar em água, mas queria ajudar, então deixou que ele secasse e guardasse os objetos. Os dois fizeram tudo rapidamente e foram se deitar, com seus corações ansiosos, principalmente Uruha. Ele sabia que muita coisa mudaria depois que contasse sua história para os amigos, mas tentou não pensar nisso. Conseguiu dormir uma meia hora depois

No dia seguinte, todos acordaram aflitos. Era, de fato, inevitável que não ficassem desse jeito. Quando Aoi e Uruha terminaram de tomar café o moreno deu um calmante para o namorado e ele passou a maior parte da manhã cochilando.

Aoi aproveitou e fez um almoço enquanto os amigos não chegavam. Por volta de meio-dia e meia Uruha acordou e alguns minutos depois todos chegaram. Eles acabaram almoçando primeiro, apesar de a comida não ter descido muito bem para Uruha. Ele estava nervoso, e bem, quando foi para a sala e respirou fundo, começou a falar.