Cicatrizes da Alma
6 ‘’A criança de alma destruída’’
Notas iniciais
Boa Leitura.
‘’ Mais um dia numa escola japonesa, mais precisamente começo de ano. Os alunos felizes por se encontrarem novamente, uma festa só, apesar do frio e rigoroso inverno. No entanto, apesar dele, para alguns ali, mais precisamente um aluno que havia acabado de ir para a sétima série, era apenas mais um torturoso ano em sua vida.
Takashima Kouyou tinha apenas doze anos, e para quem não o conhecia, ou seja, apenas sua irmã, diria que o garoto era apenas mais uma criança mimada que fazia drama para com tudo quando se tratava de sua escola, mas não. O garoto desde o ano anterior era vítima de bulliyng, e aquilo se tornou um trauma em sua vida.
Kouyou era um tanto quanto diferente das outras crianças. Seus cabelos, pretos, iam pouca coisa abaixo do ombro e eram sempre bem arrumados. Tinha olhos bonitos, mas para quem sabia ver, e novamente apenas sua irmã, percebia que eles emanavam apenas tristeza.
Até aí nada demais, claro. Mas, Kouyou era provido de uma ‘’beleza’’ diferente e até rara para sua pouca idade. O garoto tinha os lábios um pouco grandes e num formato que fazia lembrar o bico de um pato, um dos motivos que o fazia sofrer as agressões tanto verbais quanto fisicamente.
No entanto, as coisas não acabavam aí. Kouyou tinha as coxas um pouco mais ‘’avantajadas’’ que o normal, principalmente por ser garoto. E aquela combinação, que era, no fim das contas, para ser vista como pura genética de mais uma criança era na verdade um duplo motivo para que seis garotos de sua sala começassem a implicar com ele.
No começo Kouyou não ligava, visto que sempre fora comunicativo e brincalhão. Mas, quando os seis o encurralaram e começaram a xingar-lhe de diversas formas na frente de vários alunos num intervalo e só o que Kouyou conseguiu fazer foi correr e se esconder, passando o resto do dia chorando, ele descobriu que aqueles garotos não queriam brincar com ele, e sim lhe machucar.
E por diversas vezes Kouyou contatou a direção da escola, já que seus pais mesmo não ligavam para ele e para sua irmã. E infelizmente ninguém da escola fez algo para ajudá-lo.
Desde aquele dia Kouyou havia perdido o interesse em estudar, e boa parte em viver também, apesar da pouca idade. Ele não entendia porque era tão machucado por aquelas pessoas que só sabiam seu nome e não imaginavam como ele era triste por ser ignorado pelos pais em casa.
E antes, quando Kouyou ia para a escola para poder se livrar da indiferença e tentar se sentir mais feliz, agora ele não sabia mais o que fazer. Em casa era ignorado e mandado ir para a escola, e na escola era xingado e apanhava, e novamente era ignorado por quem podia fazer alguma coisa.
Parecia um abismo destinado a ele. E bem, ele mal adentrou sua sala e as provocações começaram.
- Olha se não é a menininha com boca de pato que acabou de chegar.
Todos começaram a rir. Por causa de uma regra em específico daquela escola todos os alunos estudariam juntos até a oitava série, o que para Kouyou era horrível. Ele isolou-se no canto e respirou fundo para não chorar. Os seis garotos o encaravam e ele baixou a cabeça, pegando um estojo e um caderno.
Os seis continuaram zombando dele e os alunos riam sem parar. Algumas lágrimas chegaram a descer por seus olhos, mas ele as enxugou rapidamente quando seu sensei adentrou a sala.
O professor começou a falar, mas depois daqueles momentos Kouyou não conseguia prestar atenção em mais nada. Copiava as coisas, poucas ainda, visto que era começo de ano, mas não estava compenetrado como sempre fazia.
E conforme as horas passavam seu medo ficava pior, afinal de contas, sabia que no intervalo as coisas iriam ficar piores se ele não fugisse dos garotos e ficasse escondido e passando fome até chegar em casa. Desde que começou a apanhar deles tinha que fazer aquilo, então começou a emagrecer, e claro, somente com sua irmã se importando.
Aliás, Kouyou sabia que apenas com ela poderia contar. Os dois eram cúmplices e se ajudavam com conselhos e trocas de carinho entre irmãos. Aquilo os confortava e fazia sentir bem, amenizando um pouco o descaso dos pais, que infelizmente era enorme.
Era como se nenhum dos dois tivesse filhos. Sua mãe fazia comida, mas eles arrumavam a louça, seus quartos e lavavam suas roupas. Ela apenas o fazia para si e para o marido, mas apesar disso eram rigorosos com os estudos dos filhos, e apenas nesse quesito eram presentes, deixando de lado amor e afeto.
Ademais, eles não se preocupavam com a saúde dos filhos e nem perguntavam por que Kouyou chegava em casa machucado. Eles simplesmente não se importavam.
E bem, novamente o garoto ia chegar em casa sem comer nada na escola. Quando o sinal do intervalo tocou, Kouyou saiu correndo e se escondeu perto da quadra, numas árvores que haviam ali perto. Tentava fazer com que ninguém o visse, e notou que os garotos o procuraram pela escola.
Teve medo quando um deles chegou mais perto das árvores, mas por sorte não o viu. Claro que para Kouyou aquilo era horrível, ter que se esconder de seis pessoas por medo, mas sabia que não tinha alternativa.
E bem, aproveitava esses momentos escondidos para poder chorar. E sempre chorava muito. E dessa vez estava passando frio por causa do vento fortíssimo que batia nele. Suas bochechas começaram a rosar e ele sabia que se não saísse dali logo, ficaria doente.
Por sorte viu que alguns coordenadores estavam pelo pátio e aproveitou para ir a outro lugar se esconder dos garotos.
Agradeceu por nenhum deles ter lhe visto e quando o sinal tocou foi rapidamente para sua sala. O sensei demorou um pouco para chegar, mas por algum motivo os garotos não mexeram com ele, o que já foi uma grande ajuda.
Conseguiu prestar um pouco mais de atenção nas aulas finais, mas notou que os meninos não paravam de olhá-lo, como se estivessem mesmo tramando alguma coisa. Kouyou tentou não dar atenção e focou-se apenas nas palavras de seus senseis e nas aulas que iam passando uma após uma.
Contudo, quando as aulas daquele primeiro dia terminaram e Kouyou chegou a entrada da escola, sentiu uma mão em um de seus ombros.
- A menininha se escondeu da gente, né? Mas isso não vai ficar assim.
Kouyou correu o máximo que conseguiu. Havia um terreno abandonado perto da escola e ele correu pra lá, mas um dos garotos que tinha mais força e agilidade pegou Kouyou pelos cabelos, saltando em cima dele. Os dois foram para o chão e quando os outros cinco chegaram, Kouyou começou a apanhar e ser xingado de diversas formas por eles.
Aquilo durou cerca de dez minutos e Kouyou ficou deitado na neve com a mão na barriga por um bom tempo antes de conseguir se levantar, ainda cambaleante. Suas bochechas estavam novamente vermelhas e ele havia levado um soco no olho, que estava roxeando.
Fez de tudo para chegar em casa logo, e foi amparado por sua irmã assim que adentrou seu quarto.
- Kou-nii-san, o que aconteceu?
Ele tentava falar, mas estava assustado. Abraçou a irmã e chorou muito. A garota, um ano mais nova que ele começou a chorar também, e apesar de seus pais estarem em casa nenhum deles fez menção, em nenhum momento, de ir ver o que estava acontecendo.
Fora sua irmã que foi até a geladeira e pegou gelo enrolando num pano e colocando em cima de seu olho enquanto tratava dos outros machucados. E era sempre assim, Kouyou apanhava e sua irmã cuidava dele. Sempre preocupada, tentava não machucá-lo, apesar de sempre sentir medo, tendo em vista que ela aprendeu sozinha a cuidar dos machucados do irmão, que sempre eram piores.
- Kou-nii-san, tenho medo que eles te machuquem mais ainda, você precisa sair de lá.
- Eu sei imoto-chan, mas eu só posso sair se me tirarem e você sabe que a mãe e o pai não ligam para a gente.
Tristemente a garota assentiu, enquanto terminava de cuidar dos machucados.
Teve que insistir muito para que seu irmão fosse comer, e ele quase vomitou quando o fez. Estava com medo de voltar para a escola, e mesmo seus pais vendo seus machucados, nada fizeram. Para eles, só a escola e o horário de voltar para casa é que importavam. As outras coisas simplesmente não tinham importância, e eles faziam de conta que seus filhos não existiam.
No entanto, naquela noite Kouyou não conseguia dormir. Estava triste e seu corpo doía bastante, assim como estava com muito medo de voltar para a escola no dia seguinte. No entanto, o que mais lhe agoniava era a dor em seu coração. A indiferença de todos aqueles garotos, o descaso de seus pais. E apesar de ter sua irmã, era mais do que óbvio que o garoto precisava de alguém mais velho para conversar, para lhe dar esperança de que aquilo um dia ia mudar.
Mas não, não parecia haver alguém. E aquilo deixava o garoto angustiado e extremamente triste. E para ele, dormir sempre foi bom, visto que o livrava de todas essas dores. Mas, parecia que naquela noite, nem mesmo o sono estava do seu lado.
Foi então que Kouyou lembrou-se de uma coisa que viu sua mãe fazer um dia, escondida. E criando um pouco de coragem, o garoto se levantou e lentamente foi até o banheiro. Fechou a porta fazendo o mínimo possível de barulho e trancou-a.
Subiu num banquinho que ficava em frente a pia e abriu o armário que havia em cima da mesma, procurando avidamente pelo instrumento, assim como vira sua mãe fazer. Tateou por cima de diversos itens para o banheiro, mas sem sucesso.
No entanto, quando fechou a porta do armário, ouviu um barulho atrás dele. Colocou os finos dedos atrás do objeto e encontrou uma pequena embalagem, guardando o que ele procurava.
Com cuidado, tirou a pequena lâmina de dentro da embalagem e fitou seu pulso tão fino. Olhou-se no espelho e lembrou-se das palavras de sua mãe, sobre a dor carnal sanar a angustia do coração. Respirou fundo e passou a lâmina pelo pulso fazendo o sangue jorrar.
Teve que se segurar para não gritar, visto que era uma dor forte. Quase que imediatamente lágrimas começaram a escorrer por seus olhos e ele começou a chorar baixo.
Passava a lâmina pelo pulso fazendo linhas de corte uma próxima a outra para que pudesse cortar o máximo possível, num pequeno espaço. Seu sangue escorria avidamente pelas feridas e tomava seus dedos, escorrendo pela pia e no chão.
Quando completou dez cortes no braço esquerdo, Kouyou segurou a lâmina com seus dedos ensangüentados e voltou a lâmina para o pulso direito, se cortando novamente.
Enquanto o fazia, focou seu olho roxo e mais alguns machucados causados pelos seis meninos. Kouyou estava com medo de voltar para a escola, sua dor não havia amenizado e ele estava assustado pela quantidade de sangue que havia escorrido de seus vinte cortes.
Soltou a lâmina e deu um grito, levando as duas mãos até o rosto e chorando. Seus pais e sua irmã acordaram e os três correram para o banheiro, encontrando o garoto todo sujo de sangue.
- Kou-nii-san!
A garota deu um grito, mas correu para perto do irmão quando ele desceu do banco.
- Kouyou o que você fez?!
Enquanto sua mãe corria para pegar um pano e limpar o banheiro, seu pai pegou-o pelo braço e o levou para o quarto.
- Kouyou eu não quero nem saber por que você fez isso, mas você vai se cuidar sozinho! E trate de dormir logo também porque você tem aula de manhã.
O homem saiu do quarto e bateu a porta, assustando mais ainda Kouyou. O menino começou a chorar e abraçou fervorosamente sua irmã, que também chorava.
- Kou-nii-san, porque você fez isso?
- Imoto-chan, tava doendo tanto, e eu não conseguia dormir. Até o sono me abandonou imoto-chan, até o sono me abandonou.
Kouyou chorava e sua irmã o apoiava como conseguia. Teve que esperar seus pais irem deitar para poder levar o irmão de volta para o banheiro e assim poder cuidar dele.
- Por favor, Kou-nii-san, não grita, se não eles vão voltar aqui.
O garoto assentiu e sua irmã delicadamente começou a limpar seus pulsos, fazendo curativos logo em seguida para que o sangue parasse de escorrer. Ainda havia algumas horas até ele precisar levantar e ir para o colégio e tinha que descansar o máximo que desse, tendo em vista que ele havia perdido muito sangue e podia passar mal.
Sua irmã tentaria insistir com seus pais para deixarem Kouyou em casa, mas os dois sabiam que aquilo jamais aconteceria, então só restava ao garoto descansar o máximo que conseguisse para evitar qualquer problema na escola.’’
Algumas lágrimas escorriam pelos olhos de Uruha enquanto ele contava. Olhou algumas vezes para seu machucado, e hesitou em alguns momentos enquanto falava.
Kai se via no corpo do amigo, e sabia como o descaso dos pais machucava. E apesar de ter sua irmã, Kai também sabia como a falta do amor de pais machucava e marcava negativamente para sempre a vida de qualquer filho.
‘’ Kouyou chegou à escola assustado. Várias crianças o olhavam e ele agradecia por estar frio, assim podia esconder todos os cortes. Como sempre foi para sua sala e ficou sozinho até que o sinal tocou. Todos o olhavam conforme adentravam a sala, mas ele estava acostumado a não ligar para aquilo.
Seu sensei perguntou o que havia acontecido, mas ele nada disse, apesar de certa insistência. Sabia que se fosse mesmo contar seria longe daqueles que fizeram isso e longe de todos os outros, já que por ser todo calado estava começando a ficar introvertido, e quanto mais sozinho, melhor.
Aquilo era péssimo, claro, mas cada dia que passava Kouyou se via perdido num abismo do qual parecia não ter escapatória. Os meses iam passando e Kouyou apanhava e era alvo de diversos tipos de piadas e agressões físicas.
Estava sendo mais um ano cansativo e agonizante para o pobre garoto. Seu rendimento escolar começava a cair conforme os meses iam passando, e ele apanhava cada vez mais, tendo sido obrigado a ficar internado durante um mês por causa de diversos machucados.
Seus pais conseguiram enganar a polícia dizendo que o garoto não se abria com eles e só depois de tantos e tantos hematomas eles notaram que o filho precisava de cuidados. Claro que os policiais custaram a acreditar, e só o fizeram depois que a irmã de Kouyou confirmou toda aquela farsa, com vontade, no entanto, de dizer tudo que acontecia com seu irmão. Mas, sabia que se contasse problemas piores poderiam acontecer e ela tinha medo que seu irmão se machucasse mais.’’
- Mal sabia minha irmã que os meus piores problemas ainda estavam para acontecer.
Uruha tremia e chorava bastante. Ruki sabia que a cada palavra do guitarrista ele se aproximava mais e mais do ponto crucial de seu doloroso passado, e o vocalista tinha medo que ele tentasse alguma coisa contra si mesmo, o que seria um enorme problema, afinal de contas, pessoas que passavam pelo que Uruha passou raramente faziam o que ele estava fazendo, de contar abertamente para outras pessoas sobre sua dor. Mas bem, Ruki sabia que seria impossível voltar atrás agora, apesar dos olhos do guitarrista implorarem aquilo.
‘’- Kou-nii-san, amanhã eles disseram que vão te mandar pra escola de novo.
- Você não acha que eu já repeti esse ano? As coisas estão tão ruins imoto-chan.
- Eu sei Kou-nii-san, mas você não pode desistir. Eu sei que você consegue.
Kouyou sorriu. Ele não queria mesmo desistir. Estava no mês de setembro e sabia que se estudasse focando apenas nisso nada de errado aconteceria. Não seria fácil, claro, mas Kouyou iria tentar.
Por algum motivo que nem ele mesmo entendeu, quando voltou para a escola os garotos pararam de mexer tão intensamente com ele. Kouyou não entendia porque, mas ficou feliz, e pôde se concentrar devidamente nos estudos, conseguindo tirar boas notas no terceiro bimestre.
No quarto as provocações e as surras voltaram, mas para sorte do garoto, na última semana de aula, daquele tão terrível ano, Kouyou estava acuado novamente no mesmo terreno perto da escola, e quando um dos garotos foi bater nele, dois de seus professores apareceram, pegando as seis crianças, e Kouyou, que chorava.
Os sete foram levados para a diretoria e os pais foram obrigados a comparecer no local naquele mesmo dia, para alegria de Kouyou.
Aliás, parecia que a vida do garoto estava mesmo para mudar. Ele chegou em casa pulando de alegria e abraçou fortemente a irmã, que não entendeu nada a princípio, mas pulava junto com o irmão pelo quarto.
- Eles foram expulsos imoto-chan, aqueles idiotas foram todos expulsos da escola.
Kouyou sorriu alegremente. Estava tão feliz, por Deus. Ficou quase uma hora pulando feliz da vida com sua irmã, e terminou aquela semana na escola mais do que feliz. Sua vida parecia mesmo estar para mudar.’’
- Acho que do meu passado, e de toda essa fase, essa foi à única coisa boa que aconteceu. E olha que eu realmente achava que minha vida tinha mesmo melhorado.
Um nó se formou na garganta de Uruha e Aoi e Ruki ficaram apreensivos. O verdadeiro terror estava apenas começando.
‘’ A passagem de ano de Kouyou foi alegre e feliz. Ele prometeu para sua irmã que nunca mais se cortaria e desejou que um ano melhor surgisse em sua vida.
Decidiu se dedicar mais ainda aos estudos e agradecia todos os dias por ter sido liberto daqueles garotos que lhe fizeram mal por dois longos anos.
Retornou a escola feliz da vida. Outras crianças haviam sido colocadas no lugar daqueles meninos, e ele conseguiu se comunicar melhor com todos novamente. Ninguém parecia mais lhe julgar por suas coxas ou mesmo por seus lábios, e aquilo era a melhor coisa que poderia ter acontecido em sua vida.
No entanto, algumas mudanças haviam sido feitas no colégio, e como a maioria dos alunos não respeitava o antigo professor de educação física, um novo foi colocado no lugar, junto com três assistentes. Eles tinham uma face mal-encarada e eram todos fortes e altos. Foram apresentados aos alunos, e quando chegaram à sala de Kouyou, ele notou que o professor não parava de olhá-lo e deu um sorriso na direção do garoto que o fez arrepiar inteiro.
Ele tentou não focar naquilo, visto que só teria aula com eles na outra semana, mas o medo ainda assim o consumia, e uma coisa angustiante começava a tomar conta de seu coração.’’
Reita se retraiu. Alguns pensamentos vieram em sua mente quando Uruha citou o tal professor e fizeram o baixista do GazettE pensar em algumas coisas que fariam qualquer pessoa ficar com medo. Claro que ele esperava que fosse apenas coisa de sua mente, apesar de Uruha ter ficado realmente nervoso quando citou aquela parte.
Parecia que, aos poucos, Reita estava descobrindo sobre o passado do amigo e começava a entender porque ele tinha tanto receio de usar short.
‘’ A primeira aula de Kouyou com os novos professores foi... Assustadora. A todo o momento eles fitavam o garoto, como se ele fosse um tesouro precioso. E toda vez que Kouyou encarava eles, as coisas ficavam pior. Todos sorriam maliciosamente para ele, e seu professor chegou a apontar para os lábios do garoto e lambeu os próprios, fazendo Kouyou gelar por dentro.
- É ele?
- É o mais bonitinho. E cara, olha essas coxas e aquela boca. É um prato apetitoso demais.
Os quatro sorriram entre si. Era apenas questão de tempo para os meses passarem e eles abocanharem mais uma vítima.
E bem, o tempo passou. Kouyou fora assediado diversas vezes por todos eles, ainda que com palavras. No entanto, com ou sem palavras ou toques aquilo era assustador de todas as formas possíveis. Kouyou estava novamente com medo, e dessa vez era pior. Muito pior do que quando eram apenas aqueles garotos.’’
Reita focou Uruha e Uruha focou Aoi. Todos ali já haviam entendido o que estava para acontecer, e aquilo destruía Uruha. Ele tinha vergonha e nojo de si mesmo, e começou a chorar muito. Não era fácil reviver aquilo. Doía, fazia todo e qualquer fantasma voltar para atormentar e tirar todas as esperanças de que um dia ele fosse superar aquilo.
E ele não sabia se corria ou se continuava a contar. Ele só sabia que, correndo ou contando ele tinha que ser forte. Apesar de ser a coisa mais difícil no momento.
‘’ O verão tomava as ruas de Tóquio. Kouyou havia sido chamado para brincar por diversos amigos, mas ele estava triste e desanimado. Havia feito catorze anos e nem ao mesmo quis uma festa ou algo do tipo. Só conseguia lembrar de todas as investidas daqueles horrendos homens, e amaldiçoava suas pernas e sua boca.
Se pudesse escolher, certamente seria diferente, se aquilo tirasse sua dor. Tinha medo de voltar para a escola e continuar sendo assediado por aqueles homens, que haviam começado a passar as mãos em seus braços e pernas quando ninguém estava olhando. Aquilo era assustador.
E Kouyou divagava todos os dias sobre aquilo, chorando sempre por saber que logo as aulas voltariam. Era assustador ser tocado por aqueles homens, quando nem ele mesmo fazia aquilo.
A vontade de se cortar começa a tomar conta dele novamente e cada dia a mais, significava que ele estava próximo do inferno novamente. E dessa vez parecia que nada e nem ninguém o iria tirar de lá.
E infelizmente Kouyou estava certo. Num fim de tarde sua mãe o mandou ir até uma padaria que ficava perto de sua casa, e com muito custo o garoto foi. Não sem antes, claro, receber um beijo de sua irmã.
- Kou-nii-san, toma cuidado e vê se volta logo.
- Ok, imoto-chan.
Kouyou sorriu e saiu de casa, ainda que apreensivo. Foi até a tal padaria e comprou o que sua mãe pediu.
Quando saiu de lá, no entanto, deixou as coisas caírem no chão quando viu que os quatro se aproximavam dele.
Só conseguiu pensar em correr, com lágrimas escorrendo por seus olhos e um medo tomando conta de seu coração. Parecia que a cada passo que ele dava os outros estavam prestes a lhe pegar. E com todo o medo, ele correu sem rumo. E para seu azar, não havia uma alma viva pelas ruas que ele passava. Era como se aquilo tivesse sido planejado metodicamente para que não houvesse erros.
E mesmo com as pernas doendo Kouyou não parava de correr. Estava com muito medo, e este só ficou pior quando ele adentrou o terreno perto de sua escola, que estava com a grama extremamente alta, mas que não serviu para impedir que seu professor o segurasse firmemente pelos cabelos.
- Achou mesmo que ia escapar da gente, Takashima Kouyou?
O homem sorria vitorioso e Kouyou se encolheu, com medo. Chorava muito e seu coração quase parou quando ele confirmou o que iria acontecer.
Ele havia acabado de entrar no inferno. E parecia que ninguém o iria tirar de lá.
Um céu invernal e a luz da rua quebrada, vento frio
Sombra desconhecida, a pegada da deserção
A liberdade foi tirada
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