Cicatriz do Amor

1 Lições do Passado


Notas iniciais
vim aqui te desejar uma ótima leitura e espero que goste ♡ deixa teu comentário aí!! pode falar o que quiser ^^ ~gabinnie

As folhas já começavam a cair.

O jardim estava começando a ganhar aquela coloração alaranjada que ela tanto amava, o que vinha de braços dados com o crescente frio. A árvore, vista da janela de seu quarto, perdia frutos cada dia mais, anunciando que logo teria seu descanso. Quando terminou de colocar as fotografias de volta em seus devidos lugares, a menina de cabelos vermelhos como maçãs fez seu caminho para a sala.

O dia estava silencioso – ou como sempre ficava àquela hora. Satisfatoriamente silencioso, quando as crianças dormiam ou brincavam em algum outro lugar, deixando a casa em um raro estado de paz. Aproveitando-o, ela decidiu deitar-se no sofá rodeado de brinquedos, num espaço perfeito no meio da bagunça. Só um cochilo enquanto ninguém gritava seu nome em canto nenhum da casa. Só um cochilo...

Levantando-se abruptamente, Shirayuki percebeu logo de cara como a claridade havia diminuído, só para depois notar, pela janela, o céu que já havia escurecido e já respingava pequenos pontos radiantes. Suspirando, espreguiçou-se e decidiu dar uma olhada melhor nelas.
Ao que caminhava mais para a porta, Shirayuki percebeu uma presença na varanda de madeira: Shiro, uma amiga de Rona, sentada com os braços agarrados às pernas, parecendo desolada. Surpresa, Shirayuki cruzou a porta.

— Shiro-chan, o que está fazendo aí fora? Rona ainda não chegou?

— Não, ela provavelmente perdeu a hora. Vou esperar aqui — E acrescentou, rapidamente: — Se não for problema, Shirayuki-san.

— Claro que não é – Havia algo mais no ar ao redor daquela menina. Ela estava pra baixo, e a mais velha sentia que não era só pelo fato da amiga tê-la esquecido. — Posso me sentar com você?

Surpresa, Shiro respondeu, meio gaguejando, provavelmente achando estranho a dona da casa estar pedindo para sentar.

— C-claro... — Depois de um tempinho olhando o céu estrelado, Shirayuki perguntou, sem desviar o olhar:

— Tem algo errado, Shiro-chan? — A menina ainda hesitou por um instante, mas pareceu criar coragem para falar.

— Pode parecer estranho, mas por favor prometa que não vai contar a Rona — A mais velha estranhou por um momento, mas logo assentiu. — É que tem um menino... e eu acho que estou gostando dele. E todas as minhas amigas dizem que ele é doido por mim e que seríamos super fofos juntos, e eu até concordo, mas... — Ela escondeu mais o rosto entre os braços. — Mas a Rona gosta dele. E eu sei que ele gosta dela também, então não quero atrapalhar isso. E...

— Como você sabe que ele gosta dela? — Shirayuki interrompeu, surpreendendo a menina. — Digo, Rona deve ter lhe dito que gosta dele, mas o tal menino já chegou a anunciar isso em voz alta?

Shiro abriu a boca para responder, mas se conteve. Como ela não disse mais nada, a outra continuou.

— Estou dizendo isso porque passei por algo parecido, então posso te dar alguns conselhos. Se quiser, claro — Shiro pareceu se interessar, então assentiu. Se ajeitando melhor – quase pigarreando – e tentando não sorrir demais, Shirayuki continuou. — Quando eu era um pouco mais velha que você, me apaixonei por alguém. E foi mais forte do que qualquer outra coisa que eu já tinha sentido na vida, me deixava igualmente confusa e feliz. O menino pelo qual me apaixonei sentia o mesmo por mim, e logo nós ficamos juntos. Tínhamos amigos que nos apoiavam e queriam nos ver felizes, mas eles pareciam ser os únicos. O resto do mundo inteiro não nos aceitava – a família dele me rejeitou, estávamos sempre sendo separados, até pessoas de outros reinos interviram de certo modo. Uma pessoa em particular, meu melhor amigo, fazia de tudo pra nos ver sorrindo. Ele sempre estava ali, me protegendo, me apoiando, me amparando, o que fosse. Já era comum tê-lo por perto, e eu não o valorizei como deveria — Suas unhas fincaram-se nas palmas das mãos. — E é desse amigo que eu quero lhe contar.

Uma coruja piou ao longe.

— Mas antes de focar nele, vamos voltar a falar de mim e da pessoa que eu amava. As coisas começaram a complicar entre nós. Brigávamos mais a cada dia, os obstáculos entre nós só faziam crescer, e nós começamos a perceber que não era mais a situação ao nosso redor ou quem quer que tentasse nos separar – éramos nós mesmos — As memórias machucavam, impiedosas, mas ela não se permitiu parar. — Eu chorava todos os dias. As noites pareciam intermináveis, e eu perdera a pessoa que mais amava, que poderia me tirar daquele pesadelo. Por causa disso, afastei todos os outros que tentaram se aproximar, machucando-os, mesmo que não quisesse. E isso incluía meu melhor amigo. Meu melhor amigo, aquele que faria qualquer coisa pra me ver sorrir, até se isso o fizesse sofrer. Quando percebi o motivo por trás disso, me senti a pior pessoa do mundo.

Uns segundos depois, os olhos da menina se arregalaram e o queixo caiu. Ela se virou para Shirayuki, abaixando as pernas.

— Ele gostava de você!

A mais velha moveu a cabeça afirmativamente, mas não estava exatamente feliz.

— Tudo fez sentido logo que eu descobri. Porque ele tentava tanto que eu ficasse com outra pessoa, porque nunca se importava consigo mesmo –- ele queria me ver feliz, e não se importava se seria ao lado dele ou não. E eu não apenas nunca havia notado esse amor, como também nunca indagara se ele era feliz sozinho ou não — Seus dedos apertavam com tanta força que as juntas estavam brancas. — Me senti horrível, o ser mais egoísta que existia. Parecia ser tão tarde, sabe? Tarde demais pra qualquer coisa. Eu não valorizei a amizade dele, e mais importante, o amor dele. O fiz perder um longo, longo tempo da vida apenas me assistindo ser feliz enquanto ele sofria em silêncio.

Shiro parecia arrasada. Claramente não sabia o que dizer, mesmo que quisesse quebrar o silêncio constrangedor. Enfim, perguntou:

— E... o que aconteceu com o seu amigo?

— Ah, ele? Cresceu, se mudou pra longe, casou, teve dois filhos, construiu sua própria vida...

De repente, uma risada alta de criança voou pela porta, seguida do grito de uma segunda pessoa.

— Yuki, o Ryuu vai destruir a casa! Socorro!

Sem dar atenção a nenhum dos dois, ela finalizou:

— E está bem ali, sendo totalmente dominado pelo nosso filho.

Uma fração de segundo se passou até que Shiro entendesse de fato a situação – e para que seu queixo caísse mais uma vez, ela emitindo um som incrédulo.

— Não, não pode... o Obi-san?!

Shirayuki riu, não podendo se conter.

— Detalhes a parte, esse é o conselho que eu queria lhe dar, Shiro-chan — Ela olhou a mais nova, tentando soar séria. — Não desperdice tempo. E, principalmente, não ignore sua felicidade para que outros sejam felizes. Porque no final, todos ficam arrasados e não existem vencedores – isso eu posso lhe garantir.

A menina ainda não havia se recuperado do choque, e antes que pudesse, o som de passos apressados pisando em cascalho interrompeu qualquer que fosse a pergunta que estava prestes a fazer.

— Shiro!! Me desculpa, meeeeesmo! Eu juro que não fiz por mal!

Rona parecia ofegante enquanto se desculpava. Shiro se apressou em descer da varanda.

— Tudo bem, eu não esperei muito — Mentiu. — Enfim, vamos? — Rona, sem fôlego para falar, apenas fez que sim. Ambas acenaram para Shirayuki, movendo os pés para a mesma direção.

— Obrigada, Shirayuki-san. Boa noite!

— Tchau, mãe, volto mais tarde.

— Cuidado, vocês duas!

Enquanto observava sua filha e a amiga se afastando, o som de sua conversa sumindo gradualmente com a distância, sentiu passos no assoalho atrás dela, bem como aquele som inconfundível da combinação de duas risadas que ela conhecia tão bem.

— Vamos conversar com a sua mãe sobre isso, pode ser? Combinado?

Obi surgia de dentro da casa com uma capa colorida amarrada ao redor do pescoço, carregando o pequeno Ryuu no braço, que por sua vez tinha um chapéu de soldado feito de papel na cabeça. Shirayuki sorriu, levantando-se e indo em direção a eles.

— Vejo que estão se divertindo.

— Estamos no meio de um dilema aqui — Obi anunciou, claramente gostando do riso do filho ao ouvir suas palhaçadas. — O Ryuu aqui acha que a senhorita daria uma ótima boba-da-corte, enquanto eu penso que o papel de faxineira seria melhor na sua pessoa.

Shirayuki riu, pondo uma das mãos na cintura e levando a outra ao filho, que instantaneamente segurou um de seus dedos.

— Bom saber que é assim que vocês me veem.

— Nah, foram as únicas fantasias que sobraram.

A noite era embalada pela risada do trio, que logo se dirigia para dentro, deixando as estrelas se perguntando se, tantos anos antes, alguém imaginava que aquela cena seria sequer possível.

Notas finais
obrigada por ter chegado até aqui, eu nem te conheço e tu já tens um lugar no meu coração ♡ ei, fique com vergonha não, valorização é muito importante pra quem escreve, deixa teu comentário aí!! pode falar o que quiser ^^ ~gabinnie