Notas iniciais
vim aqui te desejar uma ótima leitura e espero que goste ♡ deixa teu comentário aí!! pode falar o que quiser ^^ ~gabinnie

15 anos antes



Acordar.

Tomar café.

Preparar a loja.

Receber clientes.

Olá!

O que deseja?

Agora mesmo.

Como vão todos?

Estou ótima, obrigada.

Pronto, aqui está.

Tenha um bom dia!

Guardar tudo.

Lavar-se, escovar os dentes.

Dormir.

Repete.

O mesmo de sempre. Não era cansativo, não exatamente. A freguesia era ótima e os vizinhos também. Ela havia se instalado bem. Não teria muito do que reclamar – só a constante saudade de todo o resto.

Não deixara nenhum nó solto para trás, felizmente. Mesmo que não tenha sido tudo um mar de rosas, pelo menos não restava nenhum mal-entendido. Um aperto no seu coração a afligiu quando lembrou-se de seus amigos. Precisaria se contentar com as cartas, pois sabia que voltar não era uma opção, não depois de tudo. Seria estranho demais continuar trabalhando no castelo e vê-lo todos os dias. Àquela altura, Shirayuki nem sabia mais a quem estava se referindo quando formulava esse pensamento.

Com o som inconfundível do sininho, a porta se abriu, trazendo uma senhora de mãos dadas com um menino travesso. Sorrindo, ela saudou, naquela voz lenta e pausada:

— Bom dia, Shirayuki-chan.

Vemeio!! — Esganiçou-se o pequeno, levantando os bracinhos para que a menina o carregasse. Quando ergueu-o no ar, fez um gesto para que a senhora sentasse.

— Bom dia, Nana-san. O mesmo de sempre?

Nana sorriu, assentindo e sentando-se vagarosamente na cadeira próxima ao balcão.

— E se pudesse me dar algo para tosse, seria ótimo também. Shoyo mal conseguiu dormir ontem por causa de um resfriado.

Shirayuki sentou o menino na bancada à sua frente e começou a preparar os remédios.

— É mesmo, Shoyo-chan? Vamos fazer um remédio bem forte pro meu dançarino favorito então.

Shoyo deu uma gargalhada alta e bateu as perninhas, brincando com um pote colorido que achou. O sininho tocou novamente e Chihiro entrou, trazendo seu pai, Kousaku, a tira colo, que fazia barulho como sempre.

— Já está bem animado por aqui, posso ver — A amiga parou ao lado de Nana, sorridente. — Sua casa é definitivamente meu lugar favorito nessa vila.

Kousaku, sentando-se num banco e batendo uma palma no balcão, vociferou:

— Shirayuki-dono! Como vai essa força?! — A menina sorriu relutantemente, meio sem graça, enquanto se esforçava para entender por que ele sempre aparecia gritando onde quer que fosse.

— Bom dia, Chihiro-san, Kousaku-san. De que precisam hoje?

Lentamente, a loja foi se inundando de vozes e pessoas, conversando alegremente e sentando-se nas cadeiras ao longo do balcão e no sofá, como se aquilo fosse um bar e não a casa (ou loja) de uma herbalista. Shirayuki andava de um lado a outro, preparando remédios, xaropes, ervas, o que quer que chegasse como pedido. Kousaku e os amigos inventaram de trazer bebida, e distribuíram às pessoas, brindando. Adorava o som das risadas mescladas em conversas felizes e despreocupadas. Aquilo preenchia seu coração tão frequentemente apertado, e a fazia esquecer por um momento da constante tristeza em que se encontrava todos os momentos.

Do lado de fora, no alto de um galho de uma árvore qualquer, alguém observava aquela cena pela grande janela. A menina de cabelos vermelhos andando pra lá e pra cá, rodeada de amigos e vizinhos, todos muito felizes. Sorrindo, ele pulou para longe.



Suspirando aliviada, ela fechou a porta, batendo uma mão na outra como quem finaliza um bom dia de trabalho. Até porque era exatamente isso que tinha acabado de fazer. Quando virou-se para dentro novamente, viu uma figura encapuzada sentada ao balcão, segurando casualmente um copo do vinho de Kousaku.

Shirayuki levou um susto – não tinha notado sua presença – mas tentou não demonstrar. Não estava reconhecendo quem ele era, talvez fosse outro viajante de passagem, algo comum naquela vila. Então, endireitando-se, se dirigiu para trás do balcão, mas manteve distância.

— Posso ajudar?

O homem não a olhou e não tirou a bandana que cobria seu rosto até o nariz, apenas continuou balançando o copo calmamente na mão. Tinha dimensões esguias, os dedos finos e costas largas esticadas pelo corpo alto. Não respondeu, pelo menos não diretamente.

— Vejo que os dias são movimentados por aqui — Ela o olhou de canto por um instante, achando-o um tanto estranho. Contudo, logo que ele abaixou o copo e caminhou até a janela, ela ficou mais calma. — Pode me preparar algo para dor nas costas? Já estou viajando há três dias, não aguento mais passar horas na mesma posição.

Shirayuki, percebendo que estava certa e que sua paranoia era desnecessária, virou de costas e começou a preparar o remédio.

— Então é um viajante? De onde vem?

— Tanbarun — Ela congelou por uma fração de segundo, mas recompôs-se logo em seguida. — Foi o último lugar em que estive. Conheci umas pessoas divertidas, mesmo não sendo nada comparadas ao povo dessa vila.

A menina sorriu.

— Sim, todos aqui são muito alegres. São ótimos amigos...

— Amigos, hein? Não achei que fossem isso. A maioria não parecia ser nada demais pra você — Ela ficou surpresa. O que um completo estranho sabia da sua vida? Porém, não viu motivo para discordar – ele não estava de todo errado.

— Eu tenho amigos, sim. É só que eles... moram longe. A gente se fala por cartas, principalmente, e às vezes eles vêm me visitar, e também...

— “Me sinto mais sozinha a cada dia” — Shirayuki congelou. A voz dele estava mais clara, provavelmente havia tirado a bandana do rosto; mas não foi só isso que a fez quase cair para trás. — “Mesmo estando rodeada de pessoas. Não é justo. Eu sinto muita saudade de vocês e isso está me destruindo”. Não sei o que é mais triste: essa carta não ter chegado até mim ou você não ter reconhecido minha voz.

Quando a menina se virou, mal pôde acreditar no que via – ou no fato de não ter visto antes. Encostado ali, com um pedaço de papel na mão e um sorriso singelo no rosto, Obi encarava a velha amiga com a maior naturalidade possível. Dela, entretanto, não se pode dizer o mesmo.

Sua voz mal foi ouvida de tão falha que estava quando enfim conseguiu dizer alguma coisa. Seus pés não se moviam, seu corpo inteiro parecia traí-la, mesmo que seu melhor amigo estivesse ali, bem na sua frente.

Finalmente, correu até ele e, surpreendendo-o, o envolveu no abraço do qual há tanto tempo sentia falta. Ele não soube o que fazer de primeira, mas logo que ela balbuciou algumas palavras, Obi sorriu e a abraçou de volta.

— Também senti sua falta, senhorita.



O tilintar dos pequenos frascos sendo movidos de prateleira em prateleira embalava a conversa dos dois amigos, contando as novidades de tanto tempo sem se verem.

— Então Kiki-san encaminhou a carta pra você? — Shirayuki sinceramente não sabia se sentia-se grata ou chateada com isso.

— Sim. Disse que estava preocupada, e me pediu pra checar se você estava bem.

— E por que ela mesma não veio? — A menina não queria soar rude, e temia que o tivesse acabado de fazer.

— Se eu sou tão indesejado aqui, posso me retirar agora mesmo — Obi lhe lançou um olhar divertido, o qual foi recebido com outro desdenhoso por parte dela, logo em seguida um sorriso. — Não sei, senhorita. Talvez porque eu cavalgue melhor que ela.

— Vou contar a ela o que você acabou de dizer.

— Você não faria isso! — O menino quase deixou cinco pequenos potes caírem, fazendo Shirayuki soltar uma gargalhada. Quando virou para olhá-lo, ele a olhava e sorria de outro jeito, com uma intensidade que ela já havia visto antes. Percebendo que ela notara, Obi voltou a atenção para o balcão, sem graça.

— Desculpa, senhorita. É só que senti falta dessa risada — Um aperto no peito a atingiu, no mesmo momento em que lembrava-se daquele dia fatídico, e daquelas palavras que a perseguiam desde o momento em que foram ditas.

Eu te amo.

Tentando voltar ao que estava fazendo, Shirayuki pensou em algo para dizer e quebrar o silêncio constrangedor.

— Bom, você tem lugar para dormir?

— É, esse ainda é um detalhe a ser visto... — Ela riu e, chamando-o para levar algumas caixas para o lado de fora, continuou:

— Eu perguntei porque não tenho exatamente um hotel 5 estrelas, mas posso dizer que meu sofá é bem confortável. Então, se quiser ficar, é mais que bem-vindo — Assim que terminaram de amontoar o lixo nas latas, ele sentou-se na cerca e a olhou, rindo.

— Não poderei fazer nada a não ser aceitar, senhorita — E os dois ficaram ali, conversando e perdendo tempo, debaixo das estrelas faiscantes, rodeados pelo som incessante dos grilos. Poderiam ficar ali a noite inteira.



Já fazia algum tempo desde que Obi chegara, e àquela altura todos os amigos de Shirayuki já estavam familiarizados com ele – quer fosse de um jeito bom ou não. Chihiro e Shoyo o adoravam, mas o mesmo não podia ser dito de Kousaku – não havia acontecido nada entre eles, simplesmente não se bicavam. Toda vez que eles discutiam, Shirayuki lembrava-se vagamente de Mihaya e como ele se irritava facilmente quando o “gato de rua” estava por perto.

— Você é divertido, Obi-san — Chihiro disse, no meio de uma risada. Os três caminhavam pelas ruas do mercado, um amontoado de barraquinhas ao ar livre cheio de pessoas, procurando por nada em particular. — Devia aparecer mais vezes, pelo menos assim Shirayuki-chan não ficaria tão triste todo o te...

— Chihiro-san! — A menina tampou a boca da amiga com a mão, envergonhada, mas Obi já estava rindo.

— Ela não parece precisar de mim, com tantos clientes tão amigáveis.

— Que nada, nós mal a conhecemos. O passado dessa herbalista é um segredo... — Continuou Chihiro, num tom mais misterioso, olhando para a amiga de um jeito provocante.

— Tá, chega de me difamar, vamos naquilo ali! — Shirayuki puxou os dois pelo braço até um brinquedo. Era um daqueles que se você acertar tantos alvos, ganha um prêmio. Os três começaram a batalha, rindo e atrapalhando uns aos outros. Quando haviam terminado, Shoyo e Nana apareceram, e Shoyo insistiu que queria que Vemeio jogasse uma rodada contra ele. Dando uma desculpa qualquer, Obi e Chihiro ficaram de fora, um pouco distantes.

— Eu falei sério, Obi-san — Murmurou ela, tentando não deixar Shirayuki ouvir e chamando a atenção dele. — Ela está sempre pra baixo, sorrindo para fingir que não está. Não conta nada da própria vida, da família, dos amigos, nada. Eu me preocupo muito. Queria pedir ajuda a alguém que a conhecesse melhor, mas eu não sabia de ninguém, por isso que você aparecer foi uma surpresa maravilhosa. Eu já percebi o que sente por ela — Aquilo o surpreendeu. — E apoio totalmente, desde que a deixe feliz e menos solitária. O que quero dizer... é que talvez a sua presença faça um bem enorme a Shirayuki-chan.

Obi suspirou, movendo o olhar para a menina de cabelos vermelhos.

— Não importam as circunstâncias se a senhorita for feliz. Vou fazer de tudo para ela ficar bem — Chihiro sorriu, mas deu um soco no ombro dele. — Ai! Pra que isso?

— Pense em você também, babaca.

Aquilo o surpreendeu novamente, mas não disse nada ao esperarem os outros se juntarem a eles – Shoyo segurando um enorme hipopótamo de pelúcia – e continuaram o passeio, olhando as barraquinhas e de vez em quando parando para lanchar alguma coisa. Nana quase não conseguia dar conta de vigiar Shoyo e impedir que ele se perdesse, então Obi o agarrou contra sua vontade – mesmo que estivesse rindo – e o pôs nos ombros, como fizera tanto tempo antes no castelo com Ryuu. O mais velho brincava, provocava e fazia todos rirem, até chegarem ao mirante que dava para o vale. Havia pessoas perto da cerca, observando o pôr do sol. Os sons do mercado agora estavam mais distantes, servindo de plano de fundo para eles ali, bem debaixo de uma enorme árvore. O carismático grupo de cinco parou, encostando-se na cerca para sentir o vento frio e o cheiro das flores que cresciam ao longo do vale. Shoyo parecia gostar da vista mais ampla que tinha naquele momento, e Chihiro conversava com Nana alegremente. Shirayuki, ao apoiar-se, sem querer encostou sua mão na de Obi, já segurando-se na cerca. Por um segundo, ela o olhou pedindo desculpas envergonhadas, mesmo ele não fazendo nada próximo a uma reclamação. Corando, a menina virou o olhar do sorriso dele. Mas não moveu a mão.

— Você já contou a ele sobre o festival de daqui a dois dias? — Chihiro perguntou, quando acenavam para Nana e Shoyo, ambos já entrando em casa. Shirayuki, fazendo uma cara engraçada, disse:

— O festival! Esqueci totalmente! — Rindo, a amiga deu dois soquinhos na cabeça dela.

— Besta...

— Opa, uma festa? Podem contar com a minha presença — Obi disse, em um tom divertido. — Muita bebida e moças bonitas, espero — Enquanto Shirayuki lhe lançava um olhar desdenhoso, Chihiro explicava, rindo ainda mais.

— Acontece uma vez ao ano. É justamente quando as árvores daqui soltam suas folhas características, e fica tudo coberto de amarelo. Tem uma lenda que diz que quanto mais folhas as pessoas acumularem nesse dia, mais sorte terão no ano seguinte.

— Parece divertido. Mal posso esperar — Disse Obi, fazendo Shirayuki sorrir e concordar. O trio continuou conversando e caminhando até chegarem à casa de Chihiro e se separarem ali.



— Argh, por que o sol tem que brilhar tanto... — Obi coçou os olhos, incomodados com a luz que vinha da janela. Olhando o relógio na parede, viu que já passara muitas horas dormindo, e o céu já dava adeus ao astro-rei. Com relutância, ele espreguiçou-se e foi procurar algo para comer. — Senhorita? Sentiu minha falta?

Continuou chamando pela amiga, mas ela não estava atrás do balcão ou na cozinha, nem mesmo no pequeno quarto atrás da escada. Como ela não estava no andar da loja, presumiu que seu quarto fosse na parte de cima, então começou a subir as escadas. Lá, viu um pequeno corredor que ligava dois cômodos, ambos com as portas entreabertas. Ele verificou um deles – era o banheiro – e seguiu para o outro, andando mais devagar. Ao bater na porta, chamou por ela, dando os primeiros passos para dentro, relutante. De primeira, achou que estivesse vazio também, começando a resmungar; mas então ouviu um muxoxo de algum lugar e virou-se.

Shirayuki dormia como uma criança, com a cabeça caída nos vários papéis na mesa à sua frente – parecia estar naquela posição há um bom tempo. Obi riu, se aproximando dela. Os cabelos brilhantes caíam-lhe nos olhos, e ele viu seus dedos deslizarem para brincar com alguns fios. Suspirando, ele ergueu os ombros da menina e apoiou-a em seu peito, erguendo-a e levando-a até a cama, onde a deixou. Ainda sorria ao observá-la mais um pouco, mesmo logo tendo que forçar os próprios pés a se afastarem. Porém, um puxão o fez parar, virando o rosto só para vê-la segurando sua mão – quase soltando-a, pois ainda estava meio adormecida.

Aquilo o surpreendeu, claramente, e levou um tempo para de fato conseguir se mover. Mas, sorrindo, se abaixou para sentar-se no chão ao lado da cama, segurando sua mão.

Notas finais
(ps: na parte em que Shoyo diz "Vemeio!!", eu havia pensado nessa fala em japonês, e essa foi a melhor tradução que consegui. "Akagami" quer dizer ruiva ou cabelo vermelho em japonês, e eu pensara que Shoyo chamaria Shirayuki apenas de "Aka" (vermelho), já que os outros ao seu redor antes a chamavam de "Akagami". "Vemeio" foi uma forma infantil que eu encontrei para substituir o "Aka"... enfim, espero que não tenha ficado muito forçado rs) obrigada por ter chegado até aqui, eu nem te conheço e tu já tens um lugar no meu coração ♡ ei, fique com vergonha não, valorização é muito importante pra quem escreve, deixa teu comentário aí!! pode falar o que quiser ^^ ~gabinnie
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.