Christmas Tree Farm

10 Teria morrido pelos seus pecados, porém só morri por dentro


Notas iniciais
Olá, amores! 💖 Alerta de Gatilho: Sangue e Assassinatos! Já começo avisando que precisei encurtar os títulos (que são letras de músicas da Taylor), porque não coube tudo na barrinha ali de cima. As duas músicas citadas diretamente neste capítulo são The Great War, a mesma da parte 1 do interlúdio, e Bigger Than the Whole Sky. Já a música citada de forma indireta, que serve como referência para o título, é The Smallest Man Who Ever Lived, que será a música-tema principal do próximo interlúdio. Beijos 💖 Boa leitura!

Interlúdio — Parte II

Eu teria morrido pelos seus pecados. Em vez disso, só morri por dentro.


KORY SE DESPEDIU DE JOEY e seguiu até o carro, pensando em como contaria à Sra. Kane que não tinha conseguido convencê-lo a mudar de ideia e desistir dessa história de Titãs. Ainda estava imersa nesses pensamentos quando se sentou ao volante e percebeu o celular vibrando dentro da bolsa, que havia deixado no banco de trás.

Ela o pegou e viu três chamadas perdidas de Lucky Haiden e uma mensagem de voz.

Oi, Kory, é a Lucky. Desculpa por todas as ligações, imagino que você deva estar ocupada. Quando puder, você pode vir aqui em casa? É no mesmo endereço que te falei aquele dia, mas vou te mandar por escrito também, só por precaução. É sobre… — A voz hesitou. — A morte do meu Wally. Eu acabei fazendo uma pequena investigação e… isso realmente não dá pra explicar por áudio. Por favor, você pode vir até aqui?

Abaixo, estava o endereço escrito. A mensagem tinha acabado de chegar e Kory acabara de ouvi-la.


[Kory] Oi, Lucky, tudo bem?

[Kory] Só consegui ver agora, estava resolvendo algumas coisas com uma amiga.

[Kory] Posso ir pra sua casa agora, tem problema?

[Kory] Vai demorar por volta de 1 hora, porque estou em Nova Iorque agora


[Lucky] Problema algum, pode vir.

[Lucky] Honestamente, fico muito aliviada que você venha.

[Lucky] Estarei te esperando, é só tocar a campainha.


[Kory] Ok, estou indo praí agora.

[Kory] Até daqui a pouco.


[Lucky] Combinado. Até!


Anders estacionou o carro em frente ao endereço indicado pelo GPS, numa das periferias de Gotham. Era uma casa pequena, de paredes brancas e telhado marrom. Havia apenas uma janela, que parecia ser do quarto da frente, ao lado de uma porta que ele deduziu dar na sala. O jardim era muito bonito, cheio de orquídeas, rosas e margaridas. Nele também havia um cachorrinho pequeno e peludo, parecendo uma bolinha de pelos marrons, andando de um lado para o outro. A casa era cercada por uma cerca média de madeira bege.

Kory buzinou e avisou a amiga por mensagem que havia chegado.

— Boa tarde, Kory! Que bom que veio. — disse Lucky, sorrindo, ao abrir a porta. — Quem precisa de campainha quando se tem a Morgan?

O cachorrinho começou a latir e a tentar se apoiar no portãozinho da cerca, rosnando para a tamaraneana.

— Morgan, não! Ela é amiga! — ralhou Lucky, mas a Lulu-da-Pomerânia continuou bancando a valente. — Só um minuto, vou colocá-la no quintal do fundo. — disse, pegando um petisco de bacon e jogando-o no ar. — Morgan, olha, seu favorito! Vem pegar!

Ainda meio receosa, mas finalmente convencida, Morgan cedeu e correu atrás da tutora, que a guiou até o quintal dos fundos e a deixou do outro lado da cerca, onde ficava a área de lazer, com churrasqueira, cadeiras de sol e uma piscina protegida para pets.

— Pronto, domei a fera. — disse Lucky ao voltar, secando um pouco do suor da testa. Ela usava um vestido rosa e luvas de jardinagem. Kory notou que a terra ao redor das plantas ainda estava úmida, então deduziu que a amiga estava cuidando do jardim há poucos minutos. — Que bom que veio. Estava com saudades.

— Eu também estava. — respondeu Kory, entrando. — Posso te dar um abraço?

— Claro, se não se importar com a terra.

— Imagina! Todo bom tamaraneano brinca com a lama antes de aprender a voar no meu planeta. — confessou.

Lucky tirou as luvas e a abraçou.

— E aí, como você está? — perguntou Kory. — Não te vejo desde o… velório do Wally.

Lucky ficou visivelmente abatida.

— Cada dia ainda parece um pesadelo interminável… mas, aos poucos, estou me acostumando com a ausência dele, com a falta das brincadeiras e da bagunça que ele fazia. — suspirou. — Quer entrar e tomar um pouco de chá? Acabei de fazer.

— Adoraria. Minha garganta está seca.

Ao entrarem na casa, Kory notou que a sala era composta por uma TV de LED presa a um painel marrom-escuro. Havia uma mesinha de centro com algumas fotos de Lucky e Wally e, na parede, várias outras fotografias, que ela deduziu serem da família Haiden. Algumas fotos de Morgan filhote também estavam ali.

— Sente-se. — Lucky apontou para o sofá vermelho e espaçoso. Ao lado, havia uma mesinha de vidro com um telefone fixo. — Vou buscar o chá.

— Ok.

— Sabe, a Morgan foi um presente do Wally para mim, logo que nos mudamos para cá. Ele estava sempre tão ocupado salvando o mundo e dizia que era bom eu ter uma pequena companhia, para não me sentir tão sozinha. — Haiden admitiu. — Acredite ou não, ela já tem sete anos. O que não cresceu de tamanho, cresceu de gênio. E ela odeia conhecer pessoas novas.

— Olha, eu sinceramente acho que a entendo. — Kory soltou um riso anasalado.

Lucky voltou com um bule e duas xícaras, ambos brancos, junto de um pacote de bolachas.

— Então, o que tinha de tão importante para me mostrar? — questionou, mastigando uma bolacha e se servindo de chá.

— Um minuto. Está no meu laptop. Vou lá em cima buscar. — informou a mulher de cabelos rosados, subindo as escadas para o segundo andar.

Quando Lucky voltou, estava agarrada ao laptop.

— É sobre o Wally. — disse, sentando-se ao lado de Kory. — Mais especificamente, sobre a… morte dele. — Engoliu em seco. — Eu sei que deveria tentar não pensar nisso. Até minha psicóloga me orientou a afastar esses pensamentos, porque estavam me fazendo muito mal. Mas eu fui teimosa… e pedi para a Karen me dar acesso aos vídeos da noite em que ele morreu, quando a empresa que o Gizmo e o Mamute estavam roubando liberou as gravações para a polícia.

— Eu acho que cada um lida com o luto do seu próprio jeito. — admitiu Kory. — Talvez encarar isso seja a sua forma de tentar superar.

— Eu assisti a esses vídeos várias vezes, em looping… — Os olhos da Haiden começaram a se encher de lágrimas. — E me senti péssima por fazer isso comigo mesma. Mas… eu percebi uma coisa. As cenas são difíceis, então eu vou entender se você não quiser ver.

— Tudo bem, pode mostrar. — Kory forçou um pequeno sorriso. — Infelizmente, eu já vi coisas muito piores quando era prisioneira da Cidadela.

— Sinto muito por isso. — disse Lucky, colocando o laptop sobre a mesinha de centro, após abrir espaço e abrir o vídeo

Era exatamente o que Kory imaginou, videos de três câmeras, em posições diferentes, gravando Wally conversando com a nova formação de Titãs da Costa Oeste — Garth, Donna, Hank, Dawn e Dick. E então, o tiro veio, acertando Wally na testa. Ele caiu no chão na hora, muito sangue surgindo ao redor.

— Isso é horrível… — murmurou Kory. — Pelo menos… acho que ele não sofreu. Provavelmente nem percebeu o que estava acontecendo.

— Também acho, nem viu a morte chegar. Ele era uma pessoa tão boa… — Secou uma lágrima e fungou fundo. — E como a Karen já deve ter te contado, o Exterminador foi o assassino. Infelizmente, a polícia ainda não conseguiu prender esse verme. Ele estava nessa van — Trocou de vídeo, que mostrava a van ao fundo, camuflada entre os carros de funcionários do estacionamento, onde exterminador estava ajustado, com uma Barrett M82, mirada para eles. — Ele estava a quase cinco quilômetros de distância… e, mesmo assim, o disparo foi certeiro. A bala viajou a mais de 3.060 quilômetros por hora. Ninguém viu. Ninguém percebeu nada, antes que fosse tarde.

— Sinto muito — Kory tocou as costas da amiga, realmente não sabia o que falar ou como agir em momentos duros como aqueles, se tornando uma pessoa bem menos expressiva do que costumava ser e se julgava por isso.

— Mas, tem algo estranho que eu notei…

— Como assim? Tinha mais alguém com o Exterminador?

— Não… é que eu sei que isso vai soar como loucura, mas acho que o alvo nunca foi o Wally. Nem nenhum dos outros Titãs, com exceção do Grayson. Eu sei, parece absurdo, e provavelmente ninguém vai acreditar em mim. Vão dizer que eu estou surtando, que estou tentando acobertar a Hive Five ou inventar qualquer outra coisa desse tipo… — Deu uma breve pausa, passou a mão no cabelo. — Mas eu tenho certeza. O verdadeiro alvo era o Dick Grayson.

A Tamaraneana ficou em silêncio.

— E eu tenho como provar. Vou reduzir a velocidade para 10% do tempo real — disse ela, com a voz carregada de uma precisão sombria.

Ambas se inclinaram, o brilho azulado da tela do laptop refletindo em seus olhos.

— Observe o padrão: Wally estava em movimento constante, alternando vetores rapidamente enquanto falava com Donna e Dawn. Provavelmente alguma piada para aliviar a tensão. Hank e Garth estavam ocupados na zona de custódia, e Dick... — Lucky circulou um ponto específico na tela com o dedo — Dick estava estático, exatamente a 180° em relação à posição da van. Um alvo fixo perfeito.

Ela pausou o frame por um segundo, o cursor piscando sobre a silhueta escura dentro do veículo.

— O Exterminador não estava caçando o Wally. O cálculo dele foi feito para uma trajetória linear direta rumo ao crânio do Dick. Mas perceba o erro fatal na cronometragem: no milissegundo em que o percursor atingiu a bala, o Wally mudou de direção. Ele correu para a linha de fogo a mais de 3.000 km/h. Foi uma questão de frações de segundo. Hora errada, vetor errado. O Dick era o alvo pretendido... o meu Wally foi apenas uma variável estatística que entrou no caminho. E é impossível que a polícia não tenha notado isso.

— Uau, isso foi impressionante, de verdade! Não sabia que você sabia tanto de…

— Balística? Eu cheguei a começar com a faculdade florence, — disse tímida, dando os ombros. — mas… eu abandonei depois da morte do Wally… as contas vinham com força e eu não poderia apenas estudar, e não consegui nenhum emprego que conciliasse com o curso.

— Quem sabe algum dia você consiga concluir.

— Desculpa, mas no momento, acho impossível… sem contar que, aproveitei esse baque para voltar a ir atrás de um antigo sonho meu, que achava até bobo, mas que o Wally sempre me apoiou…

— Que seria?

— Ser atriz. Mesmo de teatros pequenos, com a plateia quase vazia, eu quero voltar a atuar… e a Srta. Farr me disse que conhece gente de poder em Los Angeles para me apresentar, quem sabe, Hollywood não se torne meu novo lar?

— Tenho certeza que será. Estou orgulhosa por ter conseguido tirar algo lúcido no meio de toda essa…

— Loucura? — Lucky arriscou e Anders assentiu. — Obrigada.

— E, sinceramente… — Kory se recostou no estofado macio do sofá. — Voltando ao assunto que nos trouxe aqui, faz todo sentido o Dick ser o alvo do Slade, considerando o histórico dos dois. Até hoje eu não sei como ele sobreviveu daquela vez. Mas ainda é estranho, porque… ele tinha sumido de Gotham. Chegou a parecer que tinha saído do país. Por que voltaria justo agora… para tentar matar o Dick e…

— Talvez tenha vindo terminar o serviço que não conseguiu concluir há seis anos. — Lucky deu de ombros. — Ego ferido por ter perdido. E por quase ter sido preso.

Kory suspirou.

— Obrigada por confiar isso a mim, Lucky. Mas, infelizmente, o Dick é praticamente casado com a filha do comissário. É óbvio que eles nunca vão investigar isso a fundo, muito menos deixar a mídia chegar perto. Nem ao menos divulgaram que o Slade era o assassino, é uma informação sigilosa que poucos sabem. Fizeram de tudo para abafar o caso, com certeza ainda existem muitos capítulos dessa história que a gente não conhece.

— Eu até tentei investigar por conta própria, mas ninguém, além de você e da Karen, confia em mim. — ela deu de ombros. — E a Karen está ocupada demais agora com o casamento. Eu não queria incomodá-la com isso. Acho que você consegue fazer um trabalho melhor do que eu… e encontrar respostas.

— Eu vou. Pode acreditar. — Kory segurou as mãos da amiga. — Você pode me mandar uma cópia?

— Eu gravei tudo em um DVD. — disse Lucky, entregando uma caixinha fechada. — Não confio em enviar nada por meios digitais, como e-mail ou coisa do tipo. Qualquer um pode estar nos vigiando. Tanto o Exterminador quanto o…

…Robin. — completou a ruiva. — E, sinceramente, eu não sei qual dessas duas possibilidades me assusta mais.

— Nem eu…

Morgan voltou a latir, com aquele latido fininho e agudo. Como a porta da cozinha era de vidro, dava para ver a cachorrinha pulando do outro lado. Depois, ela parou, pegou uma mangueira amarela com a boca, deixou-a cair no chão e a empurrou com o focinho, como se estivesse apontando para ela.

Kory riu. Teve vontade de pegá-la no colo e abraçá-la de tão fofa.

— Morgan, por favor, a mamãe e a amiga dela estão conversando. — repreendeu Lucky.

Ela suspirou e olhou para a amiga.

— Desculpa, mas quando dá esse horário… é a hora dela tomar…

[...]

Um banho de água fria e relaxante era tudo o que a ruiva precisava para aliviar o estresse acumulado no corpo.

Enquanto a água escorria por sua pele escura e reluzente e por seu cabelo longo, volumoso e cheio de cachos, sua mente insistia em repetir o vídeo da morte de Wally e a explicação de Lucky, uma e outra vez.

Wally morreu por acidente. Ele nunca foi o alvo.

O alvo era Dick.

Por que Slade tinha uma obsessão tão doentia pelo seu ex-namorado? E por que, depois de tantos anos, resolveu voltar só agora? Ele tinha se afastado de tudo, até mesmo da própria família, para não colocá-los em perigo depois da morte de Grant e do acidente com Joey.

Então por que voltar justamente agora?

Junho. Wally havia morrido no dia 18 de Junho daquele ano. E… alguns meses antes disso, Dick tinha começado a se aproximar da família de Slade. De Joey. E agora… os Titãs queriam recrutá-lo para a equipe.

Os olhos de Kory se abriram de repente.

Puta que pariu…!

Nesse instante, o celular que estava no suporte do lado de fora do box — tocando baixinho a música “Summertime Sadness” da Lana Del Rey — parou a música e começou a tocar com uma chamada recebida.

Ela abriu a porta do box ainda pingando e franziu o cenho ao ver o nome na tela.


Rita Farr

Instituto de Reabilitação Éter


— Será que a minha irmã está com algum problema de novo? — murmurou para si mesma, sentindo o coração apertar.

Ao pegar o celular, percebeu que tinha mais de 19 mensagens de Koma. Como o aparelho estava no silencioso, ela não tinha notado.

As primeiras eram normais: “boa tarde”, “boa noite”, comentários sobre alguns rascunhos moldes de argila de ela tinha feito ao longo do dia.

Mas as últimas… eram desesperadoras.

O estômago de Kory se embrulhou.


“Kory, tem algo de muito estranho aqui.”

“Tô ouvindo gritos e tiros do andar de baixo.”

“Por favor, vem me ajudar.”

“Acho que eles estão se aproximando do meu quarto.”

“A internet caiu, tô usando meus dados móveis, que já estão no fim.”

“Kory, por favor, me ajuda!”

“Socorro!”


O coração dela começou a bater tão forte que parecia querer saltar do peito.

Rita ligou mais uma vez.

Kory correu para pegar a toalha, quase escorregou no chão molhado e atendeu a chamada.

— Rita, a Koma acabou de me mandar umas mensagens estranhas. Por favor, me diga o que aconteceu. Ela tá bem?

Do outro lado da linha, ela ouviu um choro contido.

— Rita? Por favor, me responda! A Koma tá bem? O que está acontecendo?

Houve um breve silêncio… e então outra voz assumiu a ligação.

Oi, Star. É o Gar. — respondeu o rapaz. — Minha mãe tá muito abalada pra falar agora… mas sim, aconteceu um incidente terrível aqui no instituto.

Por um momento, Kory sentiu como se tudo ao seu redor entrasse em câmera lenta. Até a própria frequência cardíaca pareceu desacelerar, enquanto um zumbido forte tomava conta de seus ouvidos.

Mal se lembrava das palavras que usara ao ligar para o pai e repassar a informação. Também não lembrava de ter se vestido — apenas sabia que tinha colocado o primeiro vestido roxo que encontrou no guarda-roupa e o primeiro par de tênis que viu, antes de pegar o carro e dirigir até o instituto. De Nova Iorque para Jump City. 1 hora e meia de viagem.

Era como se sua consciência tivesse sido colocada no piloto automático, só para que sua mente conseguisse processar o que estava acontecendo.

E aquilo que ela viu assim que chegou ao estacionamento do instituto… não chegava nem perto do que sua imaginação poderia ter criado.

Era muito pior!

[...]

— O que poderia ser de tão importante que você só poderia me dizer pessoalmente, hein, srta. Komand’r? — perguntou Kory.

As duas tinham acabado de chegar ao quarto de Koma naquela manhã de Fevereiro. As paredes eram brancas, a cama tinha uma colcha bege e almofadas em lilás, tudo organizado demais para alguém que estava claramente nervosa.

— Hoje veio um colunista da ArtReview aqui no instituto. Julian Vance. — Contou, tentando conter ao máximo a empolgação em seu tom de voz.

— Glorioso! Mas… quem é esse? — A irmã mais nova riu sem graça, encolhendo os ombros.

— Ele é um crítico de arte muito influente. Amigo da Rita, também nunca havia ouvido falar dele antes disso. — Riu baixinho. — Foi ela quem recomendou que ele viesse ver o meu trabalho. Além disso, ele é o curador-chefe do The Vance Atelier, um dos museus mais famosos da atualidade. É praticamente uma vitrine para colecionadores de elite.

— Uau… — Kory sorriu. — E o que ele achou das suas esculturas? Se ele te magoou… — Os olhos dela ameaçaram ganhar um tom esverdeado.

— Ele amou! Disse que eu sou “um espírito que transcende a arte e a vida através de minhas esculturas”.

— E é mesmo — disse uma nova voz.

A srta. Rita Farr entrou no quarto com seu vestido vermelho e luvas longas pretas elegantes, longos brincos de ouro, andando de forma confiante. Os cabelos castanhos cuidadosamente cacheados e brilhosos.

— Ele é o tipo de homem que pode destruir uma carreira com um adjetivo… ou transformar um desconhecido em milionário com um aperto de mãos. Ele não gosta do óbvio. Ele busca o que é visceral e tecnicamente impecável.

— Que chique! — comentou Kory.

— Vance não olha para a arte. Ele a disseca — completou Rita. — Se ele parou diante das esculturas de Koma por mais de dez segundos, o mundo da arte vai parar por dez anos.

— Que orgulho! — Kory puxou a irmã para um abraço apertado.

Koma, porém, não parecia aliviada.

— Ele quer que eu faça uma peça única para ele… até o final deste ano, para a primeira sessão de 2017. — A voz dela tremeu. — E eu estou com medo. E se eu não conseguir? E se eu não for… suficiente?

O quarto ficou em silêncio por um instante.

Kory segurou o rosto da irmã com as duas mãos, obrigando-a a encará-la.

— Koma, olhe para mim. Você literalmente transforma pedra em emoção. Você faz pessoas chorarem olhando para algo que nem sequer se mexe. Se isso não é ser suficiente, eu não sei o que é.

— Medo não é sinal de fraqueza — disse Rita, com a voz mais suave do que o normal. — É sinal de que isso importa. Vance não pede obras a artistas comuns. Ele pede a quem pode criar algo que o mundo ainda não viu.

— Mas e se eu falhar? — sussurrou Koma.

— Então você tenta de novo! Simples assim. — respondeu Kory sem hesitar. — Mas você não vai falhar. Você nunca falha quando cria com o coração. E suas esculturas são dignas de Michelangelo!

Exagerada… — Koma murmurou, rindo nasalado e se segurando para não cair no choro.

Rita cruzou os braços, observando-a com um pequeno sorriso orgulhoso.

— Você não precisa provar nada a Julian Vance, Koma. Ele é que precisa estar à altura da sua arte.

Koma respirou fundo, sentindo o nó no peito diminuir um pouco.

— Obrigada… às duas.

Kory a abraçou de novo. Rita se juntou ao abraço dessa vez.

— Agora vem. Vamos comemorar. Porque gênios artísticos não entram em pânico sozinhos.

E, pela primeira vez desde que dera a notícia, Koma sorriu de verdade. E aquela oportunidade de ver a irmã bem e finalmente brilhante, a emocionou tanto que sentiu seus olhos se embasando com pequenas lágrimas e…

[...]

Só conseguia sentir um desespero avassalador quando ergueu o olhar para a instituição. Havia várias ambulâncias, além de viaturas da polícia e dos bombeiros estacionadas em frente ao instituto, levando doentes de um lado para o outro. As escadarias estavam manchadas de sangue, que escorria pelos degraus. O prédio inteiro estava isolado por fitas de Crime Scene Tape.

— Eu preciso entrar. Minha irmã é uma das vítimas, Koma Anders — disse ela, tentando falar com um policial.

— Desculpe, área restrita.

Ela sentiu vontade de gritar de desespero.

— Está tudo bem — interveio a senhorita Farr, dirigindo-se ao policial. — Ela é realmente parente de uma das vítimas, Koma Anders. E também é uma super-heroína, a Estelar. Já fez parte dos Titãs.

A mulher, que sempre andava elegante, agora estava visivelmente abalada, com os olhos inchados e o nariz vermelho de tanto chorar. Kory percebeu isso imediatamente.

O policial suspirou.

— Tudo bem, srta. Farr. Mas a senhora será responsável se algo acontecer.

— Tudo bem. Eu assumo.

Rita segurou a mão de Kory e a guiou pelos corredores. Tudo estava revirado e quebrado.

— O que houve aqui? — perguntou Kory, em choque.

— Invadiram o instituto, querida.

— Quem faria isso?

— Slade — respondeu Garfield, que estava no corredor. Por um momento, Kory se sentiu nostálgica ao vê-lo usando o antigo uniforme preto e roxo depois de tantos anos. — Ele é como um pesadelo, sempre voltando para nos assombrar. Ele atacou e botou fogo neste lugar, pra valer, mas os bombeiros já apagaram.

— Quantas… pessoas ele matou? — Kory perguntou, vendo dois paramédicos passarem com duas macas com corpos cobertos por panos brancos. — Como a Koma está? Ela me mandou uma mensagem desesperada e… por que estão me olhando assim?

— Kory? — chamou Rita, segurando suas mãos. — Eu preciso que você seja forte.

— Por quê? O que você quer dizer com isso? Eles a machucaram muito? Ficará com alguma sequela?

— Kory… — desta vez foi Garfield quem a chamou, aproximando-se.

— O quê? Não…! — A mulher ruiva deu alguns passos para trás, negando com a cabeça e sentindo os olhos arderem muito, junto de um nó crescente na garganta, enquanto apertava com firmeza as mãos de Rita. — Por favor, não…! Não me diga que…

Rita respirou fundo antes de falar:

— Ela se foi, querida. Ela e quase todos os pacientes do segundo andar. Foi um ataque surpresa, por volta da meia-noite. Estava todo mundo dormindo e…

Kory sentiu o chão sumir sob seus pés.

— Slade estava bem equipado — continuou Garfield, com a voz pesada. — E parecia ter uma lista de pessoas que queria riscar. Tirando os que conseguiram escapar feridos, a maioria dos alvos eram… informantes. Como a Koma. Pessoas que trabalharam para ele no passado e queriam uma segunda chance. Ele os eliminou como quem queima papéis comprometedores numa lareira.

Kory já chorava antes mesmo de Garfield terminar a explicação. Rita a abraçou com força para confortá-la — e acabou chorando junto também, de novo. Garfield se aproximou e tocou seu ombro. Então, ela estendeu o braço e o puxou para o abraço.

— Meus sentimentos, maninha — ele disse, com a voz suave e baixa.

— Eu não entendo… por que tanta maldade? Ela só queria uma segunda chance…

— Slade é um monstro sob a pele de um humano — respondeu Garfield, cerrando os pulsos.

Kory ergueu o rosto, com os olhos cheios de lágrimas.

— Onde ela está? Onde está? Eu quero vê-la… — Sua voz falhou. — Como ele a matou?

Mãe e filho ficaram em silêncio, encarando-se por alguns segundos.

— Por favor, parem com esse mistério. Me contem logo de uma vez… eu aguento — Kory quase gritou, com a voz tremendo.

Rita assentiu, e Garfield respirou fundo antes de falar.

— Ela está ali, no pátio principal. No mastro, perto da fonte. Ainda não deu tempo de as autoridades fazerem a perícia e a retirarem de lá…

Amparada por Rita, Kory caminhou lentamente pelo corredor até o portal que dava para a praça principal. À medida que se aproximava, espiava pelas janelas na parede, tentando entender o que a esperava lá fora. Mas nada — absolutamente nada — poderia tê-la preparado para o que viu quando atravessou o portal.

Ela ficou sem ar.

Quis gritar o mais alto que seus pulmões permitissem, mas o som morreu em sua garganta. Suas pernas cederam, como se o próprio corpo tivesse se tornado pesado demais para suportar. Rita a segurou antes que ela caísse por completo.

Koma, de fato, estava lá. No mastro.

Kory demorou alguns segundos para conseguir processar o que estava vendo.

Pelo que tudo indicava, a irmã fora arremessada da sacada do terceiro andar e teve seu busto empalado pelo mastro da bandeira. “Deitada” de barriga para cima, com braços e pernas esticados, onde gotas grossas de sangue pingavam de suas mãos. Seus longos cabelos pretos como ébano estavam cortados de forma irregular, era possível que tivessem sido cortados enquanto ela esteve numa possível luta corpo a corpo com o Exterminador. Sua boca estava aberta por total e seus olhos violetas estavam começando a perder a cor.

Ao perceber de verdade o que estava diante dela, Kory sentiu um frio subir pela espinha. Suas mãos e pernas começaram a tremer, e seu coração — despedaçado — batia rápido demais, doendo mais do que qualquer ferimento físico jamais poderia doer.

— NÃO! — O grito saiu em meio aos soluços.

Rita a puxou para um abraço apertado, também chorando, com a voz embargada:

— Vai ficar tudo bem, querida. Aquele desgraçado vai pagar por isso. Por tudo o que ele fez.

Mas Kory sabia que aquilo não era verdade. Slade nunca era punido de verdade. Ele sempre escapava. Sempre sumia como água entre os dedos, antes que os investigadores encontrassem as primeiras pistas de seu paradeiro.

— Gar, traga água pra ela, por favor — pediu Rita.

Garfield parecia em choque, ainda encarando o mastro com um nó no estômago, frio do medo e um arrepio na espinha. Ele assentiu, mas sentiu as pernas fraquejarem antes de conseguir se virar e caminhar até o bebedouro mais próximo.

— Ele não tinha esse direito. — Kory choramingava e sua voz falhava. — Ela merecia uma segunda chance, ela…estava tão perto de ter suas esculturas serem expostas no melhor museu de Gotham. Como vou explicar pro meu pai? Como? Pro Ryan? Que ela não vai voltar mais?

— Eu não sei, querida. — Rita a trouxe para mais perto, colocando a cabeça da ruiva debaixo de seu pescoço. — Verdadeiramente, não sei, querida.

Depois disso, Rita e Gar a conduziram até a cozinha. Ali, Kory bebeu água com açúcar e tentou fazer alguns exercícios de respiração, enquanto sentia a cabeça latejar e lembranças da irmã passarem por sua mente como cenas de um filme antigo.

Com muito cuidado, ela ligou para o pai e contou o que havia acontecido. Ele disse que deixaria Ryan com algum parente antes de ir para o instituto. Kory imaginou que ele provavelmente abriria alguma garrafa de cerveja no caminho, tentando reunir coragem para encarar o que encontraria. Em qualquer outra situação, ela o julgaria por isso. Mas agora… só conseguia chorar e tremer.

O celular vibrou sobre a mesa.

Ela viu o aparelho, mas não teve forças para se aproximar nem para ver quem estava ligando, mas não teve coragem de se aproximar e ver do que se tratava.

— Já vasculhamos toda a área, Mutano. Nenhum sinal de Slade. Aquele desgraçado fugiu! — Aquela voz masculina…

— Oh, não! — murmurou Kory, fechando os olhos com força.

— Calma, ele não deve ter ido muito longe — respondeu Garfield. — Meu tio La… quer dizer, o Homem-Negativo e o Homem-Robô foram com o Rapina e a Columba investigar as cidades mais próximas do fim da floresta.

— Que ideia brilhante, construir um instituto no meio de uma floresta — rebateu uma voz feminina. Provavelmente Donna Troy. — Com todo respeito, srta. Farr.

— Digamos que meu ex-marido nunca foi dos mais espertos — suspirou Rita, lançando um olhar de lado para Kory na cozinha. — Ela está completamente abalada… coitada. A Koma estava indo tão bem.

— Ela já devia imaginar que o vício da irmã e as más escolhas não iam levar a lugar nenhum — comentou outra voz masculina. Garth.

Garfield rosnou.

— Vá com calma nos julgamentos, Aqualad — respondeu Dick. — Respeite o momento dela.

— É… Robin? — a voz de Donna soou de novo, mas agora mais distante.

— O que foi? — Grayson perguntou.

— É que… o Joey

Kory sentiu tudo ficar confuso por alguns instantes. As vozes ao redor pareciam distantes, embaralhadas, enquanto ela encarava a janela da grande cozinha, iluminada repetidamente pelas luzes azuis e vermelhas das sirenes do lado de fora.

Suspirou fundo e fingiu não perceber quando Dick Grayson entrou e se sentou à sua frente, invadindo seu campo de visão.

— Meus sentimentos pela sua irmã, Estelar.

— Obrigada.

— Rita me contou sobre as esculturas. Ela era muito talentosa… uma pena que tudo foi quebrado na hora do… — Fez uma breve pausa, pigarreou. — Ataque.

— Vejo que ainda usa esse uniforme ridículo de Robin — Kory comentou, sem muito ânimo. — Achei que já teríamos dois Batmans na região.

— Impossível. Batman só existe um.

— Bom… já existiram três Robins. E agora tem dois.

Ele deu um meio sorriso.

— Na verdade, estou preparando um traje e uma identidade nova pra mim. — Cruzou os braços musculosos e se recostou na cadeira. — E deixei o cabelo crescer.

— Uau. Uniformes e cabelo… você realmente se supera nas palavras de condolências, Robin... — murmurou o codinome com amargor. — Agora veio até aqui só pra me contar isso ou vai direto ao assunto?

— Nossa… você é tão direta que chega a ser fria.

— Eu te conheço bem, Grayson — Kory deu de ombros, revirando os olhos. — Sei quando você quer alguma coisa. E quando envolve o Slade, você sempre quer alguma coisa. Mas já vou adiantar: se a sua pergunta é se a Koma ainda tinha alguma ligação com ele, a resposta é não. Ela estava limpa há quase três anos.

— Bom saber, mas… não é sobre a Koma. Com todo respeito.

— Hm, como se você realmente se importasse para isso. — Desviou o olhar, suspirando de forma pesada.

Dick apoiou as duas mãos na mesa e se inclinou na direção dela.

— É sobre o Joey.

— O que tem ele?

— Nós o deixamos na torre durante essa missão, por motivos óbvios. E a Donna viu nas câmeras que ele fugiu, levando todos os pertences. Antes de sairmos, ele já parecia saber que quem estava por trás do massacre era o próprio pai… o Slade. E eu sinto que ele queria me contar alguma coisa, mas estava com medo.

— Bom, ninguém gosta de ter que encarar narcisistas que te machucam, não é?

— Kory, vou direto ao ponto. Você sabe de alguma coisa? Sabe para onde ele foi? Porque eu sei que para a casa da mãe não foi.

— Não. Não sei de nada. Não falo com ele há dias.

— Bom, eu sei que vocês são bem próximos. E que ele te considera muito.

— O que você quer insinuar com isso? — Kory levantou o tom de voz, estreitando os olhos.

— Que é impossível ele não ter te contado nada. — Ele rebateu com o mesmo tom. — Então, Estelar, se você sabe de alguma coisa, precisa confiar em mim e me contar.

— Eu não sei de nada. Como eu disse, não falo com ele há dias. E, além disso, não tenho motivos para confiar em você.

— E em quem você e o Joey deveriam confiar? No bom samaritano do Slade Wilson? Acorda! Ele matou sua irmã e mais outros dez informantes. Queima de arquivo clássica. Você acha mesmo que ele não mataria o próprio Joey, chamando-o para uma armadilha só para calá-lo de vez? Para que não descubramos mais os segredos mais profundos dele?

— Você é doente, Dick. — Kory se levantou, pegando suas coisas rapidamente. — Você devia procurar um psicólogo para tratar essa sua obsessão por esse homem.

Dick foi rápido e se colocou na frente da porta, impedindo-a de sair.

— Ele matou sua irmã! É impossível não sentir ódio ou querer justiça depois disso!

— Eu só quero ir para casa, Dick. Eu não dormi nada e minha cabeça está explodindo. Por favor, me dá um tempo.

— Tudo bem. Mas quero que saiba que ele não vai ter o menor remorso em fazer com o Joey o mesmo que fez com a Koma e com o Wally. E espero que você perceba isso e o ajude, antes que seja tarde demais.

— Fiz meu dever de casa, Grayson. A vida me ensinou bem. — Ela sorriu, cansada e forçada. — Agora sai da minha frente.

— Às ordens. — Ele levantou as mãos em sinal de rendição e se afastou.

Antes de chegar ao carro, Garfield a perguntou se não queria uma carona — explicou que poderia dirigir por ela e depois voltaria para casa na forma de pássaro. Mas a mulher recusou educadamente.

Assim que entrou no carro, decidiu verificar o celular… e ficou estupefata com as mensagens de Joey.


[Joey] Ele está na cidade, Kory, e quer se encontrar comigo.

[Joey] O Sr. Wintergreen me passou o recado e disse para eu ir até lá, ver o lado do meu pai da história, sem a minha mãe saber.

[Joey] Estou confuso. Acho que… vou. Pelo menos para ouvir o lado dele.

[Joey] Eu sei que ele fez coisas horríveis, mas eu realmente preciso de respostas.

[Joey] Por favor, não se preocupe, eu já sou um homem, sei me virar sozinho.

[Joey] Mas vou te mandar o endereço que ele pediu para eu encontrar, por via das dúvidas. Sei que é preocupada.


Presença City Church

Endereço: 6444 Sierra Ct, Jump City, CA, EUA.


O coração de Kory disparou.


[Kory] Joey, não vá. Ele é perigoso!

[Kory] Ele matou a Koma!


Ela esperou por uma resposta, mas a mensagem sequer foi entregue. Provavelmente ele estava sem internet.

A dor de cabeça só piorou.

Sem perder mais tempo, copiou o endereço e colocou no GPS. Em seguida, deu partida, seguindo em direção à igreja, que ficava a quase oito quilômetros dali. Sabia que seu corpo estava no limite — falta de sono, fome, coração destruído — mas tinha que permanecer de pé.

[...]

Estava quase amanhecendo quando Kory estacionou o carro cerca de três quadras antes da igreja. O lugar parecia abandonado pelo tempo: as janelas estavam quebradas e cobertas por tábuas, e o mato alto à frente mostrava que nenhuma reforma era feita ali havia muitos anos.

Ela saiu do carro e avistou a mobilete amarela de Joey estacionada ao lado do posto, em frente à casa vizinha. Deu uma rápida olhada para trás e atravessou a rua com a maior sutileza que conseguia — o que não era muito, considerando que sua cabeça parecia prestes a explodir de dor e que estava acordada havia quase dois dias.

Usando sua habilidade de voo, entrou por uma das janelas do segundo andar. A madeira da tábua estava podre e cedeu um pouco sob seu peso, e ela quase se desequilibrou ao passar. Ao olhar para o salão, notou que a porta principal estava aberta, mas era evidente que a tranca de madeira, do lado de dentro, havia sido quebrada.

Ela também percebeu que havia duas pessoas no centro do lugar. Rapidamente, se escondeu atrás de um dos pilares.

Um deles era Joey, usando suas roupas casuais de sempre: uma camisa larga cor de vinho e a touca de lã na cabeça. O outro era Slade. Ele vestia o uniforme e o pesado armamento de Exterminador, porém estava sem a máscara — segurava-a na mão, caída ao lado do corpo como um capacete pesado.

Ele tinha barba e cavanhaque brancos e usava um tapa-olho de couro. Era estranho para ela ver seu rosto real, pessoalmente. Afinal, quando era uma titã, ele sempre lutara de máscara e nunca fora visto sem ela.

O sentimento de raiva que cresceu dentro da Tamaraneana naquele momento era o suficiente para poder atacar Slade com starbolts cheios de fúria, porém, se controlou. Poderia ser uma armadilha, um passo em falso e poderia arriscar a vida de Joey, jamais iria querer isso.

Por isso, respirou fundo e apenas prestou atenção.

— Olá, filho — cumprimentou Slade. — Desculpe a minha falta de pontualidade.

Joey apenas o encarou, sério.

— Você queria a verdade. Aqui está. Chega de mentiras. Este é quem eu sou. O que me tornei.

Kory notou que havia um semblante triste no rosto de Joey, misturado com confusão. Nesse momento ela gostaria de ter o poder de Empatia Psiônica, igual Ravena, para poder saber com clareza o que o garoto sentia.

Acha que uma visita vai resolver tudo? — respondeu depois de um tempo. — Você fez isso comigo, pai — Apontou para a cicatriz gigante, de fora a fora, embaixo do pescoço. — Foi por sua culpa que o Grant foi morto! Que a mamãe tá cada dia mais distante e viciada em opióides e a Rose tá mais revoltada e perdida do que nunca, e ela só tem quinze anos. Então, me diga, Valeu a pena?

Slade desviou o olhar, encarando o chão. Sem comentários sarcásticos. Sem comentários ácidos. Sem fala alguma e isso surpreendeu Kory.

Seja homem. Olhe pra mim! — cobrou Joey.

Slade ameaça pegar algo no bolso. Joey recuou. Kory ficou em alerta. Mas não era uma arma e sim uma fotografia.

— Você se lembra desse dia? — O mais velho se aproximou, em passos lentos. Joey o encarou, parado. — Você tinha oito anos. Grant, quatorze. Rose, cinco. Foi no dia em que te levei ao circo pela primeira vez… um mês antes de Grant morrer. — A voz dele vacilou por um instante. — Éramos uma família feliz. E eu me lembro de como você ficou contente quando ganhei aquele Sonic de pelúcia pra você naquele brinquedo da garra.

Ele levou a mão ao outro bolso e tirou de lá um boneco pequeno e azul, já gasto pelo tempo, antes de continuar:

— Eu queria que ficasse com isso. Você só conseguia dormir com ele. Dizia que ele te fazia sentir protegido dos monstros debaixo da cama. Sua mãe ria disso, mas eu nunca achei que fosse bobagem.

Slade estendeu a pelúcia em direção ao filho. Joey a pegou com hesitação, examinando em silêncio o boneco já amarronzado pelo tempo.

— Eu sinto muito, filho. Quando a Rose me contou o que aconteceu…

Espera aí… a Rose?! — Joey arregalou os olhos, boquiaberto. — Desde quando você voltou a ter contato com ela?

— É complicado… Nós nos reaproximamos há alguns meses. Ela foi esperta, seguiu as pistas que eu e sua mãe deixamos escapar sobre nosso passado… e entrou em contato com Wintergreen. O pressionou. Ele contou toda a história, em consideração a nossa amizade e o meu desejo de reverter as coisas… mas não fique chateado. Ela só queria o seu bem.

Ficar perto de você, seguir os seus passos… não parece o melhor pra ela! — afirmou, duro.

— Olha, Joey… por favor, me escute. Me deixe ser sincero pela primeira vez em muito tempo. Quase te perder para os Titãs me fez perceber o quanto eu fracassei com você… sendo seu pai. — Pela primeira vez, ambos olharam diretamente nos olhos um do outro. — Mas você pôs sua família em primeiro lugar. Não cometeu o mesmo erro que eu. Estou orgulhoso de você, por ter abandonado aquela torre. Agora por favor, volte pra casa, sua mãe precisa de você. Preciso que seja o novo pilar da família. E, por favor, me dê uma chance de poder consertar tudo. É a única coisa que te peço.

A conversa parecia fofa, mas algo ali deixava Kory com uma pulga atrás da orelha, mesmo não sabendo explicar o quê. Algo naquele homem, na postura corporal, no olhar. Ela poderia não ser Ravena, mas parecia que ele estava sendo realmente sincero.

Eu senti sua falta também, pai. Mas… tenho receio de confiar em você. Precisa ser honesto.

— E serei! Chega de segredos entre nós.

Joey assentiu, e Slade imediatamente o puxou para um abraço.

— Sua irmã disse que você está apaixonado por uma mulher bonitinha, mais velha, amiga da família. Esse é o meu garoto! — Bateu de leve em suas costas.

Para com isso — resmungou o filho, sentindo as bochechas esquentarem.

Um estalo seco ecoou à distância, como o som de uma tábua se partindo.

Kory se encolheu imediatamente e prendeu a respiração. “Deve ter sido apenas o vento”, pensou, torcendo para que Slade acreditasse nisso.

Slade, porém, desfez o abraço e o filho puxou para trás de si, colocando-se à frente dele como um escudo. Então gritou para o vazio:

— Eu ouço seus batimentos cardíacos.

Maldita cafeína…”, pensou Kory, engolindo em seco.

— Ouço a sua respiração — continuou Slade.

Outro estalo.

Kory espiou de novo e o viu… Robin?! Usando o uniforme colorido de sempre, a máscara preta cobrindo os olhos, dois bastões firmes nas mãos, o corpo inclinado numa postura de ataque.

— Eu sabia que você estava vindo antes mesmo de você pensar nisso, Grayson — provocou Slade, com um meio sorriso.

Joey se desvencilhou do pai e avançou para a frente, as mãos se movendo rápido e nervosas no ar, os sinais cheios de urgência e raiva.

O que você está fazendo aqui?!

— Sinto muito, Joseph — respondeu Robin, sem baixar os bastões. — Seu pai matou de novo. No Instituto de Reabilitação Éter, como o covarde que ele é! Ele precisa ser detido.

Joey congelou.

Ele se virou lentamente para Slade, os olhos arregalados, as mãos tremendo antes de voltarem a se mover.

Você fez isso?

— Fez — respondeu Robin, a voz dura. — Mais de dez pessoas. A maioria eram informantes. Pessoas que sabiam demais sobre ele… e sobre o passado dele. Inclusive a sua amiga. Koma Anders.

O mundo pareceu parar.

Joey ficou imóvel, como se não tivesse entendido de primeira. Então a informação finalmente o atingiu. Seu rosto perdeu a cor, a respiração ficou curta, e seus olhos se encheram de choque e incredulidade.

Recuou um passo, e depois outro, antes de erguer as mãos outra vez, agora com movimentos mais lentos, pesados, cheios de dor.

Pai… por quê? Você disse que queria consertar as coisas. Ela era minha amiga. Minha irmã do coração. Eu e a mamãe estávamos ajudando ela a mudar de vida. Você prometeu que não destruiria mais nada que pertencesse a nós. Que tipo de pai arrependido faz uma coisa dessas?

— Mas eu realmente não fiz isso. Nunca estive em instituto nenhum. Nem sei do que estão falando — Slade disse, a voz firme. — Eu te juro… e mesmo odiando aquela tamaraneana, eu nunca a machucaria. Sabia que ela era importante para você.

Você está mentindo — Joey recuou mais um pouco, o rosto fechado, os olhos cheios de dúvida.

— Acredite em mim. Eu posso ser muitas coisas, mas mentiroso não — rebateu Slade. Então olhou diretamente para ele. — E você disse que se encontraria com eles?

Joey balançou a cabeça rapidamente, as mãos se movendo com nervosismo.

Não, pai. — respondeu, hesitante. — Eu não contei para ninguém. Não sei como ele me localizou.

— Não se culpe, filho. — Slade suavizou seu tom. — E nem acredite nesse aí. Os Titãs posam de heróis, mas são hipócritas. Eles te usaram.

— Isso é mentira. Não dê ouvidos a ele — Dick respondeu, sem baixar a guarda.

Slade soltou uma risada curta e começou a avançar, passos pesados ecoando pelo chão da igreja.

— Eu consigo ver quem você é, garoto.

Dick endireitou ainda mais a postura de combate. Joey recuou, até ficar entre os bancos de madeira. Kory observava tudo, a cabeça cheia de perguntas e com dor demais para conseguir organizá-las.

— Veste trajes bonitos, diz as palavras certas… mas eu enxergo o que existe por baixo dessa máscara — continuou Slade. — Eu vejo suas mentiras. A manipulação. Usar o amor de um filho pelo próprio pai para cumprir a sua missão. — Lançou um rápido olhar para Joey. — Um filho carente de atenção paterna… porque eu falhei.

Joey encarou o chão.

Então, Slade voltou os olhos frios para Dick.

— Afaste-se, moleque!

— Não! Você matou meus amigos. Matou inocentes. Você é um monstro! — retrucou Robin.

Para o espanto de todos, Slade irrompeu em uma gargalhada sarcástica, que ecoou de forma desconfortável pelo lugar.

— No fim das contas — O mercenário prosseguiu. — Você não é tão diferente de mim. Somos psicopatas mesma espécie… só escolhemos métodos diferentes. Mesmo assim, o assassinato soa mais honroso do que a traição.

Com um grito, Dick avançou primeiro. Seus bastões cortaram o ar com um zunido elétrico, mas Slade já estava a postos.

— Presta atenção, filho. É o que acontece com os Titãs.

O choque do aço foi seco e ensurdecedor. Quando os bastões de metal colidiram contra a lâmina longa, a força do impacto enviou uma vibração dolorosa que subiu pelos pulsos do herói, estalando em seus ombros. Dick girou, tentando usar a inércia para um segundo golpe, mas o vilão era uma parede de músculos e reflexos aprimorados. O mercenário aparou cada ataque com movimentos mínimos, quase insultuosos de tão eficientes.

Joey aproveitou a distração e saiu de onde estava, indo em direção ao altar. Ele se escondeu atrás do grande púlpito de mármore.

Kory percebeu e aproveitou a deixa. Voou com cuidado e pousou atrás dele. Joey deu um pequeno salto de susto quando sentiu a mão dela tocar seu ombro, virando-se para trás de repente.

— Querido…

Foi você que o trouxe aqui? — disparou, ríspido.

— Não, eu não…

Você me prometeu que não falava mais com o Grayson. Eu confiei em você.

— Joey, me escuta, por favor. — Ela segurou seus ombros. — Ele me rastreou, tenho certeza. Eu fui burra por não perceber, eu… jamais faria o que você está pensando…

Joey ergueu as mãos, interrompendo-a.

É verdade que a Koma está morta?

Kory engoliu em seco e assentiu lentamente com a cabeça. Por um instante, nenhum dos dois conseguiu dizer mais nada. Os olhos de ambos se encheram de lágrimas ao mesmo tempo.

Na luta no centro da igreja, o Exterminador mudou o ritmo. Com uma velocidade desumana, ele não buscou o peito ou a cabeça, mas as extremidades. A ponta da espada de Slade brilhou em um arco descendente, rasgando o bíceps de Dick. O herói soltou um gemido contido enquanto o sangue quente começava a encharcar a manga do uniforme.

Sem dar tempo para recuperação, Slade girou o corpo e desferiu um corte horizontal baixo. Dick saltou, mas não foi rápido o suficiente. A lâmina traçou um sulco profundo em sua panturrilha esquerda. O equilíbrio do herói falhou instantaneamente, e ele caiu de joelhos, sentindo a perna ceder sob o próprio peso.

— O problema de confiar na agilidade — disse Slade, aproximando-se com passos pesados — É que ela termina assim que eu corto seus tendões.

Antes que pudesse completar a ameaça, um starbolt o atingiu pelas costas e o lançou para a frente.

Slade cambaleou, mas logo voltou a ficar de pé, claramente surpreso.

À sua frente, a Tamaraneana ruiva estava parada, os olhos brilhando, as mãos erguidas e envoltas pela energia verde dos starbolts, apontados diretamente para ele. Ao lado dela, Joey o encarava com o rosto tenso e decidido.

— Mas o quê…?! — rosnou Slade. — Você vai pagar caro por isso, sua vadia.

Encurralado e sangrando, Dick recorreu ao seu cinto de utilidades. Com um movimento rápido do cinto de utilidades, ele lançou três esferas metálicas contra o chão, entre ele e o mercenário.

O som das explosões foi seguido por uma expansão violenta de fumaça química. Em segundos, o ambiente foi tomado por uma névoa branca, espessa e impenetrável.

Kory e Joey começaram a tossir descontroladamente. Ela se curvou, lutando para recuperar o fôlego enquanto a fumaça ardia nos pulmões.

— Joey, fica perto de mim — pediu, a voz falhando, enquanto tateava o chão ao redor em busca dele.

Nada.

Através da névoa, a voz de Slade ecoou, fria e ameaçadora:

— Seja homem, Grayson. Apareça, vamos acabar com as nossas diferenças de uma vez por todas.

O coração de Kory disparou.

Ela começou a engatinhar às cegas pelo chão, guiando-se apenas pelos sons. Parou quando chegou perto da ponta do altar.

Entre a névoa branca, viu primeiro uma silhueta vermelha e amarela.

Robin.

Logo atrás dele, surgia outra figura, inconfundível pela máscara laranja e pela postura imponente.

Exterminador.

Ele avançava com a espada erguida.

— Dick, não! — gritou em pânico.

Nesse instante, tudo pareceu andar em câmera lenta.

E então, a espada fora cravada, rasgando-lhe o peito. Um grito de dor abafado pode ser ouvido. Slade começou a rir.

Não… — Lamentou a ruiva.

A névoa gradativamente estava começando a abaixar e o riso desapareceu, quando Slade arregalou os olhos e percebeu que havia acertado o peito do próprio filho, Joey, que começou a sangrar pela boca e o corpo pendeu ao chão.

— Não, filho, não! — Slade o agarrou nos braços.

Dick estava de pé, logo atrás, encarando o inimigo agachado, com o filho morto nos braços. Kory se levantou, com o auxílio do púlpito e começou a chorar, vendo o amigo naquele estado. Novamente, ela sentiu uma vontade forte de gritar para subir a garganta.

Tentou correr até ele, mas Dick a impediu, estendendo o braço.

Ao longe, entre a confusão e o eco da fumaça se dissipando, o som das sirenes começou a se aproximar.

Slade percebeu antes de qualquer um.

Olhou para cima, os olhos cheios de fúria.

— Você vai pagar caro por isso, Grayson! — prometeu

Slade segurou o rosto do filho com cuidado e depositou um último beijo em sua testa.

Outra bomba de fumaça foi ativada. Dessa vez, sendo capaz de irritar os olhos da mulher. Com dificuldade, viu o Mercenário, dar passos para trás, sem olhar,antes de desaparecer entre as sombras da igreja.

— Não! — Kory fez menção de ir, ainda meio tonta, atrás dele, mas Dick a segurou novamente.

— Não. Deixe-o ir, Estelar.

— Você enlouqueceu?! Ele…

— Está ferido — interrompeu Dick, a voz fria, pesada. — A perda de dois filhos deve ser karma suficiente para ele, por hora. Ele merece sofrer bastante aqui na terra antes que eu o mande para o Inferno.

[...]

“Seu dedo no meu grampo de cabelo me dá gatilhos

Soldado caído naquele chão congelado

Olhou para mim com honra e verdade

Quebrado e triste, então eu mandei as tropas recuarem

Aquela foi a noite em que quase te perdi

Eu realmente pensei que havia te perdido”

(The great war — Taylor Swift)

[...]

28 de agosto de 2016

Nova Iorque, Estados Unidos

Kory nunca pensou que estaria em três velórios seguidos em menos de um ano, mas lá estava ela outra vez. No dia anterior, havia acontecido o velório e a cremação do corpo de Koma. Ryan só sabia chorar, e Galfore tentava permanecer forte pelo menino, mas também não conseguiu conter a comoção.

Koma fora arrancada deles da maneira mais brutal e cruel possível, e isso não tinha desculpas.

E agora, era a vez de Joey.

Ela encarava o caixão onde o garoto, eternamente jovem, repousava. Os cabelos loiros, mal tingidos, finalmente estavam totalmente expostos pela falta do gorro.

O local estava cheio de pessoas. Dessa vez, Rachel conseguiu estar ali com ela, em ambos os velórios. Porém, era nítido que tentava ao máximo se manter distante de Garfield Logan e até de Rita Farr. Kory não a julgava.

Quase todos os Titãs estavam presentes também, com exceção de Garth. Segundo ele, odiava o clima pesado que havia em velórios. Mas Kory sabia que a verdade era porque queria evitar saia-justas, afinal, Rachel e Garth começaram a namorar há pouco tempo.

Perto do caixão, Rose e Adeline choravam desoladas. Dick tentou se aproximar, junto de Barbara, para dar as condolências, mas elas começaram a gritar para que ele se afastasse e fosse expulso dali.

Um traidor.

E Kory achou isso tão irônico… porque, de fato, naquela história, ele parecia ser tudo aquilo que Slade o acusara naquele dia. Um psicopata da mesma espécie.

Ela se lembrou de um dia, seis ou sete anos atrás, no começo da formação dos Titãs, quando o Garoto Prodígio invadiu um prédio em chamas para salvar duas meninas pequenas. Ele conseguiu realizar o feito com sucesso, mas foi repreendido pelos bombeiros, porque poderia ter se machucado gravemente devido à falta de equipamentos de segurança.

— Você tem um problema em querer salvar as pessoas, Dick Grayson — Kory dissera naquele dia.

— Eu estou melhorando nisso — O, até então adolescente, deu de ombros.

— Foi por isso que me apaixonei — Ela sorriu, selando os lábios nos dele.

— Que ironia…! — murmurou no presente.

Suspirou fundo e pegou um maço de cigarro, escondido, no meio da bolsa. Se dirigiu até o lado de fora da igreja, onde para sua surpresa, os seguranças o haviam deixado.

— Vocês não podem fazer isso! — gritou brava, os seguindo feito um furacão. — Eu sou filha do comissário desta cidade, mereço mais respeito!

Bem-vinda a Nova Iorque, princesa. — Kory cantarolou, sarcástica, o famoso refrão da música de Taylor Swift.

— Veio até aqui rir da minha desgraça? — perguntou Dick, olhando fixo para ela. A brisa forte fazia os cabelos dos dois esvoaçarem.

— Não, não se sinta tão importante assim — respondeu, descendo os degraus e se sentando. Pegou o cigarro e o isqueiro da bolsa. — A única coisa que eu quero neste momento é fechar os olhos bem forte e, quem sabe, esse pesadelo acabe! — Colocou o cigarro na boca e tragou. — Faz duas semanas que não consigo dormir direito, desde então.

— Não sabia que você fumava — comentou Richard, sentando-se ao seu lado.

— Só quando estou nervosa e prestes a explodir.

— Isso causa doenças terríveis, como câncer...

— Perdão o tom, mas meus pulmões tamaraneanos são muito melhores e mais resistentes que os seres humanos. E tamaraneanos não têm câncer.

— Bom, mesmo assim, ainda é um risco a se correr.

— Viver sendo um super-herói é um risco constante — Deu de ombros. — Olha onde estamos agora: primeiro Wally, depois Koma e agora Joey.

Dick suspirou fundo.

— Os Titãs acabaram de novo. Hank, Dawn, Garth e Donna abandonaram a torre — Ele confessou, e Kory passou a prestar atenção em seu rosto. — Dawn já tinha comentado que achava errado usar uma criança como o Joseph para conseguir informações sobre Slade, mas, no começo, todos concordaram com a ideia. Mas eles precisam de alguém para culpar por esse triste epílogo, não é? Acho que, no fim, Slade estava certo quando disse que os Titãs são hipócritas.

Kory ficou em silêncio e desviou o olhar.

— Você sempre esteve certa também. O melhor para ele era ficar longe de nós.

— Antes de vocês aparecerem, eles estavam felizes, longe de Slade — Deu mais uma baforada. — Não sei por quanto tempo teriam paz. Acho que, no fim, ele voltaria de qualquer jeito… mas não com o desfecho que teve. Ele realmente parecia se importar com os filhos.

— Slade não se importa com ninguém. É um psicopata narcisista. Só se importa consigo mesmo.

— Você diz isso porque não ouviu o que eu ouvi na igreja.

— Ele é um manipulador, Kory. Estava tentando manipular o Joseph e, pelo visto, não foi o único que ele conseguiu.

— Richard, para com isso! Com essa falsa empatia cheia de deboche. Nós dois estamos na merda. Eu nem tenho energia para brigar.

— Ah, me desculpe. Você enterrou sua irmã ontem, e o que aconteceu com ela é imperdoável — O homem se aproximou mais, e Kory olhou de soslaio. — Sabe… eu sinto falta dos velhos tempos. Quando a equipe era eu, o Cyborg, o Mutano, a Ravena e… você. Nós éramos os melhores. Até hoje me pergunto como a gente se perdeu.

— O Exterminador apareceu. E isso nos arruinou… várias e várias vezes.

Dick ficou quieto e isso causou estranhamento na ruiva, o observou e ele estava com o rosto afundado nas palmas das mãos, aparentemente… chorando.

— Dick?

— Foi tudo culpa minha. Eu estraguei tudo. Aquele dia, quando o vi chorando, sofrendo, com o filho morto nos braços… eu me senti tão bem. Mas agora, olhando para a família… e para você… eu só me sinto vazio. Como se eu… como se a dor que eu causei não fosse suficiente para vingar tudo. Eu…

— Para com isso, por favor.

— Não, eu realmente… me desculpa. Pela Koma e…

— Dick, tá tudo bem. Só para.

Ela olhou diretamente para os olhos grandes e azuis de Dick e, então, ele a puxou para um beijo forte, pressionando seus lábios com força. Kory ficou de olhos arregalados, alguns segundos sem reação, antes de empurrá-lo para longe.

— Que merda foi isso?!

— Kory, eu… — Ele olhou para o lado e inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos.

Ela franziu o cenho e também olhou por cima do ombro. Ali estava Barbara Gordon, furiosa.

Ah, merda… — Dick murmurou.

— Que porra é essa?! — Barbara veio na direção dos dois, gritando, e chegou perto o bastante para acertá-los com a bolsa original da Gucci. — Eu fico dois minutos, só dois minutos sem tirar os olhos de você, e você já sai por aí se atracando com essa vadia?!

— Ei! — Kory gritou. — Quem foi amante primeiro nessa história foi você, sua megera! E não é nada do que você está pensando!

— Vai se fuder! Eu ainda tava pegando leve com você por causa da sua morte da irmãzinha drogada, mas agora quero que você vá pra puta que pariu, sua escrota! — Mais uma bolsada.

Kory se levantou, os olhos verdes brilhando de raiva.

— Calma, Babs. Se você tem que ficar brava com alguém, é comigo — disse Dick, colocando-se na frente de Anders. — Eu sou o único errado aqui.

— Não quero te ouvir, seu adúltero… mas que merda! E ainda vez eu arrebentar a alça da minha bolsa preferida! — Gordon puxou a bolsa para si, os olhos cheios de lágrimas, e desceu as escadas às pressas, mesmo com os saltos enormes. — E se você quiser ficar aí sendo seduzida pelo ET Bilu, o problema é seu! Mas na minha casa você não entra mais! E é melhor me devolver aquela Harley-Davidson. Eu paguei aquela bosta com o meu dinheiro!

— Babs, espera! — Grayson correu atrás dela.

Kory suspirou fundo, tentando se acalmar.

— “ET Bilu” é a vadia da mãe dela…

— Algum problema? — alguém perguntou atrás dela.

Kory se virou e viu Rose, usando um vestido preto longo, botas pretas e uma maquiagem bem mais pesada, em tons de branco e preto.

— Desculpa pela confusão, querida. Joey não merecia algo assim bem na frente do velório. Foi só um mal-entendido. Amanhã tudo vai ter voltado ao normal, não se preocupe.

— Você se machucou?

— Não, ainda bem. Mas ela quebrou a bolsa.

— Chupa essa, vadia! — Rose disse, mostrando o dedo do meio na direção da limusine, onde Barbara e Dick ainda discutiam. — Eu sei que já fui bem escrota com a sua irmã, mas ninguém tem o direito de xingá-la depois de tudo o que ela sofreu.

— Tudo bem, isso é passado. A Koma errou, sim, e muito, mas quem não erra? Ela estava doente e só precisava de uma segunda chance…

As duas ficaram em silêncio. Logo, Barbara mandou o motorista da limusine acelerar e deixar Richard para trás. As duas mulheres na escada acabaram rindo.

— Que panaca! — exclamou Rose.

— Não recebeu mais do que merece!

— Kory? — chamou, depois de um tempo.

— Sim?

— O Joey, antes de morrer, queria te entregar uma coisa — disse Rose, estendendo-lhe um pequeno baú de madeira. — Lembra daquele dia em que vocês se conheceram? Você veio buscar algumas coisas da Koma e havia algo especial guardado aqui. Meu irmão não conseguiu abrir na hora porque a chave quebrou dentro da fechadura... Ele se sentiu tão mal por isso que fez de tudo, nas semanas seguintes, para conseguir abri-lo sem danificar o conteúdo.

— Não acredito... — A mais alta levou as mãos à boca, os olhos já marejados.

— Eu não sabia qual seria a hora certa de te mostrar isso, mas sinto que é agora. Ele estava genuinamente feliz por ter conseguido consertá-lo para você, mesmo em meio a todo o caos das últimas semanas. E eu acho... que ele gostava de você. Gostava mesmo. De um jeito romântico.

— Ele era um anjo — Kory sorriu, com os olhos marejados.

— Sim. Ele tinha um coração de ouro, algo tão puro que eu jamais conseguiria ter — Rose virou a chave com cuidado, ouvindo o estalido metálico. — Era isto. Esta joia vermelha.

— A Joia de Chiman...

— Isso. Parece que a Koma a comprou em uma de suas expedições espaciais antes de vir para a Terra. Uma anciã tamaraneana disse a ela que, se usada da forma correta, a joia poderia amplificar habilidades naturais. Sua irmã jamais a usou por saber que não era digna... mas ela sabia que você era.

— Muito obrigada, Rose.

Kory segurou o baú, os dedos roçando o brilho rubro da gema, antes de fechá-lo e envolver Rose em um abraço apertado. Naquele instante, o céu se fechou em tons de cinza e as primeiras gotas de chuva começaram a cair. Ao longe, o sino da igreja bateu três vezes, anunciando que o cortejo seguiria para o cemitério. Ali, abraçadas, as duas choraram como crianças, em uma prece silenciosa para que o futuro fosse, enfim, mais gentil com elas.

[...]

“Adeus, adeus, adeus

Você era maior que todo o céu

Você era mais do que um curto período de tempo

E eu tenho muito o que lamentar, tenho muito o que viver sem

Eu nunca vou conhecer

O que poderia ter sido, o que teria sido

O que deveria ter sido você

O que poderia ter sido, o que teria sido você”

(Bigger than the whole sky — Taylor Swift)

Notas finais
Capítulos cheios de emoções. RIP Wally, Koma e Joey, sempre viverão em nossos corações... Beijos 💖Nos vemos ainda esse mês!