Christmas Tree Farm

11 Patrulha do Karma


Notas iniciais
Olá, amores! ❤️ E como prometido, estou entregando um capítulo, grande, por mês e esse é o de Fevereiro. Eu diria que ele é uma introdução/transição de uma parte para outra. E também, teremos mais participação da Patrulha do Destino e seus personagens excêntricos. Alerta de gatilho: Sangue. Espero que gostem! ❤️ Beijos!

Karma (ou carma) é um conceito sânscrito que significa "ação" ou "ato". Refere-se à lei universal de causa e efeito, onde ações intencionais — físicas, verbais ou mentais — geram consequências correspondentes. Ações positivas geram bons resultados, enquanto ações negativas trazem consequências adversas, moldando a vida atual e as futuras reencarnações.

NEVAVA MUITO AINDA, e ainda Kory chorava copiosamente nos braços da amiga, porém, agora estavam aquecidos dentro da casa secundária, onde Larry havia acendido a lareira da sala principal. Rachel se lembrava de ter entrado ali muitos anos antes, quando Niles Caulder lhe enviara uma mensagem pedindo ajuda. Nada parecia ter mudado desde então; o ambiente permanecia praticamente o mesmo, ainda marcado por uma considerável ausência de aparelhos eletrônicos e móveis de madeira antigos.

— Kory, algo está doendo? — Rachel perguntou, apertando firme a mão da amiga. — Gar, por favor, faça alguma coisa! Você não é médico? — Quase gritou.

— Eu me especializei para ser médico neurocirurgião, não para ser obstetra. — rebateu, enquanto checava os batimentos cardíacos da tamaraneana com um estetoscópio.

— Mas os bebês têm cérebros!

— Tá tudo bem, amiga Rae, calma. — pediu a ruiva. — Eu ainda estou grávida, tenho certeza. Afinal, ainda estou com vontade de tomar aquele pote inteiro de detergente com cheiro de maçã na cozinha da Rita. E metade dos produtos de limpeza também. — Kory riu, nervosa.

— É, parece mesmo um bom sinal — concordou Rachel. — Você sempre foi durona, garota.

— Independentemente disso — interveio uma voz masculina —, você deveria tomar mais cuidado e ficar de repouso. Toda gravidez apresenta riscos. Deveria ser menos teimosa e obedecer.

Kory revirou os olhos.

— Eu vou ficar bem, Richard. Não preciso de sermões. E o próprio Garfield, que é médico, disse que está tudo certo comigo. Não é, Gar?

— Olha, pelo que eu consegui avaliar, parece que está tudo bem, sim. — explicou ele. — Claro, a gente não tem aqui os mesmos recursos de um hospital para fazer exames mais completos, mas não vi nada preocupante. Mesmo assim, eu ainda recomendaria que você fosse a um hospital… aproveitar que a nevasca abaixou e liberaram as avenidas principais…

— Não, desculpa, mas não posso. Eu quero e preciso ajudar a encontrar o Ryan. O Slade é um assassino maluco; não quero contar com a sorte. E tenho certeza de que a Rita concorda comigo e… falando nela… onde ela está? — perguntou, olhando em volta.

— O Cyb está ajudando-a a se acalmar. — explicou Rae.

— Como assim? Estou perdendo alguma coisa? — Kory franziu o cenho e olhou para a Rita, sentada numa cadeira paralela ao sofá onde ela estava. Percebeu que a mulher mantinha a mão diante do rosto, enquanto a pele de suas feições parecia ondular, como se estivesse perdendo a forma (?).

— Minha mãe teve um ataque de pânico — começou Gar —, e quando ela fica instável, as emoções saem do controle. O que aconteceu aqui hoje acabou trazendo de volta lembranças do ataque ao Instituto… e da morte dos internos, há oito anos. No passado, o Cyb ajudou ela a reaprender a usar os poderes depois que perdeu o controle. Eles sempre foram o porto seguro um do outro. Era quase como se ela tivesse adotado ele também… só que já adulto.

— E aposto que você morreu de ciúmes disso — comentou Rachel, com um leve sorriso.

— Você me conhece como ninguém.

Kory suspirou.

— Infelizmente, 2016 não foi um ano fácil para ninguém. — Ela se inclinou no sofá e notou que seu pai conversava com Dick do outro lado da sala. — O que será que eles estão discutindo há tanto tempo?

— Talvez estejam levantando hipóteses sobre para onde a The Shadow Syndicate pode ter levado o Ryan — arriscou Gar.

— O Grayson provavelmente já sabe as coordenadas deles como a palma da mão. — disse Kory.

— Você está coberta de razão. Conhecendo o Dick, ele já deve ter traçado três planos diferentes — assentiu Rachel, cruzando os braços. — Odeio estar longe de Londres agora. Me sinto de mãos atadas… como se não pudesse fazer nada.

— A comissária está a caminho. Vamos ver o que ela tem para nós — respondeu Garfield.

— A comissária? — Kory arqueou a sobrancelha.

— Sim. A Barbara.

— Barbara Gordon é a nova comissária? — Kory soltou uma risada carregada de escárnio. — Desde quando aquela patricinha leva isso tão a sério? E onde está o James?

— Morto.

A resposta veio seca. Uma mulher ruiva aproximava-se em uma cadeira de rodas motorizada, usando um vestido longo vermelho. Parou diante do sofá e encarou Kory sem piscar.

— Meu pai morreu de infarto depois de ser congelado dentro de um bloco de gelo por um homem usando um traje criogênico.

— O Senhor Gelo… — murmurou Rachel.

— Sei exatamente quem ele é, srta. Scotland Yard — ironizou a comissária, forçando um sorriso.

— Meus sentimentos — disse Kory, mais séria.

— Obrigada, mas não precisa fingir ser gentil comigo. Sei que não me suporta e o sentimento é recíproco.

— Preciso, sim. Vai que você não faça seu trabalho direito, de propósito.

— Eu sou profissional.

— É bom mesmo. Estou contando com isso. — Kory rebateu, se levantando.

— Mais um caso difícil… estamos fazendo tudo que podemos.

— Sabemos disso. — Garantiu Gar.

Depois que Kory voltou, para ir beber água, Gordon pediu que todos se reunissem na sala principal. Explicou que chamaria cada um, individualmente, para colher os depoimentos; precisava que relatassem tudo o que havia acontecido, nos mínimos detalhes. Qualquer pista poderia ser útil. Enquanto isso, sua equipe analisava as imagens das câmeras de segurança, varria a floresta nos arredores e monitorava possíveis sinais de rádio na região.

— Ele penhorou o relógio — disse Galfore. — Quando estávamos vindo para cá, pedi que se apressasse e acabei vendo que ele escondia uma quantia exorbitante de dinheiro debaixo da cama. Quando o questionei, negou. Pouco antes de sairmos, voltei ao quarto dele… e não havia mais nada lá. Achei que pudesse ter sido impressão minha. Minha visão já não é a mesma, às vezes confundo as coisas.

— Certo. E isso foi hoje à tarde? — perguntou Barbara, mantendo o tom firme.

— Sim. Ele deve ter saído para penhorar o relógio naquele momento em que sumiu… provavelmente depois que o Grayson o deixou no hotel. Ele desapareceu por um tempo e reapareceu do nada, por isso nos atrasamos para a festa. Não estranhamos na hora, porque esse tipo de coisa é… típico dele.

— Como assim, “típico”?

— Ele ficou mais rebelde depois que perdeu o namorado, Leroy. Longa história. Sabe como é, romance adolescente.

Barbara fez uma anotação rápida.

— Vamos entrar em contato com todas as lojas de penhor da região. Se o pendrive ainda estiver com alguma delas, podemos ganhar uma vantagem.

A sessão de depoimentos continuou por mais algum tempo. Depois, Barbara trocou de lugar com seu amigo, o investigador Gregory Ludovic, e se afastou para organizar as informações. Foi então que percebeu, pela janela, que Dick caminhava em direção ao carro, tentando sair discretamente.

— Grayson? — chamou ela, aproximando-se da porta principal.

Ele parou, já com a porta do carro aberta.

— Já estou indo. Meu depoimento já foi dado.

— E vai embora assim? Sem ao menos se despedir? — Ela se aproximou. — Eles são seus amigos, você foi o líder deles por mais de cinco anos, precisam de você.

— Desculpa, mas realmente surgiu uma urgência em Gotham. Tim solicitou minha ajuda. — Deu-lhe as costas, voltando a dar atenção às chaves.

— Você nunca para, não é? — questionou Barbara, em voz baixa. — Não pode simplesmente ficar… e cuidar dela? A Rachel me contou que Kory está grávida. Se algo acontecer com o irmão, isso pode… — Engoliu em seco. — Não quero que ela passe pelo que eu passei.

— Ela está numa casa cercada de meta-humanos. Não vai correr perigo. A menos que algum dos seus homens tenha encontrado uma pista concreta.

— Ainda não temos nada sólido. Mas eu acendo o Bat-sinal se precisar de você. — cuspiu.

Ele voltou a encará-la.

— Seu pai e o Batman se entendiam melhor quando tratavam isso como uma guerra.

— Guerra? Ainda chama de guerra?

— É uma guerra. Pela alma desta cidade.

— Chamar de guerra não apaga as vidas que foram perdidas, Dick.

— Seu pai sabia que proteger Gotham exigia sacrifícios reais.

Ela respirou fundo, a voz falhando:

— O nosso bebê foi um sacrifício? É assim que você enxerga? Nosso filho que não nasceu… minha coluna cervical… o nosso casamento… a morte trágica do meu pai? Tudo parte de uma guerra?

— Barbara, por favor…

— Eu sei que você está indo atrás do Slade Wilson sozinho. — Ela o interrompeu. — E, sinceramente, deveria mandar meus homens te prenderem por obstrução da justiça, mas não vale a pena. Só não… nem sei por que coloca toda a culpa nele. Foi o Bruce quem o levou à loucura, assim como fez com o Jason, meu pai… todos eles pagaram caro por isso.

— Isso foi há muito tempo. E não distorça os fatos. Bruce foi o maior herói que Gotham já teve!

— Você sabe o que ele fez com você, Dick. O Bruce pegou a sua dor e transformou numa arma. Não arrisque a vida desse garoto por causa da sua obsessão. E o Jason? Era só mais um jovem perdido, furioso e solitário… convencido de que uma máscara o tornaria invencível. Isso não é justo.

— Nada é justo por aqui. — Ele abriu a porta do carro. — E eu preciso ir, para acabar minhas pendências com aquele desgraçado de uma vez por todas! — Bateu o punho fechado na palma da mão, com força.

— Vai atrás dele? — Kory surgiu no alto da escada, descendo apressada. — Você sabe onde fica o covil da The Shadow Syndicate, não sabe? Onde o Ryan está? Acho que esqueceu de mencionar isso na longa conversa que teve com o meu pai.

Dick lançou um olhar rápido para Barbara.

— Tá vendo o problema que você me arrumou, Gordon?

— Você é egoísta demais! — Anders rebateu.

Ele respirou fundo, a voz firme:

— Vocês duas parecem ter esquecido quem eu sou. Eu sou o novo Batman, porra! — Socou com força o teto do carro. — Eu dou conta! Confiem em mim.

— Não, Dick — Kory bateu o pé. — Da última vez que confiei, perdemos três pessoas. Não vou deixar isso acontecer de novo.

Barbara balançou a cabeça, afastando-se.

— Boa sorte com ele, Et Bilu. Ele é mais teimoso que pedra. — E se retirou.

Kory desceu os degraus e parou diante de Dick.

— O que você quer de mim, Estelar?

— Já que você sabe o paradeiro do Slade e do meu irmão. Quero ir junto. Quero salvá-lo, garantir sua segurança.

— Não. Você está grávida.

— E desde quando você se importa comigo?

— Desde sempre. — Dick travou o maxilar. — Você pode se machucar. Está instável. Eu vi como lutou no quarto quando o raptaram. Se vier comigo, vai ser suicídio. Eu teria que me preocupar com você o tempo todo.

Os olhos dela brilharam, mas a voz saiu firme:

— Suas palavras cruéis não vão me impedir. Eu preciso estar lá. Quero ter controle da situação. Não vou descansar até que ele esteja comigo e seguro.

— Quantos meses?

— O quê?

— De quantos meses você está?

Kory cruzou os braços e soltou um suspiro contido.

— Cinco. Quase seis.

O silêncio que se seguiu foi denso, desconfortável. Eles se encararam por alguns segundos longos demais.

— Você sabe o risco que está correndo, não sabe? — A voz dele saiu mais baixa.

— Não se preocupe. O bebê não é seu.

Dick revirou os olhos, impaciente.

— Isso não muda o que eu estou dizendo. Ainda não acho uma boa ideia você se arriscar desse jeito. Aquelas pessoas são cruéis, Kory. Mais do que você imagina. São influentes, intocáveis… pagam para que a mídia esconda tudo o que fazem. E não vão pegar leve só porque você é mulher.

— Eu nunca esperei que pegassem. Já sobrevivi a coisas piores… na Cidadela.

Ele deu um passo mais perto, a expressão endurecendo.

— Mas você era mais jovem e não estava grávida naquela época. E seus poderes estão sendo afetados, sim. Eu vi. Você está oscilando. Não sou burro.

— Eu vou junto! — A figura imponente de Galfore surgiu no corredor, fechando a porta atrás de si com cuidado.

— Quantas malditas pessoas estavam ouvindo atrás dessa porta? — resmungou Dick.

— Nenhuma. Eu me certifiquei de que fosse apenas eu. Estava procurando minha filha quando vi Barbara voltar furiosa para dentro. Imaginei que havia problemas.

— Ele sabe onde o Slade está. E onde o Ryan também, papai — explicou Kory. — E estava indo sozinho. Sem avisar a polícia.

Dick cruzou os braços.

— A menor movimentação policial perto do esconderijo faria com que ele desaparecesse em minutos. Depois, levaríamos semanas para encontrá-los de novo. E só de estarmos falando disso aqui já é arriscado. A The Shadow Syndicate tem olhos e ouvidos por toda parte… inclusive dentro da polícia.

Galfore estreitou o olhar.

— Então são mais perigosos do que eu pensava.

— Pois é! — concordou Kory. — Grávida ou não, eu vou atrás do meu irmão.

— E eu vou junto — afirmou Galfore, firme. — Para proteger minha filha… e meu neto.

Kory voltou-se para Dick, decidida:

— É isso. Nós vamos juntos. Você querendo ou não.

Dick passou a mão pelo rosto, frustrado.

— Certo. Que seja. Mas vocês vão fazer exatamente o que eu mandar. Sem improvisos. — Ele destravou o carro. — Entrem. Precisamos ser rápidos.

— Algo me diz que vamos fazer uma parada antes — comentou Kory, acomodando-se no banco do passageiro da frente e afivelando o cinto.

Dick deu a partida.

— Vamos primeiro para a Batcaverna.

[...]

— Você parece nervosa — comentou Rachel, assim que Barbara entrou na sala principal para beliscar algo da ceia que Rita Farr havia preparado. Eram 23h30 do dia 24.

Barbara arqueou levemente a sobrancelha.

— Precisou só bater o olho em mim, utilizando seus superpoderes, ou isso faz parte do seu famoso perfil psicológico, srta. Scotland Yard?

— Só quero ajudar, Gordon. Sem rivalidade.

— Você está em Gotham City, não em Londres. Não é o seu departamento.

— Ainda assim, posso ser útil. Conheço o modus operandi do Wilson desde que eu era adolescente. Aposto que você leu todos os meus relatórios antes de eu pisar aqui.

Barbara tomou um gole do refrigerante antes de responder:

— Odeio a sua presunção… mas sim, fiz meu dever de casa. Quando soube que a filha de Trigon, agora detetive, passaria o fim de ano nos Estados Unidos, achei prudente me preparar. Seu histórico é impressionante, Roth. Até a Rainha Elizabeth fez questão de te parabenizar pessoalmente, quando ainda estava viva.

— Ela era um amor.

— E é verdade aquela história de que ela era um réptil?

— Se era, nunca descobri.

As duas soltaram uma breve risada. Barbara então pegou o celular, voltando a ficar séria.

— Normalmente, eu deixaria isso apenas com a minha equipe. Mas este caso não é comum. As pessoas por trás dele têm poder, influência… e proteção. E como você bem disse, conhece Slade melhor do que ninguém, e se o Dick confia em você, eu também confio. Vou permitir que você ajude oficialmente.

Ela digitou algo rápido na tela.

— Acabei de solicitar uma credencial digital de consultora especial para você. Em menos de vinte minutos, o documento deve chegar ao seu celular, com autorização temporária para atuar dentro do distrito de Gotham durante esta investigação.

Rachel inclinou a cabeça, desconfiada.

— Espera, como você tem o meu número?

Barbara bloqueou o celular e ergueu o olhar.

— Você não é a única detetive com uma das melhores reputações do país por aqui.

— Muito obrigada, comissária.

— Não me agradeça ainda — retrucou Barbara. — Só me prove que eu fiz a escolha certa.

Rachel assentiu, afastou uma mecha de cabelo para trás da orelha e caminhou até onde Rita, Larry, Victor e Garfield estavam reunidos.

— Sei que o clima não é dos mais propícios, mas não podemos simplesmente jogar toda essa comida fora… — justificou-se Rita Farr, mais para si mesma, enquanto cortava um pedaço de peru. Seu prato estava exageradamente cheio, formando quase uma montanha.

— Está tudo bem, Rita — disse Larry, pousando a mão com delicadeza no ombro dela.

— O Natal está arruinado, e é tudo culpa minha. Se eu não tivesse organizado essa festa, Ryan não teria sequestrado Dick… e ele não estaria correndo risco de vida.

— Mãe, por favor, não se culpe. Não tinha como a senhora prever isso — disse Garfield, tentando soar firme. — Nós vamos encontrá-lo. Basta ter fé.

— Eu também tive fé de que meu instituto daria certo… e veja no que deu — retrucou Rita, pegando um grande pedaço de pernil e levando-o à boca apressadamente. Sempre que se sentia trêmula e ansiosa, a comida era seu maior refúgio. Sentia o rosto dormente, como se estivesse prestes a perder o controle outra vez.

— Oi, pessoal — disse Rachel, aproximando-se do grupo. — Descobriram alguma coisa?

— Oi. Vamos ali com o Vic rapidinho? — pediu Garfield, segurando a mão de Rachel e conduzindo-a até o outro cômodo, onde Victor permanecia concentrado nas telas projetadas a partir de seu corpo robótico.

Rachel sentiu o calor da mão de Gar envolvendo a sua, e o coração disparou no peito. Não saberia dizer se era por causa da tensão do sequestro — que já lhe provocava uma dor de cabeça insistente — ou pela proximidade inesperada do leve roçar de suas peles.

— Desculpa… é que minha mãe está muito ansiosa. Não quero que ela piore, e o tio Larry também acha que o melhor é dar um tempo para ela respirar — explicou Gar, passando a mão pelos cabelos, visivelmente aflito.

— Está tudo bem. Eu entendo, de verdade. Trabalho com esse tipo de situação há anos e, mesmo assim, minhas mãos ainda suam — confessou Rachel, abrindo um pequeno sorriso compreensivo.

— Acho que nunca vamos conseguir blindar nossos corações em situações assim. — disse Victor. — Meu corpo é mais robô do que humano e ainda assim, estou sentindo meu coração quase sair pela boca e meu estômago está embrulhado. Nem sei como as crianças estão conseguindo comer tanto e se divertir na mesa com a Rita.

— Eles são inocentes, Vic, e isso é brilhante — disse Rachel. — Eles não têm noção do que está acontecendo.

— Então, descobriu alguma coisa nova, Cyb?

— Sim. Vejam só — Gar e Rae se aproximaram — Consegui decodificar os registros de geolocalização do celular do Ryan. Analisando o histórico de triangulação de torres e os dados de GPS armazenados, mapeei o trajeto que ele fez hoje: o hotel e a fazenda da tia Rita. Como a Kory disse, ele fez sua caminhada pela manhã, mas houve um desvio de padrão perto das 18 horas; o aparelho registrou uma parada na Gotham Relics & Pawn Shop, uma loja de penhores no centro.

— Bem que a Kory disse que ele é rápido e esperto… conseguiu chegar lá enquanto ainda estávamos nos arrumando — comentou Ravena.

— A loja pertence ao Vincent Crowe. Cruzei os dados cadastrais com o tráfego da rede municipal: Crowe mora com a esposa e a filha no endereço fixado, mas não registram atividade há horas. A polícia está tentando contato, mas sem sucesso.

— Talvez estejam comemorando a noite de Natal e tenham desligado os celulares — sugeriu Gar, dando de ombros. — Trabalhar com penhores deve trazer umas dores de cabeça inesperadas…

— Ou podem ter viajado para outra cidade — acrescentou Rachel, pensativa.

Cyborg balançou a cabeça.

— Tem razão. A polícia de Gotham está travada na burocracia, esperando uma ordem judicial para entrar, mas não têm materialidade suficiente para o juiz liberar o mandado agora. É uma perda de tempo.

Gar ergueu o olhar, hesitante.

— E se a gente investigasse do jeito antigo?

Rachel arqueou a sobrancelha e presumiu:

— Você quer dizer… invadir a loja e a residência dos Crowe?

— Sim.

— Não parece a melhor ideia, não somos mais adolescentes, responderemos a qualquer erro como adultos… — murmurou ela. — Mas cada minuto conta para o Ryan.

Cyborg respirou fundo.

— Então temos que assumir o risco.

— Eu acho que não vai ser totalmente ilegal — explicou Roth. — A comissária Gordon me concedeu uma credencial digital de consultora especial. Isso me dá respaldo para atuar como detetive em Gotham neste caso.

— Uau, Rae, isso é incrível. — Gar sorriu, impressionado.

— Eu sei que o certo seria avisá-la e que isso pode me prejudicar amanhã na Scotland Yard— continuou Ravena, mais séria —, mas ela pediria para recuarmos.

— E isso só atrasaria tudo — completou Gar.

Roth respirou fundo antes de continuar:

— Não podemos tratar isso como um caso comum… porque não é. Slade Wilson está de volta.

— E eu não sei vocês, mas… — começou Gar, abrindo um meio sorriso, com os olhos brilhando. — …mas eu estou me sentindo um Titã de novo!

— Eu também. — assentiu Victor.

— Eu também. — concordou Rachel. — A propósito… cadê a Kory? — Olhou em volta.

— Pelas câmeras, ela saiu de carro com o Grayson — respondeu Victor, depois de acessar rapidamente os registros.

Rachel franziu a testa.

— Isso não é um bom sinal.

— Pronto. A quinta guerra mundial vai começar! — exclamou Garfield, passando a mão pelos cabelos de forma dramática.

Ravena suspirou fundo, piscando devagar, incrédula.

Drama queen.

— Eles dois juntos são um perigo! — justificou-se Logan.

— Na verdade — corrigiu Rachel — Estava me referindo ao fato de que, se o Dick saiu, é porque foi atrás do Slade. Isso significa que ele sabe, ou acha que sabe, onde encontrar o paradeiro dele e da The Shadow Syndicate. Pode ser uma armadilha… e eles foram sozinhos. E ela está grávida.

— Podemos respirar com mais calma — esclareceu Cyborg. — Acabei de verificar que Galfore foi junto com ele. Se a pista for verdadeira, ele entrará em contato, tenho certeza. É o único que ainda parece são por ali.

— E, só para constar, só tivemos duas guerras mundiais, não cinco — corrigiu Rachel, cruzando os braços. — Você é capaz de descrever toda a anatomia do sistema nervoso central, mas não sabe quantas guerras mundiais tivemos?

O garoto passou a mão pelo cabelo, visivelmente inquieto.

— Eu estou nervoso, ok? O estresse está afetando minha cognição, dá um tempo.

“Me sinto de novo nos velhos tempos”, concluiu Roth mentalmente.

— Mas falando sério… como a gente vai despistar a comissária? — Logan ficou em silêncio por um segundo, então abriu um sorriso travesso. — Espera aí... Tive uma ideia! Eu conheço essa casa melhor do que ninguém. Cresci aqui. Vivia escapando do castigo pra brincar lá fora quando minha mãe me deixava de castigo.

Rachel estreitou os olhos.

— Deixa eu ver se estou acompanhando sua linha de raciocínio… você está dizendo que existe uma saída secreta por aqui?

— Sim.

— A Rita sabe disso? — questionou Cyborg.

Gar deu de ombros.

— Hoje em dia ela provavelmente já sabe, acho.

— Ok. A Patrulha do Destino me surpreende mais a cada dia. — declarou a empata.

Garfield aproximou-se dos dois, falando baixo para que a música e o burburinho da sala de jantar não encobrissem suas palavras.

— No fim do corredor do primeiro andar tem uma biblioteca — explicou, apontando discretamente para a escadaria. — A terceira estante da direita tem um livro grande de anotações sobre técnicas de sobrevivência no Polo Norte, escrito pelo próprio Niles Caulder, não questionem. Se puxar pela parte de cima da lombada e girar levemente para a esquerda… — Simulou o gesto com as mãos — Abre uma passagem secreta. O corredor dá direto para fora da casa, atrás das sebes do jardim.

Roth ergueu uma sobrancelha, desconfiada.

— E você descobriu isso como?

Garfield deu de ombros.

— Longa história, digamos que fui uma criança com muito tempo livre. O importante é que funciona. Vamos sair com intervalos de cinco minutos. Eu vou primeiro. Depois você. E o Vic fecha.

Cyborg assentiu.

— Certo. Cinco minutos exatos. Vou mandar mensagem pra Karen não ficar preocupada e tentar distrair a Gordon pra gente.

[...]

Garfield esperou o momento em que uma nova rodada de música começou e Rita brindava com os poucos presentes, pois era exatamente meia-noite de Natal, marcada pelas solenes badaladas do relógio de pêndulo. Aproveitando a distração, escorregou pela lateral da sala de estar, pegou uma taça vazia para fingir naturalidade e seguiu em direção à escada. Desceu sem pressa, cumprimentando alguém no caminho, como se estivesse apenas procurando o banheiro.

No primeiro andar, o corredor estava quase vazio. Ele caminhou até a biblioteca, entrou e fechou a porta com cuidado. Contou até três, localizou o livro grosso sobre o Polo Norte e o puxou exatamente como havia explicado. Um clique abafado ecoou. Parte da estante recuou, revelando a passagem estreita. Garfield respirou fundo e desapareceu pelo corredor oculto.

[...]

Cinco minutos depois, Ravena deixou o grupo do brinde com uma desculpa vaga sobre precisar de ar fresco. Seu andar era calmo, quase etéreo, sem pressa alguma. Desceu as escadas como se estivesse completamente alheia a qualquer tensão.

No corredor do primeiro andar, manteve a expressão impassível até alcançar a biblioteca. Assim que entrou, seus olhos percorreram a estante com precisão. Encontrou o livro, repetiu o movimento descrito por Garfield — puxar, girar levemente — e ouviu o mecanismo ceder. A passagem se abriu. Sem hesitar, ela deslizou para dentro da escuridão, e a estante voltou ao lugar.

[...]

Outros cinco minutos se passaram.

Cyborg conferiu o horário no visor interno e respirou fundo.

— Hora do show — murmurou para si mesmo.

Despediu-se de Cliff e Larry com um aceno casual e comentou algo sobre precisar atender uma ligação. Desceu as escadas com passos firmes, mas controlados.

Ao chegar à biblioteca, entrou e encostou a porta. Seus dedos metálicos encontraram o livro do Polo Norte com facilidade. Repetiu o movimento com cuidado para não aplicar força demais. O clique soou novamente, revelando a abertura.

Cyborg lançou um último olhar para o interior silencioso da casa.

— Espero que isso funcione tão bem na volta — disse em voz baixa.

[...]

Saíram em passos rápidos pelos fundos da casa e contornaram o jardim até encontrarem o carro de Victor estacionado perto do celeiro.

— Garfield! — chamou uma voz feminina.

Ao se virarem, deram de cara com a doutora Eula Tozier, visivelmente apressada.

— Perdoe o atraso. Demoraram mais do que o previsto para liberarem as rodovias, por questões de segurança. E o que é toda essa polícia?

Stone e Roth trocaram um olhar breve e entraram no carro. Logan permaneceu para trás, aproximando-se da médica.

— Sra. Tozier, muito obrigado por ter vindo. Eu adoraria conversar com mais calma, mas surgiu um imprevisto urgente… e não posso explicar agora.

Ela franziu a testa.

— Espere, aonde você vai? Logan, não faça nada que eu não faria.

Garfield sorriu de canto.

— Não se preocupe. — Piscou, tentando transmitir segurança. — Fique à vontade lá dentro. Minha mãe e meus tios estão na festa, a senhora já os conhece. E também há uma mulher chamada Karen Beecher com duas crianças. É sobre ela aquilo que conversamos.

A doutora assentiu.

— Está bem. Vá lá e salve o dia, Superman… mas tome cuidado. — A mulher, de longos cabelos negros, trajando um elegante vestido azul-marinho e adornada com colar e brincos reluzentes, piscou discretamente.

— Pode deixar. Obrigado.

Assim que Garfield entrou no carro, Cyborg deu partida, e eles seguiram em direção a Gotham City. A neve continuava a cair, densa e insistente, dificultando a visibilidade na estrada. Independente desse detalhe,, Victor conduzia com firmeza e atenção, afinal era um motorista experiente e orgulhoso.

— Será que o pen-drive que o Ryan penhorou ainda está lá? — questionou Garfield, ajustando o cinto.

— Talvez… se a sorte estiver do nosso lado — respondeu Victor, sem tirar os olhos da estrada.

No banco de trás, Rachel voltou o olhar para Logan, sentado ao seu lado.

— Aquela é sua chefe barra professora? Rita falou muito bem dela na festa. Não me lembro do nome agora, mas sua mãe comentou que significava eloquência, “boa de fala”, e que tinha origem grega.

— A própria, Dra. Eula Tozier. — respondeu ele.

— Ela é muito bonita para a idade que tem. E vocês parecem bem próximos.

Victor soltou um leve riso.

— Ela me lembra um pouco você, Rae. — provocou.

Rachel arqueou uma sobrancelha, mas Garfield se adiantou:

— A doutora Tozier é incrível. A melhor neurocirurgiã do país. É onde eu quero chegar na minha carreira. E o nosso relacionamento é estritamente profissional.

— Sei lá, maninho, ela parecia estar interessada em você. — admitiu Cyborg. — Ela é solteira? Ela sabe que você é verde?

— Viúva. Não, ela não sabe. E deve ser apenas impressão sua.

— Tenho certeza de que você vai superar ela — disse Rachel, tentando trocar de assunto. — E, aliás, vocês dois deveriam se sentir sortudos.

— Por quê? — Victor perguntou.

Rachel cruzou os braços, assumindo um ar quase solene.

— Porque hoje vocês vão ser minha Abbie-Boss.

— Quem é Abbie? — Garfield inclinou a cabeça.

— Minha parceira em Londres. Detetive Abigail Kensington.

Victor assobiou baixo.

— Para trabalhar com você, ela deve ser extremamente inteligente. — interpretou Garfield.

— Ela é — confirmou Rachel. — Mas vocês dois também preenchem os pré-requisitos… embora ainda não estejam no nível dela. Considerem isso um presente de Natal antecipado.

Victor sorriu de lado.

— Vou interpretar isso como um elogio, maninha.

— Se você quiser, pode tirar esse colar. É só a gente aqui, como nos velhos tempos. Não precisa ter vergonha de ser você mesmo. — sugeriu Rachel.

Garfield assentiu e retirou o olhar, sentindo sua pele voltar a ter a tonalidade verde de novo.

— Chegamos. — anunciou Cyborg, estacionando o carro naquela rua iluminada e com poucos carros no centro de Gotham. — Parece que nem no Natal essa cidade dorme.

— Gotham é a nova Las Vegas, bro. — disse Gar.

Rachel se inclinou próxima a janela.

A fachada da Gotham Relics & Pawn Shop ocupava um prédio pequeno antigo de tijolos escurecidos pela fuligem, espremido entre dois edifícios mais altos; acima da vitrine principal, um letreiro metálico com letras desgastadas em dourado anunciava o nome da loja, algumas lâmpadas de néon piscando de forma irregular e lançando um brilho avermelhado sobre a calçada úmida. A porta de vidro reforçado exibia adesivos de “Compramos Ouro”, “Objetos Raros” e “Dinheiro na Hora”, enquanto as vitrines laterais, protegidas por grades ornamentadas de ferro, deixavam à mostra pelas pequenas frestas relógios antigos, jóias reluzentes, instrumentos musicais usados e curiosidades empoeiradas iluminadas por luzes amareladas; uma câmera de segurança girava discretamente sob a marquise enferrujada, e uma placa menor, quase escondida, informava o horário de funcionamento.

— Tomara que o seguro desse tal de Vicent seja muito bom. — comentou Cyborg.

Garfield abriu a porta do carro para Rachel e a ajudou a descer.

— Valeu.

— Cuidado com a neve, deve ser desconfortável andar nela com esses saltos.

— Um pouco.

— Quer ajuda?

— Na verdade, não precisa… eu…

Mas ele já havia envolvido o braço direito pela por seus ombros e tocado de leve em sua cintura. Rachel suspirou fundo para não deixar suas emoções agitadas.

— A segurança daqui parece ser de primeira. Como vamos entrar? — questionou Gar.

Enquanto isso, Cyborg ajustou algo em seu mecanismo. Em poucos segundos, invadiu o sistema de segurança da loja, destravou as grades de ferro e as fez recolherem como se nunca tivessem estado ali.

— Fácil!

— Seu pai estava certo daquela vez. Você é realmente virou um hacker! — disse Ravena.

Cyborg deu um meio sorriso.

— Meu pai é cheio de mentiras… mas tem horas que ele consegue falar a verdade.

— Hm… isso parece estranho. Tem certeza que é aqui? — perguntou Ravena.

— Sim, por que?

— Aquilo… é uma mancha de sangue? — Ela esclareceu, apontando para uma mancha vermelha, em formato de mão, na janela.

— Tô começando a achar que a The Shadow Syndicate chegou à nossa pista antes da gente. — falou Mutano.

Cyborg ativou o braço-canhão, que começou a emitir um leve brilho azulado. Rachel deixou uma sombra negra envolver sua mão, densa e pulsante como fumaça viva. Garfield respirou fundo, em alerta, já avaliando mentalmente em qual animal seria melhor se transformar.

— Vamos entrar. Com cuidado. — Anunciou Cyborg.

Eles se posicionaram automaticamente: Cyborg à frente, corpo levemente inclinado; Rachel logo atrás e Garfield posicionou-se fechando a retaguarda.

Ao acenderem as luzes, ficaram boquiabertos, nada poderia tê-los preparado para aquilo. Haviam corpos espalhados pelo chão e sobre as mesas da loja. Manchas de sangue marcavam o piso e as paredes com um vermelho escarlate. Alguns apresentavam ferimentos graves na barriga, nos braços e nas pernas; outros tinham o rosto machucado de forma perturbadora, principalmente bocas dilaceradas, olhos cinzas, arregalados e espantados.

— Que porra aconteceu aqui? — perguntou Cyborg.

— Uma carnificina terrível. — Concluiu Ravena, guardando seu poder.

— Será que isso tem haver com o Slade e a The Shadow Syndicate? — Indagou Mutano.

— Tenho quase certeza de que sim. — Cyborg varreu o local com o olhar. O cheiro metálico de sangue era intenso, quase sufocante, e ver os estados daqueles corpos era horrível. Ao erguer os olhos para o teto, percebeu a presença de duas câmeras dentro da loja e outra voltada para a vitrine, do lado de fora. — Há câmeras aqui. Vou tentar acessá-las para descobrir o que aconteceu.

— Tudo bem. — disse Rachel, suspirando. — E lá se vai meu Natal e férias tranquilas. Que carma!

— Acho que vou dar uma olhada nos fundos, ver se não tem mais ninguém aqui além da gente — avisou Mutano.

— Certo, mas toma cuidado — pediu Rachel. — Vou avisar a Bárbara para chamar a equipe de perícia. Será que eles vão demorar muito para chegar?

— Levando em consideração que é literalmente Natal e que o pessoal da equipe deve estar com suas famílias… — opinou Cyborg, dando de ombros. — Acho que sim.

Rachel examinou os rostos um a um, até que encontrou o de Vincent Crowe, caído atrás do balcão. A pele, antes rosada, agora estava pálida, quase acinzentada. Sua grande barriga exibia um ferimento profundo, e o sangue seco manchava a camisa. Pelo estado em que se encontrava deduziu que ele poderia ter se afogou no próprio sangue.

Os olhos permaneciam abertos, de um cinza morbido que lhe provocou um arrepio involuntário.

Mais do que a cena em si, porém, era a sensação que a perturbava. Seus poderes sensitivos captavam algo pesado no ar, uma presença opressiva.

As almas estavam em completo sofrimento!

— Encontrei o nosso homem — declarou Roth, a voz firme apesar do peso no olhar. — Isso parece um pesadelo.

— E eu invadi o sistema de segurança — informou Victor. — Infelizmente, o que estamos procurando não está mais aqui.

— O quê? Então o Ryan nem chegou a aparecer?

— Esteve, sim. E, de fato, trocou o diamante que roubou do Dick por uma boa quantia. — Victor fez uma pausa. — Mas, menos de trinta minutos depois, alguém o roubou.

— Como assim?

Victor ativou o monitor acoplado ao braço robótico e o inclinou na direção da amiga. A imagem congelada mostrava uma mulher de cabelos brancos, postura firme e usando um tapa-olho de couro.

— Foi ela. — Vic apontou com seu grande indicador de metal.

Deu play no vídeo. A gravação mostrava a mulher nos fundos da loja. Com movimentos precisos, ela posicionou um pequeno explosivo na fechadura do cofre. A detonação foi controlada, mas suficiente para arrombar a porta de aço.

Sem hesitar, foi direto ao conteúdo do cofre. Entre diversas jóias valiosas, ignorando anéis, colares e pedras raras. Pegando apenas uma peça específica, exatamente a que escondia o pendrive acoplado em seu interior, e saiu dali sem levar mais nada.

— Rose? — Rachel franziu o cenho.

— Você a conhece?

— Sim, do velório do Joey e da Koma. Ela é irmã mais nova do Joey… é… filha do Slade Wilson.

— Droga! — exclamou Cyborg, cerrando os punhos metálicos. — Então parece que ela seguiu os passos do pai.

— Ao que tudo indica… virou mercenária — concluiu Ravena. — Mas há algo que não fecha. Como alguém do porte dela conseguiria neutralizar sete homens, todos com massa e envergadura muito superiores, sem sinais claros de confronto físico?

— Porque ela não matou ninguém.

— O quê? — A mulher franziu o cenho. — Então ela estava com uma equipe?

— Na verdade, não. E é aí que fica ainda mais estranho. — Ele ampliou as imagens. — Essas pessoas… se atacaram. Entre si. Rose só entrou depois, quando todos já estavam mortos.

— Isso não faz sentido! O que estamos deixando passar?

Victor respirou fundo.

— Acho que as imagens vão explicar melhor do que qualquer teoria.

Retrocedeu a gravação até o momento em que tudo ainda parecia normal. A loja funcionava como em qualquer fim de tarde: clientes entrando e saindo, o proprietário, Vincent, conversando com a esposa, Edna, enquanto organizavam o balcão, claramente se preparando para fechar.

Às 18h45min, algo incomum surgiu no canto superior da imagem. Do teto, começou a descer lentamente um grande aparelho colorido.

— Aquilo pendurado é uma jukebox? — perguntou Roth, estreitando os olhos.

— Parece que sim…

Embora o vídeo não tivesse áudio, era possível perceber o instante exato em que algo mudou. Assim que o objeto se estabilizou no ar, os presentes olharam para cima, primeiro confusos, depois visivelmente alarmados.

Segundos depois, o caos explodiu.

Todos começaram a se atacar, sem qualquer aviso. Pareciam os zumbis famintos de “The Walking Dead” quando encontravam uma presa. Uma carnificina súbita e descontrolada. Pessoas começando a se devorar e a se machucar, cujas imagens ecoariam por sua mente por meses.

— Puta merda! — Rachel deixou escapar.

Cyborg engoliu em seco.

— Puta merda mesmo! Isso não é normal. Não é nem de longe normal. Isso me parece obra do…

— Sr. Ninguém?

— Sim, foi a mesma coisa que aconteceu naquele parque dos anos 50… que foi investigado pela antiga Patrulha do Destino.

— Ele está de volta.

— Impossível, está preso no quadro branco da casa da Patrulha desde 2014.

— Não Vic, isso não foi uma pergunta, foi uma afirmação. — Sua frase vez o Stone a encarar sem entender. — Ele voltou! — reafirmou — Já faz quase 1 ano, tacando o terror em vários locais do mundo. O Departamento da Normalidade entrou em contato com a Scotland Yard para investigar e…

— Como assim o lunático do Sr. Ninguém voltou? — questionou uma voz atrás deles.

Era Garfield. Ao seu lado, estava uma garota de longas tranças loiras, vestido cor-de-rosa e grandes olhos azuis. O tecido claro estava manchado de vermelho.

— Meu Deus… quem é ela? Ela está bem? — perguntou Rachel, aproximando-se.

— Ela é a Dorothea Crowe. Oito anos. Filha do Vincent. Conferi nos documentos dela. Acredito que ela deva ter presenciado todo o ocorrido. — Gar apoiou a mão com cuidado na nuca da garota, observando suas pupilas e a respiração irregular. — Ela sofreu um impacto significativo na cabeça ao tentar fugir e se esconder. Está apresentando tremores, mutismo e possível rebaixamento do estado de consciência. Há risco de traumatismo cranioencefálico. Precisamos de atendimento hospitalar imediato.

— Já liguei para a emergência — informou Victor. — Disseram que chegam em sete a dez minutos.

— E os homens da Bárbara também estão a caminho. — completou Rae.

Garfield balançou a cabeça.

— Sete a dez minutos pode ser tempo demais em um caso de possível TCE. Não podemos descartar hemorragia interna ou uma concussão grave. Precisamos levá-la ao hospital agora.

— Coloquem ela no meu carro. Eu chego lá em menos de cinco minutos — garantiu Victor.

— Ok. Eu vou junto — assegurou Garfield.

— Eu fico — decidiu Rachel. — Alguém precisa preservar a cena até a Polícia Metropolitana de Gotham chegar.

— Tudo bem, mas toma cuidado, maninha — pediu Cyborg.

— Pode deixar.

Antes de sair, Garfield lançou um olhar demorado para Rachel.

— Depois… vamos precisar conversar melhor sobre o Sr. Ninguém.

Ela assentiu em silêncio, passando as mãos pelos cabelos longos cabelos pretos feito ébano numa tentativa de organizar os pensamentos.

Precisava de ar.

Saiu da loja e parou na calçada, inspirando profundamente o frio da noite. Do lado de fora, as luzes da rua contrastavam cruelmente com o horror que ficara lá dentro.

Observou Metamorfo acomodar Dorothea com extremo cuidado no banco traseiro do carro de Victor, protegendo a cabeça da menina e ajustando seu corpo para evitar qualquer movimento brusco. Assim que a porta foi fechada, o motor roncou e o veículo arrancou, desaparecendo rapidamente ao dobrar a esquina.

Ravena ficou ali, imóvel.

Fechou os olhos com força, sentindo a pressão subir no peito. A vontade de chorar veio como uma onda pesada, difícil de conter.

[...]

— Mas que merda! Tudo sempre sobra pra mim! — exclamou Cliff Steele, saindo pela porta dos fundos da casa, a porta batendo atrás dele com força. — “Cliffzinho, por favor, pegue mais lenha pra lareira…” — afinou a voz numa sátira exagerada, imitando Rita Farr. — Engraçado que nenhum deles levanta a bunda gorda do sofá pra buscar a porra da lenha nesse frio do caralho! Mas claro, eu tenho que ir! Sair nessa escuridão desgraçada. Afinal, não sinto frio mesmo, não pego gripe… que conveniente, né? Porque, obviamente, eu sou só um idiota com um cérebro de carne preso num corpo de lata velha.

Resmungando, agachou-se e pegou as três únicas toras que restavam, a madeira rangendo sob os dedos metálicos.

— E ainda vou ter que cortar mais lenha. Puta que pariu…! — bufou. — Que filhos da…!

Foi interrompido pelo zumbido seco do celular vibrando no bolso da calça.

Cliff ficou imóvel por um segundo.

— Ah, mas que inferno! — Puxou o aparelho, encarando a tela acesa. — Quem diabos liga a essa hora?! Ah, tinha que ser esse moleque! — Praguejou, colocando o celular no ouvido.

Fala aí, tio Cliff!

— O que você quer agora, hein, moleque?! — rosnou, sem paciência.

Feliz Natal pra você também… — Garfield revirou os olhos do outro lado da linha. — Não me diga que está mau humorado porque a Clara e o seu neto não puderam vir.

— Na verdade, minha filha, a esposa dela, a Mel, e o meu netinho, Rory, vieram sim — rebateu, irritado. — Eu tava curtindo com eles, até a sua mãe me mandar sair nesse frio do caralho pra pegar mais lenha! E adivinha? Eu ainda vou ter que cortar mais! Eu avisei ela e o babaca do Larry que aquela pilha da tarde não ia durar. Mas alguém me ouve? É evidente que não! Agora tô aqui, no sufoco, enquanto eles estão todos dançando lá dentro.

Do outro lado da linha, Garfield soltou um suspiro contido.

Olha, desculpa interromper seu momento de mau humor, mas é importante. O senhor pode me fazer um favor?

Cliff soltou uma risada seca, metálica.

— Ah, claro. Você abandona a festa, deixa a gente naquele clima de velório com aquela comissária maluca e os investigadores dela rondando a fazenda toda… e agora me liga pedindo favor. Sensacional.

Aconteceram uns imprevistos.

— Ah, “imprevistos”? — debochou. — Que tipo de imprevisto, hein? Como sair de fininho para transar com a sua ex-namorada policial gostosona? Não me diga que ela te convenceu a usar algemas de pompom.

Tio, por favor. Dá um tempo. É caso de vida ou morte.

O tom fez Cliff ficar em silêncio por um segundo.

— Tá… — resmungou. — O que você quer?

Eu tô no hospital, mas calma, eu tô bem. Mas tem uma garotinha à beira da morte aqui. Teve uma chacina numa loja de penhores… ela é filha dele e testemunhou tudo. E a Rachel acha que o Sr. Ninguém pode estar por trás disso.

Cliff ficou imóvel.

— O quê? Impossível. — A voz dele baixou, pesada. — A Rachel só pode estar maluca. Faz dez anos que aquele babaca tá preso no quadro que comeu Danny. — Apertou o celular com força. — Me diz que isso é brincadeira, sem graça alguma, de Natal.

Infelizmente, não. Eu vi o vídeo. Foi idêntica à carnificina dos anos 50… aquela da antiga Patrulha do Destino que tá largada naquele asilo que o Niles montou. Onde o canalha do Mento foi parar.

Cliff ficou em silêncio por um segundo, processando.

— Tá… — A voz dele saiu carregada de irritação. — E deixa eu adivinhar: o favorzinho que você quer me pedir é que eu vá até a área proibida da casa secundária, dar uma espiada pra ver se aquele babaca do Sr. Ninguém ainda tá preso no quadro.

Acertou em cheio.

— Filho da puta… — murmurou, passando a mão metálica pelo rosto. — Por que você não pede isso pra Rita ou pro Larry? Ele que é o responsável por ver se está tudo certo ou não. Já pensou em ligar pra Dorothy? E por que diabos não pode ser outra hora? Você tá oficialmente terminando de acabar com o meu Natal.

Minha mãe tá em crise, e o Larry tá ajudando ela. E, sinceramente? Se ele realmente estiver solto, é melhor prevenir do que remediar. Você não vai querer seu neto na mira daquele lunático.

Cliff rangeu os dentes.

— Você joga sujo, sabia?

Do outro lado, silêncio.

— Tá bom! Eu vou. — Bufou. — Mas só porque você apelou bonito pros meus instintos de avô rabugento. E melhoras pra menininha. Salva a vida dela, dr. Logan. Depois me liga.

Pode deixar. A gente tá fazendo o possível aqui. Valeu, tio. E não conte nada pro restante até termos certeza de que ele fugiu, ok?

— Tá!

Cliff já afastava o celular do ouvido quando rosnou:

— Mas nunca mais me peça nada, moleque.

E desligou, encarando as toras não cortadas à frente como se ela tivesse acabado de insultar a mãe dele. Deixou-as para depois, Rita que lutasse.

Pegando uma passagem secreta pelo jardim, entrou no primeiro andar da casa secundária e seguiu pelo corredor empoeirado até o antigo escritório de Niles Caulder. Desde que tinham se mudado para a casa principal, agora interditada, ele nunca mais colocara os pés ali. Não depois da morte do ex-Chefe. O lugar ainda cheirava a papel velho e madeira úmidas.

— Ótimo. Bem aconchegante…

Com esforço, empurrou um armário antigo e encontrou a porta que dava acesso à sala proibida, dentro do escritório.

Girou a maçaneta.

A porta abriu com dificuldade, fazendo um barulho alto de ranger, o qual ele agradeceu por ninguém na festa ter notado. Então, viu o quadro, encoberto por um grande pano, antes branco, agora amarelado pelo tempo, e o puxou de uma vez. Olhou duas vezes e piscou, desacreditado. Nem o Senhor Ninguém nem o Caçador de Barbas estavam mais no quadro que comeu Danny. Estava completamente em branco.

Haviam fugido, talvez há semana? Meses? E ninguém ali havia notado.

— Eita porra! Puta que pariu! Mas que caralho! — exclamou alto.

Notas finais
Cliff, como sempre, com um bom humor contagiante ksksksksksks Beijos ❤️ Até mais!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.