Christmas Tree Farm
5 Tenho mania de me afastar, maldição antiga
Notas iniciais

“E eu vou ser honesta como se fosse meu dever
É assim que a vida é
Eu gosto de fechar as portas
Confie em mim, eu sei que eu sempre sou o problema
Eu te amo, me desculpe”
(Gracie Abrams – I love you, I’m sorry)
24 de Dezembro de 2024, 11 horas.
RYAN REVIROU OS OLHOS pela terceira vez consecutiva naquela tarde.
— Ryan, o que você está fazendo com a sua vida? — Galfore coçou a barba e cruzou os braços. — Por que não é possível, já é a quarta vez que a escola me liga nesse semestre!
— Não tenho culpa se aquela velha gaga começou a pegar implicância comigo de novo! — Ryan deu de ombros, jogando a bolinha contra a parede, a qual quicou duas vezes no chão até voltar para sua mão.
— Pare de brincar comigo com essa bolinha e preste atenção no que eu te digo, rapaz! Você foi pego pelo seu professor de inglês usando o ChatGPT para escrever sua redação final, se continuar assim, vai acabar reprovando nessa matéria.
— Escrever é um saco! É chato, demorado e é difícil! Não é minha culpa que o Sr. Michael não consegue passar a matéria de forma objetiva.
— Assim, como fazer cálculos e ler livros é difícil, eu suponho. — Galfore acusou.
Ryan revirou os olhos.
— Sem contar, por que que eu sou obrigado a escrever uma proposta de intervenção sobre um tema que nem os governantes, que ganham rios de dinheiro pra isso, são capazes de resolver? Que chatice!
— Hm, entendo.
— Tô falando sério, pai! Por que você nunca me leva a sério?
Galfore suspirou fundo.
— Garoto, que futuro você acha que vai ter agindo assim? Sei que o sistema de ensino tem muitas falhas, mas você também tem que colaborar. Eu e sua irmã nos esforçamos demais para pagar a melhor escola de Gotham para você, para que tenha uma oportunidade de ter um futuro brilhante e é assim que você nos retribui!
— Talvez eu tivesse mais afinidade com vocês, se eu morasse com vocês e não numa república na maior parte do ano. — Ryan rebateu. — Afinal, vocês preferem ficar vivendo como nômades por aí, curtindo o mundo, enquanto eu fico trancado naquela escola cheio de pessoas com mente pequena e limitadas.
— É por que queremos o seu bem! Tudo nessa vida requer sacrifícios. E eu e sua irmã, diferente do que você pressupõe, passamos mais tempo trabalhando do que curtindo.
— Até parece!
— Ah, o que foi que eu fiz pra receber um menino tão ingrato? — Galfore questionou, encarando o céu.
— Bom, acho que vocês deveriam parar de se esforçar tanto com causas perdidas... — Ryan admitiu amargo, sorrindo torto.
— Tudo isso deve ter sido influencia daquele Leroy!
— Não fala dele! — Ryan se pôs de pé e elevou o tom de voz.
— Mas estou mentindo? Sei que tudo isso deve ser um trauma pra você... mas não anula o fato do Leroy ter abandonado a escola cedo demais e querer te levar junto com ele pra um caminho cheio de bebidas, baladas, drogas.
— Chega!
— Não levante a voz comigo, mocinho. Ninguém está gritando aqui, certo? — repreendeu Galfore, em tom firme. — Muito bem, se você prefere desperdiçar essa oportunidade única que eu e sua irmã estamos oferecendo, é uma escolha sua. Mas saiba que muitos adorariam estar no seu lugar agora. Tudo bem, decisão sua... Só espero que não acorde arrependido quando perceber que já é tarde demais.
Ele deu um passo à frente, o olhar penetrante.
— O Leroy pode parecer seu amigo agora, mas quando você estiver na pior – sem esperanças, sem futuro e sem um pingo de apoio – é aí que vai perceber quem realmente esteve ao seu lado para te levantar.
Ryan ficou em silêncio, os olhos fixos no chão, como se as palavras do pai tivessem finalmente rompido alguma barreira dentro dele. O silêncio era denso, quase palpável. Seus punhos se cerraram brevemente, depois relaxaram. Parecia estar lutando contra algo dentro de si. Ele umedeceu os lábios, desviou o olhar para o chão e só então falou, com a voz mais baixa:
— Ok... mais alguma coisa? — rebateu o jovem ruivo, tentando manter a pose.
O homem de longos cabelos e barba ruivos cruzou os braços, o semblante fechado, inabalável.
— Sim. Você está de castigo por tempo indeterminado e espero não receber mais nenhuma reclamação da sua diretora nos próximos meses. — A voz era fria, cortante. — E mais tarde, continuaremos essa conversa.
O pai bateu à porta com força. O adolescente suspirou fundo, passou a mão pelo rosto e pegou o celular. Trocou de playlist no Spotify — tirando as baladinhas calmas do “folklore” de Taylor Swift pelas batidas agressivas de um rock pesado do Linkin Park — e colocou os fones, mas, como o volume estava baixo, ainda conseguia ouvir a vozes vindas do quarto ao lado.
— Ele não sabe o que está fazendo — O pai desabafava com a irmã. — Eu simplesmente não consigo entender. Parece que nada do que eu faça é bom para ele. O que ele quer de mim?
Kory tentava apaziguar.
— Pai, calma. É que ele tá passando por muita coisa, foi a mudança de escola, o bullying, o Leroy... o Ryan só... tá tentando se encontrar no mundo, mas acredito que logo, logo isso vai passar.
— Eu realmente espero que passe. Não quero que ele se perca como o Leroy... ele era tão novo...
Ryan sentiu um aperto no peito. Não queria ouvir aquilo, não agora. Pegou seu casaco, vestiu-o apressadamente e saiu para uma caminhada pelos arredores do hotel, esperando que o ar frio clareasse sua mente naquela manhã fria de Natal.
Aquela definitivamente havia sido uma péssima hora para tocar no nome do babaca do Leroy. Ryan sempre soube que ele era furada desde a primeira vez que o viu pulando o muro da escola para matar aula. O sujeito queria impressionar os mais velhos no barzinho perto da instituição, mas para Ryan, nunca passou de um idiota.
Ele mal se recordava do que, exatamente, o levara a notar Leroy de verdade pela primeira vez.
Suspirou fundo, sentindo sua respiração se transformar em névoa no ar gelado. Caminhava há quilômetros na neve, enquanto o vento frio castigava seu rosto e suas sobrancelhas começavam a congelar. O Natal não deveria ser assim. A vida não deveria ser assim, ele era ainda tão novo para sentir seu coração fragmentado daquela forma. Nunca imaginou que passaria essa data especial perambulando sozinho, perdido nos próprios pensamentos, ainda ferido pelas armadilhas do ano que se fora.
Sabia que não deveria ter sido tão duro com o pai, nem ter abandonado os estudos daquela forma. E, no fundo, sabia que o velho estava certo — Leroy nunca fora exatamente uma boa influência. Bebia demais, fumava demais, usava cocaína como um refúgio da realidade. Mas, nos braços dele, tudo parecia certo. Ali, sentia-se protegido, como se aquele fosse o único lugar onde o mundo fazia sentido, a única certeza num universo instável. O futuro, nessas horas, parecia uma névoa distante, perdida entre sonhos adolescentes de crescer sem virar mais um adulto entediante.
Mas isso era impossível. A vida não poupava ninguém — e deixava marcas em todos.
Os pulmões de Ryan ardiam. Os pés latejavam. Ele parou, curvando-se com as mãos nos joelhos. A visão embaralhou, as cores se embaralharam, giravam em espirais junto de estrelas, e aquela sensação... estranhamente familiar. Boa, até. Lembrava-o de quando estava chapado, lembravam-no de...
Uma overdose.
Leroy teve uma overdose de cocaína. Morreu aos dezessete — no auge de uma grande vida, ou pelo menos o que deveria ter sido. Era verão. Tinham subido juntos no telhado do colégio interno. Dividiam um baseado, riam, filosofavam sobre a vida, os valores, as crenças. Tudo parecia uma grande piada. Afinal, nem podiam andar de mãos dadas pelos corredores. O colégio cristão, com sua política ultrapassada, proibia. Diziam que isso feria os valores deles.
Ryan só gostaria de ter tido mais tempo... e mais coragem.
Chutou o chão num ápice de raiva. A neve se levantou, voando poucos centímetros à frente.
Foi quando avistou um carro parado no meio da estrada. Uma Lamborghini preta e reluzente, contrastando com o branco da neve. As luzes do pisca-alerta piscavam intermitentemente, cortando a nevoa. Ryan hesitou por um momento, mas a curiosidade o venceu e ele se aproximou com cuidado.
Um homem de longos cabelos negros, vestindo um terno impecável com gravata borboleta e um relógio de ouro reluzente, estava parado à frente de um carro de luxo com o capô aberto. A luz da lanterna de seu iPhone 15 iluminava os componentes internos enquanto ele examinava algo com seriedade. Apesar da roupa social, seus músculos se destacavam sob o tecido, como se o traje lutasse para contê-los.
— Tá precisando de ajuda aí, meu companheiro? — perguntou Ryan, com a voz firme. Retirou os fones e guardou junto do celular no bolso da calça jeans surrada.
O homem ergueu os olhos e deu de ombros.
— Não sei se você é exatamente a pessoa certa pra isso. — murmurou, voltando a atenção para o motor.
Ao ouvir aquela voz, algo despertou em Ryan. Tinha a estranha sensação de já tê-la escutado antes — um eco distante de um passado que ele não visitava há tempos.
— Bom... posso tentar. Estudo Engenharia Mecânica no colégio. Não querendo me gabar, mas é praticamente uma especialização técnica. Ganhei um prêmio numa feira patrocinada pela Tesla no fim do semestre.
O homem arqueou uma sobrancelha, cético.
— Hm. Não sei não. Meu carro é caro, moderno... talvez avançado demais pro que você viu em sala de aula. E, de qualquer forma, já chamei meu mecânico de confiança. Deve estar a caminho.
Ryan revirou os olhos.
— Com essa neve toda? Você sabe que vai demorar, né? Pode não estar arriscado aqui, mas já fecharam estradas no leste. Tem trecho bloqueado desde o fim da tarde de ontem.
O homem suspirou profundamente, hesitante.
— Tá bom, vai. Aceito sua ajuda. Mas depois quero ver esse certificado.
— À disposição. — Ryan deu de ombros e se aproximou do carro.
A neve caía suavemente ao redor, derretendo assim que tocava o capô quente. Ryan se inclinou, piscando os olhos contra a luz do iPhone 15, que ainda iluminava o interior do motor. O vapor sutil que subia dali trazia um cheiro inconfundível de óleo queimado — não forte o suficiente para ser catastrófico, mas presente o bastante para quem sabia o que procurar.
Ele se abaixou um pouco, observando com atenção as vedações ao redor do filtro de óleo. A luz refletia em pequenas gotas acumuladas ali, um brilho escuro e viscoso contrastando com o metal limpo do motor.
Ryan tocou com cuidado uma das juntas, já visivelmente ressecada, e sentiu a leve umidade. Quando afastou os dedos, eles estavam sujos de óleo.
O ruivo se endireitou, limpando a mão na calça sem cerimônia.
— Clássico! Vazamento de óleo. Por isso ele enguiçou. — disse, com um meio sorriso — Parece que o seu novinho e ultra moderno aqui não tá livre dos probleminhas simples que ferram os carros de nós, pobres e meros mortais.
O homem cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha, visivelmente intrigado.
— Como você pode ter tanta certeza disso?
Ryan apontou para o interior do motor.
— Junta ressecada aqui, tá vendo? O óleo tá vazando bem por trás desse suporte. Quando começa a vazar desse jeito, o sistema pressurizado perde eficiência, e o motor pode travar ou desligar por segurança. Parece que mecânica não é muito seu forte.
O moreno se aproximou, estreitando os olhos enquanto examinava onde Ryan apontava. Suspirou, visivelmente frustrado.
— Ok... e o que tem que ser feito?
Ryan ajeitou a touca de blusa de frio, como se se preparasse para dar aula.
— O ideal seria trocar a junta por uma nova e verificar se o vazamento não se espalhou pra outras partes do sistema. Mas, como você provavelmente não anda com peças sobressalentes por aí — ironizou, olhando o homem de cima a baixo — Dá pra fazer um improviso até o seu mecânico de confiança chegar. A não ser que, talvez você e seu carro queiram passar o Natal aqui.
— Engraçadinho! — O moreno disparou.
— Eu posso selar temporariamente o vazamento com fita térmica ou vedação líquida, se você tiver no porta-malas. Vai segurar o suficiente pra você chegar em segurança na cidade. Se continuar rodando assim, corre o risco de o motor superaquecer ou até fundir, aí... abraço.
O homem mais velho olhou para Ryan por alguns segundos, como se estivesse tentando decifrá-lo.
— Você demonstrou ser mais útil do que parece.
Ryan deu um leve sorriso, sarcástico.
— Eu escuto isso mais do que gostaria.
— Mesmo assim, ainda quero ver o seu certificado.
— E sempre estragam meu momento.
O adolescente puxou o celular do bolso com os dedos gelados e, mesmo com a tela parcialmente molhada pela neve, navegou até o aplicativo da instituição onde estudava. A conexão estava instável, e a barra de carregamento parecia zombar da paciência de ambos. Alguns segundos se arrastaram, até finalmente o certificado aparecer na tela, com seu nome completo e o selo de autenticação digital.
Ele virou o celular na direção do desconhecido.
— Aqui.
O homem pegou o aparelho com as mãos cobertas por luvas de couro e leu em voz baixa, como se estivesse tentando confirmar algo que não queria acreditar:
— Ryan Anders...
— Eu mesmo. — respondeu Ryan com simplicidade, voltando-se para o motor.
Por um instante, o homem ficou imóvel, pálido. Seus olhos fixos no nome como se estivessem encarando um fantasma do passado. Aqueles cabelos ruivos, aqueles olhos esmeraldinos, aquela petulância, só poderia ser... Mas não disse mais nada. Apenas devolveu o celular e recuou um passo.
Enquanto isso, Ryan já estava de volta ao trabalho. Agachou-se ao lado do carro, puxou do próprio bolso um pequeno canivete multiferramenta e começou a improvisar o conserto. Retirou uma fita isolante enrolada em um isqueiro velho — algo que sempre carregava por precaução. Limpou rapidamente a área do vazamento com a manga da jaqueta e aplicou a fita em torno da junta desgastada, pressionando com firmeza, enquanto murmurava para si mesmo.
— Não vai durar muito, mas segura o suficiente pra não travar o motor no meio do nada... — disse, mais para o carro do que para o homem.
— Talvez tenha algo no carro que possa ajudar. — sugeriu, a voz mais baixa agora, quase cautelosa.
Ryan assentiu com um gesto da cabeça.
— Posso dar uma olhada?
— Vai em frente. Tá destrancado.
Ryan se levantou e contornou o carro, abrindo a porta do passageiro. O interior era impecável — couro preto, painel reluzente, cheiro de nevo e cuidado exagerado. Vasculhou o porta-luvas e o compartimento entre os bancos. Encontrou um pequeno kit de emergência: flanela, presilhas, até uma cola de vedação temporária para emergências mecânicas. Sorriu, satisfeito.
Atrás dele, o iPhone do homem começou a tocar. Um toque discreto, elegante. Ele atendeu e se afastou alguns passos, cobrindo parte do rosto com a mão enquanto falava baixo demais para ser ouvido.
Lá dentro, Ryan ficou por um momento parado, com o corpo meio inclinado sobre o console, decidiu olhar mais adiante no porta-luvas. Havia algo meio escondido num dos compartimentos laterais.
Era um pequeno estojo de veludo preto, desgastado nas bordas, como se já tivesse passado por muitas mãos. Ryan hesitou. Não era da sua conta. Sabia disso. Mas...
Seus dedos pairaram sobre o estojo por um segundo antes de abri-lo.
Lá dentro, repousava um rubi do tamanho de uma amêndoa, polido, perfeitamente facetado. A pedra refletia a luz com intensidade incomum, como se guardasse um brilho próprio. Não era só bonita — era hipnótica.
Ryan a segurou entre os dedos, virando-a contra a luz. Reluzindo uma luz vermelha da pedra. Aquilo deveria valer uma fortuna, talvez fosse o suficiente para viajar até Paris.
Ouviu passos se aproximando. Escondeu o rubi dentro do bolso da frente da blusa de frio e fechou o porta-luvas.
— E aí? — perguntou o homem.
— Encontrei o suficiente para consertar, provisoriamente. Vai me levar no máximo 30 minutos.
— Ok.
— Algum sinal do seu mecânico?
— Preso na Boulevard Harvey Dent, como você mesmo adivinhou.
— Olhe pelo lado positivo: consigo deixar seu carro em condições de rodar até o seu destino. Seu mecânico pode te encontrar lá, quando a estrada for liberada.
— Verdade. Obrigado. Perdão, que falta de educação a minha… Meu nome é Richard. — Estendeu a mão.
— Prazer em te conhecer, Richard.
— O prazer é meu. E também, perdão por te subestimar.
— Tranquilo. Você só poderia me dar uma carona até o hotel da Sra. Woody?
— Claro.
[...]
24 de Dezembro de 2024, 13h30.
— Valeu pela ajuda, garoto. Nos vemos por aí. — Richard agradeceu, assim que Ryan desceu do carro e estava parado de frente a fachada do hotel.
— Até mais! Feliz véspera de Natal! — Ryan desejou.
— Feliz véspera de Natal pra você também.
Ryan acenou enquanto via a Lamborghini se afastar, levantando uma nuvem de neve sobre a rua. Suspirou fundo e enfiou a mão no bolso, pegando o rubi na mão.
Quase podia ver seu reflexo na pedra — um rosto jovem, exausto, coberto por um véu sutil de desonestidade.
Engoliu em seco.
Leroy sempre dizia que, quando tivessem dinheiro suficiente, os dois viajariam pelo mundo. O sonho de infância dele era conhecer Paris e tirar fotos — mesmo que zoadas — da Torre Eiffel. Dizia que queria dividir isso com Ryan.
Seu pai o odiaria se descobrisse que ele havia roubado um item daqueles. Qual era o plano, afinal? Trocar o rubi por dinheiro e ir para Paris nas férias pós-formatura? Quem acreditaria? Ele mentiria, diria que passou em Engenharia Mecatrônica na Sorbonne Université? Teria, no mínimo, que fingir dedicação aos estudos para a história parecer plausível.
Odiava-se por ser tão impulsivo. E odiava ainda mais não conseguir conter o impulso — o velho hábito cleptomaníaco dando as caras mais uma vez.
Guardou o rubi de volta no bolso.
Entrou no hotel com os ombros cobertos pela neve acumulada na blusa grossa. Ao passar pelo corredor onde ficava seu quarto, o cheiro doce de morango e lavanda impregnado no ar.
Espiou discretamente pela fresta da janela do quarto. Kory estava em frente ao espelho, finalizando uma trança lateral no cabelo, enquanto Rachel experimentava brincos, indecisa. As duas riam baixinho enquanto passavam maquiagem. Os vestidos que usariam estavam esticados sobre a cama.
— Você acha que esse brilho é demais? — perguntou Rachel, segurando um par de argolas douradas.
— Rachel, a gente vai pra uma festa de Natal, não pra biblioteca — respondeu Kory, piscando. — Pode apostar no brilho. E esse combina demais com você.
— Eu sei… só tô um pouco nervosa.
— Compartilho do mesmo sentimento. Tô ansiosa pra ver como nossos antigos amigos estão.
— E sobre o D...?
— Ele provavelmente nem vai aparecer!
— E se...
— A segurança de Gotham é mais importante pra ele. E, sinceramente, já passou muito tempo. Somos dois adultos agora. Não devo me preocupar com isso.
— Ok...
Pelo espelho, Rachel percebeu uma cabeleira ruiva espiando pela janela. Tocou discretamente o ombro da amiga tamaraneana.
Kory captou o sinal, deu uma olhada no celular e franziu o cenho.
— Ryan? — chamou, encarando o reflexo da janela no espelho. — Já são quase dezoito horas e você nem começou a se arrumar? Nem tomou banho ainda?
Do corredor veio uma resposta abafada:
— Já vou!
— E por onde andou? O papai ficou preocupado. — Colocou as mãos na cintura.
— Fui dar uma caminhada.
— Mas você tá de castigo!
— É Natal, não enche o saco! — respondeu ele, saindo da janela e entrando no quarto.
— Mas que menino!
Kory bufou e colocou a mão livre na cintura.
— Aposto que ele só vai começar a escolher a roupa quando a gente já estiver com o pé na porta.
Rachel riu, balançando a cabeça.
— Homens...
— A gente era tão chata assim quando era adolescente? — perguntou Kory.
— Acho que depende do ponto de vista. — Ambas riram.
Kory suspirou.
— Tô preocupada com o Ryan. Acho que vou conversar com ele assim que terminarmos.
— Queria ter tido uma rede de suporte assim na adolescência, como a de vocês. Mas por favor, não se preocupe, deve ser só uma rebeldia, todo adolescente é assim.
— Acho que não deva ser só isso, Ryan está sofrendo. Ele se fechou muito desde que perdeu o Leroy...
— Quem é Leroy?
— Era o colega de quarto dele e de turma dele do colégio interno Governadora Martha Wayne, eles eram muito próximos. Ele teve uma overdose, ele estava junto de Ryan, que fez tudo que pôde para socorrê-lo, mas sem sucesso. Desde então, ele anda mais fechado desde então... talvez uma aproximação ajude — Kory falou, pensativa.
— Já pensou que talvez ele só não queira conversar? — respondeu Rachel, com calma. — Às vezes, tudo o que ele precisa é de um pouco de espaço.
— Mas guardar tudo pra si não faz bem. Esses sentimentos... uma hora eles explodem.
— Olha, posso falar disso com mais autoridade do que qualquer outra pessoa — disse, após um suspiro. — Ser um adolescente calado e cheio de problemas é difícil. Nem sempre é fácil colocar as coisas pra fora, mesmo quando a gente quer.
A ruiva encarou a amiga com atenção.
— Ele tem sorte de ter vocês como rede de apoio. Minha família nunca ligou para mim, minha mãe nunca sequer me deu um abraço, ela dizia que eu arruinei a vida dela... mas, pelo menos, eu tinha amigos como vocês. — Rae continuou.
— Você pode não ter tido uma família tradicional... mas os Titãs eram sua família. Sempre foram.
Kory sorriu com ternura e tocou suavemente as costas de Rachel.
— Obrigada por tudo. E se quiser desabafar sobre isso, eu tô aqui.
— Eu acho que o Leroy não era apenas um amigo pro Ryan... Sempre senti que havia algo mais entre eles. Algo forte
Ela fez uma pausa, o olhar distante. E continuou:
— E agora... acho que isso deve estar sangrando por dentro dele. Como se ele estivesse prestes a desmoronar, mas tentando manter tudo em pé sozinho.
[...]
24 de Dezembro de 2024, 14 horas.
A Lamborghini reduziu a velocidade ao avistar a entrada da Fazenda de Árvores de Natal dos Farr. Assim que seta fora ligada, virou o volante devagar, entrando no caminho de cascalho já bastante movimentado. Era véspera de Natal e uma verdadeira multidão de moradores de última hora lotava o local em busca da árvore perfeita.
No meio do vai-e-vem, Larry Trainor estava no centro da ação — tesoura em punho, cortando pinheiros e negociando com os clientes. Ao seu lado, um rapaz loiro, alto e magro, com jeito de adolescente, ajudava com esforço e atenção, arrastando árvores recém-cortadas para o ponto de embalagem.
O motorista da Lamborghini seguiu pelo caminho principal até a casa grande da família Farr, ornamentada com uma profusão de luzes piscando em diferentes cores. O som suave de “Happy Xmas (War Is Over)”, de John Lennon e Yoko Ono, ecoava lá de dentro, criando um clima estranho de aconchego. Ele mal tinha desligado o motor quando pôde ouvir, entre os acordes da música, os múrmuros apressados de Cliff Steele brigando sozinho na cozinha, tentando coordenar o tempero do peru e outros petiscos da ceia.
A matriarca, Rita, estava na adega, analisando rótulos com a seriedade de quem trata vinho como uma ciência exata.
Do lado de fora, duas crianças negras corriam animadas pelo gramado coberto de neve, armando uma pequena guerra de bolas de neve entre uma fileira de bonecos improvisados. Karen observava a cena apoiada com cuidado numa rena de pisca-pisca, os olhos fixos no celular enquanto ocasionalmente repreendia os meninos com um simples:
— Joivan, terra não é pra comer! Ray, nada de tacar neve com força no rostinho do seu irmão!
Mais à frente, perto da varanda iluminada, Garfield e Victor haviam se afastado da parte de ajudar na venda das árvores para tomar um café quente. Estavam rindo entre si quando avistaram aquele velho rosto conhecido se aproximar.
Gar gritou com um sorriso largo no rosto:
— Olha só quem resolveu aparecer!
Victor ergueu a caneca em saudação antes de brincar:
— E onde é essa festa de gala pra qual você se arrumou todo assim?
Dick riu, ajeitando o paletó:
— Minha estilista, Kole Weathers, não me deixa sair de casa sem elegância, mesmo eu jurando que seria só uma comemoração em família. Vocês sabem, o atual dono da Wayne Enterprises tem uma reputação a zelar. E tenho que dar créditos para a sua esposa, sem ela, jamais conheceria essa estilista incrível.
— Karen e Kole são amigas de longa data e já fizeram grandes parcerias. — comentou Victor. — Achei que você não viesse mais. Ouvi dizer que várias vias estavam interditadas por causa da neve. — comentou Victor.
— Digamos que meu carro enguiçou no meio da estrada... e meu mecânico de confiança ficou preso no aeroporto por causa da nevasca.
— Olá, Grayson! — Karen acenou para ele de longe. — Meninos, cumprimentem ele.
— Olá! — A dupla dinâmica respondeu em uníssono, parando temporariamente a brincadeira para acenar.
— Oi Karen, oi meninos! — Dick respondeu, abanando de volta. — Estávamos falando de você agora mesmo.
— Espero que sejam coisas boas, se não vocês vão se ver comigo! — Karen brigou e os quatro riram.
— Fica tranquila! — Dick garantiu.
— E aí, como você conseguiu sair dessa? — perguntou Gar, curioso, assim que Dick voltou a encará-los.
— Digamos que um rapazinho petulante que passava pela estrada deu um jeitinho no vazamento de óleo do carro. Graças a ele, consegui chegar a tempo da ceia. Dispensei meu mecânico até o dia 26 pra que ele pudesse passar o Natal com a família.
Garfield sorriu, provocando:
— Parece que alguém desenvolveu um coração nesse tempo longe...
— Eu sempre tive um — Dick respondeu, com um sorriso contido. — Só era egocêntrico demais pra mostrar.
Victor aproveitou para perguntar:
— E aí, como você está? Não te vejo desde o velório do Jason...
Dick suspirou.
— Muita coisa mudou desde então. Assumi os negócios da família.
— Deve ser uma baita responsabilidade... Você é o coração de Gotham agora! — comentou Gar.
— Pois é. E ouvi dizer que você virou um médico renomado, Logan. Parabéns. E você, Cyb... construiu uma família linda com a Karen. Espero poder ter algo assim um dia.
— Com certeza tem um monte de mulheres por aí caindo no seu charme — brincou Victor.
— É, mas não é a mesma coisa... E as meninas, vêm?
— Kory e Rachel? Sim, elas vêm — respondeu Gar.
— Espero que a vida tenha sido mais generosa com elas. — Dick disse.
— Rachel virou uma detetive brilhante, e a Kory vai abrir um ateliê no centro de Gotham. Os trabalhos dela são super elogiados pela crítica especializada — disse Victor, orgulhoso.
Dick assentiu, pensativo.
— Parece que você foi o único a manter contato com todo mundo depois do fim dos Titãs.
— Fazer o quê? Eu sou sociável demais — Victor riu.
— Bom... você quer entrar? Tomar um café? Porque o meu acabou, e hoje eu vou precisar de doses extras.
— Claro, obrigado por oferecer — disse Dick. — A última vez que tomei café foi no aeroporto, de manhã. E, sinceramente, não consigo ficar mais de seis horas sem. Minhas mãos já estão até tremendo. — Ele arregaçou as mangas do smoking, mostrando as mãos trêmulas.
— Pelo visto, ser workaholic não é sua única compulsão — comentou Victor.
— Não sei o que seria de mim sem meu cafezinho diário — confessou Gar, rindo. — Quase não durmo desde que me formei.
— É que você ainda não conheceu a rotina de ser pai de gêmeos — rebateu Victor, com um olhar cúmplice.
Os amigos entraram na casa de madeira, acolhedora e aquecida pelo calor do fogão a lenha. O interior era simples, mas charmoso: paredes de pinho aparente, móveis antigos de madeira escura e uma decoração natalina discreta, com luzes suaves e um pinheirinho decorado num canto.
Um aroma delicioso vinha da cozinha. O Homem Robô estava lá, mexendo panelas com um ar concentrado... e praguejando como sempre. Quando os três passaram pelo corredor, ele nem virou, mas a voz ecoou alta:
— Olha quem resolveu dar as caras!
— Olha quem finalmente chegou, tio Cliff — provocou Garfield, com um sorriso travesso.
— Quem é vivo sempre aparece, né, garoto morcego — respondeu Cliff, ainda focado na comida. Desviando o olhar rapidamente para analisa-lo melhor. — Fico feliz em te ver vivo e inteiro.
Dick riu, surpreso:
— Você contou a ele esse apelido?
— Claro! Acho que tem tudo a ver com você — respondeu Gar, divertido.
— Concordo — Victor riu.
— Feliz véspera de Natal, garoto!
— Feliz véspera de Natal pro senhor também!
O trio seguiu até a cozinha, onde uma mesa simples de madeira ocupava o centro do cômodo. A cozinha em si era despretensiosa, funcional — azulejos brancos um pouco gastos, armários antigos, cortinas vermelhas com estampa de flocos de neve nas janelas.
Garfield foi até o armário, pegou a garrafa de café e três xícaras de porcelana brancas. Depois, trouxe também uma bandeja com biscoitos natalinos coloridos, decorados com glacê em forma de árvores, sinos e estrelas.
— Hora do reabastecimento — disse ele, servindo as xícaras. — Isso me lembra dos velhos tempos, de quando fazíamos a noite da rapaziada.
— Bons tempos! — Victor disse, levantando a caneca para cima.
— Aprontamos muito nessa época! — Dick comentou.
— Pois é, só não contem para a minha mulher. — Stone complementou.
Dick pegou a sua com as mãos ainda trêmulas, agradecendo com um sorriso.
— A Karen não quer entrar e comer alguma coisa? — perguntou Gar, curioso.
Victor balançou a cabeça com um leve sorriso.
— Não... Ela disse que vai ficar lá fora, aproveitando o tempo com as crianças. Com o trabalho puxado, quase não tem esses momentos com eles.
Dick observou pela janela por um instante, vendo as silhuetas brincando sob a neve.
— Ser pai deve ser uma experiência incrível.
— Concordo — respondeu Victor, com sinceridade na voz. — Acho que me tornei um novo homem no dia em que os meninos nasceram. Foi como se, de repente, tudo fizesse sentido. Ganhei um propósito real, sabe? Algo maior do que qualquer missão.
Dick assentiu, pensativo.
— Mas... você não sente medo? De ser pai e super-herói ao mesmo tempo? Tipo... de, sem querer, colocar sua família em risco?
Garfield, quieto até então, acompanhava a conversa com atenção.
Victor suspirou antes de responder.
— Admito que sim. Por isso, me afastei de grande parte das minhas funções na Liga da Justiça. Hoje em dia, sou praticamente um membro honorário.
— Sério? — Dick ergueu as sobrancelhas.
— É. Fazer parte da Liga sempre foi meu sonho. Eles são a maior força de defesa da galáxia — e se o universo está de pé até hoje, é em grande parte por causa deles. Mas... também são um alvo constante. Muitos vilões fariam qualquer coisa pra colocar minha cabeça numa bandeja. E eu não posso correr esse risco com a Karen e os meninos. Abrir mão da Liga foi difícil... mas foi, sem dúvida, a melhor decisão da minha vida.
Houve um momento de silêncio respeitoso.
— Eu entendo — disse Dick, a voz mais baixa. — Ser super-herói... é uma jornada solitária. Meu pai abriu mão de tudo para ser o Batman. De mulheres incríveis, de amizades verdadeiras... ninguém precisou me contar. Eu vi isso acontecer, dia após dia.
— Minha mãe e meus tios também perderam muita coisa ao entrarem nessa “profissão” — comentou Garfield. — Às vezes, parece mais uma sina do que um dom...
Dick hesitou por um instante antes de continuar.
— Eu e a Bárbara... a gente engravidou uma vez.
Os dois amigos o olharam em silêncio.
— Todo mundo ficou tão feliz. Foi pouco depois da morte do Jason... parecia que a vida estava nos dando um presente, uma nova chance. Pintamos o quarto nós mesmos. Compramos o berço, os ursos, tudo com nossas mãos.
Ele fez uma pausa, engolindo seco.
— Era um menino. Iríamos chamá-lo de John, em homenagem ao meu pai biológico. Queríamos fazer dar certo. Juramos que seríamos os melhores pais do mundo.
O silêncio agora era pesado, cheio de respeito e dor compartilhada.
— Só que... o Coringa apareceu. Quase matou a Bárbara. Ela ficou paraplégica. E... perdemos o bebê. Oito meses de gestação.
A voz de Dick falhou por um instante, e ele olhou para a xícara de café, como se encontrasse nela um refúgio.
— Aquilo foi a nossa ruína. Nunca mais conseguimos fazer nosso relacionamento dar certo e... acho que nunca mais fomos felizes. Tipo, ainda somos amigos e trabalhamos juntos, mas não é mais a mesma coisa. Ela até já está saindo com outra pessoa.
— Sinto muito, maninho. — Garfield expressou.
— Esse monstro de cara pintada destruiu a vida de muita gente... — Victor refletiu.
— A vida não é nenhum mousse de chocolate. — Dick disse.
— Realmente, acho que ela não foi generosa com nenhum de nós três. — Vic disse e metamorfo assentiu em silêncio.
— Por que vocês dois acham isso? Cyb, você é casado, com dois filhos maravilhosos e com uma mulher incrível e Garfield, você é um herói, superou o vício e está em uma das profissões mais importantes de nossa sociedade, deva salvar mais vidas sendo médico do que quando era um super herói.
— Minha vida não é tão perfeita quanto parece — começou Victor, sua voz carregada de um peso antigo. — Sei que você perdeu um filho, e isso deve ser devastador... mas, Dick, eu também corro o risco de perder o meu.
— Como assim?
— É uma longa história... — Stone suspirou, encarando o chão por um instante. — Meu garoto, Joivan, tem dois tumores no cérebro. Apesar de não serem malignos, eles afetam gravemente a coordenação motora dele. E o pior: estão localizados numa região extremamente delicada, no tronco cerebral. Os médicos disseram que operar ali é praticamente impossível. Qualquer intervenção pode comprometer funções vitais, como a respiração, os batimentos cardíacos, até os movimentos mais básicos. Existe a chance real de que ele não saia vivo da mesa de cirurgia.
Dick franziu o cenho, sentindo o baque daquelas palavras. Estendeu a mão e pousou no ombro de Victor.
— Sinto muito por ouvir isso. Ele é tão novo... Você já procurou uma segunda opinião? Algum centro especializado?
— Sim, falaram sobre tratamentos experimentais, algo com radiação de alta precisão. Mas nada é garantido. Também sugeriram apenas acompanhar o caso de perto, monitorar os tumores para ver se crescem. Mas enquanto isso... ele segue assim. E cada dia parece um desafio maior. Minha esposa e eu estamos tentando manter a calma, mas é como viver com uma bomba-relógio dentro de casa. Existem especialistas que talvez consigam operar, mas cobram muito caro. O plano de saúde não cobre tudo. E nós dois... não sabemos mais o que fazer.
Ele fez uma pausa longa, dolorosa. Seus olhos brilharam, mas ele não chorou. Apenas respirou fundo e continuou:
— Isso tem causado tantas brigas entre mim e a Karen... Eu ainda a amo muito, de verdade. Mas sinto que estamos nos machucando mais do que ajudando um ao outro. Como você disse... lidar com um luto, ou o medo constante dele, destrói a gente por dentro.
— Eu sinto muito mesmo, Cyborg — murmurou Dick, com sinceridade.
Foi então que Garfield se manifestou, a voz baixa, quase um sussurro.
— E eu não me sinto bem comigo mesmo há muito tempo. Sou ansioso, depressivo e impulsivo.
Os outros se voltaram para ele.
— Tipo... eu sei que venci o vício no álcool, e isso foi uma vitória. Mas, às vezes, parece que o fantasma ainda está lá. Sempre tentando me puxar de volta, me lembrar do que eu fui. É difícil. Eu dou o meu melhor como médico. Fico feliz quando consigo salvar uma vida, quando uma cirurgia dá certo. Mas, por dentro, tem um vazio. Um buraco que parece crescer cada vez mais.
Ele sorriu, mas era um sorriso triste.
— Minha vida profissional é ótima, sim. Mas o resto... eu deixei de lado. Amor, amizades... Eu quase não saio mais de casa. É sempre hospital-casa, casa-hospital. Sinto que virei uma máquina. Sem ofensas, Cyb.
Victor deu um meio sorriso.
— Não ofendeu.
— E, só entre a gente... — Garfield hesitou. — Eu ainda não estou pronto, emocionalmente, pra ver a Rachel essa noite... minha ansiedade tá gritando.
— Eu entendo como é difícil encarar fantasmas do passado — suspirou Dick, olhando a xícara vazia em suas mãos. — De verdade, eu não fazia ideia do que vocês estavam enfrentando. Sinto muito mesmo. No fim das contas... todos nós tivemos nossos altos e baixos. — Ele sorriu de leve, meio melancólico. — Espero que as meninas estejam lidando melhor com a vida do que a gente.
— Elas sempre foram as mais fortes — admitiu Victor, com um aceno.
— Verdade — concordou Dick, com um sorriso mais sincero dessa vez.
— E o que vocês esperam da noite de hoje? — Garfield perguntou, quebrando o silêncio.
— Hmm... boa pergunta. Talvez muita torta de climão — respondeu Cyborg, tentando aliviar o tom.
Dick respirou fundo antes de falar.
— Eu... decidi que não vou tentar puxar assunto com a Kory essa noite. Não vou ficar forçando uma conversa, nem nada do tipo. — Ele passou a mão pelos cabelos espetados, nervoso. — Não me entendam mal. Eu sei que fui imaturo, que errei feio. E, sinceramente, presumo que ela nem queira me ver. E tudo bem. Eu não a culpo. Dick Grayson sempre dá um jeito de estragar tudo o que toca... essa parece ser minha maldição.
Dessa vez, foi Victor quem colocou a mão no ombro do amigo.
— Pode até parecer ilusão, mas eu ainda acredito que essa noite tem potencial pra ser mágica. — Garfield falou com esperança na voz, dando uma golada no café. — Vai que... é uma segunda chance. Quem sabe eu e a Rae conseguimos fazer as pazes, para no mínimo, voltarmos a sermos amigos. Talvez a família do Cyb receba um milagre de Natal. E você, Dick... talvez, acima de tudo, você finalmente consiga se perdoar.
Dick deu uma risadinha sem humor.
— Gar, com todo o respeito, e você sabe que eu te considero muito, mas... isso aqui não é um filme estrelado por Macaulay Culkin nem uma comédia romântica natalina com a Emilia Clarke. É a vida real! E na vida real, finais felizes não são garantidos! Talvez você devesse baixar um pouco as expectativas... só pra não se machucar depois. E talvez ter outra recaída... — A última frase saiu num sussurro.
— Mas você é muito arrogante mesmo!
— O quê?! Eu não disse nada, você está ouvindo demais, Logan! — Dick defendeu-se e Garfield revirou os olhos.
— Desculpa, mas eu não concordo com essa sua visão baixa e pessimista! — retrucou Garfield, firme.
— Você realmente não entende... — murmurou Dick, balançando a cabeça, mais pra si mesmo do que pros outros.
— Ok, ok... o clima ficou pesado, né? — disse Cyborg, coçando a nuca e tentando aliviar a tensão. — Alguém aí quer mais cookies? Porque eu preciso.
— Grayson! Que bom te ver por aqui! — Rita entrou na cozinha com uma garrafa de vinho tinto nas mãos, sorridente.
— Oi, senhorita Farr!
— Ah, venha cá, me dá um abraço — disse ela, puxando Dick com força. Ele retribuiu, meio sem jeito.
— Não conta pra ninguém, mas você sempre foi meu Titã favorito... depois do meu bebê, é claro — ela sussurrou no ouvido dele, rindo nasalado.
— Fico honrado em ouvir isso — respondeu Dick, sorrindo.
Eles se afastaram.
— E fico feliz em ver que estão colocando o papo em dia. Terminaram de ajudar o tio Larry?
— Sim, ele nos dispensou — respondeu Gar. — Passamos a manhã inteira cortando árvores.
— Isso é ótimo. E vejo que já tomaram café... e acabaram com meus cookies. De novo — ela disse, com um falso tom de sermão.
Garfield e Victor se entreolharam, culpados.
— Bom, agora vocês poderiam me ajudar com a decoração do salão principal para hoje à noite, não é? Se não ajudarem, vou colocar os três na lista dos meninos malvados... e ganhar carvão!
— Mãe, acho que já sou grandinho demais pra cair nessa — retrucou Garfield, cruzando os braços.
— Ah, mas eu lembro direitinho de uma vez em que você chorou horrores quando o tio Cliff te “trollou” com isso. — Rita riu. — É assim que os jovens falam hoje em daí, não é?
— Nos anos 2000, talvez. — Garfield zombou.
— Engraçadinho! Enfim, o Cliff colocou carvão na sua meia, enquanto eu e o Larry escondíamos seu presente: um trenó novinho em folha!
— Isso deve ter sido hilário — comentou Victor, rindo.
— Eu ainda tenho a fita até hoje — Rita disse, cheia de orgulho.
— Mãe! — Garfield protestou, corando.
— Ah, isso eu preciso ver — disse Victor, animado.
— Eu também — admitiu Dick, rindo.
— Só depois de me ajudarem e depois de tomarem um bom banho — Rita disse, cruzando os braços como quem faz negócio.
— A senhora não faz ideia do quanto eu preciso disso — disse Dick, rindo.
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