Christmas Tree Farm

6 Acho que ele fez isso, mas eu simplesmente não posso provar


Notas iniciais
Olá, amores! ❤️ Fiquei um tempo sumida e sinto muito por isso, digamos que foi uma junção de fatores: faculdade, rotina em casa e problemas externos. Mas agora tô melhor. Esse capítulo foi inspirado no conceito do primeiro episódio da sexta temporada de Bojack Horseman, “Um cavalo entra numa clínica de recuperação”; E digamos também que esse capítulo é um mashup, das músicas "No body, no crime" da Taylor e "Manchild" da Sabrina Carpenter. Pretendo postar o capítulo 7 até o final do mês, para aproveitar as férias. E é isso, beijos e até mais! E muito obrigada pelos comentários, apesar da correria do dai a dia, leio todos e vocês são a minha motivação para continuar ❤️

“Eu acho que vou expor ele

Ela diz:

Acho que ele fez isso, mas eu simplesmente não posso provar

Não, sem corpo, sem crime

Mas eu não vou deixar isso de lado até o dia em que eu morrer”

(Taylor Swift – No body, no crime)


GARFIELD SUSPIROU FUNDO ao terminar de escovar os dentes e gargarejar o enxaguante bucal azul. O espelho ainda estava parcialmente embaçado — Rita havia tomado banho ali há pouco tempo e desocupado o banheiro em menos de dez minutos.

A face refletida no espelho parecia cansada, mas de um jeito muito familiar. Sentia-se como um amontoado de cachos desordenados e emoções conflitantes, condensado na forma de um homem.

A música do lado de fora indicava que a festa de natal havia começado, junto do murmurinho dos primeiros convidados chegando. Aqueles jingles tão conhecidos pareciam entrar no fundo de sua mente e o faziam viajar em memórias distantes, que, de certa forma, até provocavam tontura.

Olhou para baixo e viu uma garrafa de gim. McQueen e o Violet Fog. Franziu o cenho e estreitou os olhos. Mas então, percebeu que na verdade se tratava de um recipiente plástico de desinfetante de lavanda.

Coçou os olhos, e ao se olhar de volta no espelho, sua imagem começou a ficar turva, como se sua face estivesse se distorcendo e se desfazendo.

Fechou os olhos com força, sentiu um enjoo forte e a tontura se intensificou.

Seu cérebro só poderia estar lhe pregando peças!

Gar se apoiou na pia e deu uns passos para frente, com auxílio da parede fria, com os olhos fechados, para chegar até a porta e tentar pedir ajuda.

Uma onda de frio o alcançou quando abriu a porta. Abraçado ao próprio corpo, Gar se curvou, e ficou ali alguns instantes, até o mundo parar de girar e se estabilizar para si. Quando endireitou-se e abriu os olhos, ficou estático.

Não estava mais na fazenda de árvores de Natal de sua mãe. Agora se encontrava na Torre Titã — mas não era aquela de quando esteve ali com Asa Noturna para buscar seus pertences há três anos. Algo tinha mudado.

Seus olhos vagaram por todo o recinto, capturando cada centímetro com uma estranha sensação de nostalgia. A cada batida do coração, o peso aumentava; a respiração tornava-se irregular. A decoração contribuía para esse efeito: os sofás em “L” estavam desordenados, cercados por travesseiros espalhados pelo chão, como se alguém tivesse saído às pressas ou simplesmente desistido de arrumar. Da cozinha vinha um forte cheiro de comida queimada — sem dúvida culpa de Kory.

Até os Titãs da Costa Leste estavam presentes, exibindo em seus rostos um brilho jovial. Os gêmeos Más y Menos corriam de um lado para o outro. A música ambiente era coordenada pela voz angelical de Britney Spears.

Reparou melhor, Kory estava na cozinha. Tinha menos massa muscular do que antes, os longos cabelos ruivos caíam soltos, adornados por uma franja fofa. Dick estava junto com ela; ainda usava seu uniforme chamativo, nas cores verde, amarelo e vermelho, com um “R” reluzente no peito. Cyborg — ajudava a recolher os restos mortais do peru no forno cheio de fumaça —, mantinha o mesmo sistema robótico, embora agora com tons de azul mais destacados em sua armadura.

Rachel, por sua vez, permanecia quieta em um canto do sofá, concentrada em um livro velho e com as páginas amareladas, alheia ao caos barulhento ao seu redor. Um arrepio discreto percorreu sua espinha, e ele desviou o olhar por instinto, como quem teme ser pego encarando o passado.

Foi então que Garfield notou algo pendurado na sala de estar: uma faixa estendida no alto, com letras garrafais e vermelhas.

“Feliz Natal! Contagem regressiva para 2009.”

— Dois mil e nove? — sussurrou ele. — Então... estou em dois mil e oito?

— Qual é rapaziada, isso é uma festa ou não! — Alguém gritou atrás de si, ao se virar, arregalou os olhos.

Era ele mesmo — só que jovem. Muito mais jovem. Carregava uma caixa de som apoiada no ombro, como se fosse um troféu. Os cabelos ainda eram longos, os dentes tortos apareciam num sorriso despreocupado, e ele vestia o antigo uniforme da Patrulha do Destino: preto com listras roxas. Nos pés, um par de sapatos prateados absurdamente grandes, que pareciam ter sido emprestados de um palhaço de circo.

Era magro de um jeito quase desajeitado. O rosto verde estava salpicado de espinhas, os braços finos e compridos se agitavam de maneira descoordenada. Tinha o porte de um João Bobo: sempre prestes a cair, mas de algum jeito, sempre de pé.

Uma loira de grandes olhos azuis, do outro lado da sala, ao lado de Keren, riu com a gracinha dele.

Terra.

O Garfield adolescente enrubesceu as bochechas assim que eles trocaram olhares e foi para perto dos garotos da Costa Leste: Wally West e Garth Lennes.

— Parece que vocês daqui da Costa Oeste sabem fazer uma festa! — Wally elogiou. Na mão esquerda, segurava um copo com um líquido marrom e gelo; que Gar supôs ser refrigerante. Com a outra, passava os dedos nos cabelos ruivos, expondo um relógio de ouro brilhava em seu pulso.

— Claro, adivinha quem é o organizador? — gabou-se Garfield, ajeitando a gola da camisa de forma elegante.

— Você é muito convencido, baixinho! — Garth comentou, sorrindo de lado. Segurava uma garrafa de bebida marrom na mão, com o rótulo removido, e vestia uma camisa listrada; a mesma que, Garfield lembrava que a achara engraçada. O cabelo, carregado de gel, formava um penteado meio estranho, quase plástico.

— Eu não tenho a culpa de ser “O cara” — sorriu amarelo e colocou a caixa de som em cima da bancada.

— Mas é aí? Quais são as novidades? — Wally perguntou. — Parece que vocês tem uma nova integrante na equipe.

— É a Terra. — Garfield começou a explicar. — Ela entrou na equipe recentemente, a encontramos quando ela lutava contra um escorpião gigante no deserto ao leste de Jump City. Ela tem uns Poderes bem legais de manipulação de terra e é super forte, igual o papai aqui! — Garfield esclareceu, mostrando o bíceps.

Garth balançou a cabeça.

— Com esse muquifo de músculo? Para de passar vergonha! — provocou.

— Ele só tá com inveja. — Gar rebateu, fazendo careta. Wally riu. — Mas é aí? Como vão as coisas do Lado Oeste?

— Wally tá de amor novo. — Garth respondeu, dando mais um gole na garrafa.

— Sério? Quem?

— É uma conhecida de vocês. — Wally respondeu.

— Sério? Quem? A Karen?

Wally negou com a cabeça.

— A Kole?

— Não, nem conheço essa.

— Tenho certeza que você vai ficar surpreso e desgostoso com a resposta. — Garth comentou.

— Ué? Por quê? Ela é barra pesada? — Garfield arriscou.

— É a Jinx. — Wally confessou. — Estamos juntos há 3 meses. Começamos a sair depois que derrotamos a Irmandade Negra.

— A Jinx?! — Garfield exclamou, estupefato. — A nossa arqui-inimigo número um da Hive Five?! Você tá maluco? Perdeu o juízo?!

— E eu a convidei para fazer parte dos Titãs da Costa Leste. — Wally complementou.

— Ele só não sabe como contar isso para o Robin — Garth disse. — Certeza que não vai ter uma reação diferente da sua.

— Eu não ligo. — Wally deu de ombros. — A Karen confia nele, depois dela nos ajudar a derrotar o Cérebro. E ela já provou ser leal e redimida, isso é tudo o que me importa!

— Mano, você tá se ouvindo falar? — Garfield disse. — Você não tem noção do perigo que está correndo!

— Sim, eu tenho. Mas prefiro acreditar na mudança dela, eu a conheço melhor do que ninguém e sei que está sendo sincera. — Wally defendeu-se.

— Eu disse que nenhum deles iria reagir bem a notícia... — Garth afirmou. — Logan, você tem que me ajudar a colocar juízo na cabeça desse garoto. Apenas a Karen e Más y Menos caíram nesse papinho de mudança. E pela primeira vez, Roy e eu concordamos em algo.

— Vocês dois tem que parar de achar que ninguém pode mudar, que tipo de heróis vocês são? A propósito, a minha gatinha está vindo aí. Lucky! — Ele gritou e acenou com a mão livre.

Uma jovem de cabelos rosa o notou. Seus fios, moldados como uma ferradura, caíam suavemente apenas nas pontas. A tonalidade era um rosa-claro delicado, contrastando com faixas preto-metálicas próximas ao topo da cabeça. Os olhos, da mesma cor do cabelo, exibiam pupilas felinas, afiadas e enigmáticas. Pequenos blushes ovais e rosados davam um ar encantador às suas bochechas. Vestindo um elegante vestido preto, adornado com detalhes roxos no busto e no cinto, ela sorriu e caminhou em sua direção.

— Esse é o nome real dela, a propósito. — Wally complementou.

[...]

— Garfield, você está bem? — Uma voz feminina o chamou enquanto o chacoalhava levemente.

O metamorfo balançou a cabeça, piscou os olhos freneticamente e logo percebeu que estava de volta do transe, na fazenda de sua mãe, naquele ano.

A mulher em sua frente era Lucky Haiden, tocando seus ombros com os dois braços esticados na frente de seu corpo.

— Tô bem, tô bem… — respondeu apenas.

— Que bom! — Ela suspirou — Eu estava indo retocar minha maquiagem e vi você assim desse jeito, achei que estivesse passando mal ou sendo hipnotizado por algum vilão sem família que pretendia nos atacar justo na noite de Natal, sei lá, memórias de guerra…

— Que isso, relaxa! Tô bem, só tava pensando demais. — Gar respondeu, sorrindo. — Fico feliz que tenha vindo e me desculpe pelo susto.

— Tudo bem. — Lucky se afastou. — Sua mãe foi muito fofa em me convidar. — Ela sorriu, pegando o copo e a bolsa que havia deixado em cima de uma mesinha. — Fiquei feliz em saber que os Titãs ainda se lembraram de mim.

— Você foi uma ótima Titã, não teria como te esquecer.

— Vocês não pareciam gostar muito de mim no começo.

Garfield coçou a nuca sem graça com a confissão.

— Mas tudo bem — Lucky continuou. — Eu entendia vocês, tivemos muitas diferenças no passado e meio que quase tentei matar vocês algumas vez…

Sua voz soou engraçada e se alongou no “muitas”, soltando um pequeno riso baixo e abafado.

— Meio?

— Tá bem, eu tentei matar vocês. — Ela revirou os olhos. — Fui uma adolescente inconsequente e cheia de pessoas erradas ao meu redor. Foi difícil deixar “A Jinx” para trás… mas aí eu encontrei o Wally. Ainda bem que eu o encontrei. Ele sempre acreditou e cuidou de mim, nunca desistiu… — desabafou, colocando a bolsa no ombro e olhando perdida para o chão.

— Ele era um ótimo cara. Ainda não acredito que fez seis anos que ele morreu… — Garfield disse, suspirando, sentindo um pequeno aperto no coração.

— Nem eu…

Ficaram em um silêncio um tanto desconfortável. Lá de fora, dava para ouvir o tio Larry cantando “Jingle Bell Rock”, um clássico de Bobby Helms, no karaokê — aparentemente já embriagado. Foi então que Garfield decidiu quebrar o gelo:

— E então, como está indo a vida? Uma vez o Cyb me disse que você estava tentando uma carreira em Hollywood, isso é incrível!

— Sabe como é — Ela soltou uma risada sem graça. — Jessica Chastain aceita todo papel que Amy Adams recusa. Bryce Dallas Howard aceita todo papel que a Jessica Chastain recusa. E eu, Lucky Haiden, aceito todo papel que a Bryce Dallas Howard recusa... Era para eu estrear “Jurassic World”, a propósito, mas... A Bryce voltou atrás e quis a oferta do papel de volta e eu fui promovida para a geladeira, de novo…

— Sinto muito.

— Mas então, eu quase fui a Beverly Marsh em “It – Capítulo Dois” de 2019, porque a Bryce estava com a agenda lotada, e quando fui assinar o contrato, me dispensaram de novo porque a Jessica voltou atrás, por insistência da Sophia Lillis e eu fui jogada para escanteio, de novo. Tipo, eu já fiz vários papéis, mesmo que pequenos, em séries grandes como “Bridgerton” e já participei de um curta que é um dos queridinhos para ser indicado ao Oscar do ano que vem, “I'm Not a Robot”, conhece?

Garfield negou com a cabeça.

— Ele nem é tão conhecido assim, só para a crítica especializada, enfim. — Deu de ombros. — Tirando tudo isso, eu diria que estou quase lá, afinal, sou uma das quatro ruivas, né? — Deu um longo gole em seu vinho branco.

— Eu sei que o seu grande momento ainda vai chegar e que você vai ganhar um Oscar, Lucky! Você merece.

— Olha, a minha única grande meta no momento é tentar não ser esquecida. Esse é o pior final que um ator poderia ter.

Garfield assentiu, embora por dentro achasse que ser esquecido de qualquer maneira, ainda em vida, fosse o pior final que alguém poderia ter, famoso ou anônimo.

— Sabe... eu só vim mesmo por sua causa e do Cyborg. — Lucky continuou. — Acho que vocês foram os únicos que nunca me olharam como se eu fosse um monstro tentando escalar uma colina. Os Titãs da Costa Leste... bom, tirando o Wally, a Karen e Más y Menos, esses sempre foram legais comigo. O Roy também, às vezes. Mas o Garth... ele era uma praga. Sempre tentando me sabotar.

— Nossa, eu não fazia ideia de que vocês tinham tido um atrito. Ele sempre pareceu… normal…? com todo mundo...

— Simpatia de cobra eu diria — respondeu Lucky, com amargura. — Aquelas que te olham com doçura só pra depois dar o bote e te envenenar até a alma.

— Caramba... o que rolou entre vocês?

— Ele era um babaca! O cara mais babaca que conheci! — suspirou Lucky. — Teve uma missão que fizemos no Egito, acho que em 2010. Lembra daquela onda de furtos de artefatos históricos nos museus locais?

— Lembro sim. Aquele vilão usava um disfarce sinistro de múmia... aquilo me deu pesadelos por semanas.

— Esse mesmo. A gente foi chamada para dar reforço naquela operação. Um dos museus foi bombardeado durante o ataque... funcionários morreram. E no meio disso tudo, o Garth começou a soltar umas indiretas, falando que aquilo devia ser coisa da Hive Five... e que eu poderia ser uma traíra. Como a Terra.

— Você tá brincando...?

— Queria. — Lucky desviou o olhar. — Ele sabia o que estava fazendo. Como se eu fosse uma informante igual. Como se... como se ninguém pudesse confiar em mim. Desculpa, não sei se falar o nome dela ainda é pesado para você.

— Não, tudo bem, já resolvi essa questão da minha vida há algum tempo.

— Mas ele não parou por aí — prosseguiu Lucky. — Analisamos todas as pistas e, então, um dia a Karen veio me interrogar... porque encontraram uma pegada e uma mecha de cabelo minha na cena do crime. Eu nunca tinha sequer pisado naquele país antes! Tentei explicar que não tinha feito nada, mas... só o Wally pareceu acreditar em mim. — Os olhos felinos se encheram de lágrimas. — Era como se todos estivessem apenas esperando esse momento, pra me acusar sem peso na consciência. Desculpe! — pediu, secando uma lágrima.

— Sinto muito por isso. Eu nem fiquei sabendo na época.

— O Wally não deixou essa informação chegar ao Dick até que tudo fosse devidamente apurado. Eu contei tudo o que sabia, afirmei várias vezes que devia ser um grande mal-entendido, uma armação. Então, depois de revisarem as câmeras, começaram a aparecer incongruências. Não tinha como aquele cabelo estar ali. Ele não estava nas primeiras avaliações. Foi implantado. Eles voltaram nas câmeras e... adivinha?

— Garth?

Lucky assentiu.

— Sinto muito. Não acredito que aquele babaca foi capaz disso...

— Mas foi. Ele se aproveita do fato de que todos gostam dele, que ele é querido, que ele é o braço direito de um grande super herói como o Aquaman... e usa isso para prejudicar quem está no caminho dele! Especialmente quem carrega o estigma de não ser confiável. O Wally ficou furioso quando descobriu. Eles brigaram, chegaram a nocautear um ao outro, perderam a amizade. Wally até sugeriu expulsá-lo do time e contar tudo ao Robin. Mas o Roy achou que era só um mal-entendido... que não o poderíamos julgar assim, que ele poderia estar sendo manipulado ou coagido por algum inimigo, grande ironia! A Karen, então, decidiu dar uma segunda chance a ele…

— Nossa... como é que a gente nunca soube disso?

— Os Titãs da Costa Leste sempre foram bons em esconder os próprios problemas. Queriam manter a imagem de equipe independente e responsável, para não serem vistos apenas como a sombra de vocês.

Ela fez uma pausa.

— Acho que o Cyborg é o único que sabe… por causa da Karen…

— Garth é uma pessoa horrível. — Gar afirmou, cerrando os pulsos.

— E inconsequente. — Lucky acrescentou. — Gar, ele faz de tudo pra conseguir o que quer! De tudo mesmo, o jogo dele é muito sujo. Engraçado que ele merecia uma segunda chance, eu não… Não consigo perdoá-lo, não depois de conhecer a verdadeira face de Garth Lennes.

— Você tá certa. Quem dera eu tivesse entendido o seu jogo antes…

Garfield permanecia imóvel, com o rosto tenso.

— Tá tudo bem? — Lucky perguntou;

— Tá — Piscou. — Só... pensando.

— Mas vamos trocar de assunto — Lucky afirmou, rindo, e tocando seu ombro direito. — Tá bad demais pra uma noite de Natal! E olha só... parece que a Kory e a Rachel acabaram de chegar.

Garfield sentiu o estômago revirar. Um calafrio percorreu sua espinha, mesmo com o ambiente aquecido pela lareira e pelas luzes de Natal. As mãos começaram a suar, e ele passou discretamente os dedos na calça, tentando secá-las. O corpo pareceu congelar por dentro, como se sua pele estivesse gelada, mas o coração batia rápido demais, quase sufocando. Ele se virou devagar.

Kory entrou primeiro. Seus cabelos ruivos estavam presos em um rabo de cavalo alto, balançando com leveza a cada passo. A maquiagem em tons rosa e marrom realçava ainda mais seus traços marcantes. Vestia um longo strapless vinho de cetim, com uma fenda generosa na perna que deixava à mostra sua silhueta elegante e a perna torneada. Sua pele preta reluzia sob as luzes douradas da decoração, e o salto alto vermelho de plataforma alta completava o look.

Logo atrás, viu Rachel. Seu cabelo chanel repicado terminava em pontas azuladas, contrastando com o restante preto como a noite. Usava um vestido azul-marinho até os joelhos, de mangas curtas, acompanhado por luvas longas e pretas que iam até os cotovelos. Braceletes escuros adornavam os braços, e as meias-calças pretas combinavam com o salto alto da mesma cor. Sua maquiagem era uma mistura precisa de azul, roxo e preto que fazia seus olhos violetas parecerem ainda maiores e profundos.

Garfield engoliu em seco.

A Rachel estava…

[...]

— Simplesmente linda essa noite, não é? Parece até um anjo! — Garth disse naquela noite de Natal de 2008.

— É, digamos que a “miss simpatia” tá mais bonitinha. — Gar deu de ombros, fazendo aspas no ar. — Ela só passou um pouco de maquiagem e colocou um vestido invés de usar aquela capa fedorenta. Diria que é uma evolução.

Ambos direcionaram seu olhar para Ravena, que, com seu poder de telecinese, colocava a faixa de “Feliz Natal! Contagem regressiva para 2009” de volta no lugar, após Más y Menos a atropelarem e quase a rasgarem.

— Não fala assim dela, cara! Ela é linda, parece um monumento!

— Se você acha. — Gar deu de ombros.

— Sabe se ela está saindo com alguém?

— Boa pergunta, nunca sabemos nada sobre a Ravena, ela é muito introspectiva. — Gar explicou, com os braços cruzados. — Por quê, está interessado?

— Talvez ela faça meu tipo. — Lennes sorriu amarelo, dando mais uma golada na garrafa. — Aceita um gole?

— O que é isso?

— Isso, meu caro amigo verde, é o mais puro gim.

“É, pela cor e pelo cheiro forte, só poderia ser algo alcoólico mesmo”, Gar concluiu mentalmente.

— O Robin sabe que você trouxe isso pra cá, maninho? Todo mundo aqui ainda é menor de idade, com exceção do Cyborg.

— Não tem como ele saber.

— Ele é uma bat cria, se esqueceu?

— Por que ele desconfiaria, para começo de história? Você vai contar por acaso.

— O quê? Não! Faça o que quiser com a sua vida!

— Então não reclama! — Garth rebateu.

Gar encolheu os ombros com a resposta atravessada. Olhou para o outro lado da sala e notou que Terra estava na cozinha, consolando Kory pela comida queimada.

Terra brilhava como uma estrela em plena ascensão — radiante, iluminando e impossível de ignorar. Vestia um longo vestido amarelo que, além de abraçar suas curvas com perfeição, desenhando seu corpo de forma impecável, captava a luz ao seu redor. Seus cabelos loiros estavam soltos, volumosos e cheios de ondas suaves que emolduravam naturalidade e graça. Parecia uma boneca. A maquiagem era sutil, com um tom bege delicado nas maçãs do rosto, mas seus lábios se realçavam e se destacavam em um tom com um vermelho vibrante em sua boca carnuda com sensualidade.

Naquela época, Terra lembrava a fase glamourosa de Sabrina Carpenter na Short n' Sweet Tour.

— Mas e aí duende verde, vai querer ou não? — Garth perguntou. — Ou quer que eu te traga um babador?

— Bro, eu só tenho 14 anos! — Gar defendeu-se. Garth deu de ombros.

— Quem tá contando? — perguntou de forma retórica, dando outro gole na bebida.

— E por que diabos eu iria querer um babador?! — Garfield franziu o cenho.

— Quer um conselho? Só para de olhar pra Terra como se fosse um tarado esquisito tirando fotos indevidas de mulheres no metrô. Você tem que chegar nela, se quer mesmo tentar alguma coisa. Ouça bem o papai aqui, que é expert em mulher.

— Você? Expert? Até parece! — Garfield revirou os olhos. — Então por que não chegou na Ravena ainda, bonzão?

— Ela é uma mulher difícil, sabia? Muito fechada e na dela, e chega até a ser assustadora às vezes. Até os profissionais aqui tem suas dificuldades. — disse, dando um último gole naquela garrafa e indo abrindo outra.

— Você não é de nada!

— Quer apostar? — Garth ergueu uma sobrancelha, desafiador.

— Depende. O que você sugere?

— Um desafio. Se você conseguir dar uns pegas na Terra ainda hoje, eu te dou cem dólares e cubro suas missões nos Titãs por um mês inteiro. Férias garantidas.

— Ok.

— E se eu conseguir ficar com a Ravena, aí é você quem me deve cem dólares e cobre as minhas missões pelo mesmo tempo. — Garth complementou, cruzando os braços.

— E se os dois conseguirem?

— Aí... a gente vê isso depois. Fechado?

Garfield pensou por um instante. Olhou na direção de Terra. Ela ria de algo que alguém dissera, balançava os cabelos loiros ao se virar, e seus olhos azuis cor do céu, de vez em quando, pousavam nele. Sempre fora gentil com ele, divertida, receptiva…

Ele respirou fundo.

— Combinado.

— Que os jogos comecem! — disse Garth, estendendo a mão. Os dois apertaram com força, selando o acordo.

— Bom... vou lá analisar o terreno — disse Garfield, já se preparando para sair.

— Calma aí. Antes, faça isso como um homem! — Garth ergueu outra garrafa de gim, já destampada, com aquele brilho malicioso no olhar.

— Ah, não sei não...

— Anda, Logan, seja um homem!

Garfield olhou ao redor. A música alta pulsava pela casa, luzes piscavam, e quase todo mundo já tinha um copo nas mãos. Ninguém ali parecia preocupado com o amanhã.

— Anda, faça isso pela Terra! Mulheres gostam de caras assim, brutos e que sabem marcar o ambiente.

— Ok. Eu sou um homem, não um moleque! — disse ele, pegando a garrafa. Levou à boca e deu um longo gole. O gim queimou sua garganta como fogo líquido. Fechou os olhos com força, sentindo algumas lágrimas escorrendo pelas bochechas.

— E aí? — perguntou Garth, rindo.

— Maravilha! — respondeu Garfield, tossindo discretamente. Limpou os lábios com o dorso da mão e deu outro gole, mais longo. A cabeça começou a latejar levemente, mas ele tentou manter a pose. — Agora sim… vou ao ataque. Me deseje boa sorte!

— Boa sorte!

Garfield se aproximou de Terra com o coração aos pulos. Cada passo parecia aumentar aquele nó no estômago — ou seriam as borboletas? Ou o seu sangue se acostumando com aquela dose de álcool. Respirou fundo e a observou. Ela estava ali, linda como sempre, rindo com Donna Troy, e quando o olhou, foi com aquela gentileza calorosa que sempre o desarmava. Ele tentou sorrir de volta, mas algo travou.

Quis parecer mais relaxado. Mais confiante.

Então pegou a garrafa de gim que Garth lhe dera e tomou um gole rápido, direto da boca.

“Só mais esse, só pra dar uma soltada, e nada mais, senão seu cérebro poderia explodir”. Prometeu a si mesmo.

Mas então veio outro.

E outro…

E outro…

E outro!

A garrafa esvaziava como se tivesse um furo invisível no fundo ou um buraco ainda maior dentro dele.

Quando se deu conta, a cabeça já estava girando e ele gargalhava alto demais de uma piada que ninguém contou. Com os olhos vermelhos e o rosto corado, Garfield subiu em cima do balcão da cozinha como se fosse um palco. Alguns Titãs pararam pra ver, rindo meio sem entender. Outros apenas continuaram suas conversas, acostumados demais com o comportamento impulsivo dele para se incomodarem de imediato.

— Senhoras e senhores! Feliz ano novo a todos! — Ele gritou com a voz engraçada e com os olhos vermelhos, abrindo os braços como se estivesse prestes a voar. — Sinto que devo agradecer… quero dizer, obrigado aos meus caros colegas por essa noite calorosa e receptiva de hoje, apesar das pequenas coisas… desalinhadas.

Ele apontou para Kory.

— Tipo assim, começando com a Estelar, tá certo que a princesa ali veio de outro planeta e tals, mas minha filha, estando há quase TRÊS anos na terra, tipo, TRÊS anos! E ainda não aprendeu a cozinhar?! Tipo, você perdeu metade do seu cérebro na última batalha contra sua irmã?! A princesa literalmente transformou o forno em uma arma química intergaláctica em menos de uma hora. Quase todo mundo aqui morreu carbonizado na noite feliz. E eu ainda tô tentando esquecer as cinzas do pobre peru do ano passado. Ele implorava e gritava por misericórdia. Garota, até as comidas do seu planeta sofrem com você! — Ele disse, gritando algumas palavras perdidas, no meio das frases, do nada.

Mais risadas. Kory forçou um sorriso sem graça, desviando o olhar para o chão..

— Espera, isso na mão dele é álcool? — Dick Grayson indagou, indignado. Com a mão no ombro da ruiva.

— Cyborg! Agora é você maninho! Nosso rei da tecnologia e do fashion crime! — Garfield apontou teatralmente. — Sua roupa de gala tá tão apertada que os botões estão em estado de sítio. Um já voou e quase cegou o Mutano júnior aqui! — disse, colocando num gesto descarado a mão no meio de suas pernas.

Victor bufou, cruzando os braços.

— Mutano, chega! Você tá passando vergonha, ainda não tá percebendo?! — Dick chamou sua atenção, com a voz brava. Ele esticou a mão e puxou de uma vez a garrafa das mãos de Logan, que fez careta.

— Ah, sim! Como poderia ter me esquecido? O nosso querido e doce líder… Robin! O menino traumatizado com cara de TPM permanente! — Ele imitava o tom sério de Dick. — “A diversão é inaceitável durante patrulha.”;“Garfield, para com essas piadinhas, você não é mais criança”, mano me deixa em paz! Não é porque seus pais morreram quando criança que significa que você tem o direito de acabar com a diversão de todo mundo. Eu também perdi os meus e não sou chato assim. Mano, até o Batman sorriu uma vez!

Apenas uma pessoa riu alto com aquele comentário. Do lado oposto da sala, com uma garrafa de uísque na mão. Garth Lennes.

Dick apertou o copo plástico com tanta força que ele estalou, rachando sob seus dedos. A Coca-Cola escorreu por entre sua mão fechada, gotejando pelo punho como se fosse sangue.

— Não liga para ele, namorado Dick. — Kory pediu.

— É, acho que o álcool deixou ele mais lesado do que já é. — Terra comentou, bufando.

E então, Garfield virou os olhos para a loira, que observava tudo com um sorrisinho tenso. Algo nele mudou de tom.

— E claro… A nossa queridíssima Terra! A loira dá risada mais fácil do mundo. Aquela criatura perfeita que sempre tá ali, sorrindo, fingindo que gosta de tudo o que eu digo... — Ele riu sozinho. — Só que a gente sabe, né? No fundo, você se faz de durona, me corta, mas só está esperando aparecer a oportunidade certa para dar pra mim, você está tão na minha e é tão óbvio, chega até ser irônico ainda não ter rolado nada entre a gente! Me diga Terra, quantas vezes por dia você se toca pensando em mim…?

A sala ficou em silêncio absoluto. Um silêncio constrangedor, hesitante. Terra baixou os olhos, constrangida. Não disse nada. Só sorriu — aquele sorriso amargo de quem sabe que foi humilhada sem merecer — e saiu devagar, em silêncio, esgueirando-se por entre as pessoas.

Garfield viu. O sorriso dele desapareceu por um instante. Ficou parado ali, oscilando, olhando para a porta por onde ela sumira. O gosto metálico da vergonha subia pela garganta, mas ele engoliu seco, olhando de forma perdida, em busca de algum apoio, forçando um riso que não vinha do coração.

— Bah... drama demais! Mulheres são sempre peruas sentimentais, quem aguenta?! — murmurou, e levou a garrafa à boca mais uma vez.

De longe, sentada em uma poltrona com um livro no colo, usando um vestido roxo, Ravena fechou calmamente as páginas. Observou a cena sem surpresa, apenas desapontamento. Balançou a cabeça de leve.

Silêncio caiu sobre a cozinha por alguns segundos, enquanto Garfield ria sozinho.

Naquele dia, nem ele e nem Garth cumpriram a aposta.

Aquela foi a primeira vez que ele destruiu tudo.

[...]

Você acabou de falar que terminou?

Nem sabia que tínhamos começado

Tudo isso é tão familiar, querido, que nome dão para isso?

Estúpido!

Ou será que é… lesado

Talvez seja… inútil

Tem uma palavra mais fofinha para isso, eu sei

Moleque!

(Sabrina Carpenter – Manchild)

[...]

De volta a 2024, Garfield encolheu os ombros e soltou um suspiro longo, sentindo o coração bater acelerado dentro do peito. Ele era um adulto agora, um neurocirurgião responsável, um homem sóbrio há tempo suficiente para conseguir lembrar de todas as besteiras que já cometera.

Rachel se aproximou de Rita e a abraçou com força.

Garfield se despediu de Lucky com um beijo rápido na bochecha, e seguiu em direção à mãe e à antiga parceira. A nuca doía, assim como o resto do corpo, como se o peso de seu passado tivesse se manifestado em suas costas e o puxando para trás

— Filho... olha só quem chegou! — disse Rita, sorrindo ao vê-lo.

— Oi, Gar — cumprimentou Rachel, com um tom suave.

— Oi, Rae — respondeu ele, com um meio sorriso cansado.

Notas finais
E que sirvam as tortas de climões! ksksksksks