Christmas Tree Farm
9 Em algum lugar na névoa, eu senti que havia sido traído
Notas iniciais

Interlúdio — Parte I:
Em algum lugar em meio à névoa, eu senti que havia sido traído
“Todo aquele sangue derramado, trevo carmesim
Uh-hum as bombas estavam perto
E minha mão foi a que você buscou durante toda a grande guerra
Sempre se lembre
Uh-hum, as brasas ardentes
Eu jurei não lutar mais se sobrevivêssemos a grande guerra
Isso se transformou em algo maior
Em algum lugar em meio à névoa, eu senti que havia sido traída”
(Taylor Swift – The Great War)
Abril de 2016
Nova Iorque, Estados Unidos.
KORY DEU DUAS BATIDINHAS NA PORTA de vidro; a plaquinha de aberta ainda estava virada para a rua. A loja de discos tinha uma fachada simples, com janelas grandes e paredes em tom marrom-claro. Lá dentro, um rapaz baixo, de cabelo preto curto, chamou sua atenção. Sua aparência misturava traços asiáticos marcantes a uma aura de profunda sensibilidade, revelada sobretudo pelos olhos escuros e intensos.
O rosto, emoldurado por sobrancelhas expressivas e lábios cheios, transmitia uma calma contemplativa. O estilo pessoal — touca de lã e camisas de botão com estampas vibrantes e tropicais — contrastava com sua natureza reservada. Apesar disso, seu porte era atlético e ágil.
Ela acenou para ele. Ele sorriu em resposta e foi atendê-la.
— Bom dia! — cumprimentou assim que a porta foi aberta. — Espero não ter chegado muito mais tarde do que o combinado. Tive alguns imprevistos no caminho.
O jovem respondeu por meio da linguagem de sinais, com um sorriso tranquilo:
— Tudo bem, sem problemas. Bom dia, Kory! É um prazer conhecê-la. Sou Joey Kane. Eu só me comunico por sinais, porque tenho deficiência na fala, espero que não se incomode.
— Jamais me incomodaria. Aprendi a linguagem de sinais assim que me mudei para cá, enquanto estudava os principais idiomas do mundo. O prazer é meu, Joey! — respondeu ela, aceitando o aperto de mão. As mãos dele eram quentes e firmes. — Vim buscar os pertences da Koma e acertar o pagamento pelo tempo em que ela trabalhou aqui. Ela vai ser internada numa…
— Instituto da srta. Farr para reabilitação — completou ele, com delicadeza.
— Sim…
— Minha mãe me avisou que você viria. Espero que a Koma se recupere logo. Ela é alguém muito especial.
— É, ela é…
— Por favor, entre — disse, cedendo passagem.
A mulher ruiva entrou. Usava uma blusa de frio roxa, larga, de mangas longas, calça jeans preta e salto alto branco. Os cabelos estavam presos em um coque alto.
— Deixamos os pertences e o dinheiro no segundo andar, na única porta aberta. Fique à vontade. Só não posso acompanhá-la porque preciso fazer a sangria do caixa; já estamos quase fechando.
— Obrigada — disse ela, dirigindo-se à escada em caracol, antes de recuar. — Na verdade, agradeça à sua mãe por mim, por ter cuidado da Koma e por toda a paciência durante esse tempo… E eu gostaria de agradecer especialmente a você por ter salvado a vida da minha irmã naquele dia.
— Não há de quê — respondeu ele, sorrindo de forma aberta. — A Koma é uma grande amiga para mim.
— Eu… trouxe uma lembrancinha de agradecimento — disse ela, tirando da bolsa uma caixa de chocolate bem embrulhada. — Não é muita coisa, foi o que consegui comprar. Muito obrigada, de verdade. Você não salvou apenas a Koma, mas toda a minha família. Eu sei que nada do que eu diga ou compre será suficiente para agradecer, mas, por favor… aceite.
— Realmente, não precisava. Fiz tudo de coração — respondeu ele, com um sorriso suave. — Mas vou aceitar, porque meu lado chocólatra não me deixa recusar.
Ela sorriu, aliviada. Ambos riram.
— Posso te dar um abraço? — perguntou Anders.
— Não vejo problema nenhum nisso.
Abraçaram-se com força. Ela sentiu o perfume marcante de alecrim que ele usava.
— Agora — retomou a garota, afastando-se um pouco — Vou subir para pegar as coisas da minha irmã, para não te atrasar ainda mais.
— Tudo bem, não se preocupe com isso.
Kory subiu a escada e seguiu até a porta aberta. O cômodo era um pequeno escritório. Sobre a mesa, havia uma discreta placa de metal com o nome Adeline Kane gravado. Ao lado, uma caixa cheia de discos de rock e outra com alguns pertences da irmã — roupas, colares e pequenos objetos pessoais.
Também havia um cofre pequeno, trancado, que fez Kory franzir o cenho assim que o notou. Um post-it estava colado na superfície metálica, com letras bem visíveis: “CONFIDENCIAL. APENAS KORIAND'R PODE ABRI-LO”.
Ela pegou o cofre e tentou abri-lo. Havia um cadeado que só poderia ser destrancado com uma chave — e nenhuma chave aparecia em nenhuma das caixas. Por um instante, cogitou usar seus poderes para forçá-lo, mas isso poderia causar uma bagunça ou, no pior dos cenários, incendiar todo o escritório. Não podia correr esse risco. Além disso, seria uma tremenda falta de educação, especialmente quando aquelas pessoas foram tão gentis.
Ela desceu as escadas e chamou:
— Joey? Preciso de ajuda, rapidin…
As palavras morreram no meio da frase. Diante dela estava um homem alto, vestindo uma camisa polo verde e calça jeans azul-escuro, com olhos azuis intensos, cuja risada ela reconheceria em qualquer lugar.
— O que ele está fazendo aqui? — perguntou, assim que percebeu o olhar dele pousar sobre si.
— O que você está fazendo aqui? — retrucou.
— Vocês se conhecem? — Joey gesticulou, curioso.
— Um pouco — respondeu Dick.
— Infelizmente… — murmurou ela, encolhendo-se levemente.
— Ele é um amigo meu também, Kor — explicou Joey. — Vem aqui toda sexta-feira alugar os melhores discos dos anos 80: Michael Jackson, George Michael, Tina Turner… E acabou de comprar treze discos do Metallica e do Iron Maiden. Ele salvou o nosso dia!
Ela se aproximou, surpresa.
— Uau. Não sabia que você gostava de discos de rock, Richard.
— É… sabe como é — respondeu ele, dando de ombros. — Na verdade, prefiro os flashbacks, mas a Barbara, minha namorada, gosta. E não tem nada que eu não faça por ela.
— Que fofos! — pontuou Joey. — Queria ser amado assim um dia.
— É, que fofos… minha diabetes vai parar nas alturas! — Kory retrucou, ácida, cruzando os braços.
Joey se virou e entrou em uma sala ao fundo para embalar os discos.
— Parece ser muito jovem pra você, não acha? — Dick indagou, apontando para a caixa de chocolate com um bilhete de “Com amor, Kory ❤️” preso nele. — Joey deve ter o que, uns 16 anos?
— Não é nada disso que você está pensando, Grayson. — Kory revirou os olhos. — Ele tem 17 e eu tenho 21! Somos só… amigos. “Ou quase isso” — pensou a última frase.
— Claro, porque é totalmente conveniente mandar bombons para alguém, sem segundas intenções. — Recebeu um olhar feio da ruiva. — O que foi? Só tô dizendo!
— Tá bom, chega desse teatrinho — pediu, baixando o tom. — Você não engana ninguém. O que você realmente quer desse garoto?
— Ai, Kory… será que nem em circunstâncias normais do dia a dia você consegue me deixar em paz? Dá um tempo. Eu só quero curtir meus discos tranquilo.
— Você é um péssimo ator, sabia? O que é até curioso, considerando que é o maior mentiroso que eu já conheci — Bufou. — Meu palpite é que você está investindo pesado nos juniores. Quer recriar os Titãs… e sabe que o garoto tem talento.
— Ele tem poderes?
— Não finja surpresa. Olha, o Joey parece ser um bom menino, não vou deixar você influenciar ele. Portanto, não o enfie nas suas confusões. A melhor coisa que pode acontecer é ele ficar longe de você.
— E por que você acha isso?
— Porque você é incapaz de cuidar de si mesmo. Imagine então de pessoas sem experiência. Você pode até ser bom em orquestrar missões, mas o seu ego inflado não te permite ser um bom líder, e muito menos uma boa pessoa.
Dick ficou em silêncio por alguns instantes, encarando-a no fundo dos olhos, antes de dar um sorrisinho forçado:
— Sabe, Anders… já pensou em cuidar da sua vidinha medíocre? Porque eu realmente não me lembro de ter pedido a sua opinião.
— Fica longe dele, Richard. Você vai acabar destruindo o garoto!
— E se eu não ficar longe, o que você vai fazer, princesa? — provocou, avançando um passo.
Ela sustentou o olhar, a voz baixa e firme:
— Você não vai querer descobrir.
Os dois se fuzilaram com o olhar.
Nesse momento, a porta se abriu novamente.
— Perdi alguma coisa? — perguntou Joey, assim que estava com as mãos livres.
— Não. Nada — respondeu Dick, pegando a caixa. — Já estou indo. Nos vemos amanhã, garoto.
Virou-se por um instante:
— Foi bom te ver, Anders!
E saiu.
— Ok, até mais! — Joey se despediu, acenando.
Kory soltou de uma vez todo o ar que mantinha preso nos pulmões.
— Tá tudo bem, Kor? — perguntou Joey, tocando de leve seu ombro.
— Sim. Foi só… uma sensação ruim — respondeu, forçando um sorriso. — E, bem… eu preciso da sua ajuda.
— Diga.
— Tem um cofre junto aos pertences da Koma. Ele só abre com uma chave específica. Você está com ela?
— Sim, estou. Ela pediu que eu só entregasse a você. Está no depósito. Um minuto.
— Ok. — Ela se debruçou no balcão e olhou para baixo. — Isso daqui é uma…
[...]
Domingo, 22 de Maio de 2016
Nova Iorque, Estados Unidos.
— Preciosidade absurda! — exclamou Ryan, boquiaberto.
A Festa estava bastante barulhenta, mais do que Kory poderia imaginar. Ela, Ryan, Gal e Koma haviam sido convidados para o aniversário de dezoito anos do Joey. O evento acontecia na residência dos Kane, uma casa grande, de dois andares, com fachada em tons pastel e branco, pontilhada por muitas janelas.
— Quando vamos ter uma casa enorme dessa algum dia? — questionou Ryan.
— Se conseguirmos economizar alguma grana por mês, quem sabe daqui 30 anos, garoto. — brincou Galfore, desmanchando o cabelo do caçula, que fez uma careta.
Kory riu, balançando a cabeça, e olhou para a irmã.
Koma parecia melhor depois dos primeiros meses de reabilitação. Estava mais quieta, mais recolhida. Metade do cabelo colorido de azul e a outra de loiro, e havia aderido ao estilo gótico. Ninguém tocava no assunto da tentativa de suicídio; simplesmente não havia coragem para isso.
Assim que tocaram a campainha, foram recebidos pela Sra. Kane, que os envolveu em um abraço apertado e caloroso.
— Que bom que vocês vieram! — cumprimentou, sorridente. — E que alegria te ver bem, Koma! Estamos com saudades de você na loja.
— Admito que também estou com saudade, Sra. Kane — respondeu Koma, com um sorriso tímido.
— Entrem, por favor — pediu a mulher, baixinha e de traços asiáticos, abrindo passagem para que todos entrassem.
— Trouxemos uma lembrancinha — avisou Kory, ficando por último e mostrando o embrulho. — Onde está o Joey?
— No quarto dele, no segundo andar — respondeu a Sra. Kane, fechando a porta atrás delas. — Está conversando com os novos amigos pelo telefone, sabe como é esses jovens.
— Fico feliz que ele esteja se enturmando rápido na nova faculdade.
— Sim, eles são veteranos, de outros cursos e super gentis. — explicou Adeline. — Ele até disse que um tal de Richard já é o melhor amigo dele.
— Que ótimo!
Ela suspirou, apertando as mãos à frente do corpo.
— Pois é… admito que estava com medo, sabe? De ele não conseguir se enturmar… Depois do acidente, ele nunca mais foi o mesmo.
— Me perdoe se eu estiver sendo intrometida, mas… que acidente?
— Há alguns anos, uns homens armados entraram aqui em casa e nos fizeram de reféns por algumas horas. Um deles cortou a garganta do meu Joey. Achamos que ele fosse morrer. Bom… ele sobreviveu, mas ficou com sequelas.
— Então ele não nasceu…
— Infelizmente, não. E naquele dia eu perdi meu filho mais velho, Grant. E eu machuquei feio as minhas costas, mas hoje estou bem… Sabe, as coisas nunca mais foram as mesmas. — Seus olhos se encheram de lágrimas. — Tenho medo de que, de alguma forma, esses amigos, por serem mais velhos, acabem sendo uma má influência. Joey tem 18 anos, mas é tão ingênuo para a idade dele… Enfim, a gente cria os filhos para o mundo, não é?
— Sim… é verdade — concordou Kory, com suavidade. — Meus sentimentos pelo Grant. Não cheguei a conhecê-lo, nem sei exatamente o que aconteceu, mas sinto muito. Tenho certeza de que ele devia ser uma boa pessoa… assim como sua família.
Anders deu um meio sorriso e tocou de leve o ombro da mulher mais velha.
— Ah! — exclamou Sra. Kane, recuperando-se. —, aquela é a minha caçula. Acho que vocês nunca foram apresentadas.
Ela apontou para uma garota asiática de cabelos loiros tão claros que beiravam o prateado. Usava um vestido azul de alcinhas, tênis preto de couro sintético de cano longo e nenhum traço de maquiagem. Conversava animadamente com outras duas garotas, que Kory deduziu serem amigas.
— Rose! — chamou a mãe, erguendo um pouco a voz — Venha aqui um minutinho, por favor.
A jovem revirou brevemente os olhos castanhos para cima e deu um gole no refrigerante antes de se afastar das amigas e se aproximar das duas mulheres mais velhas.
— O que foi, mãe? — perguntou, impaciente.
— Primeiro, mostre os bons modos que eu te ensinei — cobrou a mãe, encarando a adolescente com firmeza. — E, segundo, conheça a Kory Anders. Ela é uma grande amiga da família e irmã mais velha da Koma.
— A drogadinha? — disparou a garota, sem filtro.
— Rose! — Sra. Kane a fuzilou com o olhar. — Me desculpe, Kory. Ela geralmente não é assim… não sei o que anda acontecendo ultimamente. Deve ser influência dessas novas amigas que arrumou.
— Não fala assim da Eddie e da Cassie, mãe! — resmungou Rose, cruzando os braços.
— Não, imagina, está tudo bem — Tentou apaziguar Kory, visivelmente desconfortável. — Eu sei bem como a adolescência pode ser um período turbulento. É um prazer te conhecer, Rose!
Ela estendeu a mão.
— Igualmente — respondeu a jovem, apertando-a de forma frouxa, fria e rápida. — Posso voltar para as minhas amigas agora?
— Pode, mas nós vamos conversar mais tarde, mocinha.
Rose bufou alto e deu-lhe as costas.
— Ai… me perdoe, de verdade — pediu a Sra. Kane, constrangida.
— Não se preocupe, Sra. Kane.
Ela olhou ao redor e percebeu o quanto o hall e a sala de estar estavam cheios. A música estava alta demais, “Shake It Off”, da Taylor Swift, ecoando pela casa enquanto a festa seguia animada. Ryan já estava no meio da pista de dança improvisada, dançando como se não houvesse amanhã.
Ser uma criança inocente era tão… mágico, você simplesmente não tinha medo de parecer ridículo, você apenas era feliz e se permitia tal sentimento.
— Vou conversar com o Joey agora. Entregar o presente. — Kory disse, voltando para a conversa.
— Claro, fique à vontade — respondeu a dona da casa, puxando-a para mais um abraço caloroso. — Ah, só não repara se o cabelo dele estiver muito esquisito. Ele quis mudar o visual e ficou loiro.
— Sério?
— Infelizmente. — As duas riram. — E a Rose que pintou pra ele, imagina o resultado.
Kory subiu as escadas e logo percebeu como o segundo andar era mais silencioso em comparação ao burburinho do térreo. Ao se aproximar do quarto, viu que a porta estava aberta. Joey estava sentado na cama, de frente para o notebook, gesticulando com habilidade enquanto conversava por vídeo. Os fios, antes pretos, agora estavam de um amarelo bem forte, mal disfarçados pelo gorro. Ela se segurou para não rir.
Ela deu duas batidinhas leves na porta. Joey ergueu o olhar, reconheceu-a e abriu um sorriso imediato.
O garoto fez um sinal rápido para a tela, pedindo licença, e depois gesticulou com clareza:
— Com licença, pessoal. Preciso sair. Uma amiga acabou de chegar.
— Certo, até mais, Joey — Uma voz feminina, estranhamente familiar, respondeu do outro lado da chamada. — Feliz aniversário, querido!
Joey sorriu e respondeu em sinais:
— Obrigado.
Outras vozes, também estranhamente conhecidas, se despediram quase ao mesmo tempo. Então, fechou o notebook com cuidado e o colocou sobre a escrivaninha.
Virou-se novamente para Kory, os olhos brilhando, e gesticulou animado antes de se levantar para abraçá-la:
— Que bom que você veio!
— A gente não perderia por nada — respondeu, retribuindo o abraço. — A Koma e o Ryan estão lá embaixo.
Ele assentiu, sinalizando:
— Já subiram aqui pra me dar os parabéns. O que achou do meu novo cabelo? — perguntou, apontando para a cabeça.
— Ficou muito bom! — Kory puxou o embrulho que carregava. — Trouxemos um presente pra você.
Joey arregalou levemente os olhos e abriu o pacote ali mesmo, apoiando-o sobre a escrivaninha. Ao ver o conteúdo, gesticulou de imediato, com um sorriso largo:
— Mais chocolate!
Ele fez um sinal exagerado de aprovação.
— Amei! Muito obrigado!
Depois completou, com movimentos mais detalhados:
— O último era tão bom… foi o melhor chocolate que já comi na vida. Eu nem tinha encontrado algo parecido na cidade.
— É que eles são importados da Suíça, literalmente — explicou Kory, sorrindo. — Eu sempre compro quando viajo a trabalho pra lá. Fico feliz que gostou
Joey sinalizou um agradecimento mais contido, contudo sincero, antes de puxá-la para mais um abraço. Seu perfume de alecrim estava mais forte naquele dia.
— Você é incrível, Kory! — Sinalizou com entusiasmo, afastando-se um pouco. Em seguida, apontou para o chocolate aberto sobre a escrivaninha e fez um gesto de oferta. — Aceita um?
— Não, obrigada. Estou de dieta — respondeu ela, sorrindo de leve.
Ele franziu o cenho, claramente confuso, e gesticulou:
— Pra quê? Você não precisa.
— Estou tentando ganhar massa na academia. Sabe como é a vida fitness. Açúcar é o nosso maior inimigo. — Kory riu, dando de ombros. — Sua mãe me disse que você fez novas amigos na faculdade.
Os olhos dele brilharam imediatamente. Ele começou a gesticular com animação:
— Sim! E eles são veteranos e superlegais. A Dawn faz engenharia mecatrônica, o Hank faz direito e a Donna faz medicina veterinária. Eles queriam muito vir aqui hoje, mas não puderam. Queria tanto que você os conhecesse.
— Eles parecem ser bem legais mesmo, mas são confiáveis?
— Sim… você vai adorar eles.
A ruiva se pegou reflexiva. Aqueles nomes específicos, aquelas vozes estranhamente familiares… algo estava errado. Mas preferiu pensar que era apenas coincidência. Afinal, por que os Titãs estariam fazendo em uma faculdade? E porque se aproximaram de um vendedor de discos como Joey?
— Onde você estuda mesmo? — Ela perguntou.
— No Instituto Wayne de Ciências e Tecnologia.
— Não me lembro de ter medicina veterinária lá… nem engenharia mecatrônica, eu acho.
— Deve ser curso novo. — Joey deu de ombros.
— Faz sentido. É, a Koma, disse que você… precisava falar comigo, em particular?
Ele assentiu.
— Algo novo aconteceu com ela?
— Não. Não é sobre ela e sim sobre… mim.
— Por que? Você precisa de alguma ajuda.
— Sim, mas não nesse sentido que você está pensando, provavelmente. Estou bem, juro. É só que… é sobre… como eu salvei a Koma aquele dia.
— Sério?
— Sim. Eu… consegui salvá-la graças às minhas habilidades mágicas. — confessou. Kory fingiu arregalar os olhos. — E só ela, minha mãe, meu pai e a intrometida da minha irmã sabiam disso, até agora, isso se a Koma já não te contou. Enfim, sua irmã me disse que toda a família de vocês também tem poderes, e que você a ajudou muito em relação a eles… então… e você ficou tão próxima da minha mãe… acho que posso confiar em você.
— Claro que pode. — Tocou as costas do garoto. — Prometo não te decepcionar. Como são seus poderes?
— É díficil explicar gesticulando. — Comprimiu os lábios. — Vou te mostrar!
Joey se levantou da cama de uma vez, levando a ruiva consigo para o andar de baixo. Observou a sala e acenou para um amigo. Como ele não respondeu, entretido numa conversa com uma outra adolescente — particularmente muito bonita —, Joey se aproximou e tocou seu ombro.
— Joey! E aí, cara? — respondeu o rapaz, meio assustado, se afastando da garota.
— Preston, essa é a Kory. Kory, esse é o Preston.
— Oi. — Kory acenou.
— E aí? — respondeu o jovem de jaqueta de couro. — Era só isso que precisava?
— Na verdade, você pode pegar duas bebidas pra gente? — pediu Joey. — E alguns sanduíches?
— Ah, qual é… vai você! Você perdeu a voz, mas ainda tem dois pés e duas mãos. Folgados! Se querem namorar…
Joey revirou os olhos e encarou Preston intensamente, interrompendo-o. Que de princípio, franziu o cenho, antes de seus olhos azuis começaram a mudar, adquirindo um tom castanho opaco.
— Claro… vou pegar agora mesmo.
Kory ficou confusa — e a sensação só piorou quando percebeu que Joey permanecia parado no meio da sala, completamente imóvel, com os olhos totalmente brancos, como se estivesse prestes a ter uma convulsão.
Por um instante, pensou em procurar a mãe dele, quando então Preston voltou com dois copos nas mãos e sanduíches numa bandeja.
— Aqui está. E me desculpe pelos meus modos, senhorita. — Curvou-se. — E… eu só ajofeito um rebelde idiota, porque nunca recebi um abraço do meu pai e tenho um pênis pequeno.
Assim que Kory pegou os copos, os olhos de Preston voltaram ao azul normal. Ele pareceu confuso, como se tivesse acabado de acordar de um transe.
Joey sorriu, orgulhoso.
— Valeu — Deu uma piscadinha.
— O quê? — perguntou Preston, perdido.
— Acho que aquela garota te chamou de volta pra conversa — disfarçou Kory. — Boa sorte!
Preston deu as costas e se afastou, ainda confuso.
Kory então se virou para Joey e lhe entregou um dos copos.
— Isso foi incrível! Você foi incrível! Apesar de ter soado um pouco maldoso.
— Obrigado! E tudo bem… aquele cara é um babaca e vive dando em cima da minha irmã. A Rose é muito boba por ainda manter por perto esse projeto falido de Danny Zuko.
— Então, retiro o que eu disse. — Kory riu.
— Ai! O que você acabou de fazer?!
Um homem alto se aproximou. Usava uma blusa de frio preta aberta, revelando uma camisa polo vermelha por baixo. O cabelo estava perfeitamente abaixado com gel, e ele mantinha as mãos nos bolsos da frente da calça jeans.
— Ah, não… você de novo? — a ruiva bufou. — Não acredito que convidaram justo ele.
— Claro que eu estaria aqui. Esse baixinho aqui é o meu novo melhor amigo agora — respondeu Dick, dando alguns tapinhas nas costas do garoto.
— E o Wally?
— Não posso ter mais de um melhor amigo? Virou fiscal disso agora também.
Kory cruzou os braços e estreitou os olhos.
— Acredite se quiser, mas nós somos grandes amigos. E o Joey confia em mim, não é, Joey?
— Bom… quem prefere Michael Jackson a Elvis Presley parece ser uma boa pessoa pra mim — respondeu simplista, dando de ombros.
— Mas e aí… o que foi aquela coisa estranha agora há pouco?
— Aquilo…
— Não foi nada — cortou Kory rapidamente, forçando um sorriso. — Só um amigo sendo prestativo com o aniversariante. E acho que a senhora Kane acabou de chamar a gente.
Ela passou o braço esquerdo pelos ombros do rapaz mais novo e já começou a praticamente arrastá-lo para longe.
— Até mais, Grayson.
— O quê? Espera!
— Eu disse, até mais!
— Volta aqui…!
[...]
18 de Junho de 2016
Gotham City, Estados Unidos.
Kory não se lembrava muito bem do que estava fazendo naquela manhã de quinta-feira do final de Abril. Provavelmente preparava seu café da manhã: um sanduíche simples de torradas com peito de frango e dois ovos fritos, acompanhado de uma vitamina de banana, maçã e aveia. Depois, fora assistir ao jornal matinal quando recebeu a notícia de que um Titã havia falecido naquela madrugada.
— O super-herói fora atingido por um tiro certeiro na chamada “zona T” — explicava a âncora do jornal, uma mulher negra de longas madeixas caramelo encaracoladas — Disparado por um atirador profissional, logo após uma missão contra Gizmo e Mamute, que haviam acabado de ser levados no camburão da polícia quando o assasinato. Pela distância e pela precisão, tudo indicava que se tratava de um sniper experiente.
Kory ficou boquiaberta. Seu prato e seu copo escorregaram de suas mãos e se espatifaram no chão em mil pedaços. Lembrava-se de sentir o corpo inteiro gelar, enquanto permanecia de pé, completamente paralisada pelo choque. Agradeceu por estar sozinha em casa e por não ter acordado Ryan daquela forma.
Devido a rápida confusão, começou a elencar as coisas que deveriam fazer, primeiro respirou fundo, depois limpou a bagunça, com cuidado, mesmo assim, acabara cortando a palma da mão direita no processo, mas aquilo não a incomodou. Por fim, tentou ligar para os antigos colegas, mas ninguém atendeu.
Como era autônoma, decidiu deixar o trabalho de lado naquele dia.
A repórter não mencionou o nome do super-herói abatido, mas Kory sabia exatamente quem era apenas pela silhueta amarela mostarda e vermelha rubro mostrada na tela.
Horas depois, recebeu uma ligação de Lucky Haiden, aos prantos, confirmando o que ela já temia: seu namorado, Wally West — mais conhecido por ela como Kid Flash — havia falecido. E o horário e o local do velório, que aconteceria assim que a perícia liberasse o corpo.
Assim que pisou no velório, na semana seguinte, vestindo um longo vestido preto e luvas de renda da mesma cor, com uma bolsa roxa de mão, Kory percebeu que o local estava cheio. Encolheu-se ao notar aquilo.
Rachel não conseguira uma folga no estágio de detetive e ainda tinha a faculdade — não dava para simplesmente dar um pulinho de Londres até Gotham. Seu pai estava trabalhando para pagar as contas, e Ryan era novo demais para estar em um ambiente triste e trágico como aquele. Quanto a Victor e Garfield… ainda se cumprimentavam à distância e trocavam poucas palavras quando se encontravam, mas não era mais a mesma coisa. Era como se fossem estranhos.
Aproximou-se a passos lentos do lugar onde estava o caixão, no centro da igreja, de frente para o altar, onde dentro de alguns minutos o padre proferiria as primeiras palavras da missa.
O senhor e a senhora West ocupavam o banco da frente, sendo consolados por alguns parentes, enquanto Lucky chorava sobre o caixão, amparada por Karen, que permanecia ao seu lado. Os outros Titãs estavam distribuídos pela igreja.
Kory suspirou fundo e deu um passo à frente, indo em direção a Haiden e Beecher, quando alguém falou ao seu lado:
— É a terceira vez que tenho a sorte de cruzar com você neste ano, Anders — disse um homem alto, de cabelo espetado e terno impecável, com uma rosa no bolso do paletó. — Uma pena que seja nessas circunstâncias.
— Olá, Dick — respondeu ela, apertando a bolsa entre os dedos. — Meus sentimentos pelo seu melhor amigo.
— Obrigado. — Ele abaixou a cabeça por um instante. — Acredite, estou tão surpreso quanto você por descobrir que ele vinha de uma família católica tradicional.
— Eles sabiam… sobre… os poderes dele?
— Claro que sabiam. É impossível não saber, por mais que ele quisesse esconder. Quem foi o tutor dele está ali — disse, apontando para um homem alto, forte, de cabelos castanhos e de jeito meio desengonçado, ao lado dos pais e parentes de Wally. — Barry Allen. Ele é casado com a irmã do Wally, Iris West.
— O Flash.
— Isso mesmo. Mas aqui preferem que chamemos todos pelos nomes de verdade.
— A vida é tão curta que chega a ser irônico. Já sabem algo sobre o assassino?
— Ainda não, mas ele pagará caro por isso, te garanto.
— Bom, não há nada que possamos fazer por enquanto, até que as investigações avancem — disse Kory, desviando o olhar. — Além de consolar os familiares e a viúva.
— Quem sabe você seja a única capaz de melhorar o clima aqui, com esse seu alto-astral.
Kory franziu o cenho.
— Por que fez esse comentário?
— Não sei se você percebeu, mas nunca a aceitaram. Nem entre os Titãs, nem na família West. Wally era o único que a queria por perto e a defendia. Agora… — Ele fez um gesto discreto com a cabeça. — Olhe em volta. Os West estão à direita, os Titãs à esquerda, e Lucky no centro, junto ao caixão, sendo consolada pela Karen… mais por pena do que por qualquer outra coisa.
Kory sentiu um arrepio, ao sentir os dedos gelados de Dick em seu braço, um toque suave e leve, a guiando alguns passos a frente, para ceder passagem a mais conhecidos da família que chegavam ao velório. Soltou-a com cuidado e prosseguiu:
— São como água e óleo. E muitos suspeitam que ela esteja por trás da morte do próprio namorado.
— Que comentário mais desnecessário — retrucou Kory, com a voz firme. — Ela jamais faria isso. Ela mudou!
— É o que você acredita. — Deu os ombros — Mas não se apaga um passado desses da noite para o dia. Ninguém a obrigou a dançar com o diabo, ela fez isso conscientemente. Eu sei que você pensa assim, de forma otimista, por causa da sua irmã… mas é a verdade. E a verdade dói.
— Chega, Dick!— murmurou firme — Estava demorando para você começar com isso.
— Começar com o quê?
Kory respirou fundo, tentando se controlar.
— Vou consolar a Lucky. Com licença.
— Toda — respondeu ele, fazendo uma careta discreta.
Anders se aproximou do caixão com cuidado, acenando de longe para Garfield e Victor, que retribuíram com um sorriso. Mas era um sorriso triste, quase ensaiado.
Ao se aproximar, Karen foi a primeira a notá-la e a envolveu em um abraço apertado.
— Que bom que você conseguiu vir, amiga — disse Karen, com a voz embargada. — Estava com saudades.
— Também estava. Meus mais sinceros sentimentos, Karen. Ele era um grande herói… e um grande amigo.
— Era mesmo — respondeu ela, esboçando um sorriso fraco.
Kory então voltou-se para a garota de cabelos rosados, que ainda permanecia de pé ao lado do caixão, com os olhos inchados de tanto chorar.
— Lucky… — chamou com suavidade. — Meus sentimentos. Ele não merecia isso.
Nesse instante, sentiu os próprios olhos se encherem de lágrimas.
— Obrigada — disse Lucky, aproximando-se para abraçá-la com força. — Isso parece um pesadelo horrível, Kory. Que tipo de monstro faria uma coisa dessas com o Wally? Ele não fazia mal a ninguém…
— Eu não sei, Lucky… Essa profissão… ser um super-herói… pode trazer muitas consequências ruins, apesar de ser algo tão bonito, tão cheio de amor ao próximo… — fungou, limpando o rosto. — Me desculpa, eu não estou conseguindo formular as frases direito.
— Tudo bem, eu entendi. Obrigada por estarem aqui, vocês duas — disse Lucky, puxando Karen para um abraço em trio.
Ao longe, Kory sentia um olhar específico quase queimar suas costas. Dois, para ser mais precisa. Mas decidiu ignorar o Sr. Grayson e a Srta. Gordon, pelo menos naquele dia. Wally merecia ter um velório tranquilo.
Kory sentou-se ao lado de Karen e Lucky durante a missa e permaneceu ao lado da viúva o tempo todo, guiando-a com cuidado enquanto o corpo de Wally, em um caixão lacrado, era conduzido do início ao fim da cerimônia, da igreja até o cemitério.
Apenas o pai e alguns amigos fizeram discursos — Dick incluso. Lucky não conseguiu dizer uma palavra. Chorava tanto que chegava a cortar o coração, e diante de todos aqueles olhares julgadores, Kory só tinha vontade de gritar para que parassem.
Assim que o corpo foi enterrado no jazigo da família West e a maior parte dos presentes começou a ir embora — inclusive Karen, que saiu acompanhando Victor, que daria carona a Garfield, já que ele tinha uma prova importante na faculdade em menos de duas horas —, Grayson e Gordon se aproximaram de Kory e Lucky, trazendo um buquê de orquídeas roxas.
— Mais uma vez, meus sentimentos, Lucky — disse Barbara, com a voz contida. — Eu sei que este é um momento de muita dor, mas toda a família Wayne e Gordon oferece estas flores para homenagear todos os anos em que Wally lutou em prol da sociedade e da paz da cidade. Nós nos importamos.
— O-o-obri… — Lucky tentou falar entre soluços, mas não conseguiu terminar.
Kory pegou o buquê com cuidado.
— Ela agradece muito pelo carinho — respondeu por ela.
Barbara então lançou um olhar avaliador para Kory.
— Não sabia que vocês eram próximas, Anders. Nem sequer sabia que você viria… afinal, você não faz mais parte dessa família há muito tempo.
— Barbara, menos — pediu Dick, em tom baixo, tentando conter o clima. — Definitivamente, agora não é hora para isso.
— É Barbara, ouça seu noivo, ele tem razão. — Kory começou, sarcástica. — E que orquídeas lindas! Realmente não vejo nada de melhor que vocês poderiam dar para ela. Respeito e empatia na hora do velório nem são coisas tão virtuosas assim. Mas claro, não quero ofender nem fazer escândalo, longe de mim, afinal, você é tão solidária quando os fotógrafos estão te vendo, Barbara — Apontou para os paparazzis falhamente escondidos atrás das cercas baixas e carcomidas do cemitério — Acho que já deva está pensando na manchete da próxima segunda-feira, não?
— Você é insuportável, Anders! Mas não vou perder meu tempo me rebaixando ao seu nível, afinal, sou uma mulher importante e muito atarefada. Até mais, Lucky, e meus sentimentos! Vamos, Dick.
E ela lhe deu as costas, caminhando com passos exagerados enquanto tentava se manter de pé sem tropeçar no chão irregular, equilibrando-se naqueles saltos vermelhos enormes e se apoiando em Dick. Kory teve que se segurar para não rir do quão ridícula a cena era.
— Falsa do caralho! — murmurou. — Deveria engolir o próprio veneno e ir direto pro quinto dos infernos.
Pela primeira vez naquela semana infernal, Lucky soltou uma risada.
— Valeu, Kory. Não aguentava mais tamanha falsidade.
— Não precisa agradecer. Nem aqueles dois devem se suportar a longo prazo.
— Valeu por todo apoio. — Lucky se virou para ela. — Você é uma das poucas que realmente gosta de mim e que me deu uma segunda chance. Acho que nunca pude agradecê-la.
— Já disse, não precisa agradecer. Somos amigas.
Ela pegou a bolsa, tirou um bloquinho de post-its amarelos e uma caneta, anotou algo rapidamente e entregou o papel para a mulher de cabelo rosa.
— Toma. Pode entrar em contato comigo sempre que precisar.
— Valeu, de novo.
— Parece que somos oficialmente grandes amigas agora — comentou Kory, com um sorriso.
— É… parece…
[...]
Julho de 2016
Jump City, Estados Unidos
— Que ela está se recuperando bem — disse Sra. Kane, pousando a xícara de chá de camomila sobre a mesa.
— Está mesmo, Sra. Kane. Os médicos disseram que ela está apresentando um ótimo avanço no tratamento — concordou Kory, levando a xícara aos lábios. — E a Rita disse que ela está aprendendo a controlar melhor os poderes agora. Não está tendo mais aqueles ataques de raiva que destroem tudo.
— Por favor, me chame apenas de Adeline. E de fato, a Srta. Farr e seus amigos fazem um ótimo trabalho com os meta-humanos nesse instituto. Acredito que Rose precise passar um período de férias aqui algum dia.
— Será que ela ainda não é muito jovem para isso. — A ruiva comentou com cuidado. — Rebeldia é um traço esperado na adolescência.
— Não sei… é só… que eu tenho medo que ela se perca, ao não saber controlar seus traumas e sentimentos em relação ao pai…
À distância, mantendo-se em um ponto seguro da sacada, Koma Anders esculpindo o busto de uma mulher, provavelmente, alguma famosa que ainda não conseguia identificar. Com pinceladas suaves, dava forma a um entardecer ensolarado: pássaros cortando o céu, a praia iluminada ao fundo, tudo banhado por uma luz serena.
— Gosto tanto dela — continuou Adeline. — É muito bom vê-la se livrando de tudo o que a puxava para baixo.
— Sim… — Kory suspirou. — Eu me lembro do dia em que vocês me ligaram, quando ela teve uma overdose. Minha cabeça dói só de pensar… Ainda bem que ela tinha vocês para acolhê-la, quando nem mesmo nós, da família, conseguimos estar presentes.
— Está tudo bem, querida — disse Adeline, com doçura. — Isso já passou. Meu Joey a salvou. E agora, ela está se recuperando. É uma sobrevivente. E é isso que realmente importa.
Adeline estendeu a mão para a garota, que retribuiu, apertando com firmeza. Sorrindo para a mulher de longos cabelos pretos e traços orientais.
— Onde está o Joey? Ele não quis vir hoje? — reparou Kory, olhando em volta.
— Não. — Adeline deu um gole no chá. — Está com os supostos amigos da faculdade.
— Como assim?
A mulher suspirou.
— Eles não eram quem pensávamos ser… Na verdade, Richard é o líder de um grupo de super-heróis emergentes chamados Titãs. Mas presumo que você já saiba disso.
Kory se encolheu levemente.
— E esses “amigos da faculdade” — Fez aspas no ar. — Nunca pisaram numa faculdade.Hank, Dawn, Donna, Garth… são todos desse time de super-heróis. Mentiram pro meu Joey.
— Mas… o Joey ainda confia neles?
— Bem, ele me prometeu que o Dick parece ser uma boa pessoa, então estou confiando na análise dele. E, além do mais, o Joey já tem dezoito anos. Já passou da idade de ser vigiado ou de seguir os conselhos da mãe… infelizmente — confessou, antes de dar outro gole no chá.
Kory ficou em silêncio, desviando o olhar para o vazio, perdida em pensamentos.
— Seus pensamentos estão fazendo barulho agora — observou Adeline, com suavidade. — Aconteceu alguma coisa?
— Não… só estou pensando longe — respondeu, quase automaticamente.
— Fiquei sabendo que vocês já foram namorados — continuou Adeline. — Você e o Sr. Grayson. Isso explica por que você sempre parece desconfortável quando a presença dele é mencionada.
— É… — Kory suspirou. — Foi um relacionamento difícil. Não era para ser. Éramos jovens e imprudentes demais, eu acho. E ele nunca se importou de verdade comigo, ou com qualquer coisa que envolvesse nós dois… — respirou fundo. — Mas fico feliz que ele e o Joey se deem bem.
Adeline a observou por um instante, atenta.
— Querida, sinto que você está escondendo algo. Se não for muito atrevimento… qual foi o verdadeiro motivo do término de vocês? Sempre tenho a sensação de que você sente medo quando menciono o nome dele.
Kory se ajeitou na cadeira e encarou Adeline nos olhos. Inspirou fundo antes de responder:
— É uma longa história… quase não falo sobre isso com ninguém — começou Kory, em voz baixa. — Como você sabe, eu tenho superpoderes. Assim como o Joey, minha irmã… e eu fiz parte dos Titãs quando era mais nova. Foi a primeira família que conheci quando cheguei à Terra, fugindo da Cidadela. Naquela época, o Dick era o líder da equipe.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— No começo do nosso namoro, nós nos dávamos muito bem. Tudo parecia um conto de fadas, um sonho adolescente. Mas algo já estava errado havia um tempo. Eu percebia que ele andava estranho… muito antes de ficarmos juntos. Por causa do nosso arqui-inimigo. O Exterminador. Ele sempre teve uma obsessão por aquele homem. Chegou a ser forçado a virar aprendiz dele por um tempo… foi na mesma época em que tudo aconteceu com a Terra. Com a nossa amiga que morreu…
— Sim… eu lembro. Sinto muito por isso — disse Adeline, com suavidade. Porém, havia algo em sua expressão… é como se o novo tópico a deixasse desconfortável.
— Nós achávamos que a Terra tinha conseguido matar o Exterminador naquela vez — continuou Kory —, mas estávamos errados. Houve uma missão que parecia comum, quase rotineira. Ladrões meta-humanos desorganizados, nada fora do normal… só que era uma armadilha.
Ela engoliu em seco.
— O Dick foi sequestrado. Ficamos dias sem qualquer notícia. Só quando o encontramos… todo machucado, desacordado, em uma fábrica abandonada, é que descobrimos quem estava por trás de tudo. Era ele. O Exterminador. E, foi na mesma época que o irmão dele, o Jason, foi morto por um pé de cabra pelo Coringa. Uma trágica coincidência…
Adeline permaneceu em silêncio. A xícara tremia levemente em sua mão.
— O Dick passou por todo tipo de tortura que você pode imaginar — Kory prosseguiu. — E algo dentro dele quebrou. Ele voltou diferente. Mais paranoico. Agressivo. Começou a tratar todos mal, com exceção da Batfamília. Ele dizia que havia um traidor entre nós, alguém que passava informações ao Exterminador… e decidiu que a Koma era a culpada.
— Mas… — murmurou Adeline.
— Ela já foi ameaçada. Já foi forçada a fazer coisas horríveis para sobreviver nas ruas — disse Kory, com firmeza. — A Koma é a maior vítima de tudo isso. Mas ele não quis me ouvir. Disse que eu tinha escolhido o lado dela. Ele surtou. Ele me…
Ela hesitou.
— O Dick fez algo com você? — perguntou Adeline, tocando de leve seu ombro.
— Ele não conseguiria me machucar, nem que quisesse.
— Não estou me referindo a fisicamente, querida…
A Tamaraneana suspirou fundo, respondendo com a voz fraca:
— Foi a minha maior decepção. Disse coisas que me feriram de verdade — Encarou o piso de porcelana. — Depois disse que tinha sido só um momento de raiva, que nunca mais aconteceria. Eu não acreditei. Terminei com ele. E, pouco tempo depois, descobri que ele estava me traindo com a Barbara Gordon. — Revirou os olhos — Ele ainda teve a audácia de me contar… disse que ela sempre esteve ao lado dele. Diferente de mim. Que ela não o abandonaria. Que ela não faria tempestade em copo d'água.
— Lamento que tenha passado por tudo isso. E esse tal de Exterminador, foi preso?
— Infelizmente, não — continuou Kory. — A única coisa que sabemos é que ele começou como um assassino de aluguel. Que tem uma família em Gotham. E que se chama Slade Wilson. Pelo que descobrimos, por culpa dele um dos filhos morreu e o outro ficou gravemente ferido. O Dick passou meses investigando tudo isso a fundo. Não sei se chegou a alguma conclusão.
A xícara escorregou das mãos de Adeline e se espatifou no chão. O barulho foi seco e alto demais para o silêncio do ambiente. Ela ficou paralisada.
— Senhorita Kane, está tudo bem? — perguntou Kory, tocando de leve suas costas.
— Não… — negou com veemência, levando a mão a boca. — não pode ser…
— O que foi? O que aconteceu?
— Kory, eu preciso te contar um segredo — disse ela, a voz trêmula. — Mas, por favor, não conte a mais ninguém. O meu Joey pode estar em perigo…
Alguns enfermeiros se aproximaram rapidamente para recolher os cacos de vidro e verificar se alguém havia se ferido.
— Eu prometo. Não contarei a ninguém — garantiu Kory, apertando com firmeza a mão da mulher.
Quando o movimento diminuiu, Adeline se aproximou e sussurrou no ouvido dela, quase sem voz:
— Eu fui casada com Slade Wilson…
[...]
Agosto de 2016
Nova Iorque, Estados Unidos.
Quando Kory estacionou o carro em frente à residência Kane — ou melhor, à antiga residência Wilson — suspirou fundo. Mesmo do lado de fora, já conseguia ouvir vozes alteradas vindas de dentro da casa.
Ela sabia que Adeline não estava em casa. Tinha saído para dar uma volta, deixando os filhos sozinhos. E o clima… estava pesado.
Mais cedo, Adeline havia lhe feito uma ligação, dizendo que Joey brigara feio com ela e estava decidido a sair de casa para ir morar com os Titãs. Disse que ele a havia chamado de mentirosa por esconder a verdade sobre o pai.
Que ele não estava morto.
Que estava vivo.
Que os havia abandonado.
Que nunca fora corretor de imóveis e sim um assassino de aluguel, ao lado de seu padrinho de casamento e ex-combatente de guerra, William Wintergreen.
E que ele era o responsável pela morte de Wally West e de mais outras milhares de pessoas.
Pela voz melancólica ao telefone, Kory sabia que a mãe estava desesperada.
— Por favor… você é a nossa única esperança. Por favor, convença ele a ficar.
A Tamaraneana saiu do carro e foi até a porta, que estava entreaberta. Pediu licença antes de entrar e viu algumas caixas pequenas já fechadas espalhadas pelo chão da sala.
— Você só pode estar louco, Joey! — gritava Rose. — Aquele cara… aquela gente não é confiável! Você acha mesmo que eles vão te aceitar nessa fantasia de heróis depois de descobrirem que o nosso pai matou um dos amigos deles?! É uma armadilha.
— Você não conhece eles! — rebateu Joey, firme. — Eu daria minha vida por eles, se fosse preciso.
— Que lavagem cerebral! E “Titãs”…? É sério que esse é o nome? — Rose riu com escárnio. — Os Titãs foram figuras gregas trágicas que foram derrotadas por Zeus. Quem homenageia fracassados? Quer virar um fracassado igual a eles? Fala sério! Você devia se afastar e escutar a mim e à mamãe!
Joey a encarou, sério.
— Eles estão mentindo pra você. Para de ser burro! Mas você é teimoso demais pra enxergar isso.
Ela suspirou fundo e só então notou a presença da ruiva alta parada no vão entre a sala e o hall de entrada.
— Espero que pelo menos escute a senhorita Anders. Pra mim, já deu.
Rose pegou a mochila e a jogou nas costas.
— Vou ver a Cassie. Mas quando eu voltar, espero que você ainda esteja aqui — disse, em tom de ameaça, antes de sair. Ela não viu, mas o irmão a mostrou o dedo do meio, que se encolheu em seguida.
— Kory, me desculpa por isso — disse Joey, por fim. — Hoje as coisas não estão das melhores.
— Percebi. — Sorriu doce.
— E eu sei que você está aqui a pedido da minha mãe. Olha… eu gosto muito de você, mas, de verdade, não vou mudar de ideia. Não quero mais morar nessa casa cheias de mentiras.
— Eu entendo, mas ela está certa. O Dick não é a melhor pessoa do mundo para se confiar. Ele está disposto a sacrificar tudo e todos para ter o que quer. Experiência própria. Por que não nos sentamos um pouco? — Ela apontou para o sofá. Ele assentiu e assim fizeram. — Parece que você está bem empolgado para fazer parte dos Titãs.
—Sim! Os Titãs, ao contrário do que a Rose acha, são todos incríveis. Eles têm poderes e habilidades tão legais… são realmente inspiradores. E eu tenho certeza de que essa é uma experiência única. Quero me tornar como vocês.
— Vocês?
Ele assentiu.
— O Dick me disse que você fez parte da equipe. Que foi mentora dos Titãs Júniores por quase dois anos. E que tinha potencial até para ser líder!
Kory arregalou levemente os olhos, surpresa.
— Nossa… isso foi muito gentil da parte dele. Ele também contou que toda minha família é tamaraneana?
O rapaz assentiu.
— E não tem medo, de sermos extraterrestres?
— Jamais! Vocês são mais humanos do que muitos terráqueos. Depois quero saber tudo o que você sabe sobre o espaço.
A tamaraneana achou graça.
Joey continuou, agora com gestos mais amplos, empolgado:
— A Dawn e o Hank disseram que eu tenho futuro na equipe. Que evoluí muito, que estou controlando melhor meus poderes e descobrindo coisas novas sobre eles. Ainda não fui em nenhuma missão, mas eles acham que posso me tornar um grande justiceiro em breve.
— Eu estou muito orgulhosa de você — afirmou a ruiva. — De verdade. Não tenho dúvidas de que possa salvar a vida de muitas pessoas.
O sorriso dele suavizou. Joey respirou fundo antes de continuar, os gestos ficando mais lentos, mais cuidadosos.
— Sabe aquele dia em que… a Koma quase morreu?
Kory ficou atenta.
— Como eu te disse, usei meus poderes pra salvá-la. Ela ia se afogar na banheira… e cortar os pulsos. — Ele fez um gesto delicado junto à própria cabeça. — Aquela foi a primeira vez que usei meus poderes para valer. Sem brincadeiras. Sem pegadinhas. Com responsabilidade. Usei meus poderes psíquicos. Fiz uma projeção astral e assumi o controle do corpo dela por alguns segundos. Consegui impedir, jogar as lâminas fora e fazê-la se sentar na banheira.
Joey apontou para o chão, depois para longe.
— E olha que eu estava a vários quarteirões de distância. Minha conexão minha e da Koma é realmente muito forte. Graças a isso, conseguimos chamar ajuda. — Hesitou. — Foi difícil. O corpo dela estava grogue por causa das drogas. Mas foi a primeira vez que fiz algo assim.
Ele tocou o próprio peito.
— Sempre soube que tinha poderes desde criança… mas foi a primeira vez que fiz algo grande. Algo realmente importante. Pelo bem de alguém que eu amo. E isso, me fez refletir e pensar que eu realmente quero ser um Titã, quero ser um super-herói, alguém solidário, algo que meu pai jamais foi…
Os olhos de Kory marejaram.
— Como eu disse… você é incrível!
Ele desviou o olhar por um instante, então voltou a encará-la, os gestos mais contidos, quase tímidos:
— Eu fiz aquilo pela mamãe. Pela Koma. — Uma breve pausa.
Joey fez um gesto suave, quase encolhido.
— Porque eu me importo muito com ela, é como uma irmã para mim e não queria que ela tivesse aquele final triste. — Joey tocou sua mão. — Ninguém merece partir assim.
— Ainda bem que ela tinha você.
— Sabe, Kor… eu quero ser como você. Ter um coração bom e salvar as pessoas. Eu acho que os Titãs são o meu melhor caminho. E sinto muito que nem a mamãe, nem a Rose, nem você consigam ver isso. Queria saber se você aceitaria ser minha tutora. Sei que faz tempo que você não se envolve mais com isso, mas… você poderia voltar a ser uma Titã, comigo. Eu me sentiria honrado se você abrisse uma exceção por mim.
— Joey… seria uma honra pra mim. De verdade — Começou com cuidado. — Mas… eu não sei se os Titãs são o melhor caminho pra você. Ou pra mim.
Ele inclinou levemente a cabeça, atento, e perguntou por gestos:
— Por quê?
Kory respirou fundo antes de responder.
— Porque muita coisa já aconteceu. Tenho muito traumas… E, você ainda é muito jovem! Ser um super-herói é extremamente arriscado. Você salva vidas, sim… mas coloca a sua em perigo o tempo todo. — Ela entrelaçou os dedos, inquieta. — E sempre existem vilões dispostos a entrar na sua mente, a quebrar o seu psicológico, a usar quem você ama como arma. Isso não atinge só você… atinge sua família, as pessoas ao seu redor. É um tipo de pesadelo que nunca acaba. E a sua família precisa de você, aqui, seguro e com elas.
Joey manteve o olhar firme e respondeu com sinais tranquilos, porém decididos:
— Eu sei. E estou disposto ao sacrifício. O Dick disse que—
— Eu não acho que ele seja o melhor exemplo — Kory interrompeu, a voz mais baixa, mas carregada de peso.
Joey franziu o cenho, confuso.
— Por quê? A mamãe sabe se virar e dar a volta por cima, e a Rose… é a Rose. Ela é mais corajosa e destemida do que eu jamais poderia ser. Esse é o meu sonho! Quero ser útil algum dia, que nem eles, poder ter a oportunidade de apagar o passado do meu pai, da minha vida. Viver pelo Grant. — Inspirou fundo. — Você já se sentiu assim?
Kory ficou em silêncio por alguns segundos. Seu olhar caiu para o chão, como se revisasse memórias que preferia manter enterradas. Porém, ele parecia tão alegre e feliz — de um jeito que ela jamais tinha visto. E então, se martirizou mentalmente por ir contra Adeline. Mas… ele a lembrava muito de Koma, no dia em que decidiu deixar as ruas, ficar sóbria e se tornar uma heroína, como a Grande Estelar fora um dia.
Aquilo também foi um gatilho para suas lembranças. Ele parecia uma versão mais jovem dela mesma. Havia potencial ali. E então ela se perguntou se Dick havia seguido a mesma linha de raciocínio quando o convidou para a equipe.
— Olha… Joey, esquece o que eu disse, tá bem? — Ela forçou um sorriso suave. — Me desculpa. Acabei sendo uma estraga-prazeres.
Ela respirou fundo e voltou a encará-lo.
— Você já é adulto. Sabe tomar as próprias decisões. Essa é a sua vida, e você sabe melhor do que ninguém o que é melhor para você. E não fique chateado com sua mãe por estar agindo como uma “mãe chata”. Ela só quer o seu bem, e nunca é fácil para um pai ou uma mãe ver o filho criar asas e sair de casa. Mas é algo inevitável. Eu mesma já fui a irmã chata várias vezes com o Ryan e olha que ele tem só nove anos… — Kory riu de si mesma, balançando a cabeça. — Mas uma coisa é certa: se você quiser, eu posso, sim, ser sua tutora. À distância. Não posso voltar a ser uma Titã, pelo meu bem mental. Entretanto, podemos marcar aulas nos horários em que ambos estivermos disponíveis. O que acha?
Joey concordou, sorrindo, com os olhos brilhando.
— Vou estar aqui pra te ensinar tudo o que eu sei. Sempre. Ok?
Ele se inclinou para a frente e a envolveu em um abraço apertado.
— Obrigado.
Depois, com um gesto mais lento, sincero:
— Eu te amo, Kory.
[...]
Rose seguiu de bicicleta, balançando levemente de um lado para o outro, até chegar à praça principal de Gotham. Usava o cabelo preso em um coque alto e frouxo, maquiagem preta pesada que combinava com o vestido roxo e a meia-calça preta, além de piercings no septo e no lábio.
Assim que chegou, tirou os fones de ouvido, prendeu a bicicleta no bicicletário e conferiu a hora no celular.
Varreu a praça de ponta a ponta com o olhar até avistar um homem grande, de pele caucasiana, vestindo jaqueta preta e calça jeans escura. Ele usava um tapa-olho de couro marrom no olho direito, tinha barba e cavanhaque, e os cabelos grisalhos.
Rose suspirou fundo e se aproximou. Em uma mão, segurava o celular com o fone branco pendurado; no outro ombro, a bolsa com a alça frouxa.
Os dois estavam sentados em um banco da praça, no horário marcado.
— Que bom ver que você ainda é um homem de palavra — disse a adolescente assim que parou diante do banco onde ele estava sentado.
— Como você cresceu. Faz tanto tempo que não te via… confesso que fiquei surpreso. E, devo dizer, satisfeito com o contato. Sua mãe sabe disso?
— Poupa a falsa simpatia, por favor. — Rose suspirou, soprando a franja que tinha caído sobre o olho direito, e se sentou ao lado dele. Falando sempre olhando para frente, evitando cruzar seus olhares a todo custo. — Se eu te procurei, é porque o assunto é sério.
— Não me diga que a minha filhinha já arrumou um namorado. — Ele ergueu uma sobrancelha, com um meio sorriso. — Como o tempo voa… Vou pedir pro Wintergreen investigar a ficha corrida do sujeito.
— Não, Sr. Wilson. O assunto é sério mesmo.
— Hm. Pelo visto, puxou o senso de humor da sua mãe. — Ele cruzou os braços e soltou um suspiro curto. — Certo. O que foi que aconteceu?
— Meu irmão agora sabe de você — explicou Rose. — Do que você fez. Do que você se tornou. Ele não é tão esperto quanto eu, não descobriu sozinho. Tudo isso é culpa dos Titãs. Agora ele fez as malas, porque quer morar com aquelas pessoas. E eles sabem de você também. Foram eles que contaram. Eles sabem que você matou aquele heróizinho há alguns meses… um tal de Kid Flash.
— Acho que sei quem eles são — murmurou ele, dando uma tragada casual no cigarro. Só agora o cheiro azedo percebido pela adolescente, que torceu o nariz.
— Claro que sabe. Você sequestrou e quase matou um deles uma vez. Devia ter terminado o serviço. Que lástima!
— Acredite, aquele moleque é mais perigoso do que parece. Não o subestime. Mas agora eu conheço os truques dele…
— Então dá um jeito! A mamãe está desesperada. Chegou até a pedir para… uma amiga nossa tentar colocar juízo na cabeça dele, alguém em quem eles confiam, até fizemos um piquenique juntos uma vez, acho que ele até tem uma quedinha por ela, enfim… Mas eu não duvido nada que, quando eu voltar pra casa, ele já tenha ido embora. Ele é teimoso demais pra perceber que isso pode ser uma armadilha… que eles podem estar usando ele pra se vingar de você.
Slade ficou em silêncio. Rose riu, sem humor.
— Você destruiu nossas vidas. Quando você foi embora, quando o Grant foi assassinado e quando o Joey perdeu a fala… nós três tivemos que reconstruir tudo. Tivemos que recomeçar do zero. Minha mãe sofreu, lutou muito. E agora, quando finalmente estávamos felizes, os fantasmas do seu passado voltaram.
— Me desculpe.
— Desculpas nunca bastaram pra você. Os contra-tempos nunca bastaram. Você tinha que voltar pra essa cidade e machucar a gente de novo. Trazer mais problemas. E ainda por cima deixar que te descobrissem.
— O que você quer que eu faça?
— Eu quero a minha família chata e monótona de volta! E depois que você resolver as suas pendências, eu quero que você suma. Pra sempre. E nos deixe em paz. Prometa que vai fazer isso.
— Eu entendo.
Eles ficaram em silêncio. Slade fez menção de se levantar, mas Rose voltou a falar, pela primeira vez, o encarando nos olhos:
— A mamãe nunca contou a verdade pra gente. Porque, pra ela, um filho precisa acreditar em certas coisas sobre o pai para se tornar um bom homem… ou uma boa mulher. Ela preservou aquilo que a gente precisava acreditar sobre você.
— Obrigado.
— Ela não fez isso por você, porque você não merece, pai.
Rose se levantou.
— Essa é a sua chance de consertar as coisas. — Avisou, começando a recolocar os fones nos ouvidos. — É melhor você não vacilar de novo. Você não vai ter outra.
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